quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Quem foi Ernestina "Titina" Silá ?


Ernestina "Titina" Silá (TombaliGuiné-Bissau1943 — rio Farim30 de Janeiro de 1973) foi uma guineense, combatente pela independência da Guiné-Bissau do domínio português.[1] É lembrada, com Amílcar Cabral e Domingos Ramos, como as mais famosas figuras da luta pela independência da Guiné-Bissau. Em sua homenagem, e às outras mulheres que combateram pela independência do país, foi instituído no aniversário da sua morte, 30 de Janeiro, o "Dia Nacional da Mulher Guineense"

Em 1963, Titina Silá encontrava-se na Guiné-Conacri e na frente sul, juntamente com Teodora Inácia Gomes, deputada do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde, deslocando-se em agosto desse ano à União Soviética para fazer um estágio político. Voltou pouco depois à Guiné-Bissau, onde deu formação à guerrilha, regressando à União Soviética em 1964 para estudar socorrismo.

Foi morta a 30 de Janeiro de 1973, vítima de uma emboscada, levada a cabo por militares portugueses que a afogaram no rio Farim, no norte da Guiné-Bissau, quando se dirigia à Guiné-Conacri para assistir ao funeral de Amílcar Cabral, morto uma semana antes. Está sepultada no Memorial aos Heróis da Pátria, na Fortaleza de São José da Amura, em Bissau.

Legado

Nos primeiros anos da independência da Guiné-Bissau, na segunda metade da década de 1970, foi dado o seu nome a uma fábrica de compota, fornecendo sumos feitos com frutas de produção nacional, inaugurada na ilha de Bolama por iniciativa do presidente Luís Cabral. Após o Golpe de Estado de 14 de Novembro de 1980, a fábrica "Titina Silá" foi encerrada pelo novo regime, alegando que não gerava rendimento suficiente que a permitisse se autossustentar. Em 2017 a fábrica havia ruído, estando os seus equipamentos inutilizados, e o local transformado em esconderijo de animais.

Em sua memória, no dia 30 de Janeiro de 2003, quando se passavam exactamente trinta anos sobre a sua morte, foi instituído o dia 30 de Janeiro como o "Dia Nacional da Mulher Guineense", um feriado não oficial na Guiné-Bissau, sendo dedicado às mulheres do país. Nesta data, mesmo não sendo um dia oficial de descanso, qualquer mulher que não vá trabalhar não pode ser punida. Com a wikipedia

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Com que facilidade e a ligeireza se condenam a actuação de um militar na Guiné-Bissau?

O termo militar se refere aos membros, instituições, instalações, equipamentos, veículos e tudo aquilo que faz parte de uma organização autorizada a usar a força, geralmente incluindo o uso de armas de fogo, na defesa do seu país através da luta real ou de ameaças percebidas. Como adjetivo, o termo "militar" também é usado para se referir a qualquer propriedade ou aspecto dessas organizações. As organizações militares funcionam muitas vezes como uma sociedade no seio das sociedades, tendo suas próprias comunidades militares, economia, educação, medicina e outros aspectos de funcionamento de uma sociedade civil.
Por: Gen. Dr. Daba Naualna

A facilidade e a ligeireza com que se condena a actuação de um militar, carrega o peso da ignorância que se tem da sua missão e do seu dia-a-dia.

Ele é o único servidor do Estado a quem não é lícito invocar o perigo de vida para não cumprir o seu dever, sob pena de crime de cobardia, previsto e punido no Código da Justiça Militar.

Ser militar é viver cada dia como se fosse último dia da sua vida.

É dar a sua vida em defesa dos demais, mesmo quando esses não nutrem algum sentimento de simpatia para si.

É ser altruísta, oferecendo sem sinalagma o que há de mais sagrado no mundo: a própria vida. Mas mesmo assim, muitos vêm-no como um indivíduo sem eira nem beira, que só abraçou a profissão das armas por falta de alternativas.

Ser militar é tão nobre que as eventuais falhas, mesmo quando disciplinar ou criminalmente sancionáveis, estejam a coberto dessa mesma nobreza.

Em suma, o militar é gente, um amigo para os dias da angústia e um protector em quem pode-se confiar, apesar das suas imperfeições.

VÍCIOS

Se é certo que o vício é uma dependência que se cria gradualmente, até chegar ao estado de quase irreversibilidade. Digo quase, porque não existe vício irreversível. Não será menos verdade que combate-lo é um trabalho árduo que dure o seu tempo, contanto que pelo caminho existam recaídas e recuperações.

Por isso mesmo se um viciado, de verdade, aparecer perante a tua face e dizer-te que, de um dia para outro, deixou vício, sem que tenha transcorrido um período, suficientemente, razoável sobre a data da última dose, desconfie que ele esteja a mentir! O vício não se deixa de um dia para outro, tal como a morte de uma andorinha não faz e nem desfaz a primavera.

