domingo, 12 de maio de 2019

Papa convoca jovens para um encontro sobre a economia «que não mata»


«A economia de Francisco» é o tema do evento que pretende reunir estudantes e empreendedores de todo o mundo, em março de 2020, na cidade de Assis

O Papa Francisco convocou “jovens economistas, empreendedores e empreendedoras de todo o mundo” para um encontro em Assis, nos dias 26, 27 e 28 de março, sobre o tema “A economia de Francisco”, a que “faz viver e não mata”.

Numa carta divulgada pela Sala de Imprensa da Santa Sé, o Papa convida os jovens para uma iniciativa que “deseja há muito” e que permita conhecer quem estuda e tenta começar a praticar “uma economia diversa”, que “faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida a criação e não a despreza”.

“Um evento que nos ajude a permanecer juntos e a nos conhecermos e que conduza a um pacto para mudar a atual economia e a dar uma alma à economia do amanhã”, escreve.

O Papa considera que Assis é a cidade “mais adequada” para procurar uma nova economia por ser “símbolo e mensagem de um humanismo da fraternidade” e “ícone da uma cultura de paz” em torno de São Francisco.

“A sua escolha de pobreza originou uma visão da economia que permanece atualíssima. Ela pode dar esperança ao nosso amanhã, para benefício não só dos mais pobres, mas de toda a humanidade”, acrescente o Papa.

Francisco lembra a sua carta encíclica ‘Laudato si’, onde afirma que o cuidado com a “casa comum” não pode ser  “desligado da justiça em relação aos pobres e da solução dos problemas estruturais da economia mundial”.

“É preciso, por isso, procurar os modelos de crescimento capazes de garantir o respeito pelo ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado da família, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores, os direitos das futuras gerações”, considera o Papa.

Para o Francisco, ainda não foi “escutado” o apelo da “gravidade dos problemas” nem começou a ser implementado “um novo modelo económico”, que se baseia na “cultura da comunhão”, na “fraternidade e na equidade”.

Francisco afirmou que “todos, mesmo todos” são chamados a “mudar esquemas e mentais e morais” em ordem ao bem comum, querendo agora convidar “de um modo especial” os jovens.

“Com o vosso desejo de um futuro belo e alegre, vós sois já a profecia de uma economia atenta à pessoa e ao ambiente”, disse o Papa a respeito dos jovens.

“A vossa universidade, a vossa empresa, as vossas organizações são locais de esperança para construir outra forma de entender a economia e o progresso, para combater a cultura do descarte, para dar voz a quem não a tem, para propor um novo estilo de vida”, acrescentou o Papa.

Francisco desafia os jovens a um encontro em Assis para “promover em conjunto”, através de um “pacto comum”, um “processo mudança global”, concretizado por todos os jovens, independentemente do credo e das nacionalidades, “unidos pelo ideal da fraternidade, atento sobretudo aos pobres e aos excluídos”.

“Convido cada um de vós a ser protagonista deste pacto, assumindo um compromisso individual e coletivo para cultivar, em conjunto, o sonho de um novo humanismo que corresponda às expectativas dos homens e ao desígnio de Deus”, afirma Francisco.

“Tenho esperança que respondam. E tenho esperança sobretudo que vós, jovens, sejais capazes de sonhar e começar a construir, com a ajuda de Deus, um mundo mais justo e mais belo”, concluiu o Papa.

Escutar e seguir Jesus, o Bom Pastor


“Escutar Jesus, é o mesmo que interessar-se pelo que diz e obedecer-lhe ao que escuta; conhecer as ovelhas indica uma relação de mútua compreensão e aceitação...

Jesus está em Jerusalém e passa pelo Templo no pórtico de Salomão. Decorria a festa da Dedicação que fazia a memória da sua re-consagração, após a profanação ordenada pelo Rei Antíoco IV. Um grupo de judeus questiona Jesus sobre a sua identidade. O diálogo é longo com perguntas muito directas e respostas cada vez mais pertinentes. João apresenta-o no capítulo 10 e a liturgia de hoje destaca os versículos 27-30, centrados na relação singular que explicita aquela identidade. É a relação recíproca entre Ele e Deus Pai, entre Ele e os discípulos, Entre Ele e os que vierem a seguir os seus passos. (O seu rebanho, em linguagem pastoril).

João, o evangelista, recorre a uma parábola que fica conhecida pela parábola do Bom Pastor que cuida zelosamente do rebanho. Usa a linguagem do tempo. Familiar e expressiva. E nesta passagem traduz aquela relação nos verbos escutar, conhecer e seguir. E, em jeito de justificação, acrescenta: “Eu e o Pai somos um”.

