quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A CEDEAO adota sanções individuais pelo incumprimento do acordo de Conakry na Guiné Bissau


Os Chefes de Estado e de Governo da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) aplicaram sanções pessoais contra os indivíduos ou organizações que impedem o processo de saída da crise na Guiné-Bissau.

Por ocasião da sua Sessão Extraordinária de 27 de janeiro de 2018, os Chefes de Estado haviam convidado as partes Bissau Guineenses a implementar o Acordo de Conakry, sob pena de sanções coletivas e individuais serem aplicadas a partir de 1 de fevereiro de 2018, contra essas pessoas ou organizações.

Pela Decisão A/DEC.2.01 / 2018 assinado pelo Presidente em exercício da CEDEAO, Sua Excia Faure Essozimna Gnassingbe, Presidente da República Togolesa, e ansiosos para promover a restauração da governação democrática e do respeito pelo Estado de direito na Guiné Bissau, os líderes da África Ocidental impuseram sanções contra diversos Bissau Guineenses.

As pessoas sancionadas são: Braima Camara, Rui Dia de Sousa, Soares Sambu, Abel da Silva Gomes, Manuel Nascimento Lopes, Eduardo Mamadu Balde, Maria Aurora Abissa Sano, Florentino Mendes Pereira, Orlando Mendes Viegas, Certorio Biote, Domingos Quade, Carlitos Barai, Domingos Malu, Antonio Sedja Man, Bacari Biai, Botche Cande, Herson Gougjabi Vaz, Victor Madinga, Fernando Vaz.

Ao Comité de Seguimento da Aplicação das Sanções, composto pelo Togo, República da Guiné e Comissão da CEDEAO, reserva-se o direito de rever a lista das pessoas sancionadas de acordo com a evolução da situação.

As sanções impostas a essas pessoas referem-se à suspensão da sua participação nas atividades da Comunidade, a interdição de viajar e a negação de vistos a elas e aos membros das suas famílias, e o congelamento dos seus ativos financeiros e dos de suas famílias onde quer que estejam.

Estas várias sanções constam do Ato Adicional A / SA.13 / 02/12, de 17 de fevereiro de 2012, sobre os regimes de sanções contra os Estados Membros que não honram suas obrigações em relação à CEDEAO, e pelo Artigo 45º do Protocolo sobre a Democracia e a Boa Governação.

Nos termos desta decisão, a Comissão bem como o Conselho para a Paz e Segurança da União Africana, a Organização Internacional da Francofonia, a CPLP, a União Europeia e a Organização das Nações Unidas são chamados a dar o seu apoio à CEDEAO na aplicação dessas sanções. Ler mais aqui»

Abuja, 5 de fevereiro de 2018

CEDEAO : Comunicado de Imprensa – Guiné Bissau


À pedido do Presidente em exercício da Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CEDEAO, Sua Excelência Senhor Faure Essozimna Gnassingbe, Presidente da República Togolesa, uma delegação de alto nível, liderada pelo Presidente do Conselho de Ministros da CEDEAO, S.Excia. Prof. Robert Dussey, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Integração Africana da República Togolesa, efetuou uma missão a Bissau, a 31 de janeiro e 1 de fevereiro de 2018.

Fizeram também parte da delegação de alto nível S.Excia Sr. Naby Youssouf Kiridi Bangoura, Ministro de Estado, Secretário-geral da Presidência da República da Guiné, representando o Mediador da CEDEAO para a Guiné-Bissau e S. Excia Sr. Marcel de Souza, Presidente da Comissão da CEDEAO.

O principal objetivo desta missão foi avaliar a implementação dos Acordos de Conakry e Bissau, conforme as decisões da sessão extraordinária da Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CEDEAO, realizada em Addis Abeba, Etiópia, em 27 de janeiro de 2018, à margem da 30ª Sessão Ordinária da Assembleia dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana.

Recorde-se que a Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CEDEAO, na sua Sessão extraordinária de 27 de janeiro de 2018, convidou as partes Bissau Guineenses a cumprir o Acordo de Conakry, caso contrário as sanções coletivas e individuais serão aplicadas a partir de 1 de fevereiro de 2018, contra todas as pessoas ou organizações que entravam o processo de saída da crise na Guiné-Bissau. A Conferência também mandatou o Presidente da Comissão para implementar as sanções e criou um Comité de seguimento das sanções composto pelo Togo, Guiné e a Comissão da CEDEAO.

No final das reuniões e intercâmbios que teve com as diversas partes interessadas da crise, em 31 de janeiro e 1 de fevereiro de 2018:

A Missão constata que a nomeação do Primeiro-Ministro do consenso, conforme preconizado pelo Acordo de Conakry, não foi respeitada. Como resultado, a Comissão da CEDEAO anuncia a aplicação das sanções coletivas e individuais, a partir de 1 de fevereiro de 2018, contra todas as pessoas ou organizações que entravam o processo de saída da crise na Guiné-Bissau, como decidido pela Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CEDEAO, em Adis Abeba, a 27 de janeiro de 2018.

