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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O guineense ,Carlos Lopes, destaca industrialização africana como prioridade

Secretário-executivo da Comissão Económica para África falou com a Rádio ONU em sua última semana no posto; Lopes citou ainda a introdução da ideia da industrialização verde.

Outubro é último mês do guineense Carlos Lopes como chefe da Comissão Económica para África, ECA. Ele foi nomeado para o posto em 2012 pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

De Adis Abeba, Lopes fez à Rádio ONU um breve balanço do período em que esteve à frente da Comissão.

Industrialização verde
"Quando eu iniciei as minhas funções nós demos uma prioridade absoluta ao que chamamos de transformação estrutural com a introdução da política industrial como prioridade para o continente, mobilização de recursos domésticos através de um ataque cerrado às formas de tráfico ilícito de capitais, mas também, melhores negociações com as matérias-primas, com a exploração de extractivos e também uma tentativa de introduzir no debate africano uma outra forma de ver as questões meio ambientais, posicionando-as como prioridades ao invés de problemas."

Em relação às mudanças climáticas, Lopes citou a introdução da ideia da industrialização verde, "como uma forma dos africanos tirarem partido do conjunto de medidas que estão a ser tomadas nessa área".

Futuro do continente
Ele falou ainda sobre suas expectativas para o continente nos próximos anos.

"Eu acho que a África está neste momento posicionada para entrar numa revolução industrial por causa do alto dos preços de mão-de-obra na Ásia do Sudeste, por causa do fato de que cada vez mais as políticas industriais fazem parte, digamos, do centro dos debates no continente, mas também porque a capacidade de atrair investimentos está a aumentar consideravelmente. Este ano é um ano relativamente mau em termos de performance económica do continente e, no entanto, a evidência para o fluxo de capitais em direcção ao continente não diminuiu."

Para Carlos Lopes, existe uma ideia de que "as megas tendências são favoráveis a África" por causa da demografia, do urbanismo e também por saltos tecnológicos.

Na entrevista, ele falou ainda sobre seus planos. Lopes disse que vai trabalhar em "vários domínios académicos" e vai ajudar na reforma da União Africana a pedido do presidente Paul Kagame, do Ruanda, além de continuar ligado ao debate sobre "como a agenda africana pode ser desenvolvida em torno das políticas de industrialização". Ouvir aqui»

sábado, 5 de setembro de 2015

"Migração faz parte da história da humanidade"


Por, Carlos Lopes, chefe da Comissão Econômica da ONU para a África
no dw ontem

Coragem dos exploradores europeus que emigraram no passado é a mesma dos africanos que hoje se arriscam na tentativa de chegar à Europa, opina Carlos Lopes, chefe da Comissão Econômica da ONU para a África.

Desde o início deste ano, uma enxurrada de imagens da ilha italiana de Lampedusa, da cidade francesa de Calais – de onde parte o Eurotúnel –, de Bodrum, na Turquia, das ilhas do leste da Grécia ou dos enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla, no Marrocos, tomam conta das telas de TV e meios de comunicação.

Essas imagens retratam a tentativa de almas desesperadas de chegar aos países europeus. O comissário da União Europeia (UE) responsável pelo tema migração declarou neste mês que esta é a pior crise migratória desde a Segunda Guerra. Será mesmo? Talvez na Europa Ocidental isso seja percebido dessa forma, mas não é. É importante entender o porquê.

As migrações fazem parte da história da humanidade desde o tempo em que os primatas mais evoluídos começaram a sair da região de Rift Valley, na África. A história da humanidade é tão rica e complexa que temos dificuldades em estabelecer uma relação com uma origem comum muito remota – exceto para análises históricas e declarações filosóficas. É mais fácil para todos fazer uma conexão com um passado mais recente, aquele que moldou nossas identidades através de acontecimentos e interações sociais.

Os seres humanos fazem uma leitura seletiva da história. Para a maioria, a reparação é justificada por algo errado feito a alguns, mas não a outros. Desculpas são boas para alguns, mas não para outros. Propostas de paz são moralmente aceitas para alguns, mas não para outros. No fim das contas, este é um comportamento individual reproduzido em larga escala.

A maioria dos italianos se esqueceu de que foram eles que criaram nações inteiras, como Argentina e Uruguai. Britânicos, espanhóis e portugueses não relacionam necessariamente Austrália, Nova Zelândia e América do Sul aos efeitos de sua migração. Quando se referem à Indochina, os chineses devem ter apenas uma vaga ideia do motivo por que a região tem esse nome. Os americanos também sentirão um gosto amargo se for mencionado que parte dos atuais Estados Unidos foi comprado do México. A lista é longa.

