quarta-feira, 15 de março de 2017

O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Guiné-Bissau,Jorge Malu, defende revisão do acordo com Senegal

O Ministro dos Negócios Estrangeiros defendeu hoje a revisão do “Acordo de Gestão e Cooperação” da Zona Marítima Comum, entre Guiné-Bissau e Senegal, satisfazendo os interesses dos dois países.

 Jorge Malú proferiu estas declarações, na cerimónia de abertura dos trabalhos da Comissão guineense-senegalesa de Avaliação e Renegociação do Acordo de Gestão e Cooperação do espaço marítimo conjunto entre os dois países.

“Volvidos duas décadas de vigência deste Acordo, a parte guineense entende ter chegado o momento de revisitá-lo, no propósito de sua adaptação a realidade actual e de proceder a sua melhoria”, acrescenta o chefe da diplomacia guineense.

Por fim, pediu as delegações dos dois países a saberem interpretar os sentimentos dos seus povos e dos respectivos Presidentes da República.

Por sua vez, o Embaixador de Senegal de Senegal, em representação do seu governo, assegurou que o encontro visa, sobretudo fazer o balanço de duas décadas de cooperação e melhorar o conteúdo do Acordo em prol dos dois países.

Sheikh Tidiane Thiam realçou o facto de a Guiné-Bissau e Senegal “escolherem a cooperação na gestão dos recursos que têm em comum”.

De acordo com os especialistas, a referida zona é rica em recursos pesqueiros e petrolíferos.


 O Acordo de Cooperação e Gestão da Zona Marítima Comum entre as Repúblicas da Guiné-Bissau e do Senegal foi assinado pelos chefes de Estado dos dois países em 1993 e dois anos depois foi criada uma agência para a gestão e exploração de recursos haliêuticos e minerais. Com Agência de Notícias da Guiné-Bissau

terça-feira, 14 de março de 2017

O presidente do PAIGC, Eng.º Domingos Simões Pereira, deveria também reconhecer, assumir, os seus erros

Por, Fernando Casimiro

O Presidente do PAIGC deveria também reconhecer, assumir, os seus erros (e têm sido muitos) entre a inexperiência e a premeditação, ao longo desta crise política.

Aconselhamos, criticamos e sugerimos, por diversas vezes, de forma responsável, positiva e construtiva o Presidente do PAIGC e ex-Primeiro-ministro, Eng.º Domingos Simões Pereira, sobre o que achamos das suas diversas intervenções, atitudes e posicionamentos, contrários ao espírito do diálogo, da tolerância, quiçá, do respeito pela diferença, mas não só, como também, pelo respeito ao bom nome e à boa imagem do país.

Um Presidente de um partido político, por sinal, o maior partido político da Guiné-Bissau, que já foi Primeiro-ministro e almeja continuar na senda do dirigismo nacional, não deve pôr as suas aspirações acima da imagem, da afirmação e do Interesse Nacional.
Não é segredo para ninguém que o Presidente do PAIGC tem posto em causa o seu próprio país, numa estratégia errada e maquiavélica de confrontação de vida ou de morte, com o Presidente da República e o actual governo.

Se o Presidente do PAIGC quisesse, de facto, continuar a reivindicar a legitimidade e a legalidade democrática da vitória do PAIGC nas eleições legislativas de 2014, há muito que deveria reconsiderar o erro crasso da expulsão dos 15 deputados eleitos pelas listas do seu partido, como sugerimos, antes de a CEDEAO sugerir a reintegração dos 15 deputados no PAIGC, sem condições prévias.

Na ausência de uma postura de hombridade, do tipo, reconhecer os erros e corrigi-los, o Presidente do PAIGC preferiu sempre sacrificar o país de todos nós, nas suas viagens ao estrangeiro, levantando dúvidas, fazendo acusações e insinuações que mais do que prejudicar fulano ou beltrano, prejudicam o país e o nosso povo.

