quinta-feira, 13 de abril de 2017

A filosofia africana que nutre o conceito de humanidade em sua essência

Uma sociedade sustentada pelos pilares do respeito e da solidariedade faz parte da essência de ubuntu, filosofia africana que trata da importância das alianças e do relacionamento das pessoas, umas com as outras. Na tentativa da tradução para o português, ubuntu seria “humanidade para com os outros”. Uma pessoa com ubuntu tem consciência de que é afectada quando seus semelhantes são diminuídos, oprimidos. – De ubuntu, as pessoas devem saber que o mundo não é uma ilha: “Eu sou porque nós somos”. Eu sou humano, e a natureza humana implica compaixão, partilha, respeito, empatia – detalhou em entrevista exclusiva ao Por dentro da África, Dirk Louw, doutor em Filosofia Africana pela Universidade de Stellenbosch (África do Sul). Dirk conta que não há uma origem exacta da palavra. Estudiosos costumam se referir a ubuntu como uma ética “antiga” que vem sendo usada “desde tempos imemoriais”. Alguns pesquisadores especulam sobre o Egipto Antigo (parte de um complexo de civilizações, do qual também faziam parte as regiões ao sul do Egipto, actualmente no Sudão, Eritreia, Etiópia e Somália) como o local de origem do ubuntu como uma ética, mas o próprio fundamento do ubuntu é geralmente associado à África Subsaariana e às línguas bantos (grupo etnolinguístico localizado principalmente na África Subsaariana).

No fundo, este fundamento tradicional africano articula um respeito básico pelos outros. Ele pode ser interpretado tanto como uma regra de conduta ou ética social. Ele descreve tanto o ser humano como “sercom-os-outros” e prescreve que “ser-com-os-outros” deve ser tudo. Como tal, o ubuntu adiciona um sabor e momento distintamente africanos a uma avaliação descolonizada – contou o especialista e membro fundador da South African Philosopher Consultants Association.

Na esfera política, o conceito é utilizado para enfatizar a necessidade da união e do consenso nas tomadas de decisão, bem como na ética humanitária. Dirk lembra que também existe o aspecto religioso, assentado na máxima zulu (uma das 11 línguas oficiais da África do Sul) umuntu ngumuntu ngabantu (uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas) que, aparentemente, parece não ter conotação religiosa na sociedade ocidental, mas está ligada à ancestralidade. A ideia de ubuntu inclui respeito pela religiosidade, individualidade e particularidade dos outros.


Ubuntu ressalta a importância do acordo ou consenso. A cultura tradicional africana, ao que parece, tem uma capacidade quase infinita para a busca do consenso e da reconciliação (Teffo, 1994a: 4 – Towards a conceptualization of Ubuntu). Embora possa haver uma hierarquia de importância entre os oradores, cada pessoa recebe uma chance igual de falar até que algum tipo de acordo, consenso ou coesão do grupo seja atingido. Este objetivo importante é expresso por palavras como Simunye (“nós somos um”, ou seja, “a união faz a força”) e slogans como “uma lesão é uma lesão para todos” (Broodryk, 1997a: 5, 7, 9 – Ubuntu Management and Motivation, de Johann Broodryk). Uso da palavra com a democracia na África do Sul Após quase cinco décadas de segregação racial apoiada pela legislação, o processo de construção da África do Sul no pós-apartheid exigia igualdade universal, respeito pelos direitos humanos, valores e diferenças. Desta forma, a ideia de ubuntu estava diretamente ligada à história da luta contra o regime que excluía a cidadania e os direitos dos negros. Com o Por dentro da África

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República Popular da China na Guiné-Bissau, prioriza cooperação nos sectores da agricultura e economia

O novo Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República Popular da China na Guiné-Bissau, Jin Hongjun disse hoje, 12 de abril 2017, que a prioridade do seu país na cooperação com o governo guineense são os sectores da agricultura e da economia.

O diplomata chinês falava à imprensa depois de uma audiência com o Chefe de Estado, José Mário Vaz, durante a qual apresentou a sua carta credencial.