Portanto, não lhe confie os teus créditos, porque se um dia as saudades da vida anterior baterem forte ele perderá o discernimento e a lucidez num ápice e, como sempre, o arrependimento chegará tarde.

Vá por mim, meu filho, mudanças bruscas, desconfie sempre

ABERTURA A OUTRA REALIDADE

Se um sapo, nascido dentro de um poço, não tiver a sorte de sair de fundo do mesmo para conhecer outros lugares mais vastos, pensará, na sua ignorância, que o poço onde nasceu é o lugar mais vasto que há no mundo.

Da mesma maneira funciona a cabeça dum preconceituoso, tribalistas, racista e xenófobo.

Todavia, a única coisa, neste mundo, que não têm dono é o povo. Por isso mesmo não é coisa, porque se o fosse teria dono. Então o povo não é coisa!

Povo

A única coisa, neste mundo, que não têm dono é o povo. Por isso mesmo não é coisa, porque se o fosse teria dono. Então o povo não é coisa!

Portanto, a evolução do mundo tem o odor da estupidez dos mais fortes e a frescura dos fracos. Porque o facto final é a verdade! A verdade só liberta se é conhecida e praticada. O contrário, só milagre mesmo.

sábado, 26 de janeiro de 2019

A PROPÓSITO DA APLICAÇÃO EFECTIVA DA LEI DA PARIDADE PELO SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DA GUINÉ-BISSAU

“Todos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres, sem distinção de raça, sexo, nível social, intelectual ou cultural, crença religiosa ou convicção filosófica.” - Constituição da República da Guiné-Bissau no seu Artigo 24º. 
“O homem e a mulher são iguais perante a lei em todos os domínios da vida política, económica, social e cultural.” - Constituição da República da Guiné-Bissau no seu Artigo 25º. 
Por:  Advogado e Consultor Jurídico, Dr. Carlos Vamain

De acordo com a informação veiculada nesta rede social pelo nosso compatriota, o Jornalista Braima Darame, «O Supremo Tribunal de Justiça (STJ), que na Guiné-Bissau também tem as competências de tribunal eleitoral, «está intransigente» em relação aos partidos que ignorarem a obrigatoriedade de apresentar 36% de mulheres nas suas listas de candidatos a deputado». E acrescenta o Jornalista, que: «Fonte do STJ disse à Lusa que «algumas listas» de partidos concorrentes às legislativas de 10 de março, «poderão ser rejeitadas por não respeitarem a quota mínima de 36% de mulheres», conforme a lei da paridade…». A dado passo da notícia, o Jornalista afirma o seguinte: « … é entendimento do Supremo Tribunal que em cada círculo eleitoral os partidos são obrigados a propor 36% de mulheres entre candidatos a deputados efetivos e suplentes.»

Ora, da leitura da Lei n.º 4/2018, aprovada pela Assembleia Nacional Popular (ANP), em 22 de novembro e promulgado pelo Presidente da República, em 3 de dezembro, depreende-se, desde logo, que para o legislador o presente diploma só: (…) tem como finalidade a observação de uma maior igualdade de oportunidade na esfera de decisão, incentivando os partidos a promoverem a paridade entre o homem e a mulher na esfera do exercício de cargos políticos, conforme o disposto no seu Artigo 1º. Isto porque, trata-se simplesmente de uma legislação complementar à nossa Constituição da República (Artigo 24º), a saber: «Todos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres, sem distinção de raça, sexo, nível social, intelectual ou cultural, crença religiosa ou convicção filosófica.» E à esta disposição, acresce o disposto no seu Artigo 25º, que: «O homem e a mulher são iguais perante a lei em todos os domínios da vida política, económica, social e cultural.»

A presente lei de paridade não obriga nenhum partido político a aplicar a lei da paridade, mas unicamente a incentivar os partidos a mobilizarem a participação feminina em actividades políticas numa perspectiva de sua integração nos órgãos de decisão política do país. Uma situação que depende essencialmente das mulheres. Isso porque os partidos políticos não são e nunca serão culpados pela não participação das mulheres nas actividades políticas do país. Neste contexto, o legislador compreendeu bem a realidade do país e decidiu não adoptar a obrigatoriedade da aplicação da presente lei, anomalamente denominada de paridade - que devia tão-só ser denominada por lei de quotas -, mais sim, decidiu fixar a quota para a participação das mulheres em listas para eleições a cargos de deputados em 36%. Em todos os sentidos, trata-se, pois, de uma lei de quotas e não da lei de paridade.

Voltando à essência deste breve artigo de opinião, a própria lei fornece-nos o significado da paridade, que nenhum tribunal pode alterar: «Entende-se por paridade para efeitos da aplicação da presente lei, a representação mínima de 36% de mulher na lista para os cargos electivios (Artigo 4º, n.º1). Já no número 2, deste mesmo Artigo, dispõe que para o cumprimento do disposto no número 1, as listas plurinominais apresentadas pelos partidos não podem conter apenas os candidatos do mesmo género por forma a respeitar a paridade, conforme definida por lei.

