segunda-feira, 27 de maio de 2019

Maior desafio do continente africano é conseguir travar o neocolonialismo e a dependência externa, afirma sociólogo


O maior desafio de Africa é conseguir travar o neocolonialismo e a dependência externa, considerou hoje o sociólogo Nardi Souza, realçando, que a cooperação que os líderes africanos têm estabelecido com as potências mundiais “hipotecam o presente e futuro do continente”.

Nardi Souza fez estas considerações em declarações à Inforpress, no âmbito do dia de África, que se celebra a 25 de Maio, tendo sublinhando, na ocasião, que ao comemorar a efeméride, todos os africanos devem reflectir e estar conscientes dos desafios e as inúmeras preocupações que afligem o continente.

O sociólogo lamentou que, “um continente que é o berço da civilização e rico em matérias-primas” esteja ainda a depender da ajuda externa das potências colonizadoras mundiais, “que se instalaram em Africa”, mostrando-se por outro lado céptico que isso venha acontecer tão cedo, isto porque, observou, “quando as nações africanas ousaram sair do neocolonialismo ocidental apareceu a China, com as suas ofertas e acordos”.

“O africano não usufrui das suas riquezas, a Costa do Marfim é um dos maiores produtores de cacau, poucos africanos comem chocolate de qualidade, o continente é o maior produtor de diamantes, mas as mulheres africanas não recebem anéis de diamantes, é o maior produtor do ouro, os nossos bancos não têm ouro, somos dependentes da ajuda externa”, enfatizou.

Para ultrapassar os desafios, no entender de Nardi Souza, o continente africano terá que deixar de “imitar” as potências mundiais, defendendo que haja sim, mais união entre os países e os blocos regionais e uma maior valorização da cultura e história africana.

“O continente tem de deixar de olhar para fora e passar a olhar para dentro e dar espaço à sua juventude, evitar a descriminação dos próprios africanos, temos que investir não só na tecnologia e nos meios de produção moderno, mas também no ensino da história africana porque ainda somos um povo com a autoestima baixa e muitos preconceitos”, salientou, referindo, no entanto, que há sinais positivos de alguns países que estão a liderar a modernização e se desenvolvendo.

Na opinião deste sociólogo cabo-verdiano, o que impede a Africa de ser um continente próspero e desenvolvido é o facto de os africanos não terem “identidade e agenda”, lembrando, neste contexto, que todos os líderes africanos, que procuraram criar uma agenda para a Africa “foram eliminados” pelas potências colonizadoras, que precisam dos recursos estratégicos do continente por um preço mais barato.

Prosseguindo com o seu raciocínio, considerou a França como sendo “a grande inimiga da Africa”, isto porque, elucidou, este país europeu tem 16 bases militares instaladas no continente e recebe cerca de 500 mil milhões de euros por ano dos países africanos, lamentando que os africanos têm que recorrer a empréstimos quando precisam deste dinheiro.

“A juventude quer assumir o destino do continente e poderá haver choque no futuro porque os africanos não estão satisfeitos com a fuga da riqueza da Africa, com a pobreza, descriminação dos africanos”, ressaltou.

Lançando um olhar sobre a questão da integração regional, afirmou que Cabo Verde já foi “mais africano”, que através de Amílcar Cabral, que com as suas bases filosóficas sobre a africanização dos espíritos, fez uma luta brilhante, mas hoje parece que não tem uma verdadeira agenda voltada para Africa.

“Não temos agenda, mas temos oportunidades e Cabo Verde deve-se posicionar e penso que se não houver a nível político uma estratégia, o que é mau, porque as cimeiras servem para facilitar o caminho, a sociedade civil está a despertar e mais cedo ou mais tarde a própria dinâmica da sociedade civil vai avançar”, realçou.

A África, conforme Nardi Souza, é o presente e o futuro da humanidade, pelo que, defendeu, tem que haver uma nova liderança, e mudanças de paradigmas, isto, frisou, num continente em que muitos africanos são “divisionistas” e não conseguem se unir mesmo pregando a unidade.

“Há muito separatismo em África, mas acredito que se houver liderança com muita cultura sobre a ancestralidade, história, espiritualidade africana, investimento na educação, justiça, capacidade de amar o seu povo e de defender os interesses dos africanos, poderemos ser um continente muito desenvolvido em vários aspectos”, concluiu, indicando, entretanto, que o caminho a ser percorrido é longo e cada um deve fazer a sua parte na construção de uma Africa melhor para os próprios africanos.

