Amílcar Lopes Cabral (Bafatá,
Guiné-Bissau, 12 de Setembro de 1924 — Conacri, 20 de Janeiro de 1973) foi um
político, agrónomo e teórico marxista da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.
Filho de Juvenal Lopes Cabral (cabo-verdiano)
e de Iva Pinhel Évora (guineense de ascendência cabo-verdiana), aos oito anos
de idade, sua família mudou-se para Cabo Verde, estabelecendo-se em Santa
Catarina (ilha de Santiago), que passou a ser a cidade de sua infância, onde
completou o ensino primário. De seguida mudou com a mãe os irmãos para Mindelo,
São Vicente, onde veio a terminar o curso liceal em 1943. Como apontado por
Patrícia Villen, sua adolescência remete a um período de intensa seca e fome na
ilha, no ano 40, por exemplo, essa crise provocou a morte de 50 mil pessoas,
além da imigração em massa de cabo-verdianos. No ano seguinte, mudou-se para a
cidade de Praia, na Ilha de Santiago, e começou a trabalhar na Imprensa
Nacional, mas só por um ano pois, tendo conseguido uma bolsa de estudos, no ano
de 1945 ingressou no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Único
estudante negro de sua turma, Cabral logo se envolve em reuniões de grupos
antifascistas e, ao lado de outros alunos vindos da África, tais como Mário de
Andrade, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos "conhece vectores culturais
da reafricanização dos espíritos do movimento da negritude dirigido por Léopold
Sédar Senghor". Após graduar-se em 1950, trabalhou por dois anos na
Estação Agronómica de Santarém.
Contratado pelo Ministério do Ultramar
como adjunto dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné, regressou a Bissau
em 1952. Iniciou seu trabalho na granja experimental de Pessube percorrendo
grande parte do país, de porta em porta, durante o Recenseamento Agrícola de
1953 adquirindo um conhecimento profundo da realidade social vigente. Suas actividades
políticas, como a criação da primeira a Associação Esportiva, Recreativa e
Cultural da Guiné, aberta tanto aos "assimilados" quanto aos
indígenas, reservam-lhe a antipatia do Governador da colónia, Melo e Alvim, que
o obriga a emigrar para Angola. Nesse país, une-se ao MPLA.
EM 1955 Cabral participa da Conferência
de Bandung e toma conhecimento da questão afro-asiática. Em 1959 juntamente com
Aristides Pereira, seu irmão Luís Cabral, Fernando Fortes, Júlio de Almeida e
Elisée Turpin, funda o partido clandestino Partido Africano para a
Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). Em 3 de agosto de 1959, o partido
teve participação na greve de trabalhadores do porto de Pidjiguiti, fortemente
reprimida pelo governo colonial, resultando na morte de 50 manifestantes e no
ferimento de outras centenas. Quatro anos mais tarde, o PAIGC sai da
clandestinidade ao estabelecer uma delegação na cidade de Conacri, capital da
República de Guiné-Conacri. Em 23 de Janeiro de 1963 tem início a luta armada
contra a metrópole colonialista, com o ataque ao quartel de Tite, no sul da
Guiné-Bissau, a partir de bases na Guiné-Conacri.
Em 1970, Amílcar Cabral, fazendo-se
acompanhar de Agostinho Neto e Marcelino dos Santos, é recebido pelo Papa Paulo
VI em audiência privada. Em 21 de Novembro do mesmo ano, o Governador português
da Guiné-Bissau determina o início da Operação Mar Verde, com a finalidade de
capturar ou mesmo eliminar os líderes do PAIGC, então aquartelados em Conacri.
A operação não teve sucesso.
Em 20 de Janeiro de 1973, Amílcar Cabral
é assassinado em Conacri, por dois membros de seu próprio partido. Amílcar
Cabral profetizara seu fim, ao afirmar: "Se alguém me há-de fazer mal, é
quem está aqui entre nós. Ninguém mais pode estragar o PAIGC, só nós
próprios." Aristides Pereira, substituiu-o na chefia do PAIGC. Após a
morte de Cabral a luta armada se intensifica e a independência de Guiné-Bissau
é proclamada unilateralmente em 24 de Setembro de 1973. Seu meio-irmão, Luís de
Almeida Cabral, é nomeado o primeiro presidente do país.
