terça-feira, 26 de março de 2019

Uma Quaresma para o mundo


«Hoje, sabemos que o jejum e a abstinência contribuem em grande medida para a saúde e até para a beleza. Quanto à espiritualidade, não há dúvida. Significativamente, a sabedoria de todas as religiões esteve sempre aberta ao jejum sadio.»

Reflexão do Padre e Professor de Filosofia, Anselmo Borges no DN

1. Uma ilustre Catedrática da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto entrou em contacto comigo, porque queria saber algo sobre a relação entre o jejum e a espiritualidade.
Lembrei-me então de que estamos na Quaresma. Ela é mais para os católicos, que durante 40 dias se preparam, pelo menos, deveriam fazê-lo, para a festa que constitui o centro do cristianismo, a Páscoa. De qualquer forma, animam-na ou devem animá-la valores que são universais, de tal modo que poderíamos fazer a pergunta: como seria o mundo, se tivesse anualmente a sua Quaresma, tendo na sua base esses valores: jejum, abstinência, oração, silêncio, esmola, sacrifício, conversão?

2. O que se segue é uma breve reflexão que tenta responder a esta pergunta. Começando pela urgência de um retiro. De facto, a Quaresma refere-se aos 40 anos que os judeus passaram no deserto a caminho da Terra Prometida e aos 40 dias que Jesus esteve no deserto, em retiro, preparando-se para a sua vida pública, na qual o centro seria a proclamação, por palavras e obras, do Evangelho, a mensagem da salvação de Deus para todos os homens e mulheres.

Aí está: retirar-se para meditar e reflectir. O que mais falta faz hoje. Quem se retira para fora do barulho e da confusão do mundo, para meditar e reflectir, ir mais fundo e mais longe, ao essencial? O sentido dos 40 anos e dos 40 dias: a libertação da opressão e da escravidão, a caminho da liberdade e, consequentemente, da dignidade. Para a felicidade, evidentemente.

Neste contexto, os valores da Quaresma.

2. 1. Aí está o jejum. Diz o Evangelho que Jesus jejuou durante 40 dias e 40 noites e teve fome. O diabo — é uma maneira de figurar a tentação — tentou-o. Jesus respondeu-lhe: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem de Deus”.
Jejum e espiritualidade? Quem é que, andando em permanentes comezainas e bebedeiras, se vai sentar para meditar e continuar a escrever ou de outro modo qualquer realizar uma obra, entregar-se às coisas do espírito? São Paulo preveniu, na Carta aos Filipenses, contra aqueles cujo “fim é a perdição, o seu Deus é o ventre e gloriam-se da sua vergonha”. E alerta contra os beberrões e a sua degradação.
Mas o jejum não tem que ver apenas com a temperança no comer e no beber. Tem de haver jejum de tanta vaidade ridícula, jejum de tanta insensatez falaz, de tanta cobardia envergonhada, de tanta voracidade egoísta... Ao jejum está ligada a abstinência, que não é só da carne. É preciso abster-se da injustiça, das mentiras, dos interesses partidários e pessoais colocados acima dos interesses do bem comum, abster-se das medidas e dos programas político-partidários eleitoralistas com promessas que se sabe não vão ser cumpridas, de programas televisivos sem sentido e deletérios que degradam nomeadamente a mulher. E aí está uma das contradições brutais do nosso tempo, por causa das audiências e, em última análise, da idolatrização do deus Dinheiro: por um lado, e bem, há toda uma campanha para defender a mulher, mas, por outro lado, ela é humilhada concretamente nesses programas...
Abster-se da corrupção... O Papa Francisco acaba de pedir uma “política sã”, alertando contra a corrupção: “A corrupção degrada a dignidade do indivíduo e destrói todos os ideais bons e belos. Com a ânsia de lucros rápidos e fáceis, na realidade empobrece a todos, minando a confiança, a transparência e a fiabilidade de todo o sistema”. A receita: “transparência e honestidade” para reconstruir “a relação de confiança entre o cidadão e as instituições, cuja dissolução é uma das manifestações mais sérias da crise da democracia.”
Hoje, sabemos que o jejum e a abstinência contribuem em grande medida para a saúde e até para a beleza. Quanto à espiritualidade, não há dúvida. Significativamente, a sabedoria de todas as religiões esteve sempre aberta ao jejum sadio.