O dia 25 de Maio é considerado o Dia de África porque foi neste dia, em 1963, que se criou a Organização de Unidade Africana (OUA), na Etiópia, com o objectivo de defender e emancipar o continente africano.

domingo, 26 de maio de 2019

Somos a morada de Deus


“Quem está desperto para esta presença dinâmica do Espírito vive na alegria e na confiança, aprecia e valoriza a rectidão da consciência e a sabedoria do coração, é cada vez mais humano no seu ser e no seu agir.”

Jesus está na hora das grandes confidências, pois é o tempo da despedida, de dizer aos discípulos o que lhe vai no coração, e quer deixar como distintivo da sua identidade. Em diálogo franco, faz declarações que suscitam perguntas. Judas, não o Iscariotes, não entende como é que Jesus se vai manifestar, nem porque escolhe a quem o irá fazer. E formula a correspondente pergunta a que Jesus dá resposta, abrindo horizontes surpreendentes e interpelantes. Os contemplados são aqueles que acolhem o seu amor e guardam a sua palavra; a estes, Jesus dá a garantia de serem morada de Deus e de receberem o Espírito Santo. Assim, terão companhia em todas as circunstâncias da vida e nada os poderá perturbar. Assim, a saudade da despedida é compensada pela nova forma de presença. E Jesus destaca a alegria como testemunho da fé dos que compreendem o alcance destes factos.

Somos a morada de Deus que vem viver na nossa consciência, no mundo interior de todos os que são fiéis à palavra de Jesus, Seu Filho. Esta opção de Deus evidencia a direcção correcta da realização humana. É a partir de dentro, da interioridade, que se faz a humanização, se alimenta a relação, se aprende a amar, a servir, a crescer na grandeza de ser pessoa, a viver em comunidade. É a partir da consciência iluminada e esclarecida por Deus, mediante os ensinamentos de Jesus e a sabedoria das culturas humanizadas, que têm consistência as opções e os critérios condicionantes das nossas atitudes pessoais e colectivas. É a partir das atitudes que a sociedade manifesta os valores predominantes e a qualidade do sentido da convivência entre os seus membros. Que contraste coma situação actual do nosso mundo?!

“A comunidade que segue Jesus não caminha para o fracasso, pois a meta é a vida… Jesus convida a percorrer um caminho historicamente concreto. Inspirada nos sinais que Jesus realizou, a comunidade cristã criará novos sinais dentro do mundo, abrindo espaços de esperança e vida fraterna”. Bíblia Pastoral, comentário cap. 14 de João.

A afirmação é clara e o convite interpelante. Procura dentro de ti e encontrarás o teu melhor tesouro, aquele que te ajuda a ser mais humano, a saber conviver com maior satisfação, a sentir a realização progressiva da felicidade a que aspiras. Não te alienes nem deixes alienar ou anestesiar.

Esta orientação fundamental é, frequentemente, contrariada por muitos factores. E surge a preferência pela exterioridade, pela aparência de rostos embelezados, pela dispersão de solicitações encantadas. Assim, a pessoa corre o risco de viver distraída de si mesma, de banalizar a nobreza dos seus sentimentos e de inverter a escala dos valores que pautam a sua vida. Segue o cortejo das satisfações de momento, do ritmo dos humores, da verdade precária e subjectiva, da força imperante da paixão incontrolada. E vai-se transformando num ser agitado pelo “vento”, dependente do impulso da sedução, esquecida do seu ser mais profundo que, de vez em quando, a consciência lhe segreda e o coração vazio reclama.

Conhecedor da fragilidade humana, Jesus cumpre a promessa de enviar o Espírito Santo para recordar e ensinar. Recordar é tornar presente e fazer passar pelo coração a beleza da dignidade humana, como espelho do rosto de Deus, é trazer ao coração e apreciar a sabedoria da consciência que, em tudo, procura agir rectamente. Ensinar é mostrar à inteligência o que está contido nos sinais realizados por Jesus e agora actualizados na história. São sinais de atenção à pessoa e ao seu contexto, à verdade que liberta, à solidariedade que irmana, à oração que eleva, a Deus que sempre nos acompanha.