O não respeito pelo disposto no Artigo 4º, da lei em causa, não implica a rejeição da lista do partido em participar nas eleições – sob pena de se incorrer na má aplicação da lei e, consequentemente, na má administração da justiça -, mas tão-só, a notificação, nos termos da lei eleitoral, pelo Supremo Tribunal de Justiça, neste caso concreto, ao mandatário do partido em causa para a correcção das listas. E, caso o partido não as corrija no prazo assinado pelo Tribunal, as sanções são apenas as previstas nos artigos 6º, 7º, 9º e 10º, da referida lei de paridade.

E estas sanções apenas dizem respeito, nomeadamente, à afixação pública das listas com a sua desconformidade com a lei; a sua divulgação nos órgãos de comunicação social, a redução do montante das subvenções (Artigo 9º) e a perda de isenções e de benefícios fiscais (Artigo 10ª), que tenham sido concedidos pelo Estado, subentenda-se, ao partido em causa.

Assim sendo, toda e qualquer interpretação em contrário da presente Lei n.º 4/2018, denominada de paridade só poderá contribuir para a perpetuação da instabilidade política no país. Isto porque aos tribunais, enquanto órgãos de soberania só têm a missão da aplicação da lei e não de legiferar, que compete à ANP e ao Governo, nos termos da Constituição da República da Guiné-Bissau (Artigo 91º). Os tribunais têm por finalidade a regulação e a pacificação da sociedade, contribuindo na criação de ambiente favorável para a promoção de investimentos nacionais e estrangeiros visando a criação de empregos, da riqueza e do robustecimento do Estado.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

“HISTÓRIA E DA LUTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL DA GUINÉ-BISSAU DEVE SER RESTABELECIDA”


Presidente do centro histórico da luta de libertação nacional disse que a história da Guiné-Bissau deve ser rescrita e museus devem ser construídos porque a história do país está a ser mudada


No acto da celebração do dia dos combatentes para a liberdade da pátria, Eduíno Sanca, Presidente do centro histórico da luta de libertação nacional, disse que medidas devem ser tomadas para que a história seja restabelecida.

“Praticamente o centro não existe e é o reflexo do nosso passado porque temos tendência de esquecer a nossa memória. Queremos que a história da nossa luta seja escrita e contada porque muitos países estão a mudar a nossa história e hoje em dia até as crianças perguntas da razão pela luta nacional”.

Entretanto, os combatentes pedem o respeito pela história da Guiné-Bissau e denunciam as situações complicadas durantes estas décadas.

Os combatentes pedem a implementação do guichet único e o pagamento das pensões segundo o recenseamento feito em 2009.

“Pensão que recebemos ainda é miserável. Pedimos viaturas para os combatentes e não queremos ser reconhecidas só nestas situações. A história deve ser contada mas as pessoas precisam reconhecer e respeitar a história. Demos unir porque fomos muito mal trados mas algo está por vir e haverá consequências”, alertam os combatentes.

A Guiné-Bissau lembra, hoje (23), o início da luta armada contra o colonialismo, que começou a 23 de janeiro de 1963, dedicado aos "Combatentes da Liberdade da Pátria", que lutaram pela libertação da Guiné-Bissau e Cabo-Verde.

A directora Geral do ministério dos combatentes da liberdade da pátria, Henriqueta Vieira, o ministério não consegue dignificar a vida dos cidadãos tendo em conta as dificuldades enfrentadas.

“Sentimos muito mal quando os combatentes chegam ao ministério numa situação deplorável”, lamenta.

Igualmente o secretário-Geral do Ministério, Bernardo Pinto reconhece que dificuldades são enfrentadas mas os combatentes devem ter esperanças porque o governo já deu passos importantes no aumento de pensão.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

CABRAL HOJE, AMANHÃ E SEMPRE!


Conferência Liderar para Servir: Entre a Mobilização, o Exemplo e o Espírito de Sacrifício.

Por, Dr. Edson Incopté

Ousadia tamanha esta a nossa de RE(A)CORDAR CABRAL, um dia após a data da sua morte (46 anos), sob uma perspetiva tão particular de liderança, como é o caso da liderança pelo serviço.

Porém, a nossa ousadia é motivada por aquilo que entendemos ser uma urgente necessidade de reformularmos, enquanto sociedade e actores políticos e sociais o conceito de liderança.

Pelo que queremos então, com esta nossa ousadia, propor-vos um caminho… um caminho de reflexão cujo destino é a aprendizagem com a história que, pese embora não se repete, dá as gerações uma luz sobre o seu presente, permitindo-lhes compreender, tirar ilações dos erros e acertos do passado, para assim encontrar o alento necessário para enfrentar o presente, na continua luta por um futuro mais prospero.

Mais do que figura de proa da nossa história, Amílcar Cabral é hoje, por si só história – da Guiné-Bissau, de Cabo-Verde, da África e do Mundo! História pela qual podemos muito beber e inspirar; sob diversos prismas. E hoje, importa para nós o prisma da sua liderança, do seu serviço prestado a todos nós.