“Sinto-me a grande responsabilidade porque o trabalho é muito. A Guiné-Bissau está no período importante de desenvolvimento e como um país amigo, estamos a tentar fazer o que podemos fazer como amigo”, notou.

Jin Hongjun reiterou a sua disponibilidade e vontade de envidar esforços no sentido de estreitar os laços de amizade existentes entre os dois países e dois povos.

Para além dos sectores agrícola e económico, Hongjun indicou que os investimentos chineses serão extensivos a outras áreas como a educação, a saúde, onde a china tem vindo fazer alguns trabalhos palpáveis.

Recorde-se que o novo Embaixador da china chegou ao país na noite de quinta-feira, o6 de abril de 2017, para substituir o Embaixador Wang Hua que terminou o seu mandato de três anos (2013/2016). Com Odemocrata

sábado, 8 de abril de 2017

Transhumanismo e pós-humanismo (4)

Crónica de Anselmo Borges, no Diáriode Notícias

1 Depois do êxito mundial de Sapiens, com mais de um milhão de exemplares vendidos, Yuval Noah Harari publicou em 2015 Homo Deus, que, depois de reflectir sobre as ameaças da biotecnologia e da inteligência artificial ao humanismo e que nova religião poderia substituí-lo, termina perguntando em que devemos centrar-nos se pensarmos em termos de meses ou de anos, respectivamente. Se adoptarmos uma visão realmente ampla da vida, "todos os outros problemas e questões são eclipsados por três processos interconectados: 1. A ciência converge num dogma universal, que afirma que os organismos são algoritmos e que a vida é processamento de dados. 2. A inteligência desconecta-se da consciência. 3. Algoritmos não conscientes mas inteligentíssimos rapidamente poderiam conhecer-nos melhor do que nós próprios". Estes processos levantam três perguntas-chave: "1. Os organismos são realmente só algoritmos e realmente a vida é só processamento de dados? 2. O que é mais valioso: a inteligência ou a consciência? 3. Que é que acontecerá à sociedade, à política e à vida quotidiana quando algoritmos não conscientes mas muito inteligentes nos conhecerem melhor do que nós próprios?"

2 Realizar-se-á o sonho do salto para máquinas inteligentes e autoconscientes, e a caminho da imortalidade?

Nem Luc Ferry, para quem, embora não se importasse de viver mais tempo, pelo contrário, a imortalidade neste mundo é um "fantasma", nem Jean Staune vêem como é que um computador poderia aceder ao estado de consciência ou sequer de simulá-lo. Também não vejo. Aliás, como é possível a emoção, sem uma base biológica? E a consciência, a consciência de si, continua um "milagre": essa luz que, auto-iluminada, ilumina tudo o que não é ela, e que faz de cada um uma intimidade única, de tal modo que eu não sei o que é ser outro. Essa consciência de si, no seu carácter intransferível, é avassaladora. Sobretudo: tenho um cérebro, mas sou eu. A ciência não explica.
E como produzir uma máquina verdadeiramente livre, se precisamente "programar" se contrapõe a ser livre, dispor de si em liberdade? A tese de máquinas conscientes parte do pressuposto da identidade entre cérebro e consciência. Ora, embora a consciência tenha emergido a partir das propriedades ontológicas da matéria, realmente a consciência não parece redutível ao cérebro. De facto, temos cérebros, mas somos eus. Como se passa da objectividade para a subjectividade, de processos da ordem da terceira pessoa para a vivência de si na primeira pessoa?

3 No entanto, o jesuíta Javier Monserrat, neurólogo, filósofo e teólogo, levanta algumas questões pertinentes. Segundo ele, este é o paradoxo: por um lado, "o modo de ser real próprio do homem não pode reduzir-se ao modo de ser real dos animais, e, muito menos, do mundo físico da pura matéria", mas, por outro, "não é menos verdade que a ciência nos impõe hoje aceitar que formamos parte de um processo evolutivo unitário que não tem alternativa".