O Presidente do PAIGC, que também é Deputado da Nação, tenta passar a imagem de ser um cidadão corajoso, face às acusações e insinuações que tem feito, mas qualquer cidadão com um mínimo de lucidez sabe que o Presidente do PAIGC, acusa e faz insinuações porque é Deputado da Nação e beneficia de imunidade parlamentar, que impede de ser inquirido, sem o levantamento da imunidade parlamentar.

O Presidente do PAIGC não deve esperar que as relações institucionais entre o Presidente da República e o partido que lidera sejam facilitadas, com ataques, acusações e insinuações contra o Estado em geral e, contra o Chefe do Estado em particular, numa campanha irresponsável com o conluio de alguma imprensa internacional afecta ao lobby do Presidente do PAIGC.

O Presidente da República cometeu vários erros, mas não se deve insistir na questão da demissão do Governo liderado pelo então Primeiro-ministro Engº Domingos Simões Pereira, como factor de continuidade da crise política.

A Constituição da República dá poderes ao Presidente da República para demitir o Governo. Aconteceu, vira - se a página e segue-se em frente.

O que não se deve fazer é promover o bloqueio do país, prejudicando todo um povo, numa disputa irresponsável em defesa de interesses pessoais e de grupos.

É o Sr. Presidente do PAIGC tão corajoso, responsável e digno, ao ponto de solicitar ele próprio o levantamento da sua imunidade parlamentar, para ser ouvido sobre as diversas acusações e insinuações que tem feito, comprometendo mais o país do que propriamente os seus adversários?

É o Sr. Presidente do PAIGC tão corajoso, responsável e digno ao ponto de solicitar ele próprio o levantamento da sua imunidade parlamentar para ser ouvido sobre acusações ou insinuações que também pendem contra ele?

Deve ou não o Presidente do PAIGC ser mais comedido, mais positivo e construtivo nas suas comunicações com os seus camaradas do partido tendo em conta o reflexo positivo na nossa sociedade?


Positiva e construtivamente.

Nota: Os artigos assinados por amigos, colaboradores ou outros não vinculam a IBD, necessariamente, às opiniões neles expressas.

Guiné-Bissau e o Senegal, reunira em Bissau para Avaliar e Renegociar o Acordo de Gestão e Exploração da Zona Marítima Comum

A reunião da Comissão de Avaliação e Renegociação do Acordo de Gestão e Exploração da Zona Marítima Comum entre a Guiné-Bissau e o Senegal, inicia amanhã, quarta-feira, aqui em Bissau.

Segundo um documento do Ministério guineense dos Negócios Estrangeiros à que a Agência de Notícias de Guiné (ANG) teve acesso, o referido encontro será presidido pelo titular da pasta da diplomacia guineense, Jorge Malú.

De acordo com os especialistas, a referida zona é rica em recursos pesqueiros e petrolífero.

 O acordo de cooperação e gestão da zona marítima comum entre as Repúblicas da Guiné-Bissau e do Senegal foi assinado pelos chefes de Estado dos dois países em 1993 e dois anos depois foi criada uma agência para a gestão e exploração de recursos haliêuticos e minerais. Com Agencia Noticioso da Guiné-Bissau

PAIGC vítima da sua própria hipocrisia: entre o desafio da honestidade de reconhecer a sua dura realidade intrínseca ou recurso a tática de propaganda política intriguista e caluniosa.

Por, Dr. Hotna Cufuk Na Doha

O PAIGC é hoje, (diga-se, mas eu duvido) um “partido político” na Guiné-Bissau que em 19 de Setembro de 1956, foi fundado pelo Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Luís Cabral, Júlio de Almeida, Fernando Fortes e Elisée Turpin como movimento de luta, defendendo a independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde da colonização do regime ditatorial portuguesa do então. O Cabral e seus cinco companheiros lutaram sempre pela observância de valores no partido e tiveram sempre discursos com valores éticos dignos de líderes que claramente sabiam o que queriam para o seu povo. Mas a partir dos anos de 1980 a esta parte, instalou-se no PAIGC uma pobre elite política quer em espírito como em visão política para conceber e implementar um sólido projecto político capaz de projetar o desenvolvimento estrutural da Guiné-Bissau e por consequente, o que passou a funcionar foi cada um lutar-se para resolver os seus problemas e nunca resolver os do país, transformando assim a Guiné-Bissau num dos países mais pobre do mundo.