Como todo o caminho a ser feito tem o seu ponto de partida… comecemos então o nosso caminho pelo ponto primeiro.

PONTO PRIMEIRO: Reflexões sobre o Eu.

"Amílcar Cabral nasceu em Bafatá em 1924, mas seguiria aos 8 anos com o pai para Santiago, para viver com a madrasta e os irmãos (da parte do pai). A mãe o reencontraria dois anos depois para, com muito esforço, se encarregar dos seus estudos…
…se o ambiente familiar influenciou a sua personalidade, a dupla identidade (guineense e cabo-verdiana) e as vivências das crises de seca e fome marcar-lhe-iam o futuro."

A liderança, enquanto processo, tem, inevitavelmente, como ponto de partida, as nossas revoltas, motivações, ambições pessoais. Ou seja, é absolutamente legítimo, termos os nossos interesses pessoais – naturais em qualquer ser humano e Cabral não fugia a regra.

Porém, na legitimidade das suas ambições pessoais, cabe ao líder um exercício de construção pessoal que passa por se conhecer a si mesmo, tendo consciência das suas forças e fraquezas, no sentido de se autodisciplinar, auto-regular, para assim encaixar a si e as suas ambições pessoais num todo colectivo. Só por meio desse encaixe, que o permite agregar os interesses e ambições de outros a sua volta, o líder consegue conquistar a confiança necessária para influenciar, mobilizar e inspirar quem está ao seu redor para o alcance dos objectivos colectivos, onde todos sentem e vêem os seus objectivos pessoais, igualmente, satisfeitos.

Aqui fazemos a nossa primeira paragem, no que nos propõe a conferência: A MOBILIZAÇÃO.

A liderança servidora não se baseia no poder e na autoridade conferida a uma pessoa, mas na confiança do outro, intimamente ligada a capacidade de influenciar, mobilizar, inspirar e motivar de um líder, para o bem do colectivo. Isto é, a capacidade de mobilização de um líder provém da aptidão de fazer com que os outros revejam os seus interesses nos interesses do próprio líder e do colectivo. Gerando assim uma confiança reciproca entre o líder e os seus liderados e entre estes. Isso, por sua vez, pressupõe uma predisposição para estar com e entre os liderados, conhecendo-os particularmente, os seus interesses e aspirações. Um líder que se distancia dos seus liderados, colocando-se num pedestal, perder essa capacidade de estar com e entre os liderados, para assim os conhecer particularmente e os seus interesses e aspirações.

E assim chegamos ao ponto segundo do nosso caminho.

PONTO SEGUNDO: Reflexões sobre o outro.

"Após a morte do pai, em Março de 1952, Amílcar Cabral voltou à Guiné, contratado pelo Ministério do Ultramar como adjunto dos serviços agrícolas e florestais, iniciando os trabalhos na Granja Experimental de Pessube, percorrendo depois a Guiné de ponta a ponta para o recenseamento agrícola…
…é muito provável que esta tarefa de recenseamento tenha exercido uma influência muito profunda no futuro político que veio a ter."

Nessa constante busca do líder pela congregação de interesses e aspirações, cabe-lhe o fundamental exercício de se colocar no lugar do outro. Isso é, a sensibilidade para se rever no outro, fazendo dele parte de nós e de um todo, não lhe sendo indiferente, é catalisador de confiança, sobretudo quando esse outro compreende que tínhamos a nossa disposição outras opções; que seguindo o nosso caminho, teríamos todas as condições para a obtenção do sucesso individual.

E aqui fazemos a nossa segunda paragem, no que nos propõe a conferência: O EXEMPLO.

Na liderança servidora, por ventura, como em tudo na vida, são, em absoluto, as nossas acções e atitudes que nos dão legitimidade para falar! Com elas ganhamos ou perdemos legitimidade. O mesmo é dizer que as nossas ações e atitudes, que se consubstanciam em nosso exemplo, chegam sempre em primeiro e falam muito mais alto do que aquilo que possamos dizer por palavras. Quando as palavras não acompanham a capacidade do líder de ser e dar o exemplo, caí, inevitavelmente, na incoerência: porta pequena de saída de um líder. Pois a incoerência conduz a perda de credibilidade e, consequentemente, de influência, caindo por terra toda a capacidade de mobilização.

E é pelo exemplo que chegamos ao ponto terceiro do nosso caminho.

PONTO TERCEIRO: Reflexão sobre a sujeição.

"Na carta aos camaradas do PAI e da Frente de Libertação da Guiné e Cabo-Verde, de Junho de 1960, Cabral termina pedindo “dêem-me notícias da minha família.”
…Entre outros factos que isso revelam, como a rejeição do trabalho com o regime colonial que lhe garantiria melhores condições de vida, o pedido, expresso na carta, revela-nos mais uma escolha feita por Cabral, em que monstro a capacidade de subordinar e até de abdicar dos seus interesses e ambições pessoais em prol do interesse colectivo."