A natureza humana, aberta, terá mudanças evolutivas, mas a pergunta é: "Produzir-se-á uma mudança qualitativa na natureza humana?" É evidente que as novas tecnologias abrem perspectivas impressionantes para promover o futuro da evolução e da natureza humana. Não se pode duvidar de que a espécie humana poderá dispor de cyborgs ao seu serviço e de que "a sua actividade intelectual e puramente orgânico-biológica poderá dispor do apoio de imensas redes externas de computação ao serviço do conhecimento, da saúde e controlo do próprio corpo e do domínio geral sobre a natureza". Instrumentos de uma capacidade superior àquela que até há pouco se poderia sequer imaginar. O mundo dos cyborgs e das redes de computação externa "será uma dimensão de realidade diferente, da qual o homem poderá fazer um uso instrumental, mas que, para responder à pergunta formulada acima, não será ontologicamente idêntica à ontologia humana e que, por conseguinte, nunca poderá ser integrada numa unidade ontológica nova que pudesse dar lugar a uma natureza humana qualitativamente diferente da que conhecemos até agora". Porquê? Há irredutibilidade entre a ontologia do mundo da computação e a ontologia do mundo animal-humano. A razão é clara: "tanto as máquinas humanóides ou cyborgs como as redes de computação externa, por exemplo, como as concebe Raymond Kurzweil, são sistemas seriais ou conexionistas (PDP) que funcionam de uma forma mecânica e cega, sem que haja a mínima semelhança ontológica com os sistemas biológicos associados evolutivamente à sensibilidade-percepção-consciência, à existência de sujeitos psíquicos conscientes e à mente animal e humana."

As coisas poderiam mudar?, pergunta. Responde afirmativamente. E a razão, hoje cientificamente estabelecida, é que "o mundo da sensibilidade-consciência emergiu das propriedades ontológicas da matéria. Portanto, se fôssemos capazes de construir uma engenharia apropriada para aproveitar a capacidade ontológica da matéria para produzir "sensibilidade", então poderíamos ir construindo máquinas que não fossem mecânicas e cegas, mas que funcionassem de um modo mais próximo do mundo biológico. No entanto, hoje as coisas não vão por aí (estamos a falar quase de ciência-ficção) e só se faz uma engenharia computacional mecânica e cega, como vemos em Kurzweil, que, além disso, se distancia explicitamente da incipiente neurologia quântica que, em princípio, poderia ser a única via para construir máquinas mais próximas da vida real".

4 Até onde iremos nas nossas capacidades, com as novas tecnologias? E o que é que verdadeiramente queremos? Como escreve Luc Ferry, "nunca a palavra regulação (ético-política) designou uma tarefa mais decisiva do que na situação inédita, e sem dúvida irreversível, que é agora a nossa".


Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Guarda Civil Espanhola entrega vedetas doado por este país amigo, à Guarda Nacional da Guiné-Bissau

O primeiro-ministro da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, saudou hoje a oferta do governo espanhol de duas vedetas rápidas para a fiscalização marítima nas águas guineenses.

As duas embarcações foram entregues ao chefe do governo guineense por uma equipa da Guarda Civil espanhola, que se encontra em Bissau no âmbito das relações de cooperação para o reforço da capacidade de fiscalização do mar da Guiné-Bissau.

Lourenço Coro, da Guarda Civil espanhola, assinalou que, a partir desta sexta-feira, as autoridades marítimas guineenses podem começar a utilizar os serviços de assistência técnica das duas embarcações e durante um período de três meses.

O responsável espanhol afirmou ainda que as duas embarcações poderão ajudar a Guiné-Bissau a fazer face ao tráfico de produtos ilícitos e ainda à emigração clandestina, fenómenos que considerou como ameaça global.

O primeiro-ministro, Umaro Sissoco Embaló, destacou, por seu lado, que as duas vedetas vão aumentar a capacidade operativa das autoridades marítimas do país, nomeadamente na fiscalização costeira.