No entanto, na história recente, um continente ainda não foi associado com migração para colonizar ou lucrar através da riqueza de outras regiões: a África. A África é mais conhecida por sofrer com a escravidão, pilhagem dos seus recursos naturais e tratamento internacional injusto.

A África tem lutado mais do que a maioria das regiões para encontrar uma forma de sair da pobreza. E as coisas estão melhores ultimamente, desde a virada do século, na realidade, com o país registrando índices de crescimento acima da média global e dos países desenvolvidos. Ainda assim, a narrativa sobre o continente parece ainda se fixar na migração e em análises negativas sobre a sua performance. É por isso que é importante entender primeiro por que existe a percepção de que a África nunca gerou tantos migrantes como hoje.

Os países africanos recebem muito mais migrantes que o continente exporta para as outras regiões do mundo. A verdade é que a maioria dos africanos que busca novas oportunidades fora do próprio país vai para outro país africano. Por ano, menos de 2 milhões buscam um destino fora do continente, o que é um número muito pequeno em relação ao contingente de migrantes, particularmente na Europa. Das 250 mil pessoas que tentaram entrar no continente europeu pela rota do Mediterrâneo neste ano, a grande maioria é síria – cerca de 50 mil. Trata-se apenas de uma fração dos 3 milhões de sírios instalados no Líbano. Paquistaneses, afegãos, iemenitas e outros cidadãos não africanos também usam a rota do Mediterrâneo.

O fator de atração da Europa deve ser entendido através de uma variedade de desenvolvimentos – desde o acesso à informação (6 bilhões de telefones celulares no mundo), proclamação dos direitos humanos, apelo por valores morais universais até a distribuição desigual de renda e desigualdade pelo mundo. Terrorismo e extremismo religioso também são um fator. Parece que a forte luta europeia por direitos teve um efeito negativo para o continente.

Focos de guerras como a Líbia e áreas desérticas ao redor, os Grandes Lagos [Africanos] e suas imediações e a Somália estão gerando requerentes de asilo político e também um número massivo de refugiados. Regimes africanos repressivos também contribuem. A reserva mostrada por líderes africanos em relação à migração é perturbadora, mas ainda não revela toda a realidade.

Em todos os momentos da história, o crescimento gerou emigração. Isso está acontecendo neste momento com chineses e indianos e também na África. O crescimento amplia as chances de uma nova vida, mas sua distribuição – particularmente nos primeiros estágios da ascensão de um país – é irregular e imprevisível. Aqueles que veem seus vizinhos com os meios e a esperança que eles não têm, partem. Seria um absurdo propor o bombardeio das embarcações em direção à América do Sul, lotadas de migrantes desafortunados após a Segunda Guerra. Esses migrantes estavam buscando uma vida melhor, ainda que seus países estivessem crescendo como nunca, em grande parte graças ao Plano Marshall.

Os africanos que morrem no deserto ou no mar não aceitam seus destinos e estão dispostos a arriscar a própria vida. A população jovem enxerga os países desenvolvidos da Europa como o sinal de esperança mais próximo. Para eles, trata-se da casa dos direitos humanos, que vai certamente entender o seu drama e lhes receber para trabalhar de braços abertos.

A juventude africana vai continuar crescendo quando o resto do mundo estiver envelhecendo. A dificuldade de admitir que o atual bem-estar social em todos os países em envelhecimento é insustentável tem resultado nas mais bizarras propostas de políticas econômicas.

Aceitar que existe um desafio demográfico implicaria uma vasta revisão de escolhas políticas e sociais para sustentar a economia. Enquanto todos nós testemunhamos os limites de transferência de valores da produção e trabalho para conhecimento e controle financeiro, também estamos enxergando os limites do modelo econômico dominante.

Um equilíbrio demográfico ainda é essencial, apesar do progresso tecnológico e dos aumentos de produtividade. Segurança social ou fundos de pensão não podem contar com robôs. Eles precisam de pessoas e trabalhadores produtivos. Por isso, a Europa vai ter que assumir que precisa de migrantes, como muitas vezes foi reconhecido pela Comissão Europeia.