2. 2. A oração. Para colocar o ser humano em contacto com o Mistério último da realidade e da vida. Dialogar com o mais fundo da Vida. Estar ligado ao Fundamento, à Fonte, ao Sentido último. Para se não perder na dispersão, completamente desorientado, desorientada, sem referências, perigo maior do nosso tempo.

2. 3. Mas a oração e o que é essencial exigem o salto para fora do barulho ensurdecedor. Que se faça silêncio. Num tempo em que se é invadido e esmagado pelo tsunami das informações, entrando no mundo caótico da dispersão e da fragmentação, da “agitação paralisante e da paralisia agitante”, segundo a expressão do famoso bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, é urgente parar, fazer pausa. Para ouvir o silêncio. Sim, ouvir o silêncio. No meio da vertigem dos vendavais de palavras em que vivemos, que nos atordoam e paralisam, ouvir outra coisa. Ouvir o quê? Isso: o silêncio. Só depois de ouvir o silêncio será possível falar, falar com sentido e palavras novas, seminais e iluminantes, criadoras. De verdade. Onde se acendem as palavras novas, seminais, iluminadas e iluminantes, criadoras, e a Poesia, senão no silêncio, talvez melhor, na Palavra originária que fala no silêncio? Ouvir o quê? Ouvir a voz da consciência, que sussurra ou grita no silêncio. Quem a ouve? Ouvir o quê? Ouvir música, a grande música, aquela que diz o indizível e nos transporta lá, lá, ao donde somos e para onde verdadeiramente queremos ir: a nossa morada. Ouvir o quê? Ouvir a sabedoria. Sócrates, o mártir da Filosofia, que só sabia que não sabia, consagrou a vida a confrontar a retórica sofística com a arrogância da ignorância e a urgência da busca da verdade. Falava, mas só depois de ouvir o seu daímon, a voz do divino e da consciência.
O grande filósofo A. Comte-Sponville é partidário de um “ateísmo místico”, no quadro de “uma espiritualidade sem Deus”. Constituinte dessa espiritualidade é precisamente o silêncio. “Silêncio do mar. Silêncio do vento. Silêncio do sábio, mesmo quando fala. Basta calar-se, ou, melhor, fazer silêncio em si (calar-se é fácil, fazer silêncio é outra coisa), para que só haja verdade, que todo o discurso supõe, verdade que os contém a todos e que nenhum contém. Verdade do silêncio: silêncio da verdade.”
O problema está em que já Pascal, nos Pensamentos, se queixava: “Toda a desgraça dos homens provém de uma só coisa, que é não saber permanecer em repouso num quarto.” Hoje é ainda pior do que no tempo de Pascal. Ninguém suporta o silêncio. Por isso, é preciso constantemente pedir com Sophia de Mello Breyner: “Deixai-me com as coisas/Fundadas no silêncio.”

2. 4. Outra característica da Quaresma era a esmola.
Cá está. Quem fizer silêncio para ouvir o silêncio, também ouvirá os gemidos dos pobres, os gritos dos explorados, dos abandonados, dos que não podem falar, das vítimas das injustiças. E perceberá que se não pode dar como esmola o que pertence fazer como justiça.
E volta-se à corrupção e ao roubo e às injustiças estruturais e aos Bancos que abriram falência e que mataram vidas inteiras de gente que trabalhou e que se sacrificou e que poupou o que pôde e o que não podia e que, no fim, ficou espoliada do pouco que tinha... E, tirando o facto de os contribuintes continuarem a pagar até essas falências e roubos, mesmo que se minta dizendo que não custará aos contribuintes um cêntimo (afinal, quem é o Estado?), não acontece nada. Alguém mete a mão na consciência? Não. Porque já não há consciência... Onde estão os valores da honra e da dignidade?
E ainda perguntam para que poderia servir uma Quaresma para o mundo, incluindo para políticos e banqueiros?