Quem está desperto para esta presença dinâmica do Espírito vive na alegria e na confiança, aprecia e valoriza a rectidão da consciência e a sabedoria do coração, é cada vez mais humano no seu ser e no seu agir.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

As Nações Unidas, a União Europeia, a União Africana, a CPLP e a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), Exortam aos atores políticos a abdicarem dos seus interesses privados ou partidários e a trabalharem em conjunto e de maneira construtiva para o bem do País

"Declaração Conjunta da União Africana, CPLP, CEDEAO, União Europeia e as Nações Unidas sobre a Guiné-Bissau
Considerando que as eleições legislativas de 10 de março na Guiné-Bissau foram consideradas credíveis e transparentes, a União Africana, CPLP, CEDEAO, União Europeia e as Nações Unidas, sublinham que todos os partidos e atores políticos devem respeitar os resultados eleitorais como uma expressão da vontade soberana do povo da Guiné-Bissau.
Exortamos todos os atores políticos a abdicarem dos seus interesses privados ou partidários e a trabalharem em conjunto e de maneira construtiva para o bem do País. 
Com esse fim, notamos o clima de tensão resultante de desacordos sobre a eleição dos membros da Mesa da Assembleia Nacional Popular. Exortamos todos os atores relevantes a se empenharem num diálogo construtivo para encontrar uma solução para o atual impasse, a fim de finalizar a constituição da mesa da Assembleia Nacional Popular. 
Exprimimos a nossa preocupação coletiva sobre o facto de, mais de sessenta dias após a realização das eleições legislativas, um novo primeiro-ministro não ter sido ainda nomeado com base nos resultados das eleições. 
Encorajamos a nomeação urgente de um novo primeiro-ministro e a consequente formação de um novo governo. Além disso, a data das eleições presidenciais deve igualmente ser marcada para terem lugar em 2019. 
A União Africana, CPLP, CEDEAO, União Europeia e as Nações Unidas reiteram a sua vontade de continuar a acompanhar os líderes políticos da Guiné-Bissau a resolverem o impasse atual. 
Reiteramos também a nossa determinação coletiva de continuar a apoiar e ajudar o novo Governo e o Povo nos seus esforços para consolidar a sua democracia nascente a promover a paz e a prosperidade."

As Nações Unidas, a União Europeia, a União Africana, a CPLP e a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) pediram a nomeação "urgente" do novo primeiro-ministro da Guiné-Bissau e a marcação das eleições presidenciais.


"Exprimimos a nossa preocupação coletiva sobre o facto de, mais de 60 dias após a realização de eleições legislativas, um novo primeiro-ministro não ter sido ainda nomeado com base nos resultados das eleições", salientam, no comunicado conjunto, a ONU, a União Africana, a União Europeia, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, denominados P5.

No comunicado, divulgado ao final do dia à imprensa, estas entidades encorajam a "nomeação urgente de um novo primeiro-ministro e a consequente formação de um novo Governo".

"Além disso, a data das eleições presidenciais deve igualmente ser marcada para terem lugar em 2019", salientam.

O Presidente da Guiné-Bissau, José Mário Vaz, termina o seu mandato em 23 de junho.

Dois meses depois das eleições legislativas, o novo primeiro-ministro da Guiné-Bissau ainda não foi indigitado pelo Presidente guineense e o novo Governo também não tomou posse devido a um novo impasse político, que teve início com a eleição dos membros da Assembleia Nacional Popular.

Depois de Cipriano Cassamá, do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Vede (PAIGC), ter sido reconduzido no cargo de presidente do parlamento, e Nuno Nabian, da Assembleia do Povo Unido - Partido Democrático da Guiné-Bissau (APU-PDGB), ter sido eleito primeiro vice-presidente, a maior parte dos deputados guineenses votou contra o nome do coordenador do Movimento para a Alternância Democrática (Madem-G15), Braima Camará, para segundo vice-presidente do parlamento.

O Madem-G15 recusou avançar com outro nome para o cargo e apresentou uma providência cautelar para anular a votação, mas foi recusada pelo Supremo Tribunal de Justiça. 

Por outro lado, o Partido de Renovação Social (PRS) reclama para si a indicação do nome do primeiro secretário da mesa da assembleia.

No comunicado divulgado, todas aqueles organismos "notam o clima de tensão" resultante do desacordo e exortam "todos os atores relevantes a empenharem-se num diálogo construtivo para encontrar uma solução para o atual impasse, a fim de finalizar a constituição da mesa da Assembleia Nacional Popular".

No comunicado, a ONU, a União Europeia, a União Africana, a CEDEAO e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) exortam também os políticos guineenses a "abdicarem dos seus interesses privados ou partidários e a trabalharem em conjunto e de maneira construtiva para o bem do país".

O parlamento da Guiné-Bissau está dividido em dois grandes blocos, um, que inclui o PAIGC (partido mais votado, mas sem maioria), a APU-PDGB, a União para a Mudança e o Partido da Nova Democracia, com 54 deputados, e outro, que juntou o Madem-G15 (segundo partido mais votado) e o Partido de Renovação Social, com 48.