“Escutar, anota J. M. Castillo (La Religión de Jesús, ciclo c, p. 199). é o mesmo que interessar-se pelo que diz e obedecer-lhe ao que escuta; conhecer as ovelhas indica uma relação de mútua compreensão e aceitação; seguir define a forma de vida do discípulo que se fia de Jesus, deixa tudo por Ele e identifica a sua vida com a do pastor, como o pastor identifica a sua com a daqueles que pastoreia” Que grandeza de mensagem e simplicidade de comunicação! Constitui uma estimulante referência para todos os tempos, pondo em realce os traços marcantes dos que são chamados a, em nome de Jesus, serem pastores na humanidade, sobretudo na Igreja. Escutar é a primeira característica do discípulo pastor. Expressa a atitude permanente de quem vive a relação fundante.

Seguir Jesus é escutar a sua voz que nos chega de tantos modos: no rosto das pessoas, na beleza da natureza, nas feridas dos maltratados e em tantos outros cobertos de chagas; no ambiente familiar que cultiva o amor terno e fecundo, nos espaços educativos que promovem os valores integrais; na leitura da Bíblia e na celebração do domingo – dia que Lhe é especialmente consagrado – e na participação da eucaristia e em tantos gestos de bondade solidária e cristã. Seguir Jesus é estar atento aos factos e acontecimentos, descodificar o seu significado, prever os seus efeitos e a sua repercussão na dignidade da pessoa humana, na sociedade e na Igreja. Seguir Jesus é estimar a consciência individual e abrir-se à relação com outros, a fim de a confrontar em diálogo sincero e esclarecedor. Atitude que vai crescendo, felizmente.

Há atitudes diferentes em cristãos que dificilmente sintonizam com o Evangelho. Enumeram-se algumas: menosprezar a consciência e a sua responsabilidade ética; reservar à hierarquia o que diz respeito à Igreja, sobretudo no desempenho da missão; considerar os/as leigos/as eventuais “tarefeiros” quando solicitados; achar que os católicos divorciados-recasados não devem ter acesso a funções ou serviços na comunidade eclesial. Cultivar um olhar pessimista em relação à evolução da humanidade, dando a impressão de que o Espírito Santo foi “de férias” e tarda em voltar.

Hoje, celebra-se o dia Mundial das Vocações, dia especial para escutar a voz do Bom Pastor. O Papa Francisco, dirigindo-se aos Jovens, destaca a importância do encontro com o Senhor que desperta um novo fascínio na vida, exorta a que não se deixem contagiar pelo medo que paralisa a vista dos altos cumes e lembra que o Senhor promete a alegria duma vida nova que enche o coração e anima o caminho.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

A Igreja é uma canoa, não é um museu


“Queridos jovens, ficarei feliz vendo-vos correr mais rápido do que os lentos e temerosos. A Igreja precisa do vosso entusiasmo, das vossas intuições, da vossa fé. Fazeis-nos falta. E, quando chegardes aonde nós ainda não chegámos, tende paciência para esperar por nós.”

Padre e professor de Filosofia, Anselmo Borges, no DN

No Sínodo de Outubro passado, em Roma, um jovem proveniente das ilhas Samoa, disse que a Igreja é “uma canoa, na qual os velhos ajudam a manter a direcção, interpretando a posição das estrelas, e os jovens remam com força, imaginando aquilo que os espera mais além.”

Na recente “Exortação Apostólica Pós-Sinodal Cristo Vive aos jovens e a todo o Povo de Deus”, inspirada nas reflexões e diálogos do Sínodo, incluindo opiniões de jovens de todo o mundo, crentes e não crentes, o Papa Francisco retoma a imagem da canoa, para acrescentar: “Não nos deixemos levar nem pelos jovens que pensam que os adultos são um passado que já não conta, que já caducou, nem pelos adultos que julgam saber sempre como é que os jovens se devem comportar. É preferível que todos subamos para a mesma canoa e que entre todos procuremos um mundo melhor, sob o impulso sempre novo do Espírito Santo.”

A pastoral só pode ser sinodal, isto é, caminhando juntos, dado que a Igreja somos todos e cada um deve contribuir com os seus carismas e a sua situação. “Ao mundo nunca aproveitou nem aproveitará a ruptura entre gerações.” Só com os contributos intergeracionais se poderá construir um mundo novo e uma Igreja aberta. Lá diz o ditado: “Se o jovem soubesse e o velho pudesse, não haveria coisa que não se fizesse”.

O Papa apela aos jovens para que não esqueçam as raízes: “É fácil ‘sumir-se no ar’ quando não há onde agarrar-se, onde apoiar-se.” Não devem seguir quem lhes peça que desprezem ou ignorem a História. Quem faz isso “precisa que estejais vazios, desenraizados, desconfiados de tudo, para que só confieis nas suas promessas e vos submetais aos seus planos. Assim funcionam as ideologias de diversas cores.” E previne-os contra outro perigo: a adoração da juventude e do corpo. “Os manipuladores utilizam outro recurso: uma adoração da juventude, como se tudo o que não seja jovem se convertesse numa coisa detestável e caduca. O corpo jovem torna-se o símbolo deste novo culto, e, então, tudo o que tiver que ver com esse corpo é idolatrado e desejado sem limites, e o que não for jovem é olhado com desprezo.