2. 5. O sacrifício. Digo sempre: o sacrifício pelo sacrifício não vale nada. Mas é preciso, a seguir, gritar bem alto, num tempo em que parece que só resta o hedonismo, o prazer imediato, confundindo a felicidade com a soma de prazeres: Nada de grande, de valioso, de humanamente digno se consegue sem sacrifício. Quem quiser realizar uma obra valiosa, viver um grande amor, realizar-se a si mesmo na dignidade livre e na liberdade com dignidade tem de saber que isso não é possível sem sacrifício. Aliás a palavra sacrifício di-lo no seu étimo: sacrum facere: fazer algo sagrado.

3. O que seria o mundo depois de uma Quaresma autêntica? O nosso mundo, o mundo de cada uma e de cada um? Dar-se-ia uma conversão, palavra-chave da Quaresma, que significa mudança de vida, com um novo horizonte de compreensão da existência, do mundo e da transcendência.

domingo, 24 de março de 2019

A seleção da Guiné-Bissau, “Os Djurtus”, conseguiu este sábado o apuramento para a fase final da CAN de 2019, a disputar no Egito entre 21 de junho e 19 de julho.


A seleção nacional de futebol “DJURTOS” qualificou-se na tarde deste sábado, 23 de março de 2019, para o Campeonato de África das Nações (CAN) pela segunda vez consecutiva ao empatar com a sua congénere de Moçambique, por duas bolas [2-2].

A partida disputada no mítico Estádio Nacional 24 de setembro para assinalar a sexta jornada do jogo de qualificação do grupo k colocou a Guiné-Bissau com nove pontos, seguida por Namíbia com oito pontos, os mesmos de Moçambique. A Namíbia, apesar da derrota frente à  Zâmbia por quatro bolas a uma, qualificou-se para o CAN.

O jogo assistido por milhares de guineenses nas bancadas com destaque para o Primeiro-ministro, Aristides Gomes, por líderes políticos e  dirigentes da Federação de Futebol guineense.

Nos primeiros minutos as duas equipas proporcionaram um futebol de qualidade, mas a equipa de casa estava de vantagem. No minuto 11 do jogo, a camisola 18 da Guiné-Bissau, Piqueti Djassi, balançou as malhas dos moçambicanos, através do cruzamento de Frederick Mendes no lado direito.

A partir desse golo, os moçambicanos tentaram reagir no sentido de empatar o jogo, mas os comandados do Baciro Candé não aceitaram e a primeira parte terminou com a vantagem dos Djurtus. 

Logo na segunda parte do jogo no minuto 47, a camisa 44 do Moçambique Stanley, empatou o jogo, em lance de contra-ataque.No minuto 51, juiz de partida atribui cartolina amarela ao Piquete Djassi, devido uma entrada dura para camisa 2 do Mambas.

No minuto 65 Tony Sá Brito, desperdiçou grande oportunidade de golo, fazendo cara a cara com guarda-redes de Moçambique.No minuto 70, a equipa moçambicana, levou em vantagem em termos de posse de bola, fruto desta jogada, camisa 19, Witines, marcou segundo golo da sua equipa, vencendo por duas bolas a uma. O público espectador não se conformou nas bancadas.

Frederick Mendes, o carrasco de Moçambique, voltou a fazer a história, no minuto 90, ao marcar o golo de empate, causando lágrimas junto de atletas moçambicanos no relvado. 

Ainda, camisa 17, João Mário da Guiné-Bissau, voltou a marcar um golo no minuto de desconto, mas o árbitro do jogo o invalidou, ao assinalar fora do jogo. Com Odemocrata

quarta-feira, 20 de março de 2019

“AS FORÇAS ARMADAS REVOLUCIONARIAS DO POVO GUINENEENSE E DA SEGURANÇA DEVEM UNIR-SE PARA GARANTIR INVESTIMENTO CREDÍVEL NA GUINÉ-BISSAU”


Actualmente, parece que o sector da Defesa e segurança é o ultimo reduto da actividade do Estado da Guiné-Bissau que ainda mantém alguma independência e liberdade.

O Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas guineenses, General Biaguê Na N’Tan, apelou esta quarta-feira, 20 de março, à unidade entre as forças de defesa e de segurança como forma de garantir um investimento credível na Guiné-Bissau.

O responsável das forças armadas falava durante uma reunião com as chefias militares de diferentes ramos que constituem as forças armadas guineenses, na qual tomaram parte responsáveis de diferentes estruturas das forças de segurança e chefes militares da ECOMIB.

A reunião visou analisar o papel desempenhado pelo Comando Conjunto durante o processo eleitoral, uma força constituída por elementos do exército, da Guarda Nacional, da Polícia de Ordem Pública e das Forças da ECOMIB e que trabalhou na manutenção da segurança durante o período da campanha eleitoral para as eleições legislativas de 10 de março.

O General Biaguê Na N’Tan disse na sua comunicação que se as forças de defesa e de segurança continuarem unidas como demonstraram, a Guiné-Bissau chegaria aos patamares maiores de paz e tranquilidade a nível da sub-região. Aproveitou a ocasião para exortar os militares a continuarem afastados dos políticos, preocupando-se mais com a capacitação e preparação militar, por ser esse o caminho escolhido para garantir a integridade territorial do país, deixando a classe política resolver os seus problemas.
  
No que diz respeito ao plano de atividade do Estado Maior das Forças Armadas para o ano 2019, Na N’ Tam disse que os militares querem multiplicar as ações realizadas no ano passado, sobretudo as ações de capacitação e formações dos jovens militares e aumentar os hectares para a produção agrícola militar com as máquinas recebidas do governo chinês.

Questionado sobre como está a situação dos militares guineenses sancionados pela comunidade internacional em virtude do golpe de estado de 2012, General Biaguê Nam Tam assegurou que estão a fazer as suas atividades normais, esperando que a comunidade internacional se pronuncie sobre o assunto, quando chegar à conclusão que a culpa não foi deles. Com Odemocrata

POR QUÊ O PAIGC GANHOU E O PRS PERDEU AS LEGISLATIVAS, E QUAIS OS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE GOVERNAÇÃO À VISTA?


Timóteo Saba M'bunde, Possui graduação em Relações Internacionais pela Universidade Vila Velha, é mestre e doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ) e, também, é pesquisador membro do Laboratório de Análise Política Mundial (LABMUNDO). Atua nas áreas de Ciência Política e Relações Internacionais, transitando nos campos de Teorias das Relações Internacionais, Política Externa, Política Internacional e Cooperação para o Desenvolvimento. É autor do livro As Políticas Externas Brasileira e Chinesa para a Guiné-Bissau em Abordagem Comparada (1974-2014): Cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento. A sua agenda de pesquisa atual concentra-se no campo de Política Externa Comparada e Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, abordando a relação entre a Política Externa e a Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e seus desdobramentos políticos e institucionais, particularmente no continente africano.

Com 47 mandatos o PAIGC venceu as últimas eleições parlamentares guineenses, realizadas no passado dia 10 de março de corrente ano. Era uma vitória comemorável, mas um pouco amarga. Era uma maioria relativa, quando o partido falava em uma maioria absoluta, se não conseguisse a qualificada. Teria sido uma arrogância ou estratégia política dos libertadores perspectivar uma maioria qualificada quando os próprios vinham de um processo de sangramento político resultante duma profunda crise interna e que culminou com a dissidência/expulsão de 15 figurões do partido? Diga-se de passagem, um sangramento mal aproveitado pelos renovadores. Na tese do partido, a disciplina havia-se triunfado sobre a indisciplina e os personalismos. E no discurso daqueles que fundariam o Madem G-15 e que em menos de 9 meses conseguiriam a façanha de arrecadar 27 assentos no parlamento, não passariam de vítimas de um emergente leviatã que se propunha a centralizar o partido em torno de si e de seu círculo político. Ambas as narrativas nutriram a crise, desde pelo menos 2015. Os resultados eleitorais revelaram que ao Madem G-15 a considerável parte do eleitor deu razão, mesmo tendo sido o PAIGC interpretado pela maioria (maioria relativa) dos guineenses como vítima da crise e o mais preparado para governar. Essa foi a leitura da maioria dos citadinos da capital.