Em declarações à imprensa, o Presidente guineense justificou o atraso na nomeação do primeiro-ministro com a falta de entendimento.

"Não temos primeiro-ministro até hoje, porque ainda temos esperança de que haja um entendimento entre partidos políticos na constituição da mesa da Assembleia e porque o Governo é da emanação da Assembleia", disse este mês em declarações aos jornalistas.

O denominado P5 manifesta também a sua vontade de continuar a trabalhar com os líderes políticos guineenses para resolverem o atual impasse.



Estado-Maior General das Forças Armadas Revolucionarias do Povo da Guiné-Bissau, pede a militares para se afastarem de partidos políticos

O parlamento da Guiné-Bissau está dividido em dois grandes blocos, um, que inclui o PAIGC (partido mais votado, mas sem maioria), a APU-PDGB, a União para a Mudança e o Partido da Nova Democracia, com 54 deputados, e outro, que juntou o Madem-G15 (segundo partido mais votado) e o Partido de Renovação Social, com 48.

O vice-chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas Revolucionarias do Povo da Guiné-Bissau, general Mamadu Turé, pediu hoje aos militares para se afastarem dos partidos políticos, considerando que estes "vão chegar a um entendimento".

Vocês esforcem-se, obedeçam e evitem partidos políticos. Esta é a recomendação que vos faço para se afastarem deles e deixá-los, que tarde ou cedo chegam a um entendimento", afirmou Mamadu Turé.

O general guineense falava numa cerimónia, que decorreu nas instalações da Marinha, para inaugurar o novo ginásio das Forças Armadas guineenses, que pode ser utilizado pelo público.

"Que ninguém se envolva em nada, mesmo nada, que ninguém vá por outro caminho, o vosso caminho é o da formação e da capacitação, esse é que é o caminho, isso é o que nos dignifica, o mundo ganha confiança em nós e amanhã seremos reconhecidos e estaremos de parabéns", salientou o general guineense.

Dois meses depois das eleições legislativas de 10 de março, o novo primeiro-ministro da Guiné-Bissau ainda não foi indigitado pelo Presidente guineense, José Mário Vaz, e o novo Governo também não tomou posse devido a um novo impasse político, que teve início com a eleição dos membros da Assembleia Nacional Popular.

Depois de Cipriano Cassamá, do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), ter sido reconduzido no cargo de presidente do parlamento, e Nuno Nabian, da Assembleia do Povo Unido - Partido Democrático da Guiné-Bissau (APU-PDGB), pertencente ao 4.º partido na ANP, ter sido eleito primeiro vice-presidente, a maior parte dos deputados guineenses votou contra o nome do coordenador do Movimento para a Alternância Democrática (Madem-G15), Braima Camará, para segundo vice-presidente do parlamento.

O Madem-G15 recusou avançar com outro nome para o cargo e apresentou uma providência cautelar para anular a votação, mas que foi recusada pelo Supremo Tribunal de Justiça.

Por outro lado, o Partido de Renovação Social (PRS) reclama para si a indicação do nome do primeiro secretário da mesa da assembleia.

O parlamento da Guiné-Bissau está dividido em dois grandes blocos, um, que inclui o PAIGC (partido mais votado, mas sem maioria), a APU-PDGB, a União para a Mudança e o Partido da Nova Democracia, com 54 deputados, e outro, que juntou o Madem-G15 (segundo partido mais votado) e o Partido de Renovação Social, com 48.

Em declarações à imprensa, o Presidente guineense justificou o atraso na nomeação do primeiro-ministro com a falta de entendimento.

"Não temos primeiro-ministro até hoje porque ainda temos esperança que haja um entendimento entre partidos políticos na constituição da mesa da Assembleia e porque o Governo é da emanação da Assembleia", disse.

A situação política no país tem provocado um aumento da tensão social, principalmente entre as camadas mais jovens da população, que têm exigido a nomeação do primeiro-ministro, bem como a formação do novo Governo.

Na semana passada e novamente na quarta-feira, milhares de jovens apoiantes dos partidos políticos da maioria parlamentar e de outras formações políticas sem representação na Assembleia Nacional Popular saíram à rua a exigir ao Presidente guineense a nomeação do primeiro-ministro. Com a Lusa

domingo, 12 de maio de 2019

Papa convoca jovens para um encontro sobre a economia «que não mata»


«A economia de Francisco» é o tema do evento que pretende reunir estudantes e empreendedores de todo o mundo, em março de 2020, na cidade de Assis

O Papa Francisco convocou “jovens economistas, empreendedores e empreendedoras de todo o mundo” para um encontro em Assis, nos dias 26, 27 e 28 de março, sobre o tema “A economia de Francisco”, a que “faz viver e não mata”.