A Missão continua convencida de que, sem a plena implementação do Acordo de Conakry, incluindo a nomeação de um Primeiro-ministro de consenso e a formação de um governo inclusivo, as condições políticas adequadas não estão reunidas para a organização de eleições credíveis, inclusivas e pacíficas.

A Missão lamenta profundamente o não respeito da liberdade de reunião, tal como reconhecido pela Constituição da Guiné-Bissau, bem como pelos instrumentos jurídicos da CEDEAO, da União Africana e das Nações Unidas sobre a matéria. A este respeito, a Missão exorta todas as autoridades da Guiné Bissau a garantir o respeito rigoroso do Estado de direito, dos direitos humanos, incluindo a liberdade de reunião.

A Missão insta as forças de defesa e segurança da Guiné-Bissau a manterem uma posição republicana e a permanecerem neutras em relação aos atores políticos;

A Missão observa com satisfação o nível e a qualidade da colaboração da nossa organização regional com os seus parceiros e lança um forte apelo à União Africana, à CPLP, à União Europeia e às Nações Unidas para apoiar a CEDEAO na aplicação efetiva das suas sanções. Ler mais aqui»

Feito em Bissau a 1 de fevereiro de 2018

domingo, 4 de fevereiro de 2018

IX Congresso do PAIGC: O partido não pode pactuar com a lógica da divisão e da conspiração, diz o líder cessante do partido, Domingos Simões Pereira

«Quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras, chega a pontos de já não poder distinguir a verdade dentro de si mesmo nem ao seu redor, e assim começa a deixar de ter estima de si mesmo e dos outros. Depois, dado que já não tem estima de ninguém, cessa também de amar, e então na falta de amor, para se sentir ocupado e distrair, abandona-se às paixões e aos prazeres triviais e, por culpa dos seus vícios, torna-se como uma besta; e tudo isso deriva do mentir contínuo aos outros e a si mesmo» Dostoevskij,Os irmãos Karamazov, II, 2. 

O Presidente cessante do Partido da Independência da Guiné e Cabo-Verde (PAIGC), afirmou sexta-feira (02.02), que um partido com responsabilidades nacionais como o PAIGC não pode pactuar com a lógica da divisão e da conspiração, numa alusão ao comportamento dos militantes expulsos do partido.

“Um partido com responsabilidades como o PAIGC não pode pactuar com a lógica da divisão e da conspiração. Por isso mesmo, o partido defendeu-se accionando os mecanismos sancionatórios previstos nos seus estatutos. Os militantes faltosos foram sancionados, na sequência de processos transparentes conduzidos pelo conselho nacional de jurisdição do partido”, afirmou Domingos Simões Pereira.

Segundo Simões Pereira, o mau comportamento de um grupo de militantes do PAIGC, associado a esta prática que levou o partido ser arredado do poder pelo Presidente da República, sendo assim o partido simplesmente decidiu accionar os mecanismos sancionatórios previstos nos seus estatutos.

O líder cessante do partido fundado por “Amílcar Cabral”, disse que depois do congresso de Cacheu, cidade situada no norte da Guiné-Bissau, a direção eleita tudo fez para unir o partido e criar as melhores condições políticas para cimentar a sua coesão. Neste sentido, e no imediato, foram tomadas medidas importantes, com o propósito de criar espaços de diálogo para convencer as vozes dissonantes a seguirem a orientação do PAIGC, ou utilizarem os meios democráticos internos a sua disposição para reivindicarem as suas posições.

Para Pereira, apesar do esforço da direção superior do PAIGC, as sementes da desordem, da indisciplina e de uma rebelião começaram a ganhar proporções alarmantes que culminou com expulsão de quinze deputados do partido e demais dirigentes do PAIGC.

“Infelizmente isso nem sempre aconteceu, saímos de Cacheu com a esperança de que o léxico politica tinha mudado, de que a palavra crise desapareceria gradualmente do nosso vocábulo para dar lugar a expressões como unidade, coesão, solidariedade e desenvolvimento, mas na verdade estávamos enganados”, argumentou Domingos Simões Pereira.

Dirigindo-se aos militantes e delegados ao IX congresso ordinário do partido, defendeu que é fundamental que as vozes dissonantes reconheçam que em todas as democracias do mundo é politicamente sensato que se respeite a legitimidade de uma direcção escolhida democraticamente.

“Podemos facilmente imaginar que o processo de consolidação da unidade interna não tenha sido perfeito e que muitos camaradas se sentiram frustrados por não terem obtido do partido as posições que almejavam, mas também há que reconhecer que em todas as democracias do mundo é politicamente sensato que se respeite a legitimidade de uma direção eleita democraticamente, e que se lhe dê tempo para de forma dinâmica liderar um diálogo construtivo com todas as partes para o bem do partido” declarou Simões Pereira, num discurso durante o congresso do PAIGC na presença de vários convidados internacionais, organismos internacionais e o colectivo dos partidos democráticos.

Olhando para o processo socio-político da Guiné-Bissau, numa altura em que faltam três meses para o fim desta legislatura, o líder cessante do PAIGC, reconhece que foi uma legislatura marcada por uma longa crise política, que acentuou ainda a fragilidade das instituições políticas e econômicas e minou os esforços para a estabilização do país.