Ora se no prisma da liderança servidora, é líder aquele que tem a capacidade de congregar interesses e por via disso conquistar a confiança dos seus liderados, é, em grande medida, na capacidade de subordinar os seus legítimos interesses aos interesses do colectivo que reside a sua força. A força que lhe permite tocar e chegar aos outros.

É nessa força que fazemos a nossa terceira paragem, no que nos propõe a conferência: O ESPRÍRITO DE SACRIFÍCIO.

O espírito de sacrifício é algo transversal a todos os grandes lideres que, pela positiva, marcaram a humanidade. É nele que revelam a sua resiliência transmitindo força aos que estão ao seu redor como segurança no percurso definido. Isto é, o líder é a reserva primordial de segurança dos liderados, é nele que vislumbram a garantia de segurança dos seus interesses e aspirações.

Em suma, olhando para os nossos três pontos e para as nossas três paragens ao longo do caminho, compreendemos que a capacidade de MOBILIZAÇÃO, é, em grande medida, fruto do EXEMPLO do líder, é no peso do seu exemplo que reside a sua força mobilizadora, e o exemplo tem, por sua vez, como expoente máximo o ESPÍRITO DE SACRIFÍCIO. É por via deste que o líder revela toda a sua disponibilidade para o colectivo e para a causa comum.

Chegando ao nosso destino, que era a aprendizagem com a história, a história que, por si só, o Amílcar Cabral representa, queremos deixar como registo, para que outros aprendam, que a sua liderança foi, absolutamente, pelo serviço porque teve como alicerces a capacidade de congregar interesses e na vontade de todo um povo, procurar soluções para problemas concretos; porque não se baseou na verticalidade hierárquica ou na lógica de poder individual, mas sim na capacidade de promover um registo relacional e interdependente, que lhe permitiu potenciar as capacidades dos outros a sua volta em prol do bem comum.

CABRAL HOJE, AMANHÃ E SEMPRE!
Muito obrigado a todos.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Luta do povo, pelo povo, para o povo -Amílcar Cabral


"Nós queremos que tudo quanto conquistarmos nesta luta pertença ao nosso povo e temos que fazer o máximo para criar uma tal organização que mesmo que alguns de nós queiram desviar as conquistas da luta para os seus interesses, o nosso povo não deixe. Isso é muito importante." Amílcar Lopes Cabral

Um princípio fundamental da nossa luta é que a nossa luta é a luta do nosso povo, e o nosso povo é que tem que a fazer, e o seu resultado é para o nosso povo.

Os camaradas já compreenderam bem o que é o povo. O problema que pomos agora é o seguinte: Mas o nosso povo está a lutar contra quem?

Claro que a luta dum povo é sua, de facto, se a razão dessa luta for baseada nas aspirações, nos sonhos, nos desejos de justiça, de progresso do próprio povo, e não nas aspirações, sonhos ou ambições de meia dúzia de pessoas, ou de um grupo de pessoas que tem alguma contradição com os próprios interesses do seu povo.

Contra quem é que o nosso povo tem que lutar? Desde o começo nós dissemos claramente. Nós, como colónias de Portugal na Guiné e em Cabo Verde, somos dominados pelo estrangeiro, mas não são todos os estrangeiros que nos dominam e, dentro de Portugal, não são todos os portugueses que nos dominam.

Aquela força, aquela opressão que está a ser exercida sobre nós, vem da classe dirigente de Portugal, da burguesia capitalista portuguesa, que tanto explora o povo de Portugal, como explora o nosso povo. E, como sabemos bem, a classe dirigente de Portugal a classe colonialista de Portugal, está ligada à dominação do mundo por outras classes doutros países, formando juntas, a dominação imperialista. Está ligada ao conjunto das forças capitalistas do mundo que, dominando os seus próprios países, têm necessidade vital de dominar outros povos, outros países, tanto para terem matérias-primas para a sua indústria, como para terem mercados para os seus produtos. Por isso, nós somos dominados pela classe capitalista colonialista portuguesa ligada ao imperialismo mundial.

O nosso povo está, portanto, a lutar contra a classe colonialista capitalista portuguesa e, lutando contra ela, está a lutar necessariamente contra o imperialismo, porque ela é um pedaço, embora pequenino e mesmo podre, do imperialismo. Assim, nós sabemos contra quem é que lutamos. Mas nós enfrentamos o problema não só da libertação mas também do progresso do nosso povo.
“ Cada responsável deve assumir com coragem as suas responsabilidades deve exigir dos outros respeitos e deve respeitar a actividade dos outros. ”

E, nessa base, vemos logo que a nossa luta não pode ser só contra estrangeiros, tem que ser também contra alguma gente dentro da nossa terra. O nosso povo tem que lutar ao mesmo tempo contra os seus inimigos de dentro. Quem? Toda aquela camada social da nossa terra, ou classes da nossa, terra, que não querem o progresso do nosso povo, mas querem só o seu progresso, das suas famílias, da sua gente. É por isso que dizemos que a luta do nosso povo é contra tudo quanto seja contrário à sua liberdade e independência, mas também contra tudo quanto seja contrário ao seu progresso e à sua felicidade.