A partir de momento em que esta elite assumiu o controlo do partido e do país, passou-se a abusar e a exagerar na infeliz consideração de ser o dono e senhor de tudo isto, sob pretextos de ter adquirido com a luta da independência da Guiné e Cabo Verde, o estatuto absoluto e indiscutível do libertador dos povos destes dois países irmãos.

Com esta forma de pensar, o PAIGC revela-se ser um perigoso ignorante do facto de que há muito tempo, antes da sua existência, o Povo da Guiné-Bissau já se dedicou na luta pela sua libertação do colonizador, portanto, mesmo sem o PAIGC o Povo guineense libertar-se-ia na mesma, porquanto o PAIGC enquanto um simples movimento jamais conseguiria libertar um Povo robusto como é o da Guiné-Bissau se este mesmo não estivesse inteiramente envolvido na causa desta liberdade.

O Povo abençoou os camaradas com o reconhecimento de o liderar na luta pela sua independência, mas isso não foi e nunca poderá ser tão suficiente para outorgar ao PAIGC o direito de ser proprietário deste humilde e martirizado Povo guineense. É esta a “nua e crua” verdade que estes senhores do império algum dia crerão que o Povo descubra. Porquê? Porque tendo a independência como o único objectivo que tinham para se levantar para o combate e sendo isso a única causa que muito bem se perceberam, todo o resto que nos dizem não passa de “falácias e apenas falácias” mas que na realidade nada disso se percebem o que é, e nem como se faz ou seja a construção de um Estado moderno, isto é, o tal Estado de Direito e Democrático com vista ao desenvolvimento económico, social e cultural de que o povo tem direito. Não, disso o PAIGC não entende absolutamente nada. O que este partido de facto percebeu muito bem é de que, uma vez conseguido a independência, logo conquistou o direito de sempre e eternamente cobrar do povo a factura de ser o seu único dono e senhor transformando-se assim num partido dos casos: intriga, corrupção, peculato, nepotismo, enriquecimento fácil e disputa desenfreada de lugares no governo ou nos altos cargos públicos. Como dá para se perceberem, este é senário de um autêntico "salve-se quem puder", em que uns apareceram milionários de repente ao lado dos que nada têm. "O vértice da elite política, isto é, os dirigentes, procurando sempre ficar cada vez mais rico", esquecendo os outros, associando-se a antagonismos: combate de combatente contra combatente, dos valores morais já não se fala faz tempo e foi sempre assim até ao ponto em que se quebrou o consenso no PAIGC, o consenso étnico gerado durante a luta pela libertação, nascendo conflitos, uns atrás dos outros, numa espiral que vinha perdurando até hoje ficar claro que os camaradas perderam o controlo da situação.

Portanto, é esta a dura realidade que os nossos irmãos guineenses que estão agrupados nessa coisa maldosa chamada PAIGC devem vencer o orgulho e assumir a honestidade e reconhecer que de facto, têm um problema grave criado por eles mesmos e que enquanto persistir não só os militantes destes partido é que vão sofrer as consequências disso, mas sim todo o País tal como se vive neste preciso momento na Guiné. Com um País totalmente paralisado a quase um ano por causa única das crónicas crises internas no PAIGC.

Não adianta lançar culpa às costas dos outros como está a tentar fazer o já falhado presidente deste partido Domingos Simões Pereira com a sua tática de lançar mãos a propaganda política de intriga e de calúnia contra adversários políticos de estarem a levar a cabo um golpe de Estado contra o seu Governo nado-morto.