Numa carta divulgada pela Sala de Imprensa da Santa Sé, o Papa convida os jovens para uma iniciativa que “deseja há muito” e que permita conhecer quem estuda e tenta começar a praticar “uma economia diversa”, que “faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida a criação e não a despreza”.

“Um evento que nos ajude a permanecer juntos e a nos conhecermos e que conduza a um pacto para mudar a atual economia e a dar uma alma à economia do amanhã”, escreve.

O Papa considera que Assis é a cidade “mais adequada” para procurar uma nova economia por ser “símbolo e mensagem de um humanismo da fraternidade” e “ícone da uma cultura de paz” em torno de São Francisco.

“A sua escolha de pobreza originou uma visão da economia que permanece atualíssima. Ela pode dar esperança ao nosso amanhã, para benefício não só dos mais pobres, mas de toda a humanidade”, acrescente o Papa.

Francisco lembra a sua carta encíclica ‘Laudato si’, onde afirma que o cuidado com a “casa comum” não pode ser  “desligado da justiça em relação aos pobres e da solução dos problemas estruturais da economia mundial”.

“É preciso, por isso, procurar os modelos de crescimento capazes de garantir o respeito pelo ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado da família, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores, os direitos das futuras gerações”, considera o Papa.

Para o Francisco, ainda não foi “escutado” o apelo da “gravidade dos problemas” nem começou a ser implementado “um novo modelo económico”, que se baseia na “cultura da comunhão”, na “fraternidade e na equidade”.

Francisco afirmou que “todos, mesmo todos” são chamados a “mudar esquemas e mentais e morais” em ordem ao bem comum, querendo agora convidar “de um modo especial” os jovens.

“Com o vosso desejo de um futuro belo e alegre, vós sois já a profecia de uma economia atenta à pessoa e ao ambiente”, disse o Papa a respeito dos jovens.

“A vossa universidade, a vossa empresa, as vossas organizações são locais de esperança para construir outra forma de entender a economia e o progresso, para combater a cultura do descarte, para dar voz a quem não a tem, para propor um novo estilo de vida”, acrescentou o Papa.

Francisco desafia os jovens a um encontro em Assis para “promover em conjunto”, através de um “pacto comum”, um “processo mudança global”, concretizado por todos os jovens, independentemente do credo e das nacionalidades, “unidos pelo ideal da fraternidade, atento sobretudo aos pobres e aos excluídos”.

“Convido cada um de vós a ser protagonista deste pacto, assumindo um compromisso individual e coletivo para cultivar, em conjunto, o sonho de um novo humanismo que corresponda às expectativas dos homens e ao desígnio de Deus”, afirma Francisco.

“Tenho esperança que respondam. E tenho esperança sobretudo que vós, jovens, sejais capazes de sonhar e começar a construir, com a ajuda de Deus, um mundo mais justo e mais belo”, concluiu o Papa.

Escutar e seguir Jesus, o Bom Pastor


“Escutar Jesus, é o mesmo que interessar-se pelo que diz e obedecer-lhe ao que escuta; conhecer as ovelhas indica uma relação de mútua compreensão e aceitação...

Jesus está em Jerusalém e passa pelo Templo no pórtico de Salomão. Decorria a festa da Dedicação que fazia a memória da sua re-consagração, após a profanação ordenada pelo Rei Antíoco IV. Um grupo de judeus questiona Jesus sobre a sua identidade. O diálogo é longo com perguntas muito directas e respostas cada vez mais pertinentes. João apresenta-o no capítulo 10 e a liturgia de hoje destaca os versículos 27-30, centrados na relação singular que explicita aquela identidade. É a relação recíproca entre Ele e Deus Pai, entre Ele e os discípulos, Entre Ele e os que vierem a seguir os seus passos. (O seu rebanho, em linguagem pastoril).

João, o evangelista, recorre a uma parábola que fica conhecida pela parábola do Bom Pastor que cuida zelosamente do rebanho. Usa a linguagem do tempo. Familiar e expressiva. E nesta passagem traduz aquela relação nos verbos escutar, conhecer e seguir. E, em jeito de justificação, acrescenta: “Eu e o Pai somos um”.