As cerca de 2 mil mortes de que se tem conhecimento no Mediterrâneo são um trágico alerta. Até 2050, a população da África vai dobrar. Mesmo se crescer no mesmo ritmo ou ainda mais rápido que agora, o continente deve gerar um fluxo muito maior de jovens procurando oportunidades na Europa em processo de envelhecimento.


A coragem extraordinária dos exploradores europeus, que desbravaram mares e regiões desconhecidas com ferramentas científicas escassas para sua orientação e sobrevivência, já foi reconhecida. Trata-se de um exemplo incrível de determinação humana. Essa mesma coragem é mostrada hoje pelos migrantes com destino à Europa. Será que chegou a hora da compensação?

Nota: Os artigos assinados por amigos, colaboradores ou outros não vinculam a IBD, necessariamente, às opiniões neles expressas.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Entrevista com o representante da Comissão Económica das Nações Unidas para África, Carlos Lopes

Durante encontro em São Paulo, Lopes faz um balanço da situação económica do continente africano.

Dos 20 países que mais crescem no mundo, 10 estão na África. Em 2015, o continente (que tem menos habitantes do que a China) terá o mesmo nível de crescimento do gigante asiático. Esses números, citados pelo representante da Comissão Econômica das Nações Unidas para África, Carlos Lopes, se apresentam no atual contexto do continente africano sinalizando avanços, mas também a necessidade de um crescimento de qualidade.

“Os africanos estão tomando consciência de que precisam de uma estratégia de desenvolvimento industrial e de que só vão conseguir implementar essa estratégia com o controle do seu financiamento. Isso significa que os governos devem ter uma capacidade, uma sofisticação maior em relação aos seus recursos próprios e, nesse sentido, há vários elementos em processo de mudança”, contou, em entrevista exclusiva ao Centro de Informação das Nações Unidas para Brasil (UNIC Rio de Janeiro), Lopes, secretário-executivo da Comissão Econômica das Nações Unidas para África (CEA).

Dentre esses elementos, Carlos lista a forma como os bancos centrais vem gerindo suas reservas, a introdução de medidas que permitam melhor utilização de remessas de migrantes – responsáveis pelo movimento de 62 bilhões de dólares por ano – e o aumento da quantidade de investimento estrangeiro por meio de incentivos de várias naturezas. Mas o ponto-chave para ele é a reformulação dos regimes fiscais, que ainda impedem um maior avanço da África.

“O primeiro grande problema é que os africanos dependem muito das taxas aduaneiras, mas a gestão das taxas é muito ineficiente. No geral, aquilo que é declarado na saída da África e o que é declarado em outros países de destino é muito diferente. Existe uma enorme desproporção. Todo esse dinheiro perdido poderia ser recuperado, com melhores taxas aduaneiras”, ressaltou o secretário-executivo, que nesta quinta-feira (23), em São Paulo, durante a palestra Desafios para a África no século XXI, no lançamento do Conselho África do Instituto Lula.

Além das taxas, acredita Lopes, outro obstáculo a ser superado é o da pressão fiscal sobre as atividades econômicas, que, na África, está entre as mais baixas do planeta. Ele chama atenção para o problema que fica ainda mais sério porque, à medida que as economias africanas vêm crescendo, a fiscalização não cresce na mesma proporção. Desta forma, o que acontece é que as pessoas estão pagando menos impostos em vez de pagarem mais.

“Esse cenário de descompasso é moldado por três principais fatores. Em primeiro lugar, há um problema de capacidade, das competências dos países africanos para fazer a esse controle fiscal. Poucos como a África do Sul, por exemplo, tem um sistema elaborado, para esse serviço. O segundo ponto seria a precariedade na negociação, já que há pouca tradição de elaborar contratos entre os africanos, o que acaba resumindo as diferentes atividades à compra e venda”, disse Lopes, completando que, para fechar o trio desafiador, ainda existe a corrupção que tira pelo menos 50 bilhões de dólares do continente todos os anos.

No último ano, uma epidemia ameaçou balançar as bases da economia africana. Há sete meses, quando o ébola atingiu em cheio a Guiné-Conacri, Libéria e Serra Leoa, uma onda de pessimismo tomou as páginas dos jornais de todo o mundo. Há poucos meses, as previsões de afetados pelo ébola eram devastadoras e o impacto na economia da região também parecia ser avassalador.