Que o PAIGC saiba de uma vez por todas que ganhou quase todas as eleições na Guiné-Bissau e quase sempre com a maioria absoluta mas nunca tem conseguido governa o País por causa da sua hipocrisia de nunca quiser reconhecer que tem um problema interno grave que nunca lhe permitirá governar por mais que se façam eleições e por mais que as ganhe com 100% dos deputados na ANP.


Entretanto, enquanto o PAIGC continuar neste infantilismo de fingir que não sabe o que está a passar com ele (de que tem um cancro) que já está a causar danos não só a ele mas, a todo um povo, é preciso que o povo se acorde e o destrone definitivamente das rédeas de conduzir os seus destinos.

Nota: Os artigos assinados por amigos, colaboradores ou outros não vinculam a IBD, necessariamente, às opiniões neles expressas.

domingo, 12 de março de 2017

Primeiro-ministro da Guiné-Bissau apoia isenção de visto para turistas portugueses

O primeiro-ministro da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, em reunião com operadores turísticos portugueses participantes da famtrip ao seu país promovida pela euroAtlantic e com o Ministro do Turismo e do Artesanato, Fernando Vaz, manifestou o seu apoio em relação à isenção de vistos de turismo para portugueses.

O ministro do Turismo e do Artesanato da Guiné-Bissau, Fernando Vaz, vai anunciou então que vai apresentar uma proposta no Conselho de Ministros para a isenção de visto de 15 dias para turistas portugueses, afirmando que "facilita muito o turismo".

"É uma boa proposta, é uma forma de incentivar e motivar as pessoas para virem à Guiné", declarou nessa reunião o primeiro-ministro Umaro Embaló, enfatizando assim o seu apoio à proposta apresentada por Fernando Vaz. "Estou plenamente de acordo contigo e posso dizer que já tens o meu apoio", declarou.

No que diz respeito à relação com Portugal, o PM guineense afirmou que a "Guiné-Bissau e Portugal têm um laço que nos une, que é muito secular, que ultrapassa a relação entre as pessoas".

José Caetano Pestana, director de relações externas da euroAtlantic, aproveitou a ocasião para fazer dois pedidos ao governo da Guiné-Bissau, o primeiro é que "incentive os investidores portugueses a olharem para a Guiné-Bissau" e o segundo relaciona-se com a certificação do Aeroporto Internacional da Guiné-Bissau, com infra-estruturas de alfândega, para a exportação de carga.


"Nós não queremos só levar o bronzeado da Guiné-Bissau, o calor e o carinho. Queremos que amanhã os super-mercados portugueses tenham manga avião da Guiné-Bissau, queremos que os restaurantes de Lisboa possam ter na ementa camarões da Guiné-Bissau e peixe fresco da Guiné-Bissau", afirmou. Com o presstur

Arquipélago dos bijagós: pérolas de preservação cultural e natural na África Ocidental

O Arquipélago dos Bijagós, principal cartaz turístico da Guiné-Bissau, deslumbra pela grande diversidade de flora e fauna, com destaque para espécies que evoluíram através da adaptação a meios salinos, e oferece a oportunidade de conhecer mais sobre a cultura do povo Bijagó e a sua ligação à Natureza.

O Arquipélago, declarado Reserva da Biosfera pela UNESCO em 16 de Abril de 1996, é constituído por 88 ilhas e ilhéus, 21 das quais habitadas por cerca de 35.000 pessoas.

A sua formação resulta da inundação do delta do Rio Geba que criou essas ilhas, bancos de areia, e mangais, labirintos de água ladeados por vegetação no interior das ilhas, enquanto em terra, a paisagem é de savana, bosques de palmeiras e florestas meio-secas, com variedade e abundância de flora.

A fauna é outro dos grandes destaques do Arquipélago dos Bijagós, que tem na ilha de Orango uma das espécies de animais mais curiosas que passou pelo processo de adaptação ao meio salino para garantir a sua sobrevivência, os hipopótamos de água salgada, enquanto na ilha de Poilão conta com um dos principais pontos de desova da tartaruga-verde de toda a África Ocidental.