“Escutar, anota J. M. Castillo (La Religión de Jesús, ciclo c, p. 199). é o mesmo que interessar-se pelo que diz e obedecer-lhe ao que escuta; conhecer as ovelhas indica uma relação de mútua compreensão e aceitação; seguir define a forma de vida do discípulo que se fia de Jesus, deixa tudo por Ele e identifica a sua vida com a do pastor, como o pastor identifica a sua com a daqueles que pastoreia” Que grandeza de mensagem e simplicidade de comunicação! Constitui uma estimulante referência para todos os tempos, pondo em realce os traços marcantes dos que são chamados a, em nome de Jesus, serem pastores na humanidade, sobretudo na Igreja. Escutar é a primeira característica do discípulo pastor. Expressa a atitude permanente de quem vive a relação fundante.

Seguir Jesus é escutar a sua voz que nos chega de tantos modos: no rosto das pessoas, na beleza da natureza, nas feridas dos maltratados e em tantos outros cobertos de chagas; no ambiente familiar que cultiva o amor terno e fecundo, nos espaços educativos que promovem os valores integrais; na leitura da Bíblia e na celebração do domingo – dia que Lhe é especialmente consagrado – e na participação da eucaristia e em tantos gestos de bondade solidária e cristã. Seguir Jesus é estar atento aos factos e acontecimentos, descodificar o seu significado, prever os seus efeitos e a sua repercussão na dignidade da pessoa humana, na sociedade e na Igreja. Seguir Jesus é estimar a consciência individual e abrir-se à relação com outros, a fim de a confrontar em diálogo sincero e esclarecedor. Atitude que vai crescendo, felizmente.

Há atitudes diferentes em cristãos que dificilmente sintonizam com o Evangelho. Enumeram-se algumas: menosprezar a consciência e a sua responsabilidade ética; reservar à hierarquia o que diz respeito à Igreja, sobretudo no desempenho da missão; considerar os/as leigos/as eventuais “tarefeiros” quando solicitados; achar que os católicos divorciados-recasados não devem ter acesso a funções ou serviços na comunidade eclesial. Cultivar um olhar pessimista em relação à evolução da humanidade, dando a impressão de que o Espírito Santo foi “de férias” e tarda em voltar.

Hoje, celebra-se o dia Mundial das Vocações, dia especial para escutar a voz do Bom Pastor. O Papa Francisco, dirigindo-se aos Jovens, destaca a importância do encontro com o Senhor que desperta um novo fascínio na vida, exorta a que não se deixem contagiar pelo medo que paralisa a vista dos altos cumes e lembra que o Senhor promete a alegria duma vida nova que enche o coração e anima o caminho.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

A Igreja é uma canoa, não é um museu


“Queridos jovens, ficarei feliz vendo-vos correr mais rápido do que os lentos e temerosos. A Igreja precisa do vosso entusiasmo, das vossas intuições, da vossa fé. Fazeis-nos falta. E, quando chegardes aonde nós ainda não chegámos, tende paciência para esperar por nós.”

Padre e professor de Filosofia, Anselmo Borges, no DN

No Sínodo de Outubro passado, em Roma, um jovem proveniente das ilhas Samoa, disse que a Igreja é “uma canoa, na qual os velhos ajudam a manter a direcção, interpretando a posição das estrelas, e os jovens remam com força, imaginando aquilo que os espera mais além.”

Na recente “Exortação Apostólica Pós-Sinodal Cristo Vive aos jovens e a todo o Povo de Deus”, inspirada nas reflexões e diálogos do Sínodo, incluindo opiniões de jovens de todo o mundo, crentes e não crentes, o Papa Francisco retoma a imagem da canoa, para acrescentar: “Não nos deixemos levar nem pelos jovens que pensam que os adultos são um passado que já não conta, que já caducou, nem pelos adultos que julgam saber sempre como é que os jovens se devem comportar. É preferível que todos subamos para a mesma canoa e que entre todos procuremos um mundo melhor, sob o impulso sempre novo do Espírito Santo.”

A pastoral só pode ser sinodal, isto é, caminhando juntos, dado que a Igreja somos todos e cada um deve contribuir com os seus carismas e a sua situação. “Ao mundo nunca aproveitou nem aproveitará a ruptura entre gerações.” Só com os contributos intergeracionais se poderá construir um mundo novo e uma Igreja aberta. Lá diz o ditado: “Se o jovem soubesse e o velho pudesse, não haveria coisa que não se fizesse”.