«A doação vai reforçar o nível das relações sul-sul entre Guiné-Bissau e Espanha, frisou Sissoco Embaló, exortando para um bom uso das embarcações batizadas com os nomes de ‘Ocante da Silva’ e ‘3 de agosto’.


As duas vedetas, fabricadas de raiz em Espanha, são movidas por turbinas e chegam às águas guineenses dias depois de o presidente José Mário Vaz, ter anunciado que cerca de 90 navios estão a pescar de forma irregular na Zona Económica Exclusiva da Guiné-Bissau.

terça-feira, 28 de março de 2017

Presidente da Assembleia Nacional da Guiné-Bissau, Cipriano Cassama, realça papel da CNE no exercício da cidadania política na Guiné-Bissau

O Presidente do Parlamento afirmou que a apresentação pública, hoje em Bissau, do Relatório das Eleições de 2014, dá credibilidade a Comissão Nacional de Eleições “pela sua contribuição na cidadania política na Guiné-Bissau”.

Cipriano Cassama que presidia ao acto na sede da Assembleia Nacional Popular afirmou que, no plano político, o mesmo pode significar uma oportunidade para reavaliação do curso dos exercícios políticos que foram legitimados nessas eleições mas que, segundo as suas palavras, “ a conclusão é, social e politicamente, negativa no seu conjunto”.

“ As eleições presidenciais e legislativas de 2014 foram interpretadas, por todos guineenses e pelos nossos amigos e parceiros de desenvolvimento, como uma esperança para o cimentar das conquistas dos valores da liberdade, democracia, paz, sossego e tranquilidades sociais”, disse Cassama.

Mas, acrescenta, “aquilo que se afigurava como o resgatar dos sonhos de uma Guiné de mudança foi transformado num grande pesadelo que agita o quotidiano individual e colectivo” dos guineenses.

Por outro lado, o Presidente do Parlamento pede a fixação do próximo ciclo eleitoral na data legalmente prevista.

Igualmente no acto usaram de palavra, o Secretário Executivo da CNE, Idrissa Djaló, o Delegado da União Europeia, Victor dos Santos e o Representante Adjunto do PNUD, Gabriel D`alva que, realçaram a necessidade de reformas no Código Eleitoral guineense, por forma a se ajustar à actual realidade sociopolítica.

A produção do Relatório das Últimas Eleições presidências e Legislativas de 2014 contou com as assistências técnica e financeira do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e a União Europeia (UE).


No escrutínio de 2014, o actual chefe de Estado, José Mário Vaz, ganhou as presidenciais na segunda volta com cerca 62 por cento dos votos contra o seu adversário, Nuno Gomes Nabiam que obteve pouco mais de 38 por cento de votos, e o PAIGC, por sua vez venceu as legislativas com 57 mandatos, seguido do PRS com 41, num total de 102 parlamentares. Com Agencia noticiosa da Guiné-Bissau

O Presidente da República, José Mário Vaz, lança pedra para construção de estrada que ligará Zona Libertada (Buba-Catió) ao resto do país

O Presidente da República, José Mário Vaz presidiu sábado o lançamento da pedra para o alargamento e alcatroamento da estrada que liga Buba, na região de Quinara à Catio, na de Tombali, numa extensão de 60 quilómetros.

A nova obra, financiada pelo Banco Oeste Africano de Desenvolvimento (BOAD) num montante de cerca de 25 mil milhões de Francos CFA, múltiplas vezes adiada pelos sucessivos governos, conta com o revestimento de uma camada de até cinco centímetros além de duas bermas com pelo menos dois metros de largura.

Os trabalhos, que vão durar 22 meses, estão sendo executados pela empresa argelina "Arezki SA", e vão contemplar ainda a criação de uma portagem em Batambali e melhoria das estradas urbanas das duas cidades.

Na cerimónia de lançamento da primeira pedra deste empreendimento, O presidente José Mário Vaz sublinhou que a nova infra-estrutura será uma nova oportunidade para a melhoria das vidas das populações locais e da economia das duas regiões.