Nas ilhas de Orango e Poilão encontram-se, respectivamente, o Parque Nacional de Orango e o Parque Nacional João Vieira Poilão, sendo que o arquipélago conta ainda com a Área Marinha Protegida Comunitária das Ilhas Formosa, Nago e Tchedia.

Esta região também conta com uma das maiores populações de manatins na África Ocidental, diferentes espécies de crocodilos, golfinhos, e uma grande variedade de espécies de aves, entre os quais, flamingos e pelicanos, sendo que centenas de milhares de aves migratórias passam pela região.

As ilhas são habitadas principalmente pelo povo Bijagó (cerca de 90%), que vive em comunidades caracterizadas pela sua dinâmica matriarcal, em pequenas vilas, cuja subsistência é assegurada através da agricultura, pesca e apanha de moluscos, entre outras actividades.

Os Bijagós dedicam cerca de cem dias do ano a rituais e cerimónias tradicionais e religiosas, que em grande parte estão relacionadas com a vida selvagem.

A diversidade étnica nas ilhas, segundo o Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas, inclui ainda a presença de Balantas, Papeis, Manjacos e Mandingas, bem como Nhomincas, provenientes do Senegal, e comunidades de naturais da Serra Leoa, Guiné-Conacri e Gana.

A ligação entre Bissau e o Arquipélago dos Bijagós pode ser feita de barco, a partir dos portos de Bubaque e Bolama, ou de avião, numa viagem de cerca de 15 minutos que liga a capital da Guiné-Bissau ao aeroporto de Bubaque. Com presstur

sexta-feira, 10 de março de 2017

Francisco: um quase-testamento

Crónica de Anselmo Borges, no Diário de Notícias

1 - Para o Papa Francisco, a definição de Deus é misericórdia, mas sem uma concepção delicodoce, pois a misericórdia é exigente. Avisa que é preciso ser coerente; não se pode ter uma vida dupla: "Sou muito católico, vou sempre à missa, mas não pago o justo aos meus funcionários, exploro as pessoas, faço jogo sujo nos negócios... É daí que vem ouvirmos tantas vezes: "ser católico como aquele?, é melhor ser ateu"."

Na frente do seu combate está a idolatria do dinheiro, como aconteceu com Jesus: o dinheiro transformado em ídolo absoluto é incompatível com a fé no Deus da Vida: "Não podeis servir a Deus e ao dinheiro." Por isso, diz "não" a uma economia da exclusão e da iniquidade. "Essa economia mata"; vivemos "na ditadura de uma economia sem rosto e sem objectivos verdadeiramente humanos"; "a cultura do bem-estar anestesia--nos"; acusado de comunista, responde: "esta mensagem não é marxismo, mas Evangelho puro."

2 - Foi assim que, continuando com a entrevista ao El País, respondeu: "Eu não estou a fazer nenhuma revolução. Estou apenas a tentar que o Evangelho prossiga, vá por diante. Eu procuro, não sei se consigo, fazer o que o Evangelho manda. Sou pecador e nem sempre consigo, mas é isso que procuro. É curioso: a história da Igreja não a levaram por diante os teólogos, os padres, os bispos... sim, em parte sim, mas os verdadeiros protagonistas da história da Igreja são os santos, isto é, aqueles que se sacrificaram para que o Evangelho se tornasse concreto: as pessoas que vivem do seu trabalho com dignidade, que criam os filhos, enterram os seus mortos, cuidam dos avós, essa é a nossa classe média, os enfermeiros, os cuidadores. O ponto fixo é o concreto. Do ponto de vista económico, hoje a classe média tende a desaparecer, cada vez mais, e pode-se correr o risco de refugiar-se nas cavernas ideológicas. Mas esta é a "classe média de santidade": o pai, a mãe, que celebram a sua família, com os seus pecados e as suas virtudes, o avô, a avó. A família."