O Papa apela aos jovens para que não esqueçam as raízes: “É fácil ‘sumir-se no ar’ quando não há onde agarrar-se, onde apoiar-se.” Não devem seguir quem lhes peça que desprezem ou ignorem a História. Quem faz isso “precisa que estejais vazios, desenraizados, desconfiados de tudo, para que só confieis nas suas promessas e vos submetais aos seus planos. Assim funcionam as ideologias de diversas cores.” E previne-os contra outro perigo: a adoração da juventude e do corpo. “Os manipuladores utilizam outro recurso: uma adoração da juventude, como se tudo o que não seja jovem se convertesse numa coisa detestável e caduca. O corpo jovem torna-se o símbolo deste novo culto, e, então, tudo o que tiver que ver com esse corpo é idolatrado e desejado sem limites, e o que não for jovem é olhado com desprezo.

Queridos jovens, não aceiteis que usem a vossa juventude para fomentar uma vida superficial, que confunde a beleza com a aparência. Há formosura para lá da aparência ou da estética da moda, em cada homem e em cada mulher que vivem com amor a sua vocação pessoal.”

Por outro lado, Francisco desafia a hierarquia, bispos e padres, para que dêem protagonismo às novas gerações. A pastoral juvenil precisa de adquirir outra flexibilidade e de convocar os jovens para eventos, para acontecimentos que de vez em quando lhes ofereçam um lugar onde não só recebam formação, mas que também lhes permitam partilhar a vida, celebrar, cantar, escutar testemunhos e experimentar o encontro comunitário com Deus.” Para se renovar, a Igreja precisa de estar atenta aos jovens, aos seus anseios, aos seus traumas, aos seus problemas, às suas dúvidas, aos seus erros, à sua história, à sua busca de identidade, às suas experiências de pecado e todas as suas dificuldades.

Não se pode esquecer que, “para muitos jovens, Deus, a religião e a Igreja são palavras vazias, no entanto, eles são sensíveis à figura de Jesus, quando esta é apresentada de modo atraente e eficaz.” O Sínodo reconheceu que “um número consistente de jovens não pede nada à Igreja porque não a consideram significativa para a sua existência. Alguns, inclusive, pedem expressamente que os deixem em paz, visto que sentem a presença da Igreja incómoda e até irritante.” Isto implica que a Igreja tem de reconhecer humildemente que muitas coisas têm de mudar e, para isso, “também precisa de ter em conta a visão e também as críticas dos jovens.” Eles “reclamam uma Igreja que escute mais, que não passe a vida a condenar o mundo. Não querem ver uma Igreja calada e tímida nem tão-pouco que esteja sempre em guerra por dois ou três temas que são para ela uma obsessão.”

A Igreja não pode pôr-se na defensiva, porque “uma Igreja na defensiva, que perde a humildade, que deixa de escutar, que não permite que a ponham em questão, perde a juventude e converte-se num museu.” E Francisco dá o exemplo da relação da Igreja com as mulheres: ela precisa de prestar atenção às “legítimas reivindicações das mulheres que pedem mais justiça e igualdade. Pode recordar a História e reconhecer uma longa trama de autoritarismo por parte dos homens, de sujeição, de diversas formas de escravidão, de abuso e de violência machistas. Nesta linha, o Sínodo quis renovar o compromisso da Igreja contra todo o tipo de discriminação e violência sexual. É essa a reacção de uma Igreja que se mantém jovem e que se deixa colocar em questão e impulsionar pela sensibilidade dos jovens.”

O Papa não se cansa de clamar: Jovens, “vós sois o agora de Deus. Não podemos dizer apenas que os jovens são o futuro do mundo. São o presente, estão a enriquecê-lo com o seu contributo.” Deus é “o autor da juventude e actua em cada jovem. A juventude é um tempo abençoado para o jovem e uma bênção para a Igreja e para o mundo. E uma alegria, um cântico de esperança e uma bem-aventurança.” Apreciar a juventude implica vê-la como um tempo valioso em si mesmo e não como mera etapa de passagem para a idade adulta. De qualquer modo, “neste período da vida, os jovens são chamados a projectar-se para a frente sem cortarem as suas raízes, a construir autonomia, mas não na solidão.” Neste sentido, o Papa adverte-os contra as ofertas desumanizantes: “São muitos os jovens ideologizados, utilizados e aproveitados como carne para canhão ou como força de choque para destruir, amedrontar ou ridicularizar outros. E o pior é que muitos se convertem em seres individualistas, inimigos e desconfiados de todos, que assim se tornam presa fácil de ofertas desumanas e planos destrutivos elaborados por grupos políticos e por poderes económicos.” Daí, o apelo: “Não deixes que te roubem a esperança e a alegria, que te narcotizem para utilizar-te como escravo dos seus interesses. Atreve-te a ser mais, porque o teu ser é mais importante do que qualquer outra coisa. Não te serve ter ou aparecer. Podes chegar a ser aquilo que Deus, teu Criador, sabe que tu és. Assim não serás fotocópia. Serás plenamente tu próprio.”