A luta, na nossa terra, tem que ser feita pelo nosso povo. Não podíamos de maneira nenhuma pensar em libertar a nossa terra, em fazer a paz e o progresso da nossa terra, chamando gente de fora (estrangeiros) para virem lutar por nós. Na Guiné e em Cabo Verde nós é que temos que lutar, nós é que temos que lançar mão de todos os meios para lutar. E assim de facto tem acontecido.

Na conversa hoje vulgar do nosso Partido pergunta-se assim: «tu és povo?» Ele responde: «Não, eu sou exército». «Tu és povo?» «Não, eu sou milícia». «Tu és povo?» «Não, eu sou responsável». Essa é a nossa conversa vulgar, mas toda essa gente é povo. Basta vermos donde saíram os nossos combatentes, os nossos responsáveis, os nossos dirigentes, para sentirmos que todos eles são povo da nossa terra. Como é normal, na luta armada na Guiné, a maioria das pessoas é da Guiné mesmo e, como também é normal, na luta em Cabo Verde, a maioria das pessoas é de Cabo Verde mesmo, porque Guiné e Cabo Verde estão separados pelo mar e não é fácil transferir grandes forças de um lado para o outro.

Mas não há dúvida nenhuma de que é o nosso povo que faz a nossa luta, através dos seus filhos, militantes, dirigentes, combatentes, milicianos, etc. A força fundamental é o nosso povo, ele mesmo. A nossa população, se querem melhor, a população ligada ao trabalho do nosso Partido, mobilizada pelo nosso Partido, organizada pelo nosso Partido, que desde o começo tem alimentado a nossa luta, suportado sacrifícios para a nossa luta, tem sido a força principal da nossa luta. Não era possível fazermos a nossa luta, na época da clandestinidade, se não fosse o nosso povo que nos tivesse feito viver no seu seio como peixe na água.

O inimigo sabe que é o nosso próprio povo que participa na luta, e então faz força para ver se separa aquela parte do nosso povo que é Partido da parte do nosso povo que é população, para poder tirar-nos essa força principal na luta de libertação, que é o apoio das massas populares.

Podemos dizer que a nossa luta tem tanto mais possibilidades de vitória, quanto mais soubermos conservar do nosso lado o apoio das massas populares da nossa terra. Eles também, os tugas, sabem disso, e por isso é que fazem toda a força para nos tirarem esse apoio.

A nossa luta é para o nosso povo, porque o seu objectivo, o seu fim é satisfazer as aspirações, os sonhos, os desejos do nosso povo: ter uma vida digna, decente, como todos os povos do mundo desejam, ter a paz para construir o progresso na sua terra, para construir a felicidade para os seus filhos. Nós queremos que tudo quanto conquistarmos nesta luta pertença ao nosso povo e temos que fazer o máximo para criar uma tal organização que mesmo que alguns de nós queiram desviar as conquistas da luta para os seus interesses, o nosso povo não deixe. Isso é muito importante.

O nosso povo hoje sente bem que a luta é sua de facto, não só porque são os seus filhos que têm as armas nas mãos, não só porque são os seus filhos que vão estudar para se formarem como quadros, enfermeiros, médicos, engenheiros, agentes técnicos, etc., não só porque são os seus filhos que dirigem, mas também porque, mesmo nas tabancas, os milicianos ou a população pegaram naquela coisa principal que simboliza a nossa luta: a arma. Não é por acaso nem por nenhuma outra razão, que a direcção do nosso Partido tem dado armas, cada dia mais, à nossa população. É exactamente para que ninguém crie na sua cabeça a ideia de que só aqueles que pegaram em armas, no exército popular ou na guerrilha, é que de facto lutam para conseguir resultados nesta luta. Quanto mais armas nas mãos da nossa gente, mais certeza para a nossa população e o nosso povo de que a luta é mesmo sua, e menos ilusões na cabeça dos nossos combatentes e dirigentes de que a luta é só para eles.

Nós estamos a lutar para o progresso da nossa terra, temos que fazer todos os sacrifícios para conseguirmos o progresso da nossa terra, na Guiné e em Cabo Verde. Temos que acabar com todas as injustiças, todas as misérias, todos os sofrimentos. Temos que garantir às crianças que nascem na nossa terra, hoje e amanhã, a certeza de que nenhum muro, nenhuma parede será posta diante delas. Elas têm que ir para a frente, conforme a sua capacidade, para darem o máximo, para fazerem o nosso povo e a nossa terra cada vez melhores, servindo não só os nossos interesses mas também os interesses da África, os interesses da humanidade inteira. Por isso mesmo, desde o começo, o nosso Partido lançou mão do melhor caminho que há para isso, que é a organização, baseada na mobilização do nosso povo, a mobilização da população da nossa terra para a luta contra o colonialismo português.