Queridos jovens, não aceiteis que usem a vossa juventude para fomentar uma vida superficial, que confunde a beleza com a aparência. Há formosura para lá da aparência ou da estética da moda, em cada homem e em cada mulher que vivem com amor a sua vocação pessoal.”

Por outro lado, Francisco desafia a hierarquia, bispos e padres, para que dêem protagonismo às novas gerações. A pastoral juvenil precisa de adquirir outra flexibilidade e de convocar os jovens para eventos, para acontecimentos que de vez em quando lhes ofereçam um lugar onde não só recebam formação, mas que também lhes permitam partilhar a vida, celebrar, cantar, escutar testemunhos e experimentar o encontro comunitário com Deus.” Para se renovar, a Igreja precisa de estar atenta aos jovens, aos seus anseios, aos seus traumas, aos seus problemas, às suas dúvidas, aos seus erros, à sua história, à sua busca de identidade, às suas experiências de pecado e todas as suas dificuldades.

Não se pode esquecer que, “para muitos jovens, Deus, a religião e a Igreja são palavras vazias, no entanto, eles são sensíveis à figura de Jesus, quando esta é apresentada de modo atraente e eficaz.” O Sínodo reconheceu que “um número consistente de jovens não pede nada à Igreja porque não a consideram significativa para a sua existência. Alguns, inclusive, pedem expressamente que os deixem em paz, visto que sentem a presença da Igreja incómoda e até irritante.” Isto implica que a Igreja tem de reconhecer humildemente que muitas coisas têm de mudar e, para isso, “também precisa de ter em conta a visão e também as críticas dos jovens.” Eles “reclamam uma Igreja que escute mais, que não passe a vida a condenar o mundo. Não querem ver uma Igreja calada e tímida nem tão-pouco que esteja sempre em guerra por dois ou três temas que são para ela uma obsessão.”

A Igreja não pode pôr-se na defensiva, porque “uma Igreja na defensiva, que perde a humildade, que deixa de escutar, que não permite que a ponham em questão, perde a juventude e converte-se num museu.” E Francisco dá o exemplo da relação da Igreja com as mulheres: ela precisa de prestar atenção às “legítimas reivindicações das mulheres que pedem mais justiça e igualdade. Pode recordar a História e reconhecer uma longa trama de autoritarismo por parte dos homens, de sujeição, de diversas formas de escravidão, de abuso e de violência machistas. Nesta linha, o Sínodo quis renovar o compromisso da Igreja contra todo o tipo de discriminação e violência sexual. É essa a reacção de uma Igreja que se mantém jovem e que se deixa colocar em questão e impulsionar pela sensibilidade dos jovens.”

O Papa não se cansa de clamar: Jovens, “vós sois o agora de Deus. Não podemos dizer apenas que os jovens são o futuro do mundo. São o presente, estão a enriquecê-lo com o seu contributo.” Deus é “o autor da juventude e actua em cada jovem. A juventude é um tempo abençoado para o jovem e uma bênção para a Igreja e para o mundo. E uma alegria, um cântico de esperança e uma bem-aventurança.” Apreciar a juventude implica vê-la como um tempo valioso em si mesmo e não como mera etapa de passagem para a idade adulta. De qualquer modo, “neste período da vida, os jovens são chamados a projectar-se para a frente sem cortarem as suas raízes, a construir autonomia, mas não na solidão.” Neste sentido, o Papa adverte-os contra as ofertas desumanizantes: “São muitos os jovens ideologizados, utilizados e aproveitados como carne para canhão ou como força de choque para destruir, amedrontar ou ridicularizar outros. E o pior é que muitos se convertem em seres individualistas, inimigos e desconfiados de todos, que assim se tornam presa fácil de ofertas desumanas e planos destrutivos elaborados por grupos políticos e por poderes económicos.” Daí, o apelo: “Não deixes que te roubem a esperança e a alegria, que te narcotizem para utilizar-te como escravo dos seus interesses. Atreve-te a ser mais, porque o teu ser é mais importante do que qualquer outra coisa. Não te serve ter ou aparecer. Podes chegar a ser aquilo que Deus, teu Criador, sabe que tu és. Assim não serás fotocópia. Serás plenamente tu próprio.”

Francisco reconhece as dificuldades dos jovens no mundo actual: “Ainda mais numerosos são os jovens que padecem formas de marginalização e exclusão social por razões religiosas, étnicas ou económicas. Recordamos a difícil situação de adolescentes e jovens que engravidam e a praga do aborto, bem como a difusão do HIV, as várias formas de dependência (drogas, jogos de azar, pornografia, etc.) e a situação das crianças e jovens da rua, que não têm casa, nem família, nem recursos económicos.” Perante estas situações, convida cada um a interrogar-se: “Eu tenho aprendido a chorar?” Porque não podemos ser “uma Igreja que não chora frente a estes dramas dos seus filhos.”