Como eu disse aos leitores em outras ocasiões, para o pleito, o PAIGC tinha uma narrativa, um discurso difícil de se desarmar e este se fortaleceu mais ainda quando o Presidente da República mostrou-se incapaz de coabitar com governo liderado pelo primeiro mandatário dos independentistas ou ministrado por qualquer um que este escolhesse para o efeito. A lambança presidencial de internacionalizar a crise e sua exploração política pelo partido que patrocinou a chegada de José Mário Vaz, ao palácio em 2014, concedeu de vez a musculatura à narrativa que levou o PAIGC à vitória. Aliás, essa relação de “puxa-estica” política dos últimos 4 anos não rendeu politicamente nada ao PRS, pelo contrário, este jogou um papel contraproducente daquilo que deveria constituir os interesses da própria legenda. Em várias ocasiões escrevi e comentei que o discurso de fator de estabilidade governativa e que justificava o ingresso do PRS em todos os governos era um equívoco político, senão uma falácia de quem queria governar com todos se olvidando de sua essência enquanto um policy seeking party, e não um office seeking party. A postura ambígua e contraditória do PRS foi severamente penalizada, especialmente na capital Bissau. Doravante, ou o partido se refunda das cinzas ou se pulveriza. Volto a esse ponto.

O discurso de disciplina logrou alguma legitimidade, mas não suficiente (vide as 27 cadeiras do G-15). Já o discurso de recuperação de mandato retirado pelo primeiro mandatário da nação e entregue à oposição e aos “amigos” foi, ipsis litteris, compreendido como tal pelo votante de Bissau. Essa narrativa deu ao PAIGC os 47 mandatos – 16, só na capital. Noutras regiões do país, esse discurso não se sustentou muito, muito menos a narrativa de disciplina – ou seja, do fortalecimento da institucionalidade partidária. Acredito que no interior do país tenha havido uma contra narrativa forte do Madem a esse “slogan”. Por agora não adentro no mérito da eventual estratégia utilizada por este último.

Por outro lado, a ligação do mandatário ou mensageiro político de José Mário Vaz, ao PRS produziu efeito bumerangue, como eu havia assinalado antes das eleições. Os renovadores abraçaram a um Botché desacreditado politicamente, tendo em conta a sua história de recorrente metamorfose partidária e, mais recentemente, sua desvinculação do PAIGC e associação ao presidente José Mário Vaz (uma figura desgastada). Embora tenha ocorrido também em Bafatá, a penalização do PRS por se aliar ao “leão de Leste” foi sentida mais em Bissau – reduto eleitoral onde o eleitor tem adquirido cada vez mais uma percepção crítica e sofisticada do cenário político do país e dos players que nele jogam. Associado a tudo isso, o partido fundado por Koumba Yalá não conseguiu apresentar o seu futuro chefe de governo ao eleitor, o que deixava transparecer, primeiro, a inaptidão para governar e, segundo, as clivagens nas suas estruturas, panorama sustentado pelas recorrentes especulações de isolamento no partido de algumas figuras de peso. Nomes como Florentino Mendes Pereira, Artur Sanhá, Sori Djaló, entre outros, eram citados com frequência como os mais descontentados e descontentes com o andar da carruagem de agremiação de milho e arroz. Alberto Nambeia seria, conforme mandam os estatutos do partido, o futuro primeiro-ministro em caso de vitória. Um calcanhar de Aquilis dos renovadores na concepção de bissauenses.