As previsões chegaram a citar 1 milhão de afetados, mas na verdade, o número de vítimas foi de 26 mil (com cerca de 10 mil mortes), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A desproporção também pode ser abordada na economia, que especulava uma perda de 32 bilhões de dólares até o final de 2015 para a região afetada, de acordo com o Banco Mundial. Na verdade, a perda chegou a 3,6 bilhões de dólares.

“Por conta do ébola, criou-se uma impressão de desespero, de que os impactos seriam gigantescos. Hoje, passados sete meses, chegamos à conclusão de que foi um exagero”.

Em busca do crescimento qualificado

No seu trabalho à frente da Comissão, Lopes conta que o objetivo não é levar a agenda da ONU para a África, mas levar a África para a agenda da ONU. Nesse caminho, foi estabelecida a Agenda 2063, um plano de 50 anos para o desenvolvimento da África, que pode ser considerado um chamado de ação para todos os segmentos da sociedade africana com o propósito de construir uma África próspera e unida.

“Continuaremos no caminho para uma industrialização tardia, que precisa ser diferente daquela que conhecemos. Temos a divida mais baixa de todos os continentes e uma inflação abaixo dos 7%, mas por que não se fala sobre isso no mundo? Porque o pessimismo que envolve a África é maior do que a realidade do continente”, ressaltou, lembrando que dos 1,1 bilhão de habitantes, apenas 100 milhões de africanos são atingidos por conflitos em todo o continente. Esse número é metade dos 200 milhões atingidos na Ásia, atualmente.

Para concretizar esse objetivo, o representante da ONU fala sobre um formato autêntico de crescimento que se daria por uma transformação. Negociando com países de diferentes partes do mundo, principalmente fora da Europa, o continente africano, que em 2050 deverá alcançar os 2 bilhões de habitantes, tem hoje o direito de escolha, diferentemente do passado, quando seus parceiros eram restritos aos antigos colonizadores.


“Isso significa que estamos querendo o aumento da produtividade agrícola, o aumento da industrialização, a transformação da economia informal em formal, uma economia legal! Se fizermos essas coisas, teremos um crescimento com qualidade.” Com as nacoesunidas

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Guineense Carlos Lopes, objectiva em agitar consciências


Na passada sexta-feira, o secretário-geral adjunto da ONU, o guineense Carlos Lopes, falou pouco mais de meia hora no II Fórum Nacional de Transformação e provocou um sismo cujas ondas de choque ainda hoje se sentem em Cabo Verde. 

Apontou as três questões que considera fracturantes para o arquipélago: uma democracia polarizada e lenta a tomar decisões, um excesso de tradição jurídica e os perigos da descentralização desmedida. Desconstruiu os pólos de desenvolvimento: cluster do mar a competir com grandes investimentos na costa africana, hub aéreo com oportunidades perdidas, praça financeira dependente dos bancos portugueses “e preguiçosos” porque preferem a segurança do investimento em títulos do tesouro à capitalização do sector privado. E criticou a excessiva “ancoragem” a uma Europa em crise, encorajando uma viragem “pragmática” para África. Nesse mesmo dia, Carlos Lopes deu uma entrevista ao Expresso das Ilhas – igualmente meia hora, desta vez marcada ao segundo porque a agenda era apertada – onde abordou alguns destes temas, mas onde também se falou de economia, de África e do futuro do continente.

Expresso das Ilhas – Na sua apresentação referiu três questões fracturantes que dizem respeito a Cabo Verde: o custo da democracia, a justiça e a descentralização. No fundo, o que é preciso fazer em relação a todos estes temas?