Como deve ser a Igreja? "Que não deixe de ser próxima. Que procure ser continuamente próxima das pessoas. Uma Igreja que não é próxima pode ser uma boa ONG, mas não é Igreja."

Preocupações? "A minha preocupação é a guerra. Estamos na Terceira Guerra Mundial em pedacinhos. E, ultimamente, já se fala de uma possível guerra nuclear, como se fosse um jogo de cartas. É isso que mais me preocupa. E preocupa-me a desproporção económica: que um pequeno grupo tenha mais de 80% da riqueza, que no centro do sistema económico esteja o deus dinheiro e não o homem e a mulher, o humano. Então cria-se a cultura do descarte."

Sobre a corrupção. "É um grande pecado. Mas julgo que não devemos atribuir-nos o exclusivo. A corrupção existiu sempre. Sempre. Aqui. Se se ler a história dos papas, deparamos com cada escândalo!... Tenho vários exemplos de países próximos onde houve corrupção na história, mas fico-me pelos meus. Basta pensar no papa Alexandre VI, e dona Lucrécia..." "Na Cúria, há gente corrupta. Mas muitos santos também."

Quanto aos refugiados, os governos estão à altura? "Cada um faz o que pode e o que quer. É muito difícil fazer um juízo. Mas, claro, que o Mediterrâneo se tenha tornado um cemitério tem de nos fazer pensar."

É um Papa incómodo? "Não, não. Eu julgo que, atendendo aos meus pecados, deveria ser mais incompreendido. O mártir da incompreensão foi Paulo VI. Eu não me sinto incompreendido. Sinto-me acompanhado, e acompanhado por todo o tipo de gente, jovens, velhos... Sim, alguns por aí não estão de acordo, e têm esse direito, porque, se eu me sentisse mal por alguém não estar de acordo, haveria na minha atitude um gérmen de ditador. Têm direito a não estar de acordo, direito a pensar que o caminho é perigoso, que pode dar maus resultados, que... têm direito. Mas que dialoguem sempre, que não atirem a pedra e escondam a mão. Isso não. A isso ninguém tem direito. Atirar a pedra e esconder a mão não é humano, isso é delinquência."

Sobre a diplomacia do Vaticano. "Eu peço ao Senhor a graça de não tomar nenhuma medida por causa da imagem. Que seja por honestidade, por serviço, esses são os critérios. A diplomacia vaticana tem que ser mediadora, não intermediária. Sim, ao longo da história, a diplomacia vaticana fez manobras ou encontros e encheu o bolso: aí cometeu um pecado gravíssimo. O mediador faz pontes que não são para ele, mas para que os outros caminhem. E não cobra portagem. Fez a ponte e vai-se. Para mim, essa deve ser a imagem da diplomacia vaticana: mediadores e não intermediários. Construtores de pontes."

Que se pede e exige na política? "Diálogo. É o conselho que dou a qualquer país. Por favor, diálogo. Hoje, com o desenvolvimento que há, não se pode conceber uma política sem diálogo."

Sobre o tráfico de mulheres. "Há em toda a parte. Na Europa... A situação dessas mulheres é de terror. Na casa que visitei, havia uma a quem tinham cortado uma orelha..." Na Igreja, é preciso ir mais longe quanto ao papel das mulheres.

"A teologia da libertação foi uma coisa positiva na América Latina. Foi condenada a parte que optou pela análise marxista da realidade." E advertiu para os perigos dos movimentos populistas.

Vai à China? "Quando me convidarem. São eles que sabem."


Nos seus consistórios, criou cardeais dos cinco continentes. "Como gostaria que fosse o conclave que elegerá o seu sucessor?" Resposta: "Que seja católico. Um conclave católico que escolha o meu sucessor." Vai vê-lo? "Isso não sei. Que Deus decida. Quando sentir que não posso mais, foi o meu mestre, o papa Bento XVI, que me ensinou como devo fazer. E se Deus me levar antes, vê-lo-ei do outro lado. Espero que não seja a partir do inferno... Mas que seja um conclave católico."