O nosso Partido preparou filhos da nossa terra para mobilizar o povo da nossa terra. Não foi nenhum trabalho de brincadeira. Muitos que aqui estão, rapazes novos, hoje responsáveis do Partido, não podem imaginar quanto foi difícil esse trabalho. Além disso, organizámos, no quadro do nosso Partido, grande parte da população da nossa terra. Essa é que foi e é a força política principal da nossa luta, que deu possibilidades à nossa luta para avançar tanto como tem avançado. E nós temos que preparar o nosso povo, temos que nos preparar, dirigentes e militantes do nosso Partido, os nossos combatentes que se sacrificam hoje, para defender, custe o que custar, as conquistas que o nosso povo está a realizar através da sua luta.

Hoje os filhos do mato da nossa terra, que ontem não tinham opinião nenhuma em relação à sua própria vida, ao seu destino, podem dar a sua opinião, podem decidir, desde a questão dos Comités do Partido, até aos tribunais populares, nos quais os filhos da nossa terra têm mostrado capacidade de julgar os erros, os crimes, e outras faltas cometidas por outros filhos da nossa terra.

Essa é mais uma prova clara de que esta luta é do nosso povo, feita pelo nosso povo e para o nosso povo.

Mas vários camaradas do nosso Partido, tanto altos responsáveis como pequenos, seja até simples combatentes, não têm compreendido isso muito bem. Têm tentado fazer a luta um bocado no seu interesse, eles afinal é que são o povo. A luta é do nosso povo, feita pelo nosso povo, mas para eles. Esse é dos erros mais graves que se podem cometer numa luta como a nossa. Não podemos permitir de maneira nenhuma que as nossas Forças Armadas, os nossos militantes ou os nossos responsáveis, se esqueçam, por um momento que seja, que a maior consideração, o maior respeito, a maior dedicação, devem ser para o povo da nossa terra, para as nossas populações, sobretudo nas áreas libertadas da nossa terra. Quem está disposto a morrer com um tiro qualquer, nesta guerra, mas que é capaz de faltar ao respeito aos filhos do nosso povo, às gentes das tabancas, à população, morre sem saber porque é que está a morrer ou então morre enganado.

Tudo quanto nós possamos fazer na nossa terra para levantar o moral do nosso povo, para dar-lhe mais coragem, mais entusiasmo pelo Partido, isso serve o presente e o futuro do nosso povo, serve o nosso Partido. Tudo quanto se possa fazer para tirar a confiança da população em nós, para castigar a população, para mostrar falta de consideração pela nossa população, para roubar os bens da população, para abusar nos filhos da população, seja homem ou mulher, é o maior crime que um camarada combatente ou responsável pode fazer, prejudicando o nosso Partido, prejudicando o futuro e o presente da nossa terra.

É melhor sermos poucos, mas incapazes de fazer qualquer mal que seja à população da nossa terra, do que sermos muitos, mas com gente capaz de fazer mal. Porque quem, no nosso meio, faz a nossa população virar-se contra o nosso Partido, por exemplo, desconfiar do Partido, perder confiança no Partido, esse é o melhor servidor dos tugas. Talvez ele não entenda, mas ele é o melhor servidor dos tugas que pode haver. E os camaradas sabem —e o que eu estou a dizer não é imaginação —que há camaradas nossos que agiram mal em relação à nossa população.

Felizmente, as coisas têm melhorado muito, porque o Partido tem estado vigilante em relação a isso.

Devemos fixar, portanto, em cada momento desta grande luta que estamos a fazer, duas Mapas:

Uma, contra as classes dirigentes capitalistas colonialistas de Portugal e o imperialismo que querem dominar a nossa terra, económica e politicamente; outra, contra todas as forças, dentro da nossa terra, forças materiais ou de espírito (quer dizer: de cabeça e de ideias), que possam levantar-se contra o progresso do nosso povo no caminho da liberdade, da independência e da justiça. E, para isso, luta corajosa contra os criminosos colonialistas portugueses e vigilância rigorosa contra os agentes imperialistas. Mas também luta permanente e decidida contra aqueles que, mesmo sendo militantes, responsáveis ou dirigentes do Partido, fazem qualquer coisa que possa prejudicar a marcha do nosso povo para a conquista completa da sua dignidade, da sua liberdade e do seu progresso.

sábado, 19 de janeiro de 2019

O vinho de Jesus alegra a festa dos convivas. Aprecia!