”Em condições o país estaria a preparar-se para a realização de eleições legislativas em Abril ou Maio deste ano, mas aqueles que usurparam o poder não só insistem em não cumprir o Acordo de Conacri e em não respeitar a Constituição da República, como estão com o receio de devolver a palavra ao povo, invocando todo tipo de argumentos para tentar adiar as eleições”, referiu Simões Pereira.

Visivelmente desapontado com a actual situação da Guiné-Bissau, Pereira considera que foram quatro anos de uma vil desonesta campanha contra o PAIGC, afastamento da governação, perseguições políticas e judicias aos dirigentes, ataques aos símbolos, assaltos as sedes, proibições de manifestações e tentativas desesperadas de impedir a realização do IX Congresso do PAIGC.

Para Domingos Simões Pereira, os promotores desta campanha tinham um único objectivo fazer vergar o PAIGC para poderem materializar os seus propósitos de instaurar um regime autoritário, contra a vontade popular. Contudo falharam redondamente.

“Essas pessoas não contavam com a capacidade de resiliência dos militantes do partido. Não perceberam a verdadeira dimensão do PAIGC porque não conhecem a história deste partido nem a da Guiné-Bissau. Desafiaram-nos, afrontaram-nos de todas as formas, apoquentaram a nossa tranquilidade, tiraram a cada um de nós várias horas de sossego, mas não conseguiram. E não conseguirão porque este partido é o PAIGC”, afirmou o líder cessante do maior partido do país.

Relativamente ao IX congresso, Simões Pereira, relembrou que o lema do congresso, “PAIGC Unido na Disciplina e Pelos Ideias de Amílcar Cabral, ao serviço da paz, estabilidade e desenvolvimento da Guiné-Bissau”, é um forte apelo a unidade interna e ao reforço da coesão, baseada no respeito e observância da disciplina e, ao assumir da responsabilidade de herdar ideologicamente Amílcar Cabral.

“Deste congresso vão, pois, sair os futuros dirigentes do partido, mulheres e homens que terão a responsabilidades de dirigir o PAIGC nos próximos quatros anos, assumindo os desafios de curto e médio prazo, mas também preparando o partido para os desafios de longo prazo. Sonhamos com um PAIGC forte e voltado para o futuro. Um partido aberto, com processos modernos e transparentes. Um partido onde haja mais lugares para os jovens e onde mais mulheres possam ter posições de destaques, por isso mesmo a nossa responsabilidade é enorme”, rematou o Presidente do partido.

De recordar que o IX congresso do PAIGC, ficou marcada com ausência de um grupo de militantes do partido que foi expulso do PAIGC devido a posição que assumiram nesta crise política que já dura a mais de dois anos.

Apesar dos esforços internos e internacionais, o grupo acabou por ficar de fora, apesar de um dos elementos voltar a reintegrar o partido.

Segundo a informação disponível, Domingos Simões Pereira é único candidato a liderança do partido, uma situação fortemente contestada pelos militantes expulsos do PAIGC.

O IX congresso do partido termina hoje (dia 04 de fevereiro 2018), segundo a indicação do presidente da comissão organizadora. Radio Jovens

sábado, 3 de fevereiro de 2018

EM NOME DA PÁTRIA, DA DIGNIDADE E DA SAGRADA ESPERANÇA

... quando o servilismo  for destronado pela competência na guerra de acesso a cargos públicos, quando os novos portadores de esperança se impuserem, quando deixarmos de nos matar uns aos outros só porque não somos capazes de nos entendermos, poderemos, em nome da sagrada esperança, exigir que, definitivamente, “cantem o mar e a terra que a nossa luta fecundou”.

“E enquanto não podemos nos entender
porque só um lado de nós cresceu,
temos de nos matar uns aos outros.”
– Luandino Vieira,
in “Nós, os do Makulusu”


Não há nenhum povo que tenha feito mais sacrifícios para recuperar a sua soberania e dignidade do que o povo guineense. Não conheço nenhum povo que tenha abraçado de uma forma tão decidida e espontânea os ideais de liberdade e independência como o povo guineense. Não consigo imaginar nenhum povo que esteja hoje tão constrangido na expressão da sua dignidade e com a esperança num futuro melhor tão debilitada como o povo guineense.
Abdulai Silá (var. Silla, Sila), (Catió, 1 de Abril de 1958), é um engenheiro, economista, investigador social e escritor guineense.

Filho de Aissatu Baldé e Aliu Silá, Silá nasceu e cresceu em Catió, uma pequena cidade no sul da Guiné-Bissau, onde frequentou a escola primária. Em 1970 mudou-se para Bissau a fim de freqüentar o Liceu Honório Barreto. De 1979 a 85, frequentou a Universidade Técnica de Dresden (Alemanha), onde graduou-se em Engenharia Electrotécnica. De 1986 até à data, participou com sucesso em vários cursos de formação nos EUA e em outros lugares sobre redes de computadores e gestão de LAN, rede de Cisco, segurança na Internet, entre outros. Além da paixão e compromisso para com o desenvolvimento do TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação), acumulou, desde sempre, o interesse pela literatura e escrita.