O PAIGC explorou esse cenário, colando estrategicamente o nome de seu futuro primeiro-ministro em uma campanha para eleições legislativas, não presidenciais. Por contar com um enorme capital político acumulado, o nome de Domingos Simões Pereira era apresentado em contraposição ao nome de Alberto Nambeia, presidente de seu principal rival político. Nambeia, um dos pioneiros do PRS, visto como um paladino de paz, não apresentava atributos acadêmicos e técnicos suficientes em uma sociedade cada vez mais exigente. Sua associação a Botché Candé ampliou a imagem de uma frente dos menos ou não preparados contra aquela liderada por Simões Pereira, ex-secretário executivo da CPLP. O cabeça de lista de Madem G-15, Braima Camará, conseguiu reduzir esse abismo no que toca à interpretação dos votantes em relação à distancia de preparo entre os principais nomes do pleito. Não em Bissau. Em Bissau a disparidade era gritante. No interior, vários fatores, que podem merecer uma outra análise, deixaram parelhada a disputa.

Se o cabeça de lista era um outro nome menos badalado, talvez o PAIGC não chegasse a esses números. Mas também com o Domingos Simões Pereira não se passou dos 47. Maioria Relativa que lhe fez urgente e religiosamente implorar por um acordo com o APU-PDGB, UM e PND que lhe possibilitasse ter 54 cadeiras. Uma maioria absoluta apertada. Aliás, apertadíssima. Com 54 parlamentares, o partido vê, a priori, limitações para a aprovação de diplomas mais ambiciosos e de grandes reformas, mormente aqueles que requerem maioria absoluta qualificada. Volto a esse ponto para concluir a presente abordagem.

O APU-PDGB de Nuno Gomes Nabiam, que obteve 5 mandatos, números abaixo das expectativas, mas muito importantes para viabilizar a governação, resolveu costurar uma coligação com o PAIGC, como também podia o fazer com o PRS e o Madem G-15 – não faltaram ofertas e propostas para isso, evidentemente. Sem entrar no mérito de o PAIGC ter chegado ou não a tempo para apresentar sua proposta, o mais importante é analisar as possíveis implicações dessa coligação em conformidade com a nova configuração parlamentar.

Vejo a escolha de APU-PDGB como reflexo da concepção de um partido que interpreta o PAIGC, nesse momento e a curto prazo, como não seu adversário político direto. A médio prazo, mais precisamente a longo prazo, se o partido liderado por Nuno Nabiam se consolidar, passará a ver o PAIGC como adversário imediato. A coligação com o partido vencedor e não com o segundo e terceiro colocados é para colocar na oposição os dois, especialmente o PRS (com quem disputou o mesmo eleitorado), tentando se consolidar e disputar a condição de segunda força partidária, saindo em vantagem nos próximos embates. Se não houver nenhuma mudança radical, o PRS terá que suportar ficar fora dos gabinetes por quatro anos. Tarefa muito difícil, mas não impossível.

Sem trocadilho, o renovadores, como nunca, devem se renovar. Reestruturar a sua cúpula e criar um fato novo capaz de permitir com que o pedido de benefício de dúvida ao seu eleitorado seja atendido. Se isso não acontecer – acredito que ocorrerá – o partido se estagnará, para não dizer que se apequenará ainda mais ao longo dos próximos quatro anos. Após a realização do citado trabalho de casa, será normativo e politicamente produtivo os renovadores fazerem uma oposição responsável, o que passaria primeiramente pela capacidade de controlar o curral de parlamentares, para que de lá não haja fuga de deputados para se associar a bancada governista. Em sintonia com o Madem G-15, o êxito político pode ser logrado através de uma oposição responsável, mas também rigorosa e séria. A responsabilidade seria votar a favor de aprovação de programa e orçamento de governo que tomará posse nos próximos dias. Do ponto de vista do exercício político de oposição, penso que é possível que os dois partidos desgastem o governo, como mandam os clássicos manuais da política, na prossecução de seus mais importantes diplomas por aprovar – sobretudo aqueles cuja aprovação requererá maioria qualificada.