Consciente de que “a moral sexual costuma ser, muitas vezes, causa de incompreensão e afastamento da Igreja, visto que é percebida como um espaço de julgamento e de condenação”, o Papa não podia deixar de reflectir sobre a problemática do corpo e da sexualidade, que têm “uma importância fundamental para a vida dos jovens e no caminho de crescimento da sua identidade.” Chama a atenção para que, “num mundo que enfatiza em excesso a sexualidade, é difícil manter uma boa relação com o próprio corpo e viver serenamente as relações afectivas.” “Ao mesmo tempo, os jovens exprimem um desejo explícito de se confrontarem sobre as questões relativas à diferença entre identidade masculina e feminina, à reciprocidade entre homens e mulheres e à homossexualidade.” O Papa convida a superar “tabus” sobre o sexo e a sexualidade, que apresenta como “um dom de Deus”, com o propósito de “amar-se e gerar vida.” E, neste contexto, reflectindo sobre os avanços das ciências e das NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas), lembra as novas interrogações antropológicas e éticas que se levantam e como facilmente se pode ser instrumentalizado por quem detém o poder tecnológico.

Outro desafio é o da digitalização. “A Web e as redes sociais criaram um modo novo de comunicação e de vinculação, e são uma praça na qual os jovens passam muito tempo e facilmente se encontram, embora o acesso não seja igual para todos, de modo particular em certas regiões do mundo.” O Papa não pode deixar de reconhecer as vantagens da digitalização, mas não deixa de advertir que se trata de uma realidade atravessada por ingentes interesses económicos e por limitações e carências, como, por exemplo, o perigo da perda de sentido crítico. “Não é saudável confundir a comunicação com o mero contacto virtual. Com efeito, o ambiente digital também é um território de solidão, manipulação, exploração e violência, até ao extremo da dark Web.” A imersão no mundo virtual pode tornar-se “uma espécie de migração digital, isto é, um afastamento da família, dos valores culturais e religiosos, que leva muita gente a um mundo de solidão e de autoinvenção, até ao ponto de experimentarem uma falta de raízes, mesmo permanecendo fisicamente no mesmo lugar.” Trata-se de um novo desafio: “interagir com um mundo real e virtual, em que os jovens penetram sozinhos, como num continente global desconhecido. Os jovens de hoje são os primeiros a fazer esta síntese entre a pessoa, o próprio de cada cultura e o global. Isso requer que consigam passar do contacto virtual a uma boa e sã comunicação.”

No capítulo quarto, o Papa expõe “três grandes verdades”, que todos permanentemente precisamos de escutar. A primeira: “Deus ama-te. Independentemente do que te aconteça na vida, não duvides disso, és sempre infinitamente amado.” A segunda: “Cristo entregou-se, por amor, até ao fim para salvar-te.” A terceira: “Mataram-no, mas Ele venceu. Ele está vivo. O mal não tem a última palavra.” “Cristo vive” é o título da Exortação.

Os dois últimos capítulos, oitavo e nono, são dedicados à vocação e ao discernimento. “Somos chamados pelo Senhor a participar na sua obra criadora, prestando o nosso contributo para o bem comum a partir das capacidades que recebemos.” Na procura da sua vocação, os jovens não deverão pensar apenas no dinheiro. E lembra o livro bíblico de Ben Sira: “Não há pior do que aquele que é avaro para si mesmo.”

Conclui, com um desejo: “Queridos jovens, ficarei feliz vendo-vos correr mais rápido do que os lentos e temerosos. A Igreja precisa do vosso entusiasmo, das vossas intuições, da vossa fé. Fazeis-nos falta. E, quando chegardes aonde nós ainda não chegámos, tende paciência para esperar por nós.”

sábado, 20 de abril de 2019

Jesus, o Ressuscitado por Amor


O túmulo de José de Arimateia recebe os restos mortais de Jesus de Nazaré. A autoridade manda rolar a pedra de protecção e destaca um piquete de vigilância. Os amigos voltam a suas casas e pensam iniciar um novo ciclo de vida. Apenas um grupo de mulheres, de que se destaca Maria Madalena, faz o luto, recordando o tempo da sua companhia. Tudo parecia arrumado. Mas a surpresa surge ao raiar da madrugada do terceiro dia.


Madalena e algumas das suas companheiras fazem uma visita ao túmulo. E encontram as coisas desarrumadas. Ficam inquietas e procuram uma explicação. O sobressalto acalma quando ouvem o anúncio feliz: Não está aqui. Ressuscitou! A notícia chega aos apóstolos Pedro e João, que vão confirmar o sucedido. E a partir deles, muitos outros o comprovam, como exemplificam os textos bíblicos. O Ressuscitado provoca vários encontros e atesta quem é: O Crucificado que o Amor fez ressuscitar. Agora somos nós as suas testemunhas!