"Perguntar-nos-ão se o colonialismo
português não teve uma ação positiva na África. A justiça é sempre relativa.
Para os africanos, que durante cinco séculos se opuseram à dominação colonial
portuguesa, o colonialismo português é o inferno; e onde reina o mal, não há
lugar para o bem". Amílcar Cabral. A arma da teoria.
"O nosso povo africano sabe muito
bem que a serpente pode mudar de pele, mas é sempre uma serpente". Amílcar
Cabral. Um povo que se liberta.
"Como sabe, nós temos uma longa
caminhada juntamente com o povo português. Não foi decidido por nós, não foi
decidido pelo povo português, foi decidido pelas circunstâncias históricas do
tempo da Europa das Descobertas e pela classe de "antanho", como se
diz em português antigo; mas é verdade, é isso! Há essa realidade concreta! Eu
estou aqui falando português, como qualquer outro português, e infelizmente
melhor do que centenas de milhares de portugueses que o Estado português tem
deixado na ignorância e na miséria. Nós marchamos juntos e, além disso, no
nosso povo, seja em Cabo Verde seja na Guiné, existe toda uma ligação de
sangue, não só de história mas também de sangue, e fundamentalmente de cultura,
como o povo de Portugal. [...] Essa nossa cultura também está influenciada pela
cultura portuguesa e nós estamos prontos a aceitar todo o aspecto positivo da
cultura dos outros."
"Nós, em princípio, o nosso
problema não somos o de nos desligarmos do povo português. Se porventura em
Portugal houvesse um regime que estivesse disposto a construir não só o futuro
e o bem-estar do povo de Portugal mas também o nosso, mas em pé de absoluta
igualdade, quer dizer que o Presidente da República pudesse ser de Cabo Verde,
da Guiné, como de Portugal, etc., que todas as funções estatais,
administrativas, etc. fossem igualmente possíveis para toda a gente, nós não
veríamos nenhuma necessidade de estar a fazer a luta pela independência, porque
todos já seriam independentes, num quadro humano muito mais largo e talvez
muito mais eficaz do ponto de vista da História. Mas infelizmente, como sabem,
a coisa não é essa; o colonialismo português explorou o nosso povo da maneira
mais bárbara e mais criminosa e quando reclamamos um direito de ser gente, nós
mesmos, de sermos homens, parte da humanidade."
Mas nós nunca confundimos o
"colonialismo português" com o "povo de Portugal", e temos
feito tudo, na medida das nossas possibilidades, para preservar, apesar dos
crimes cometidos pelos colonialistas portugueses, as possibilidades de uma
cooperação eficaz com o povo de Portugal, numa base de independência, de
igualdade de direitos e de reciprocidade de vantagens seja para o progresso da
nossa terra, seja para o progresso do povo português. O povo português está
submetido há cerca de meio século a um regime que, pelas suas características,
não pode ser deixado de ser chamado fascista. A nossa luta é contra o
colonialismo português. Nós somos povos africanos, ou um povo africano, lutando
contra o colonialismo português, contra a dominação colonial portuguesa, mas
não deixamos de ver a ligação que existe ente a luta antifascista e a luta
anticolonialista.
Nós estamos absolutamente convencidos de
que, se em Portugal se instalasse amanhã um governo que não fosse fascista, mas
fosse democrático, progressista, reconhecedor dos direitos dos povos à
autodeterminação e à independência, a nossa luta não teria razão de ser. Aí
está a ligação íntima que pode existir entre a nossa luta e a luta antifascista
em Portugal; mas também, vice-versa, estamos absolutamente convencidos de que,
na medida em que os povos das colónias portuguesas avancem com a sua luta e se
libertem totalmente de dominação colonial portuguesa, estarão contribuindo de
uma maneira muito eficaz para a liquidação do regime fascista em Portugal.
[...] Nós queremos entretanto exprimir claramente o seguinte: nós não
confundimos a nossa luta, na nossa terra, com a luta do povo português; estão
ligadas, mas nós, no interesse do nosso povo, combatemos contra o colonialismo
português. Liquidar o fascismo em Portugal, se ele não se liquidar pela
liquidação do colonialismo, isso é função dos próprios portugueses patriotas,
que cada dia estão mais conscientes da necessidade de desenvolver a sua luta e
de servir o melhor possível o seu povo." Ler mais no wikipedia
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