Carlos Lopes – Uma das atitudes fracturantes que identifiquei foi o facto do custo da democracia não permitir que Cabo Verde tire partido da rapidez necessária para o processo de decisão, e quando vemos os países concorrentes de Cabo Verde movimentarem-se com uma grande velocidade isso tem a ver também com o facto de eles poderem tomar decisões muito rápidas, porque têm liderança para isso e não têm de passar por processos muito complexos de decisão. No caso de Cabo Verde, o que eu quis demonstrar é que temos de evoluir de uma situação de democracia competitiva para uma democracia mais consensual. Não quer dizer que se apaguem as diferenças, mas é necessário identificar alguns objectivos de natureza nacional, que estão acima do jogo partidário directo, e que permitem que o país tenha as escolhas estratégicas claras. Claro que isso requer um processo de socialização e de consensualização. Em relação às questões de foro jurídico, identifiquei que a tradição jurídica de Cabo Verde, muito latina e portuguesa, pode levar a custos insuportáveis. Vemos isso no Brasil, onde os vários poderes independentes imiscuem-se no poder um do outro – o legislativo fazendo um pouco do judiciário, o judiciário fazendo um pouco de segunda câmara para o legislativo e o político no meio dos dois – e isso bloqueia a máquina. Eu dei como exemplo que um bairro de Lagos [Nigéria] tem mais população do que as ilhas todas de Cabo Verde, e um bairro de Lagos com cem magistrados seria uma risada, mas é o que existe em Cabo Verde. E é só o princípio, porque cada vez mais o jogo político, por estar polarizado, vai ver qualquer interferência na expansão da independência dos juízes e do sector judiciário como uma interferência e não havendo um tecto, a independência vai ser sempre uma agregação de custos, e isso é insuportável. E o terceiro elemento é a descentralização exagerada. Claro que há insularidade e as ilhas, de uma certa forma, têm uma identidade, mas elas viveram durante séculos sem que essa descentralização fosse tão densa e agora há apelos para que ela se densifique ainda mais. Isto comporta custos que o país não pode ter, por isso propus um pacto de responsabilidade fiscal para Cabo Verde, onde há tectos para tudo isto e, para além dos tectos, é preciso haver ganhos de eficiência, mas comecemos pelos tectos.

Mas, e pegando na justiça e na descentralização, apesar de considerar um exagero o número de magistrados, a verdade é que a lentidão da justiça é um dos problemas do arquipélago. Por outro lado, as ilhas do Barlavento pedem agilização de tomada de decisões e dizem que não podem estar à espera de uma resposta da Praia que muitas vezes demora mais de um mês.

Eu penso que isso é a identificação do problema, mas a solução não é o que se está a fazer. Há um bom diagnóstico com uma má solução. O diagnóstico é que a justiça precisa de ser agilizada e sofisticada e com a experiência de Cabo Verde em relação às novas tecnologias na administração era de esperar que a justiça fosse muito mais electrónica nos seus processos e não é isso que acontece, por excessivo formalismo é uma justiça muito notarial e isso precisa de mudar. O mesmo princípio se aplica à agilização das decisões para as outras ilhas.

Na sua intervenção chamou ainda a atenção para as mudanças demográficas que Cabo Verde vai enfrentar. Acha que ainda não há uma preocupação particular com essa alteração?

Parece-me que será uma das grandes áreas de turbulência se os cidadãos, e os dirigentes têm uma grande responsabilidade nisso, não forem preparados para assumir uma realidade demográfica muito diferente da actual, e que já está à porta: decréscimo da população jovem – que vai ter incidência na segurança social – o problema da imigração, a necessidade de cosmopolitismo em todos os pólos identificados como estratégicos – e que não são compatíveis com uma relação muito introspectiva desses clusters – a falta de integração da diáspora no processo produtivo – para haver um ganho de talentos e de investimento – e a concorrência em relação aos países vizinhos, que estão já a tratar destas questões. Portanto, há aqui mudanças brutais.

Por falar em concorrência. Apontou África como sendo o caminho do futuro, mas também há várias questões que se põem. Uma delas é que há várias áfricas no continente. Cabo Verde, que é uma democracia estável e elogiada, conseguirá estabelecer canais com, por exemplo, uma CEDEAO onde vários países têm estádios diferentes de democracia?

Cabo Verde não vai aproximar-se de África por causa da democracia. Tem de ser pragmático. A relação com a África, para além das questões históricas que são objecto de grande debate em Cabo Verde, e eu nem quero ir por essa via, embora ache que alguns desses debates são perenes na sociedade cabo-verdiana e denotam ainda problemas mal resolvidos de identidade, mas não quero entrar por aí, quero ir pelo caminho do pragmatismo que Cabo Verde já demonstrou. Os cabo-verdianos gostam do seu país, querem muito para o seu país, investiram muito no seu país, e podem deitar tudo a perder se, pragmaticamente, não fizerem uma escolha africana de ancoragem. É uma questão prática e como tal tem de ser muito focada, não pode ser apenas um slogan, tem de se ver pólo a pólo o que é que Cabo Verde tem que fazer para conseguir essa ancoragem, seja no hub aéreo, no cluster do mar, na praça financeira, etc., e para cada um deles tem de ter uma estratégia muito pragmática de ancoragem dos processos africanos. Não se vai passar um certificado de bom ou mau comportamento a cada país africano, Cabo Verde não tem, nem nunca teve, essa pretensão em relação aos seus parceiros e não é agora que vai começar. Portanto, trata-se de ser pragmático. Como Cabo Verde o foi em relação à ajuda ao desenvolvimento, no passado, agora precisa de o ser em relação às possibilidades de investimento.