“Uma leitura inteligente dos Evangelhos, e depois de todo Novo Testamento, conduz à conclusão de que… Jesus foi ressuscitado por Deus em resposta à vida que viveu, ao seu modo de viver no amor até ao extremo: poderemos dizer que foi o seu amor mais forte do que a morte – amor ensinado aos discípulos ao longo da sua vida (com toda a sua vida!), e depois condensado no novo mandamento: «Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei» - a causar a decisão do Pai de chamá-lo da morte à vida plena” Enzo Bianchi.

O amor vence a morte. Ainda que o ódio gere violências de todo o tipo na vida terrena, a sua vitória é fugaz, apesar das ruínas que provoca. Há sempre um amanhã, o da confiança inteligente, o do sentido da vida, o da missão recebida, que nos abre as portas do futuro. Jesus Cristo é a sua garantia definitiva selada por Deus na ressurreição. O desejo profundo de viver comporta a fragilidade de morrer, antecâmara da vida nova, abundante e feliz.

A Páscoa da ressurreição é a festa por excelência. Faz-nos celebrar as surpresas de deus em Jesus. Naquela manhã, torna-se visível que a vida vence a morte e o amor é mais forte do que o ódio. Há provas claras desta verdade que a história regista, mas sobretudo o “livro de Deus”. Vamos rememorar quatro que foram testemunhas das aparições do Ressuscitado e nos transmitem uma bela mensagem de boas Festas Pascais.

As mulheres, lideradas por Maria Madalena, vão ao túmulo e dão conta de que algo estranho tinha acontecido. Queriam prestar os últimos cuidados religiosos e legais aos restos mortais de Jesus. Eram guiadas pela saudade e pela memória do coração. Estavam presas a um passado com recordações inesquecíveis. Mas, vão viver uma experiência singular que precede muitas outras de que nos falam os Evangelhos.

Maria Madalena “acorda” a aurora. A morte é para ela estímulo de vida. Não se conforma com tudo findar com a pedra que fecha todas as entradas. E vai, procura, dialoga, ouve respostas estranhas. “Busca a memória do amor na morte e encontra-a na vida. Descobre que só na vida se encontra o Ressuscitado”. Que alegria! Vale a pena pensar nisto.

Tomé enaltece o valor da dúvida. Questiona as razões da fé e abre caminho à sua consistência. Apoiada no diálogo e na presença de testemunhas, atinge uma nova dimensão: da aparência “mergulha” na realidade. E Tomé exclama perante o Crucificado ressuscitado: “Meu Senhor e meu Deus!”. Que esperança! Vale a pena persistir a interrogar a dúvida.

Pedro depara-se com uma segunda oportunidade, após o fracasso da negação no pretório de Pilatos. É o amor afirmado e reafirmado junto ao lago de Tiberíades que sela a aliança definitiva e se faz veículo da missão que Jesus ressuscitado lhe confia. A amarga derrota cede lugar à mais brilhante vitória. Que força contém o amor! Experimenta!

Os discípulos de Emaús: da desilusão ao entusiasmo. A crucifixão mata-lhes as últimas esperanças. Desistem e regressam à sua terra. Pelo caminho, ajudados por um estranho Peregrino, passam o filme dos factos recentes, escutam explicações fundadas, sentem o coração a vibrar, fazem uma refeição conjunta e, não podendo conter-se mais, regressam à cidade, onde os outros estão reunidos e contam-lhes como o Ressuscitado os acompanhara na viagem. Que descoberta agradável e que liberdade segura! Ousemos confiar! Boas Festas de Páscoa!

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Descolonizar nossa visão eurocêntrica sobre a Africa é com a leitura de autores como o queniano Thiong’o


Resta em nossa educação um misto de preconceito e prepotência acerca do que é “cultura de qualidade” ou “cultura superior”. A resistência às literaturas africanas é reflexa dessa educação colonizada.

Os anos de colonização do continente Africano são o principal motivo para o estranhamento expresso na pergunta: “por que não Literatura Africana?”. De fato, apesar de a literatura produzida em África ter traços de irmandade continental devido, sobretudo, ao laço de expropriação e exploração que une os povos da terra, é impossível tratar o assunto no singular. São Literaturas Africanas. Outro efeito pós-colonial, advindo da imensa massificação cultural à qual somos submetidos, é permitir que ainda hoje se confunda um continente com um país; os países africanos vão muito além das savanas míticas povoadas por animais ferozes e povos famintos. Se assumirmos a produção literária como uma das características fundamentais da maturidade artística e intelectual de um povo, o continente africano precisa sair do imaginário coletivo como exportador de escravos e imagens de guerra para ser reencontrado como produtor de cultura.