“Jesus não se impõe, mas também não se desinteressa do que é humano”

Jesus está no início da sua vida de missionário itinerante. Após a chamada de alguns discípulos, toma parte na boda de casamento de uns noivos em Caná da Galileia, terra a pouca distância de Nazaré. Está lá, Maria, sua Mãe. Os convivas são numerosos e a festa podia demorar uma semana. Há regras a cumprir. O protocolo era minucioso e os participantes observavam-no rigorosamente. O chefe de mesa supervisionava tudo. Os serventes estavam atentos e disponíveis para que nada falte. O programa decorria com grande normalidade. Mas a surpresa acontece. Há sinais de que algo está a ocorrer. E antes que seja conhecido por todos, Maria dá conta, identifica o que é e vai dizê-lo a Jesus. “Não têm vinho!”. Que maravilha! O cuidado da Mãe de Jesus manifesta-se de modo solícito para que a festa prossiga com o entusiasmo inicial e a boda de casamento proporcione alegria a todos, sobretudo aos noivos e familiares. Com Maria, as crises podem ser previstas, e pode ser removido o que lhes dá origem. Ela encaminha tudo para Jesus. Mesmo que a ocasião pareça inoportuna.

Endossado o assunto a quem pode ajudar a resolvê-lo, ela dirige-se aos serventes e exorta-os a que façam o que Jesus lhes disser. Que ousadia! Uma mulher tomar a iniciativa em público, em casa alheia, e credenciar um desconhecido. E os serventes, que boa vontade revelam ao aceitarem obedecer-lhe prontamente. “Fazei o que Ele vos disser”. Nem sequer informam o chefe responsável pelo protocolo. Seguem com prontidão a indicação de Jesus, um estranho: “Enchei essas talhas de água”. Assim fazem e ficam a aguardar nova orientação. “Tirai agora e levai ao chefe de mesa”. Sem temer nada, cumprem a ordem recebida. E dão conta da surpresa agradável do chefe ao provar o vinho novo, obtido por intervenção de Jesus e da sua colaboração. Não reclamam “louros”, nem recompensas extra, nem dizem nada. Apenas partilham a alegria renascida nos corações que se espelha no rosto dos convivas.


João, o único evangelista a narrar este episódio, apoia-se em alguns pormenores históricos e transmite uma mensagem de enorme alcance simbólico. (Jo 2, 1-11). Vamos fazer-nos convivas da festa e deter-nos em alguns pontos mais significativos: antes de mais para nós, chamados à alegria do amor; depois para a família e sua atitude face às crises eventuais, para a Igreja no acompanhamento da caminhada dos casais em matrimónio, para a sociedade na interacção de reciprocidade com as famílias, recebendo e dando energias revigorantes.

“João relata este episódio por causa do seu aspecto simbólico: o casamento é o símbolo da união de Deus com a humanidade, realizada de maneira definitiva na pessoa de Jesus, Deus-e-Homem. Sem Jesus, a humanidade vive uma festa de casamento sem vinho”, afirma a Bíblia Pastoral que prossegue em comentário: “O episódio de Caná é uma espécie de resumo daquilo que vai acontecer através de toda a actividade de Jesus com a sua palavra e acção, Jesus transforma as relações dos homens com Deus e dos homens entre si”.

Jesus não se impõe, mas também não se desinteressa do que é humano. Intervém a partir do que existe: um amor a ser celebrado em casamento por noivos, uma festa de famílias, uma crise a despontar, uns colaboradores a ajudar, uns costumes a observar, umas talhas e umas jarras a utilizar como recursos. E assim realiza a multiplicação do vinho, transformando a água. Assim, quer continuar a fazer connosco: na família, revigorando as relações entre as pessoas, na convivência social reforçando os laços de solidariedade e em tantos outros espaços de vida onde se encontram os seus discípulos fiéis. Nunca estamos sós, nem somos apenas expectadores do que acontece. Temos a missão de observar para agir. Cada caso é uma oportunidade, que não se pode perder. Seria adiar a esperança e alienar a confiança.

Jesus insere-se na tradição bíblica que narra o modo admirável de Deus amar o Seu povo. Ama-o em aliança definitiva e escolhe o amor conjugal como símbolo maior desta relação. Por isso, inicia a sua vida missionária indo a uma boda de casamento, em Caná da Galileia. E realiza o que o episódio nos relata: O primeiro dos sinais de uma série que tem no Calvário a sua expressão maior. Por amor, Jesus doa-se livremente pela salvação de cada pessoa e de toda a humanidade. A esta doação total corresponde Deus Pai com a feliz ressurreição pascal. Os sinais manifestam e comunicam a boa nova de Deus que nos ama como os bons esposos se amam em doação total e definitiva. Que maravilha representa o amor conjugal que, como tantas outras realidades humanas, fica entregue a quem decide casar em aliança, a confiar na vida estável, a dar as mãos, sobretudo nas crises, a crescer em fecundidade criativa, a testemunhar a riqueza de que vale a pena ser colaborador de Deus.

O texto de João afirma ao terminar: “Os discípulos acreditaram n’Ele”. Recém-chamados, fazem uma primeira experiência feliz. Ao longo da vida, farão outras que hão-de ajudá-los a cimentarem esta fé inicial e ficará como referência para todos os que vierem a ser seguidores de Jesus. Para nós, portanto.

Como o ano novo vai avançando no tempo, avancemos nós também na fé que nos leva a apreciar o vinho novo de Jesus que alegra a festa da vida.