O governo que será empossado entrará em execução tendo que administrar a coligação e governar: duas missões. Desgastantes. A iniciativa do PAIGC de protocolar e depositar o acordo de coligação junto das instâncias internacionais governamentais expressa uma tentativa de comprometer seus pares junto destas, como forma de os constranger em um eventual ensaio de desembarque do governo. É uma tentativa plausível e útil, entretanto não suficiente. Em política, o princípio “rebus sic stantibus” ainda tem seu lugar. Penso que os independentistas terão que falar baixo aos seus pares da coligação e fazer cedências, mas também é possível que o PAIGC tente cooptar parlamentares do PRS e, até mesmo, do Madem G-15. Mas o recíproco também é verdadeiro e exequível. Sobretudo do Madem G-15 aos parlamentares do PAIGC – seria difícil devido à tônica da disciplina implementada, mas não completamente descartável. É possível também constatarmos migração de mandatários da nação do PRS para APU-PDGB, o que tenderá a ser um pouco mais difícil caso o devido trabalho de casa recomendado for feito pelo PRS. Um novo PRS.

domingo, 17 de março de 2019

GUINÉ-BISSAU CONQUISTOU DUAS MEDALHAS DE OURO NOS MUNDIAIS DAS OLIMPÍADAS ESPECIAIS


A Guiné-Bissau conseguiu fazer a história nos Jogos Mundiais das Olimpíadas Especiais que decorrem em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. As atletas nacionais Fidélia Cabral e Elizandra Jacinta Moreno Garces Gomes conquistaram ontem, 16 de março de 2019, duas medalhas de ouro nas provas de atletismo feminino de 200 metros.

A turma nacional teve a participação de quatro atletas nestes Jogos Especiais que celebram todos os atletas com deficiências intelectuais, independentemente de seu nível de habilidade.

A edição 2019 que decorre de 14 a 21 de março conta com a participação de 7 000 atletas de mais de 170 nações competindo em 24 desportos de estilo olímpico sancionados oficialmente.

Os Jogos Olímpicos Especiais são realizados faz 50 anos. É um movimento humanitário que acontece anualmente através de atividades relacionadas ao desporto e visa proporcionar uma variedade de programas para promover a inclusão social dentro e fora dos jogos.

A Guiné-Bissau participa este ano pela primeira vez, depois de ser admitida no ano passado pelo Movimento Special Olympics International, segundo informou a direção da Special Olympics Guiné-Bissau (SOGB).

Eleições Legislativas na Guiné-Bissau: PAIGC vence legislativas de 10 de Março com 47 mandatos

 Partido Africano da Independência da Guiné-Bissau e Cabo-Verde (PAIGC)  venceu as últimas Eleições Legislativas de 10 de março com 47 mandatos, contra os 27 do Movimento para a Alternância Democrática (MADEM-G 15), 21 do Partido da Renovação Social (PRS) e 05 da Assembleia do Povo Unido- Partido Democrático da Guiné-Bissau (APU-PDGB).

Os resultados provisórios divulgados esta quarta-feira, 13 de março, em Bissau, dão ainda um mandato à União para a Mudança (UM) dirigido por Agnelo Regala   e o Partido da Nova Democracia (PND) de Iaia Djaló conseguiu também um mandato para os próximos quatro anos da décima legislatura.




A nova fisionomia de Jesus


«Escutar Jesus, reconhecendo que a razão humana apesar das suas aspirações legítimas, tem limites e pára às portas do mistério que revela outros horizontes da vida»

Após a crise de Cesareia de Filipe, fruto do diálogo tenso de Jesus com o grupo dos apóstolos, a relação entre eles fica abalada. A opção de Jesus é clara: avançar para Jerusalém, sofresse o que sofresse, mesmo a morte por condenação, enfrentar as autoridades religiosas e civis, reafirmar o amor ao Reino de Deus e à verdade do ser humano, provocar um novo estilo de vida em convivência solidária com todos. A dos discípulos, liderados por Pedro, também é clara: ver Jesus triunfar e ser senhor, partilhando com eles a sua vitória. A discórdia é total e mostra-se sobretudo nos meios a usar, nos passos a dar, no embate final a travar (de que será um símbolo o episódio da espada no Jardim das Oliveiras.