Abdulai Silá é Co-Fundador e CEO da Eguitel Comunicações. É também co-gestor de Sitec (Silá Technologies), uma empresa de informática que criou em 1987 e gerida em conjunto com o seu irmão. Sob a liderança de Silá, Eguitel e Sitec têm vindo a desempenhar um papel pioneiro no desenvolvimento e difusão das Tecnologias da Informação e Comunicação na Guiné-Bissau, comprometendo várias iniciativas para tornar estas tecnologias acessíveis e de baixo custo em todo o país

A nossa Guiné transformou-se num djongagu com o qual nenhum dos seus filhos parece saber/poder lidar. Mergulhada numa crise cada dia mais profunda – e sem fim imediato à vista – o país tem o presente envenenado, o futuro hipotecado e corre um risco sério de ver o passado contrafeito. De desilusão em desilusão fomos ficando cada dia mais longe daquilo que foi o sonho de emancipação que tanto marcou e empolgou a minha geração.

Como foi isso possível? Como é que conseguimos chegar tão depressa a esse nível de frustração colectiva tão generalizada sem que houvesse alguém ou algo que nos interpelasse, que sacudisse a nossa “consciência patriótica”, que nos levasse a erradicar de uma vez por todas esse macbethiano djunda-djunda pelo poder que a todos tanto entristece e empobrece? Com que magia fomos capazes de transformar, em menos de uma geração, o nobre espírito da luta na famigerada política de the winner takes all?
Será uma mera questão de amontondadi, como insinuam os revoltados cantores de rap? Será porque, profundamente compenetrados nas lutas intestinais pelo poder, nos rendemos à ideologia do tafal-tafal? Ou será que foi simplesmente porque só um lado de nós cresceu?

“Das ist zum kotzen”

Quando comecei a aprender a língua alemã, do zero absoluto, num outono rico de eventos, tinha uma certeza inquestionável: ia dominar aquela língua. Nem os sons de difícil pronúncia, nem a complexa estrutura gramatical, nem tão pouco as exageradamente longas palavras, iam impedir isso. De onde vinha tanta certeza?, pode-se perguntar hoje, mas não naquele tempo. Cinco anos depois da proclamação da independência, era o tempo em que vencer era a nossa sina. Era cidadão de uma orgulhosa ‘nação africana forjada na luta’, onde todo o cidadão voluntariamente se predispunha a dobrar o mundo ao meio, se assim o Partido ordenasse.

Era a oitava língua que estava aprendendo, quatro das quais sem nunca ter tido a oportunidade de recorrer a um dicionário, glossário, ou nada que se lhe parecesse, para descobrir o significado de uma palavra nova. Em quatro ocasiões anteriores tinha-me desenrascado sempre sozinho. Dei-me conta agora de que nunca dantes me tinha dado conta desse facto!

O uso da palavra era arte. E como toda a arte, ela tem uma finalidade: dar expressão aos nossos sentimentos. Visto nessa perspectiva, o significado de uma palavra desconhecida engendrava sempre uma componente de subjectivismo. Talvez por isso, o significado (ou significados) não se perguntava, descobria-se. Perguntar era uma declaração de infertilidade intelectual a que ninguém se atrevia a expor-se. O sentido da palavra desconhecida estava assim sempre ao alcance da nossa imaginação.

Foi com esse espírito de liberdade e criatividade no uso das palavras e expressões que encarei o aprendizado da língua germânica e que me permitiu mais tarde ‘descobrir’ um significado original de uma expressão que passou a ter um valor especial para mim: “das ist zum kotzen”.

Quando, depois de uma experiência laboratorial mal sucedida, ouvi a frase pela primeira vez, algo de extraordinário aconteceu comigo: senti-me reconfortado. Não sabia o que exactamente significava a expressão, mas tive a certeza absoluta que reflectia aquilo que ocorrera instantes antes e o sentimento de fracasso que em mim deixara. Lembro-me perfeitamente de ter repetido a frase, alto e bom som, bem como do efeito paliativo que isso causara em mim. Era a magia que vinha da arte de ‘koba mal’ na língua mandinga, conjugada com a vivacidade da língua balanta.

Mas tarde soube que não era exactamente aquilo que imaginara, que aquela frase significava somente ‘isto é enjoativo’, mas decidi ficar com o significado que inventara. Não encontrava em nenhuma das minhas línguas maternas nada que exprimisse de uma forma tão fiel a sensação de frustração, de revolta, de falhanço (tudo isso ao mesmo tempo), como esta pequena frase. Por isso, perante esse permanente flagelo nesta minha Pátria Amada, stressa-me tanto não ter que, também permanentemente, declarar: Das ist zum kotzen!

A vitória dos ideólogos do tafal-tafal

A situação que o país tem vivido tornou-se uma verdadeira afronta para a quase totalidade dos guineenses, exceptuando, obviamente, os novos guardiães da tabanca, que da anarquia têm feito o seu principal trunfo quer para seu enriquecimento ilícito, quer para a promoção da ideologia do tafal-tafal.