Ao mesmo tempo, descontruiu todos esses pólos de desenvolvimento na sua intervenção. A Dubai Ports, como referiu, está neste momento a dominar a costa africana [só em Dakar investiu sete vezes mais que Cabo Verde em todo o seu cluster do mar]. Afinal, quais são as hipóteses de Cabo Verde?

Para cada um destes elementos o que eu quis chamar a atenção foi que Cabo Verde precisa de fazer mais para se integrar nos debates africanos e nas oportunidades africanas. Não pode falar dos seus diferentes clusters como se fossem extensões dos interesses europeus, era essa a minha mensagem. Porque, para a própria Europa só interessa Cabo Verde se for em relação a África. Não estando integrado nestes grandes debates, o país perde oportunidades. É claro que eu tinha de fazer efeito, despertar consciências, mas acredito em Cabo Verde e penso que é possível dar a volta.

Aproveitando, na mesma, todas estas oportunidades?

Sim. Mas, tem que se agir de uma forma diferente.

Aprender a falar a linguagem africana?

Falar a linguagem africana e, sobretudo, integrar os debates africanos. Sobre a criação de uma zona comercial intra-africana, sobre o programa de infra-estruturas do continente, todos esses grandes mecanismos sobre África e as suas opções económicas precisam de mais presença cabo-verdiana.

Como analisa, por exemplo, a possibilidade da moeda única africana?

Os países da zona CFA já têm uma moeda única. Cabo Verde está fora dessa zona, mas tem as mesmas características porque a zona CFA está ancorada no euro, assim como o escudo cabo-verdiano. Os outros países que estão fora, felizmente, são os países que mais crescem na costa ocidental: Nigéria, Gana, Serra Leoa. Portanto, há muitas vantagens em criar uma moeda única porque potencia o mercado africano. O que foi decidido recentemente, os critérios de convergência, servirá para que todos cheguem a um determinado número de parâmetros, que permitirão a integração. É muito parecido com o modelo da convergência do euro, portanto, acho que é factível e para Cabo Verde é desejável e abre grandes perspectivas.

De qualquer maneira é preciso ter atenção às falhas do modelo europeu.

As falhas que existem no modelo europeu são a inexistência de uma regulação bancária comum e de uma política fiscal comum. Eu acho que se exagerou quando se apontaram esses dois factores como as razões da crise europeia. Não foram esses dois factores que criaram ou que podem resolver a crise. A verdadeira razão da crise é a quebra do sistema bancário europeu e a tentativa de recapitalização desse sistema bancário passando os custos sociais às populações. E isso vê-se também pelo facto de os países que estiveram em crise estarem a sair dela oficialmente, mas com uma dívida pública maior do que a que tinham quando entraram. Portanto, a razão principal foi mais a falta de interesse político para disciplinar o sector financeiro, que se transformou numa espécie de governador-geral das economias. África está muito longe desse tipo de quadro.

Ainda falando de África, disse que 2/3 do crescimento do continente baseia-se no consumo interno, por outro lado, quase metade da população [48 por cento] ainda se encontra em situação de pobreza extrema, esta desigualdade poderá pôr um travão ao desenvolvimento?

A questão da desigualdade é muito importante, tanto mais que essa desigualdade tem aumentado no continente. Apesar de haver uma classe média que se alarga, os super-ricos estão cada vez mais ricos e os super-pobres estão cada vez mais pobres. Na realidade, a pobreza em África é menos importante do que a pobreza na Índia, mas os pobres africanos são muito pobres, apesar de serem em menor número. E este é um problema que obriga a que os processos de transformação estrutural sejam muito baseados nas políticas de inclusão, sobretudo de criação de emprego. Para África, em geral, falamos em industrialização, para Cabo Verde é menos a industrialização e mais a potencialização da geração de emprego nos serviços. Eu tenho medo, porque têm havido ganhos de produtividade muito bons na agricultura cabo-verdiana e têm havido ganhos de produtividade no turismo, mas nesses ganhos de produtividade há menos gente necessária e isso cria mais desemprego, a não ser que se tenha outras actividades ou que se acrescente o volume de actividade económica, o que não é o caso. Daí o desafio de estarmos no fim de um determinado modelo e de Cabo Verde precisar de passar para a velocidade seguinte.