Meus estudos cobrem especialmente os países de “língua inglesa”. Por mais que as tentativas de extinção dos idiomas nativos estivessem na ordem do dia dos processos coloniais, as línguas locais sobreviveram e são um aspecto textual surpreendente das literaturas com suas múltiplas formas de hibridismo. África do Sul, Gana, Quênia e Zimbábue compõem meu campo de pesquisa, desde a defesa de minha dissertação em estudos literários, em 2013. Infe­lizmente, a maioria dos romances ainda permanece sem tradução para o português, porém, a crescente pesquisa acadêmica no campo dos chamados estudos pós-coloniais e a necessidade de se incluir a História e a Cultura Africana e Afro-brasileira nos currículos escolares, por meio da lei 10.639/03, indicam que, mesmo lentamente, as coisas estão mudando.

Outros sintomas da mudança são o surgimento da Associação Internacional de Estudos Críticos Literários e Culturais Africanos (AFROLIC) e do Encontro Nacional de Professores de Literaturas Africanas, cujo último evento ocorreu em dezembro passado, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Aos poucos, nomes como Mia Couto, Pepetela, Craveirinha, Agualusa e Paulina Chiziane começam a fazer parte do vocabulário dos leitores brasileiros. Evidentemente, o fato de esses autores escreverem prioritariamente em português facilita o acesso, e há um mercado editorial apostando, com riscos calculados, na entrada deles nas nossas livrarias e bibliotecas. É importante salientar, que entre estrelas visíveis e invisíveis o único problema é a distância. Em nosso caso, além da distância linguística, há, principalmente, a distância mental. Resta em nossa educação um misto de preconceito e prepotência acerca do que é “cultura de qualidade” ou “cultura superior”.

Um dos autores mais conhecidos, no universo da língua inglesa, é o queniano Ngũgĩ Wa Thiong’o. Seu romance “Weep not child” foi homenageado pelo seu cinquentenário, na 40ª Conferência da Associação da Literatura Africana (ALA), na universidade Witswatersrand, Johanesburgo, em 2014. Thiongo possui alguns livros importantes que foram traduzidos para o português como “Petals of blood” e “A Grain of wheat”, e outros fundamentais ainda não traduzidos, como o “Decolonising the mind”, publicado no Quênia, em 1986. O último nos interessa como fundamentação teórica para compreender as bases da resistência aos conteúdos referentes à África.

Descolonizar indica o processo pelo qual uma colônia recupera ou adquire sua independência com a retirada do poder colonial. No entanto, o legado da ordem colonial permanece preso no corpo social. Ngũgĩ wa Thiong’o, no seu “The Language of African Literature”, primeiro capítulo do livro “Decolonising the mind”, dirá que “a noite da espada e das balas foi seguida da manhã do giz e do quadro negro”. Ressalta-se que a escola colonial, juntamente com as missões, cumpria com um papel central no processo de controle e ordenamento das sociedades sob domínio europeu, porém, os modelos de escola colonial variavam de acordo com a metrópole e do país. O que elas tinham em comum era o conhecimento como marca distintiva da elite e seu caráter restritivo, tanto na forma quanto no conteúdo.

Flora Veit-Wild, especialista em Literatura do Zimbábue, afirma em seu, “Teachers, preachers non-believers”, que para ascenderem na sua qualificação educacional, os alunos deveriam sair do processo “washed white” , ou seja, o processo de imposição da língua, da cultura e da religião havia atingido seu objetivo quando os garotos saiam do ensino fundamental tendo adotado as “regras, gostos e crenças de seu professor cristão”. A escola assume, nesse contexto, a responsabilidade de colonizar os nomes e as paisagens mentais, mudando o eixo de representação da realidade local, para uma eurocêntrica. Interferindo na percepção das pessoas sobre elas mesmas e o mundo. Para Thiong’o, o “controle econômico e político nunca são completos sem controle mental.” Portanto, a discussão sobre a descolonização da escola continua premente, seja no Zimbábue, Quênia ou Brasil. Como diz Thiong’o:

“A língua da educação escolar de uma criança africana era estrangeira. A língua dos livros que ele lia era estrangeira. A língua de sua conceituação era estrangeira. O pensamento, dele, tomou uma forma visível de uma língua es­tran­geira. Assim como a língua escrita de uma criança e­ducada na escola (mesmo a língua falada na escola do vilarejo) se separou da linguagem falada em casa. Não havia nem a mínima relação entre o mundo da escrita da criança, que também é linguagem de seu quadro letivo, e o mundo de sua relação com a família e o ambiente. Para uma criança colonial, a harmonia que existe entre os três aspectos da linguagem como comunicação foi irrevogavelmente quebrada. Resultando assim na dissociação da sensibilidade da criança com seu ambiente natural e social, o que se pode chamar de alienação colonial. A alienação se reforçou nos ensinos de história, geografia, música na qual a burguesia europeia era sempre o centro do universo.” Com o Jornal Opção

segunda-feira, 15 de abril de 2019

De Jerusalém para o mundo


Jesus sabe que a sua vida corre perigo e pressente que os últimos dias estão a chegar. A paixão por dar a conhecer a novidade do Reino de Deus, de que é portador/realizador, leva-o a ser criativo, a inventar maneiras, ainda que apoiando-se em citações e reminiscências dos profetas. A paixão por despertar a consciência ensonada dos responsáveis políticos e religiosos impele-o a empreender novas ousadias, a enfrentar armadilhas fatais. A paixão por desvendar ao povo humilde a verdade do que está a acontecer leva-o a apresentar-se montado num jumento na cidade de Jerusalém. Esta realidade constitui o pórtico da Semana Santa que, hoje, se entreabre com a bênção e procissão dos Ramos e a proclamação da narração da Paixão segundo Lucas (Lc 22, 14 - 21, 56).