O país que nasceu com tudo para se afirmar como uma nação de “Paz e Progresso” (está registado no Hino Nacional!), transformou-se paulatinamente num extenso ‘kau di tchur’, onde o povo canta chorando e chora cantando. Quem da minha geração seria capaz de imaginar que depois da epopeia da libertação do colonialismo e quando tudo, finalmente, prometia passar a ser pacífico e harmonioso, teríamos que assistir, pequenos e impotentes, a tamanha catástrofe?

Excedendo as previsões mais ‘reaccionárias’ da época, e contrariando as aspirações mais elementares a uma vida digna e condigna, o nosso sol desapareceu cedo demais (1980?) para não mais voltar a arder…  E entre intentonas e inventonas  aos bocados fomos aprendendo a renunciar aos ideais. Ou a traí-los.

Perante a miséria generalizada que se instalou – e como estratégia para se fazer face ao dilema da sobrevivência – tentámos encontrar refúgio onde nunca nos imaginámos. Talvez por isso, a elite política guineense desenvolveu novas habilidades e capacidades. Sem pejo nem pudor, assumiu a mendiguice como um desígnio nacional, perdendo a noção do ridículo e, ainda pior, a consciência de que, ontem como hoje, “por mais quente que seja a água da fonte, ela não cozerá o teu arroz”.

Por isso assistimos ao florescer de artefactos que minam os alicerces da identidade nacional com a maior naturalidade. A fragmentação dos catalisadores da coesão social não nos aflige, nem tão-pouco nos incomodam os recorrentes escândalos no sector da justiça ou o iminente colapso do sistema educativo.Vergamo-nos. Sem honra nem glória…

Daí que quando os novos guardiães da tabanca surgem nas suas vestes de aprendiz de feiticeiro, exuberantes e fanfarrões, até fazem encolher o céu. E a terra, a nossa terra, humilhada e desonrada, manifesta-se ao mundo em toda a sua imensa pequenez. Das ist (wirklich) zum kotzen!

“Some people feel the rain; others just get wet.”

Mas e agora? O que fazer perante tamanho descalabro? Como (sobre) viver com/a tanto kasabi pessoal e colectivo sem enlouquecer ou ter que renunciar aos ideais da juventude? É alimentar a onda ou perseverar na busca dos fragmentos da paixão amputada?

Entre a resignação e o suicídio deve haver certamente uma alternativa mais compatível com os nossos sonhos, mais consentânea com o nosso sentido de dignidade.

Resignar-se é trair. É assumir-se como ‘lan di polon na bentu’, uma atitude que não se coaduna com o estatuto de lambé. Quem um dia teve o privilégio de sonhar com uma nação a ‘renascer das cinzas para se tornar no mais belo jardim do mundo’ não tem a opção de trair. Tem é a obrigação de resgatar a capacidade de sonhar, de fazer ressuscitar a crença na afirmação dos portadores de esperança, mesmo quando essa crença aparente às vezes situar-se para além da utopia.

Utopia? Não, é possível fazer o nosso sol arder de novo! Não, é possível recriar o país com que sonhámos! Não, é possível livrarmo-nos do ciclo de lebsimenti sem companheiro, que tem feito com que até politiqueiros falhados de outras paragens ambicionem aqui dar-nos lições de boa convivência como se bestas fôssemos.

Como? Em nome da Pátria Amada podemos voltar a ter o professor a estudar mais para ensinar melhor; podemos levar o juiz a despir as vestes de gigolô e adquirir sentido de justiça; podemos ambicionar ter uma classe intelectual ciente dos seus compromissos históricos e não tão prostituída; podemos exigir que aqueles que do alto das suas posses decidem sobre a política da energia sejam ao menos conhecedores da lei de Ohm; podemos até recuperar Karache e fazê-la povoar só pelos ideólogos do tafal-tafal e demais apóstolos da desgraça.

Em nome da dignidade, devemos, depois de mais de quarenta anos de pleno exercício do direito à autodeterminação, reclamar maturidade e deixar de ter imbecis a brincar de governantes; devemos, após vinte anos de multipartidarismo estéril, exigir que os votos sejam doados com base em programas de governação assumidos e não na sacrossanta solidariedade étnica.

E assim, quando o servilismo e a vassalagem forem destronados pela competência e mérito na guerra de acesso a cargos públicos, quando os novos portadores de esperança se impuserem e virmos erradicada a política de the winner takes all, quando crescermos – o suficiente e de ambos os lados – e deixarmos de nos matar uns aos outros só porque não somos capazes de nos entendermos, poderemos, em nome da sagrada esperança, exigir que, definitivamente, “cantem o mar e a terra que a nossa luta fecundou”.

Ecoando pelas lalas de Kubukaré e florestas de Kobiana até se confundir com as quedas de Kussilintra, é essa canção que redimirá toda a minha geração, libertando-me a mim desse trauma que suscita a sensação que dá pela expressão ‘das ist zum kotzen’.

Utopia? Mera utopia? Pouco me importo, pois na íntegra subscrevo a posição do escritor e matemático Georg Lichtenberg em como "Ich weiß nicht, ob es besser wird, wenn es anders wird. Aber es muß anders werden, wenn es besser werden soll"[1].