Cabo Verde está neste momento com um desemprego de 16 por cento, maioritariamente jovem, e muitos analistas têm dito isso: que o crescimento da economia africana não está a ter reflexos na criação de emprego, como se explica isso?

É fácil explicar: não é um crescimento com qualidade. É um crescimento muito baseado no consumo interno, no boom dos preços das commodities e da maior procura desses produtos e é baseado, parcialmente, numa melhor gestão macroeconómica. Não é uma transformação estrutural, é um crescimento, e o que nós estamos a dizer é que é preciso uma transformação estrutural, passar das actividades de baixo valor produtivo para as actividades de alto valor produtivo e, no caso de África, isso tem de passar pela industrialização. Há muitos factores que contribuem para uma industrialização da África e só quando isso acontecer é que haverá geração de emprego. Por exemplo, um país como a Tunísia, que estava muito bem em todos os seus indicadores macro, mas não apostou na industrialização, não criou emprego entre os jovens e desencadeou todas as ondas de contestação.

E no caso de Cabo Verde?

No caso de Cabo Verde, as actividades que podem gerar mais emprego são as que necessitam do dinamismo dos diferentes pólos identificados – mar, ar, etc. – mas, devido às características dessas mesmas áreas, não é possível fazê-lo fechando o emprego aos cabo-verdianos, tem de ser cosmopolita. Daí haver aqui um momento da verdade, que vai obrigar a olhar para os outros de forma diferente.

No fórum de 2003 já tinham sido debatidas muitas destas questões. Chegámos a 2014 e continuamos a debatê-las. Não se corre o risco de voltar a debatê-las em 2030?

Eu acho que em relação a 2003 houve progressos que foram alcançados graças ao fórum, não totalmente, mas em parte. Houve escolhas estratégicas nacionais que posicionaram Cabo Verde onde está. Só que agora estamos numa outra etapa, passou 2008 e 2009, houve a crise, a ancoragem à Europa fazia sentido naquela altura, agora não é mais o caso, e os próprios factores contextuais mudaram completamente. A África de 2003 tinha metade do PIB que tem hoje, tinha taxas de crescimento que começavam a florescer, mas era tudo parco e instável, e hoje em dia é tudo totalmente diferente. Cabo Verde não pode ficar parado no tempo, estamos a entrar numa nova fase. Pode-se perder o capital investido, essa é a minha mensagem. É necessária uma decisão rápida em todos os elementos fracturantes que identifiquei.

Uma das palavras-chave, e actualmente na moda, para África é ‘boldness’ [audácia]. Até onde pode/deve ir essa audácia, tanto mais que é necessária também uma abertura aos mercados externos, porque sem isso não há crescimento.

A audácia africana tem a ver fundamentalmente com a negociação com as parcerias. Isso é muito bom porque África estava a ser vítima quase de um roubo das suas matérias-primas e tem de renegociar os contractos. Começa-se a pôr em causa contractos que estavam assinados há muito tempo. Isso tem a ver com a chegada de novos parceiros, com o facto do investimento externo ser superior à ajuda ao desenvolvimento, com o facto de África ser procurada pelos fundos de investimento privados, com o facto de África poder aceder directamente aos mercados. Enfim, as condições mudaram. E tem a ver também com o facto dos exercícios estatísticos começarem a mostrar que as contas nacionais estavam subestimadas e que as economias africanas são muito maiores do que se pensava.

Concorda com os que defendem que a ajuda externa estava a prejudicar o continente?

Não, não vou a esse extremo. Mas, acho que estagnou muitas áreas, como a agricultura. Se o dinheiro todo posto na agricultura permitisse uma agricultura produtiva estaríamos hoje numa situação muito diferente em termos de pobreza. Toda essa ajuda foi para a segurança alimentar e estagnou a evolução da capacidade produtiva.

Houve mesmo quem falasse na gestão da pobreza…

Sim, em gerir a pobreza em vez de a matar.

Últimas questões. Que visão tem para o futuro da economia africana?