"Mas só se efectivará- essa melhoria- quando houver outras acções que a capitalize", avisou o chefe de Estado referindo-se, nomeadamente, a criação de um processo de desenvolvimento integrado que passa pelo investimento produtivo capaz de criar riquezas para o povo do sul.

Lembrou que Catió esteve durante muitos anos isolada do resto do país por falta de acesso e, desta forma, excluída do seu desenvolvimento. Citou as várias tentativas efectuadas pelos sucessivos governos no sentido da construção daquela via que, no entanto, devido a várias razões, explicou José Mário Vaz, não resultaram.

"Enquanto Presidente da Republica, garanto-vos que tudo farei para que esta obra chegue ao fim e para que em Abril de 2019 voltemos a reencontrar aqui para a sua inauguração", declarou.

O chefe de estado exortou as populações das duas regiões a estarem vigilantes e denunciarem qualquer irregularidade que não esteja prevista no caderno de encargo do projecto.

A concluir, destacou ser seu desejo e obrigação devolver à zona sul a condição de maior celeiro do país e agradeceu a UEMOA e o BOAD pelo acompanhamento às autoridades guineenses "nesta caminhada" de redução da pobreza e promoção do bem-estar da população.

A cerimónia contou com presença de membros do governo, representantes do corpo diplomático, deputados eleitos nas duas regiões, antigos combatentes da liberdade da pátria e a população local que afluiu em massa.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Deve-se aprimorar actual sistema político vigente na maioria dos países de áfrica ou optar pela veste anterior?

Por, Dr. Ismael Sadilú Sanhá

A reconquista da liberdade e do território retirado durante a ocupação colonial motivou os líderes africanos a negar qualquer tipo de opinião e acção política vinda da antiga metrópole.

A euforia e avidez pelo poder originou uma nova liderança africana que acreditava ser dona do próprio destino, mas ninguém deve intrometer-se nos assuntos que não lhe dizem respeito, nem ouvir conselhos ou ter em consideração sugestões alheias.

Após a retirada do território africano, os antigos colonos aconselharam os novos lideres a erguer um novo Estado. Para o efeito era necessário adoptar uma democracia parlamentarista, pois seria o modelo mais viável e profícuo para o desenvolvimento social e económico de África. No entanto, muitos não viam essa proposta com bons olhos e as reacções não se fizeram esperar.

A maior parte dos líderes africanos encarava a democracia como um fardo pesado para o novo Estado, pois consideravam-na uma “coisa dos brancos”. Segundo Paul Biya “África não tinha uma cultura democrática e tudo isto não passava de uma imposição dos seus colonos” (Shillington:1995,3). Neste contexto, a concordância seria uma má escolha para África, pois poderia tirar ao povo a liberdade conquistada arduamente.

Na altura pensava-se que os líderes africanos deviam ser capazes de pensar pelas suas próprias cabeças e decidir qual o modelo político e económico mais eficaz para conduzir à prosperidade social e económica do povo africano. Essa aspiração era saliente no discurso do Amílcar Cabral, fundador da nacionalidade da Guiné e Cabo-Verde, passamos a citar: “o que quer o Homem africano é ter a sua própria expressão política e social (…). Quer dizer, a soberania total do nosso povo no plano nacional e internacional, para construir ele mesmo, na paz e na dignidade, à custa dos seus próprios esforços e sacrifícios, marchando com os seus próprios pés e guiado pela sua própria cabeça o progresso que tem direito como qualquer povo do mundo” (Cabral; 1973 )

Os africanos estavam convictos que apesar dos parcos recursos humanos, mas com os recursos naturais abundantes era possível construir um novo Estado e devolver a esperança ao povo martirizado durante a ocupação estrangeira.

Acima de tudo era importante consolidar a “unidade africana” e para isso era fundamental criar um “partido único”. Esse conceito foi aceite e começou a alastrar-se por toda a África, dando azo à concentração do poder numa única pessoa, ao aparecimento de grupos de elite, ao nepotismo e ao neopatrimonialismo que veio despoletar a luta entre facções rivais para controlar o poder. Esta situação restringiu a liberdade de expressão e a participação dos cidadãos na vida política, económica e cultural.