[1] Não sei se será melhor se for diferente. Mas terá que ser diferente para ser melhor.

Intelectuais guineenses manifestam "profunda preocupação" face à degradação do ambiente social e político

Um grupo de intelectuais guineenses publicou hoje uma carta aberta na qual manifestam a sua "profunda preocupação" face à degradação do ambiente político e social no país, fruto de disputas políticas e partidárias.

A carta à que a Lusa teve acesso, é assinada, entre outros pelo escritor Adulai Silá, o economista Carlos Lopes, a linguista Fatima Candé, o ator Welket Bungué, o jornalista e escritor Tony Tcheka, assinala que os subscritores são cidadãos guineenses sem filiação partidária.

Para os subscritores do manifesto, a classe política "não tem medido as consequências" das lutas que tem travado para conquista e conservação do poder, pelo que é lhe pedida que preserve a paz social e consolide a unidade nacional.

Também é solicitada aos políticos que façam tudo, mas que preservem a estabilidade e os valores democráticos consagrados na Constituição do país.

Os intelectuais guineenses enaltecem o desempenho da comunidade internacional, que afirmam, tem feito o suficiente, dentro do seu mandato, no sentido de oferecer uma solução à crise política que persiste na Guiné-Bissau há três anos.

Sublinham que existem sinais de o país voltar a mergulhar em situações iguais às que em 1998 conduziram para um conflito político-militar.

"Face aos recentes acontecimentos ocorridos no país, nós, como cidadãos e intelectuais cientes dos seus direitos e deveres, não desejamos a reabertura de tais feridas", declararam os intelectuais guineenses.


Condenam também a limitação das liberdades dos cidadãos, pedem à comunidade internacional que continue a acompanhar a situação na Guiné-Bissau e exortam os cidadãos que continuem a lutar pela democracia. Com a Lusa

HÁ UM CAMINHO PARA GUINÉ-BISSAU

Amílcar Cabral deixou claro que, com a independência do país, Bissau não iria ser a capital política, e nem o sistema político constituído iria ter ministros e governadores- porque não se iria copiar ou imitar as coisas de gênero, com um risco eminente de estimular a existência de uma pequena burguesia autocrática pronta a tudo fazer para tornar-se uma burguesia impiedosa pronta a subjugar e a explorar, de novo, o povo guineense. Em consequência, Amílcar afirmou um sentido de desenvolvimento colocando, no primeiro plano, o desenvolvimento do meio rural e agrícola, para fazer a justiça e impulsionar a solidificação da classe camponesa majoritária que na sua aliança com a classe operária pudessem manter uma verdadeira unidade do país, e permitir a realização de um desenvolvimento sustentável do povo guineense.- Professor doutor Filipe Benício Namada

Por, Professor Filipe Benício Namada, PhD

Estar presente ouvindo, olhando e refletindo sobre aquilo que atualmente, se vive na Guiné-Bissau, acaba por nos levar a perguntar se no interior do nosso povo existem intelectuais? E, se existe algum caminho traçado que pudesse indicar uma direção a seguir em busca do desenvolvimento para o referido povo? Se intelectuais existem; e se um caminho também existe, porquê de tantas confusões e imbróglios que dão, ao contrário, mais provas de imbecilidade do que a inteligência e racionalidade?

Para encontrar respostas a tantas perguntas, somos obrigados a recorrer, ao percurso histórico da Guiné-Bissau, lembrando-se, sobretudo, que hoje estamos num período histórico da Guiné-Bissau, marcado pelo dia 23 de Janeiro, dedicado à memória dos Antigos Combatentes da liberdade da Pátria Guineense e Cabo-verdiana, da dominação Colonial portuguesa. Para falarmos do percurso histórico da Guiné-Bissau, limitamo-nos ao período dito “moderno” da história do povo Guineense. Período sem nenhuma dúvida, iniciado pelo grande líder Amílcar Lopes Cabral, cujas ideias modelaram a forma, as perspectivas, os instrumentos, a filosofia política e social da luta de libertação. Como, ao mesmo tempo, elas orientaram, passo a passo, degraus em degraus, as diferentes fases dessa luta gloriosa. A razão por que, muito perto da vitória final, desse heroico acontecimento, que surpreendeu o mundo inteiro, os seus inimigos internos do PAIGC, um dos instrumentos da luta fundados por ele, aliados às forças externas eliminaram-no, fisicamente. Aliás, foi assim que, Amílcar Lopes Cabral deu a sua vida para a libertação do povo guineense e cabo-verdiano. Dando, ao mesmo tempo, o dia memorial aos antigos combatentes da liberdade da pátria. Sem esquecer as razões e os objetivos que moveram, quer as forças internas, quer as forças externas, a aliar-se para cometerem referido crime.

As forças internas que viam Amílcar Cabral como obstáculo, à sua participação no poder de Estado, cuja proclamação estava sendo preparada por ele, com a sua eliminação física pensavam poder acaparar-se desse poder de forma a limitá-lo ao serviço dos seus interesses pessoais.