Passaram seis dias, informa Marcos, indicando o tempo decorrido para os discípulos “digerirem” o anúncio da opção de Jesus. Não será tanto a duração temporal que o relator quer realçar, mas a intensidade psicológica e espiritual da experiência vivida. Tempo suficiente para a crise ser digerida. Tempo que termina com um acontecimento excepcional, a Transfiguração, de que fala o evangelho de hoje (Lc 9, 28-36).

Jesus resolve antecipar um vislumbre da sua Ressurreição. Toma consigo Pedro, Tiago e João. Sobe à montanha, o Tabor. Enquanto ora, transfigura-se. Altera o aspecto do rosto e faz brilhar as vestes com brancura inigualável. Conversa com Elias e Moisés que, entretanto, lhe aparecem. É identificado por uma voz que se faz ouvir com autoridade: “Este é o Meu Filho amado. Escutai o que Ele diz!”.

Lucas, o narrador, faz notar o que acontece durante a oração. A relação de Jesus com Deus Pai é tão íntima e profunda que se torna visível no rosto e nas vestes. Simultaneamente aparecem Moisés e Elias, símbolos das escrituras litúrgicas, e conversam sobre o futuro próximo: a morte de Jesus. Fazem-se eco da tensão de Cesareia, rememoram o que está escrito nos livros sagrados, que destacam a figura do Messias e o que para ele converge. Sinalizada e anunciada esta missão, retiram-se, deixando o “espaço” todo a Jesus. De facto é o centro do processo de salvação que se visualiza no quotidiano da vida e nas celebrações sacramentais.

Do monte Tabor a Jerusalém há um longo percurso a fazer. Geográfico, mas sobretudo psicológico e espiritual. E em todos os passos é preciso escutar Jesus: nos silêncios e nas palavras, no olhar e no sorrir, no estar e no ausentar-se, nos gestos de proximidade e de entrega. O desenho do seu perfil perpassa por muitos traços que lhe dão um colorido que resplandece na cruz da ressurreição.

Tendo como referência o percurso dos discípulos, podemos apresentar alguns traços do nosso caminho espiritual, especialmente no tempo quaresmal. Escutar sempre Jesus, mas sobretudo quando temos o nosso espírito nublado pelas dúvidas e incertezas, pelas vozes gritantes na arena pública e pelos silêncios roedores das redes sociais, pelos impulsos decorrentes da natureza descontrolada e pelos sonhos cruzados da fantasia libertina. Ele é luz, paz, verdade (salmo).

Escutar Jesus, reconhecendo que a razão humana apesar das suas aspirações legítimas, tem limites e pára às portas do mistério que revela outros horizontes da vida. Os discípulos discutiam o que queria dizer “ressuscitar dos mortos”. Esta discussão estará sempre em aberto. Jesus, porém, indica-nos o caminho para a resposta certa. Indica, percorre e faz, deixando a “porta” franqueada.

Escutar Jesus, valorizando a consciência humana de toda a pessoa, independentemente da condição social ou étnica, e ajudando-a a limpar de toda a interferência indevida para ser livre na sua opção pela verdade do ser e do agir. Assim a dignidade natural de cada um/a brilhará na sinfonia das criaturas e do universo. A melodia da cruz far-se-á ouvir de novo na confiança filial: “Tudo está consumado!”.

As monjas de São Bento de Montserrat fazem um bom resumo da mensagem do Evangelho da Transfiguração no seu powerpoint desta semana. Eis alguns pontos da sua reflexão. Com fé, podemos ver Jesus transfigurado em cada pessoa. A luz é sempre mais forte do que as nossas obscuridades. Transfigurar-nos é viver o Evangelho e ter olhos de profeta. Só viveremos a Transfiguração, se aprendermos a levar uma vida transformada: da indiferença à solidariedade e da amargura à alegria. Ver Jesus transfigurado é preparar o escândalo de o ver desfigurado na cruz. A nossa missão é descobrir e reconfigurar a sua nova fisionomia em cada rosto humano. É abraçar a paixão do amor como resposta à sua doação incondicional por nós. Há tanto a fazer por amor, não achas!