O propósito dos antigos colonos foi rejeitado e passou a impor-se a agenda de governação dos novos líderes. Após alguns anos, devido à falta de visão estratégica para o desenvolvimento do continente e à política enviesada centrada em torno dos interesses individuais instalados, a economia africana começou a dar sinal de fadiga e caos em todos os quadrantes sociais.

Esta situação obrigou a maioria dos Estados africanos a pedir ajuda aos seus antigos colonos, pois só assim seria possível ultrapassar a penúria em que se encontravam. Porém, eles recusaram e a indigência acabou por se tornar uma realidade. E quando os Estados africanos pediram apoio financeiro, pela segunda, para atenuar a pobreza extrema, foi-lhes proposto que aceitassem o sistema democrático multipartidário ou recusariam a ajuda financeira. Citando Bush filho “estás connosco ou és nosso inimigo” (Publico:2001).

Foi-lhes feito um ultimato e como quem necessita tem que se sujeitar às exigências dos outros foram obrigados a vergar-se e a anuir sem contrapor o solicitado.

Por um lado, a democracia acabou por ser aceite e, por outro, o dinheiro desembolsado permitiu continuar a senda de práticas ilícitas.

Perante o caos que se vive na maioria dos estados africanos, sobretudo a dificuldade de pensar e agir pela sua própria consciência, podem ser lançadas várias questões, nomeadamente, identificar o motivo que tem impedido o desenvolvimento dos países africanos.

Neste âmbito, o Presidente da República do Conacri e em exercício da União Africana, Professor Alfa Condé, numa entrevista, enfatizou que “a interferência estrangeira está na origem da maioria dos problemas em África” (E-global: 2017). Deste modo, defendemos a prossecução do nosso caminho, pois só assim seremos capazes de materializar os ideais que nortearam a nossa luta de libertação do continente africano contra subjugação colonial.

Perante o exposto, colocam-se as seguintes questões:
Será que a consolidação da coesão nacional, após a independência, era deveras premente para o desenvolvimento social e económico de África?

Será que a unidade nacional que ditou a vitória na luta pela independência não era suficiente para permitir a construção de um Estado novo?

Se não fossem as atrocidades e a barbárie cometidas contra o povo, no período subsequente a independência, será que a unidade nacional desagregaria?

Será que os líderes africanos tinham razão quando rejeitaram a democracia, e adoptaram um regime despótico?

Se a democracia tivesse sido adoptada quando a maioria dos Estados se tornaram livres e independentes teria contribuído significativamente para a maturação e para o despertar de consciência cívica do povo?

Será que a África está preparada para continuar a ter a democracia como sistema?

O que mudou em África com a terceira vaga de democracia?
Em suma, podemos concluir que:

Apesar de, aparentemente, sermos livres e independentes e termos o pleno direito de conduzir a política interna, enquanto autonomia dos poderes dos Estado conforme o estabelecido no Tratado de Vestefália de 1648, citamos: “Soberania significa um poder que não reconhece outro a ele superior, seja no plano intra-estatal (independência), seja no plano interno (supremacia), a maioria de estados depara-se, ainda, com enormes dificuldades para levar a cabo as suas políticas internas.

O referido tratado, após Estados Unidos de América (EUA) ter sofrido um rude golpe devido ao ataque terrorista às torres gémeas – World Trade Center, padeceu de profundas alterações devido à pretensão das potências hegemónicas ou dos Estados mais ou menos organizados, em querer impor a sua vontade e políticas através do direito à “ingerência nos assuntos internos dos Estados”.

Porém, ainda, estamos muito longe de fazer vincar a liberdade de pensar pelas nossas próprias cabeças e agir.  

Nota: Os artigos assinados por amigos, colaboradores ou outros não vinculam a IBD, necessariamente, às opiniões neles expressas.