Quanto as forças externas, a liquidação do intelectual cujas ideias se assentavam sobre as qualidades especiais de auto-disciplina e autonegação, que caracterizaram o Amílcar Cabral ao longo do percurso da luta de libertação, era vista como uma vitória benéfica a um dos blocos, tratando-se do período da “guerra fria” entre dois blocos, entre os quais, certos analistas de um dos blocos atribuíram, erradamente, o líder carismático, as intenções de “colaboração” com o bloco inimigo. Essas forças passaram a temer Amílcar, sobretudo, a sua capacidade de fazer gerar, de forma permanente, ideias poderosas, que podiam, uma vez na cabeça de países independentes, fazendo parte da zona, ocidental Africana, transformar-se-ia em sério obstáculo, para o desenvolvimento normal dos seus interesses capitalistas.

Aliás, foram essas suas qualidades de autodisciplina, ou seja, de abnegação consciente para dedicar-se a causa do povo espezinhado, que o significado fez do Amílcar Cabral um símbolo incontestável de grande valor e colocou-o como um exemplo a seguir, quer no percurso da luta de libertação, quer no período pós-independência, que ele designou de execução do “programa maior”, para todos aqueles, que buscam servir, seriamente, o nosso povo. Por outro lado, é preciso reconhecer que, Amílcar Cabral deixou claro que, com a independência do país, Bissau não iria ser a capital política, e nem o sistema político constituído iria ter ministros e governadores- porque não se iria copiar ou imitar as coisas de gênero, com um risco eminente de estimular a existência de uma pequena burguesia autocrática pronta a tudo fazer para tornar-se uma burguesia impiedosa pronta a subjugar e a explorar, de novo, o povo guineense. Em consequência, Amílcar afirmou um sentido de desenvolvimento colocando, no primeiro plano, o desenvolvimento do meio rural e agrícola, para fazer a justiça e impulsionar a solidificação da classe camponesa majoritária que na sua aliança com a classe operária pudessem manter uma verdadeira unidade do país, e permitir a realização de um desenvolvimento sustentável do povo guineense.

É verdade que, com o país independente, Luís Cabral, eleito presidente da república, apesar de ter ficado com medo terrível depois do assassinato do seu irmão, tentou trilhar pelo caminho, traçado por este, pondo em prática algumas das suas ideias. É o caso, por exemplo, do governo de comissários de Estado, da prioridade do meio rural e agrícola, a importância à descentralização, ao ensino, à saúde, etc.

Mas hoje, atento ao cerne de percurso histórico da Guiné-Bissau, constata-se que nem tudo correu bem. Se não, como explicar o aparecimento de dirigentes políticos com atitude de verdadeiros patetas rígidos, ingênuos, sedentos de poder e dinheiro? – Fatores que se transformaram em essência da sua paixão, uma verdadeira forma de prostituição física-espiritual, inserida, politicamente, na administração pública com a independência, há anos para cá, na ausência de uma inteligência que possa presidi-la e à qual possa obedecer. Em consequência, esta forma de paixão, torna-se obstáculo sério a todo o esforço de transmissão de valores à cúpula da referida administração política, que atua sem controlo e, conduz ao fracasso, se não, ao desastre que hoje se vive no país. O que, sem dúvida, demonstra que aconteceu qualquer coisa, de muito sério no percurso da nossa história. Se não, como explicar a atitude política de certos dirigentes, da nossa praça pública que, sozinhos, em situação de paz, não produzem nada útil, por isso, são obrigados a correr à busca de “grandes magos”, ultrapassando todos os limites do “culto da personalidade”? Para além de tentarem, em seguida, convencer a população guineense a confiar nesses seus “magos” de caráter criminoso, como os únicos dirigentes capacitados a conduzi-la ao bom porto. Quando ao contrário, esta tem uma viva consciência daquilo que esses “magos” são, de fato, capazes de fazer: roubar, ameaçar, matar, dividir, corromper com “sacos” de dinheiro etc. Em resposta à última das questões postas, recordamos, da experiência de um dos fundadores da nossa ciência sociológica, Max Weber, confrontado com a realidade sociopolítica que o povo Americano vivia, caracterizada pelo capitalismo moderno, onde dominava a ganância e obsessão com o dinheiro e a riqueza, isto é, com os aspectos do materialismo moderno. Na sua análise da situação, concluiu que houve um comportamento desviante ou seja uma “busca religiosa deslocada” parafrasear Jacob Needleman (1991), em direção aos referidos aspectos materiais da vida, a tal ponto que esse desvio ou deslocação das ideias do cristianismo protestante fomentou, decisivamente, o desenvolvimento do capitalismo moderno.