Jesus está nas imediações do monte das Oliveiras, na aldeia de Betfagé, vindo de Betânia, terra do amigo Lázaro e sua família. Sonha com uma nova oportunidade e quer criar um facto histórico de grande alcance simbólico. Chama dois discípulos e diz-lhes: “Ide à povoação que está em frente e, logo à entrada, vereis um jumentinho preso…Soltai-o e trazei-o” (Lc 19, 30). Eles assim fizeram.

E o sonho converte-se em realidade. Entregam o animal a Jesus, preparam a montada, estendendo pelo dorso capas de protecção. Jesus sobe e começa a procissão rumo a Jerusalém, cidade do Templo que está ao alcance da vista. Os acompanhantes e outros peregrinos vão-se incorporando e o barulho aumenta. Capas estendidas, ramos de verdura agitados, gritos de hossana e outras aclamações são sinais da sua alegria e do seu entusiasmo. Cena, agora, evocada nas famílias e comunidades cristãs, a testemunhar a robustez da convicção religiosa e da fé católica numa sociedade que se afirma laicizada e, em que grupos aguerridos, teimam em impor a sua ideologia intolerante.

Jesus, na sua pedagogia de mestre, gosta de recorrer a ditos e sentenças, a parábolas e metáforas, e a outras formas de comunicação familiares à cultura semita e acessíveis à mentalidade dos ouvintes. O grão de trigo, a serpente erguida e o templo surgiram nas leituras dos últimos domingos Hoje, é o jumento e o cortejo para a cidade. E Ele a ser protagonista. Mais tarde vêm os escritos oficiais que são memória fiel da substância da mensagem de Jesus, com algumas modulações das comunidades e dos autores dos Evangelhos. Modulações que não alteram, mas configuram em algumas situações.

“De maneira simples e espontânea, Jesus é aclamado como Rei-Messias. Despojado dos tradicionais aparatos dos reis, Ele apresenta-se de modo humilde e pacífico. Traz consigo a inversão de um sistema que se apoia na violência e na força das armas, e que defende os privilegiados. Por isso, as autoridades tentam calar aqueles que aclamam Jesus como o Rei que traz a verdadeira justiça (Comentário da Bíblia Pastoral a esta passagem de Lucas).

A aclamação dos acompanhantes a Jesus ecoava pela encosta do monte e vale do Cédron. “Bendito o que vem em nome do Senhor”, a citação do salmo 118, ressoava às portas da cidade e anunciava a libertação esperada. O jugo estrangeiro será quebrado. O tom triunfalista brota do coração de cada um e irmana a todos na aclamação comum. “Ninguém pensava que para recuperar a paz da humanidade com Deus, em Deus e no interior de cada um, seria necessário buscá-la na cruz em que o Filho desse mesmo Deus haveria de assumir, com o seu amor, o maior conflito da humanidade: a própria morte. (A. D. Ruiz, Homilética, 2018/2, p. 176).

E ainda hoje custa muito, mas dá enorme alegria, aceitar a cruz como caminho da luz, a firmeza da convicção e a mansidão do coração como afirmações da fé confiante, a disponibilidade serviçal como atitude constante que mergulha as suas raízes no legado que Jesus nos deixou.

Jesus, em Betânia, prevê o seu futuro imediato. Com realismo razoável. Sem fantasias doloristas, nem ingenuidades “simplórias”. Com amor apaixonado pela nossa salvação. Seria bom poder acompanhá-lo no seu processo de morte que faz brilhar a esperança da ressurreição. Quem puder participar nas celebrações litúrgicas, aproveite e abra o coração agradecido e reze em assembleia. Quem tiver de ficar por casa, pare uns instantes perante a televisão e veja alguma transmissão referente à paixão do Senhor Jesus. Quem estiver no seu trabalho profissional, procure sentir-se em comunhão com todos/as os que, com o seu esforço abnegado, colabora na construção da sociedade humanizada querida por Deus. Que cada um/a possa dispor de um tempo de interiorização, de silêncio contemplativo, de adoração afectiva. Aproveitemos a oportunidade para criar um espaço libertador do frenesim da vida corrente.

A Paixão do Senhor convida-nos a saborear outras dimensões do amor de doação. O domingo de Ramos constitui o pórtico principal da Semana Santa em que vão desfilando intervenientes com atitudes humanas muito interpelantes e envolventes. E a morte dará lugar à Vida para sempre. Mensagem envolvente que, de Jerusalém, irradia para todo o mundo em cada dia.