A economia africana tem perspectivas muito favoráveis porque as megatendências são favoráveis ao continente. Ao contrário do que se diz, o boom dos preços das matérias-primas não está para desaparecer e o seu principal novo cliente – a China – acaba de aumentar consideravelmente as suas propostas de investimento no continente, ao contrário também do que se imaginava. O segundo ponto favorável é o crescimento da população, maioritariamente jovem, e da classe média, o que faz com que as tendências demográficas sejam favoráveis ao continente numa altura em que os outros estão a envelhecer, ou seja, muita da produção industrial terá de ser relocalizada e uma parte virá para África. O terceiro factor é a maior possibilidade de investir no mercado africano, e se a integração regional for bem sucedida, e há agora movimentos muito fortes nessa direcção, cria a possibilidade de grandes mercados.

Há também o outro lado: a instabilidade continua no continente.

A instabilidade africana não é pior do que a instabilidade de outros continentes, nomeadamente a Ásia, mas é exagerada em relação a esses outros continentes. Não quer dizer que não exista, mas o número de pessoas afectadas por conflitos em África é cerca de 100 milhões, numa população de um bilião. É preciso também ver a fotografia completa. E quando pensamos que a Europa há 60 anos estava envolvida numa guerra mundial, não é muito estranho pensar que a África esteja ainda a resolver problemas de conflitos, de identidade, de gestão de diversidade, etc., porque esses eram exactamente as razões que levaram às guerras mundiais. É preciso pôr as coisas em contexto, porque esses problemas também existem em muitos países da Ásia, com incidência muito superior ao da África, sem que isso se reconheça.

E que papel poderão ter os PALOP?

Todos, com excepção da Guiné-Bissau, estão muito bem na fotografia: crescimento económico, indicadores sociais, progresso. E as novas descobertas, principalmente extractivas, criam boas perspectivas. A Guiné-Bissau, a menor economia do continente, cada vez mingua mais porque ainda não saiu do seu ciclo de conflitos de baixa intensidade, é preciso dizer que são de baixa intensidade, mas que têm estes efeitos perniciosos de, por um lado, não deixarem o país evoluir e, por outro, não serem suficientemente grandes para atrair a atenção do resto do mundo.

Nem estas últimas eleições o deixam mais optimista?

Eu sou um eterno optimista e espero que as coisas se resolvam, mas continuo convencido que essa resolução passa por uma reforma do sector de segurança, que ainda não aconteceu.

terça-feira, 15 de abril de 2014

África tem um problema de marketing e imagem por resolver


Secretário executivo da Comissão Económica para África, Carlos Lopes, defende que perceção seria diferente com maior conhecimento do que se passa em outras regiões do globo.

O secretário executivo da Comissão Económica para África, ECA, disse que a imagem do continente é afetada pelo facto de os seus conflitos não serem geridos completamente pela região.

Em entrevista exclusiva à Rádio ONU, Carlos Lopes mencionou situações que, segundo ele, ilustram o que chamou preço alto pago pelo continente por algumas das suas dificuldades.

Possibilidades
Lopes traçou um paralelo entre vários conflitos no continente africano e questões asiáticas, as quais afirmou não afetam a perceção das possibilidades dessas áreas.

"O que se passa atualmente na República Centro-Africana não é muito diferente do que se passa em Mianmar com a minoria Rohingya. O que se passa em conflitos de baixa intensidade, mas de longa duração como na Guiné-Bissau ou no Mali, não é muito diferente do que se passa na província de Shaba na Malásia, Iranjaya na Indonésia ou Mindanao nas Filipinas. O número de mortos nesses conflitos é maior do que na África."

Intensidade
Para ele, a perceção seria diferente caso houvesse melhor conhecimento do que se passa em outras regiões do mundo "ou pelo menos se as análises fossem do mesmo tipo."

"Para cada um dos exemplos africanos há um equivalente asiático pior. Há 100 milhões de africanos afetados por áreas de conflito. Só na Índia, por causa dos conflitos dos naxalites e de Caxemira, há 200 milhões, mas ninguém diz que a índia não é uma potência emergente. O número de pessoas mortas em todos os conflitos do Sudão é menos do que o número de homicídios no estado do Rio de Janeiro. Nós temos que ver as coisas numa certa perspetiva e os africanos têm um problema de imagem, de branding que têm a ver com o facto de os seus conflitos não serem completamente geridos por africanos e terem muita intervenção internacional.”

O também subsecretário-geral das Nações Unidas falou à margem do lançamento de um informe que define a industrialização como pré-condição para um crescimento inclusivo e económico sustentado.