Relativamente ao caso da realidade guineense, analisada no percurso histórico que o nosso povo conheceu, tendo, sobretudo em conta, que o PAIGC é um dos instrumentos políticos que Amílcar Cabral criou. E porque os seus atuais dirigentes pretendem orientá-lo, como partido, na continuidade das ideias do líder, afirmamos apoiando-se nas ideias do Needleman (1992) para concluir que: As ideias tal como aquelas de Amílcar, são uma força estimulante na sua forma completa e no contexto próprio – não quando utilizadas ou compreendidas, apenas um aspecto delas – porque tornam-se um soporífero ou até uma influência destrutiva. Porque as ideias mais nobres e mais poderosas podem constituir o veneno mais poderoso para espírito e a alma das pessoas, tal como atualmente se verifica com responsáveis políticos da nossa praça pública, atores das crises insolúveis que destroem a unidade, a economia e a paz do povo guineense. Com Odemocrata

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

JESUS QUER CURAR-TE. ACEITA E COLABORA

Jesus está no início da sua vida pública. Como bom judeu, vai à sinagoga onde fala abertamente da novidade que traz em nome de Deus e “limpa” os espíritos de pessoas que manifestavam sinais de forças estranhas e maléficas. Participa na oração oficial, assume o direito à palavra e prega com autoridade. Da sinagoga, espaço religioso, desloca-se para a casa de Simão e André. Deslocação indicativa das suas preferências pela vida quotidiana: encontros no lago, em casas de família, nos caminhos públicos, em refeições, em diálogos pessoais e locais silenciosos. Deslocação que se mantém como referência para os discípulos: conjugar a oração como relação com Deus Pai e a acção de bem-fazer como rosto do querer deste bom Deus. Jesus, desde o início, deixa-nos este belo exemplo.

A casa de Simão Pedro é “uma vivenda de tipo clã, onde habitavam várias famílias com parentesco próximo, distribuídas por quartos/salas em torno a dois pátios interiores com comunicação entre si… Neles, decorria a vida do clã… Quantas imagens bebeu Jesus dessa vida cheia de colorido para ilustrar as suas catequeses sobre o Reino de Deus!”. Sirva de referência o fermento que leveda a massa e a moeda perdida que é encontrada e provoca grande alegria. (Guia de Tierra Santa, História-arqueologia-bíblia, Verbo Divino, p. 325).

Ao regressar a casa, Jesus ouve falar da doença da sogra de Pedro. Vai ao seu encontro, aproxima-se da doente, toma-a pela mão e levanta-a. Não diz palavra. O gesto fala por si e constitui um modelo de relação sanadora. Parece um ritual de curas, sem magias nem exorcismos. O guia de acção está bem delineado por Marcos (1, 29-39): Ir aonde a se encontra a pessoa doente, colocar-se ao seu nível, sobretudo da disposição com que vive o sofrimento e a dor, tocar-lhe como quem comunica a saúde integral de que é portador, agarrar a mão para a erguer na vida, ajudando-a recuperar a dignidade de poder desempenhar as suas funções normais. O que faz à sogra de Pedro, faz Jesus a tantos outros, como bem registam os Evangelhos.

A acção de Jesus desvenda a nobreza de quem cuida das pessoas doentes, dos profissionais bio-médicos, dos filósofos que buscam sentido para a dor, a fragilidade humana, a morte. Manifesta também o alcance da reflexão teológica que tem a cargo fazer compreender, dentro do possível, a presença da dimensão transcendente e o seu impacto no ser humano e em toda a realidade social. Deixa a claro a solicitude dos discípulos missionários que, pelo testemunho de vida, acompanham até ao limite quem sofre e procura alento e esperança de superação.

A novidade do Evangelho de hoje é que Jesus quer curar-nos. Servindo-se de mediações, como faz parte da economia da salvação e a Igreja não cessa de proclamar. Curar-nos da dor sem-sentido e que, como a Job, nos impele a fazer perguntas lancinantes: «Couberam-me em sorte noites de amargura. Se me deito, digo: Quando é que me levanto? Se me levanto: Quando chegará a noite?; e agito-me angustiado até ao crepúsculo». “Este tomar a palavra perante o mal que invade o seu corpo, afirma Manicardi, Comentário, p. 97, não é sufocado por quem está junto do doente com exortações ao silêncio, ou a «não dizer isso», ou a não perturbar, mas é percebido como um momento importante do penoso processo de assunção da crise existencial que se introduziu na vida do homem”. A linguagem do protesto e de contestação torna-se legítima e desvenda a condição frágil da pessoa doente.

Jesus quer curar-nos da indiferença (parece que “mão invisível” impôs um pacto de silêncio em relação às pessoas que sofrem e ao mundo da dor e da morte) e fazer-nos solícitos, próximos, amigos, capazes de dar razões da nossa humanidade e afirmar a nossa fé. Quer curar-nos do peso da inutilidade, da sensação da sobrecarga, do luto das tarefas deixadas, da estreiteza do horizonte sem esperança. Quer curar-nos de tantas outras feridas que agitam o nosso mundo emocional e perturbam o normal funcionamento do nosso organismo. Quer curar-nos e, embora roídos pela dor, sabermos que Deus vela por nós, nos envolve no seu amor e nos alenta com a sua misericórdia. Quer curar-nos abrindo os braços na cruz e mostrando as chagas do coração, fruto do amor que nos tem e liberta.


O Papa Francisco na «A Alegria do Evangelho», lembra que: “Às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros. Espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contacto com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente e vivemos a intensa experiência de ser povo, a experiência de pertencer a um povo. (EG 270).