Boas Festas Pascais. Aleluia!

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Jesus, a sós, com a mulher adultera


“Quem dentre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra”

Jesus vem do Monte das Oliveiras, onde tinha pernoitado. É de manhã cedo. A cidade desperta para um novo dia portador de uma nova esperança. Em frente, ergue-se o Templo, centro da vida religiosa e social, memória de uma história atribulada, presença viva de acontecimentos notáveis, que, em breve, irão consumar-se na tragédia do Calvário e, sobretudo, no vazio surpreendente do túmulo de José de Arimateia.

Chegado ao Templo, Jesus senta-se na esplanada. João, 8, 1-11, faz o relato numa narração que parece de repórter, evidenciando a importância da cena. O povo vai-se reunindo e Jesus inicia os seus ensinamentos. Acorrem também escribas e fariseus acompanhados por uma mulher forçada que, sem demoras, acusam de adultério, de ter sido apanhada em “flagrante”. O centro da atenção transfere-se imediatamente. Os ouvintes tornam-se expectadores. A acusada sente-se observada e incriminada. Os acusadores fazem-se porta-vozes da indignação pelo delito ocorrido. E Jesus suspende o que faz, acolhe quem chega, escuta com ouvidos do coração, “desacelera” a pressa e a emoção e começa a marcar o ritmo do processo.

Que pedagogia de Mestre! Que exemplo nos deixa, sobretudo neste tempo de vozes cruzadas em que parece ter razão quem fala mais ou enfeita melhor!

O silêncio, acompanhado de uns gestos expressivos, vai indiciando a resposta desejada. Nem a insistência o força a pronunciar-se. Livre, como é, toma a palavra que faz de “espelho” a quem acusa e remete o assunto para a consciência pessoal. “Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?”

Que feixe de sentimentos terá provocado esta acusação/declaração! Na mulher que vê a sua vida oculta ser tornada pública, nos fariseus e escribas que pretendiam armar uma cilada fatal, no grupo de ouvintes dos ensinamentos, apanhados pela surpresa, em Jesus, o Mestre vigiado sob suspeita.

E como cada um fazia a gestão das suas expectativas! O tempo nestas circunstâncias acelera e cada segundo parece uma hora.

“Quem dentre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra”, sentencia o Mestre, após ter decorrido o tempo suficiente para a interiorização pretendida. Sentencia o Mestre que provoca uma reviravolta espantosa nos acusadores. Todos, a começar pelos mais velhos, começam a retirar-se. Só lhes interessava a acusação/condenação. Com o gesto da retirada, vai cada um declarando o seu pecado. O que estava oculto, surge à luz do dia. A presumida fidelidade a Moisés levanta o véu da hipocrisia. As pedras da punição ficam inofensivas, por enquanto, e a armadilha de acusação converte-se em oportunidade de trazer à luz a verdade libertadora. Como se mantém atual um quadro ético semelhante!

O Papa Francisco, na exortação pós-sinodal «Cristo Vive» publicada esta semana dirigida a todos, mas sobretudo aos Jovens, reconhece que “o abuso não é o único pecado dos membros da Igreja. «Os nossos pecados estão à vista de todos; refletem-se, impiedosamente, nas rugas do rosto milenário da nossa Mãe», mas a Igreja não recorre a cirurgias estéticas, «não tem medo de mostrar os pecados dos seus membros». «Lembremo-nos, porém, que não se abandona a Mãe quando está ferida» (101). Este momento sombrio, com a ajuda preciosa dos jovens, «pode verdadeiramente ser uma oportunidade para uma reforma de alcance histórico para se abrir a um novo Pentecostes» (102). E recorda aos jovens que «há uma via de saída» em todas as situações escuras e dolorosas”.

“E ficou só Jesus e a mulher que estava no meio”, anota o evangelista narrador. Que momento este! Que aguardaria a mulher adultera, enxovalhada e incriminada! A sua sorte depende de uma palavra, a de Jesus, o único que podia atirar a pedra de punição. De facto, Ele não apenas estava sem pecado, mas é sua missão tirar o pecado do mundo.

“Vai e não tornes a pecar”, diz-lhe Jesus, infringindo a Lei e fazendo triunfar a misericórdia. Não condena a mulher, que mantém a sua dignidade, mas exorta-a a deixar o pecado que envilece a pessoa, a esquecer o que fica para trás (como São Paulo na 2.ª leitura), a enveredar por um caminho novo que já começa a aparecer (como anuncia Isaías aos exilados de Babilónio prestes e regressar a Jerusalém, a reconhecer que o Senhor faz maravilhas em favor do seu povo.

Que bom ver a caminhada quaresmal chegar ao fim com este olhar espiritual! “Grandes maravilhas, fez por nós o Senhor”, rezamos como o refrão do salmo.