Francisco reconhece as dificuldades dos jovens no mundo actual: “Ainda mais numerosos são os jovens que padecem formas de marginalização e exclusão social por razões religiosas, étnicas ou económicas. Recordamos a difícil situação de adolescentes e jovens que engravidam e a praga do aborto, bem como a difusão do HIV, as várias formas de dependência (drogas, jogos de azar, pornografia, etc.) e a situação das crianças e jovens da rua, que não têm casa, nem família, nem recursos económicos.” Perante estas situações, convida cada um a interrogar-se: “Eu tenho aprendido a chorar?” Porque não podemos ser “uma Igreja que não chora frente a estes dramas dos seus filhos.”

Consciente de que “a moral sexual costuma ser, muitas vezes, causa de incompreensão e afastamento da Igreja, visto que é percebida como um espaço de julgamento e de condenação”, o Papa não podia deixar de reflectir sobre a problemática do corpo e da sexualidade, que têm “uma importância fundamental para a vida dos jovens e no caminho de crescimento da sua identidade.” Chama a atenção para que, “num mundo que enfatiza em excesso a sexualidade, é difícil manter uma boa relação com o próprio corpo e viver serenamente as relações afectivas.” “Ao mesmo tempo, os jovens exprimem um desejo explícito de se confrontarem sobre as questões relativas à diferença entre identidade masculina e feminina, à reciprocidade entre homens e mulheres e à homossexualidade.” O Papa convida a superar “tabus” sobre o sexo e a sexualidade, que apresenta como “um dom de Deus”, com o propósito de “amar-se e gerar vida.” E, neste contexto, reflectindo sobre os avanços das ciências e das NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas), lembra as novas interrogações antropológicas e éticas que se levantam e como facilmente se pode ser instrumentalizado por quem detém o poder tecnológico.

Outro desafio é o da digitalização. “A Web e as redes sociais criaram um modo novo de comunicação e de vinculação, e são uma praça na qual os jovens passam muito tempo e facilmente se encontram, embora o acesso não seja igual para todos, de modo particular em certas regiões do mundo.” O Papa não pode deixar de reconhecer as vantagens da digitalização, mas não deixa de advertir que se trata de uma realidade atravessada por ingentes interesses económicos e por limitações e carências, como, por exemplo, o perigo da perda de sentido crítico. “Não é saudável confundir a comunicação com o mero contacto virtual. Com efeito, o ambiente digital também é um território de solidão, manipulação, exploração e violência, até ao extremo da dark Web.” A imersão no mundo virtual pode tornar-se “uma espécie de migração digital, isto é, um afastamento da família, dos valores culturais e religiosos, que leva muita gente a um mundo de solidão e de autoinvenção, até ao ponto de experimentarem uma falta de raízes, mesmo permanecendo fisicamente no mesmo lugar.” Trata-se de um novo desafio: “interagir com um mundo real e virtual, em que os jovens penetram sozinhos, como num continente global desconhecido. Os jovens de hoje são os primeiros a fazer esta síntese entre a pessoa, o próprio de cada cultura e o global. Isso requer que consigam passar do contacto virtual a uma boa e sã comunicação.”

No capítulo quarto, o Papa expõe “três grandes verdades”, que todos permanentemente precisamos de escutar. A primeira: “Deus ama-te. Independentemente do que te aconteça na vida, não duvides disso, és sempre infinitamente amado.” A segunda: “Cristo entregou-se, por amor, até ao fim para salvar-te.” A terceira: “Mataram-no, mas Ele venceu. Ele está vivo. O mal não tem a última palavra.” “Cristo vive” é o título da Exortação.

Os dois últimos capítulos, oitavo e nono, são dedicados à vocação e ao discernimento. “Somos chamados pelo Senhor a participar na sua obra criadora, prestando o nosso contributo para o bem comum a partir das capacidades que recebemos.” Na procura da sua vocação, os jovens não deverão pensar apenas no dinheiro. E lembra o livro bíblico de Ben Sira: “Não há pior do que aquele que é avaro para si mesmo.”

Conclui, com um desejo: “Queridos jovens, ficarei feliz vendo-vos correr mais rápido do que os lentos e temerosos. A Igreja precisa do vosso entusiasmo, das vossas intuições, da vossa fé. Fazeis-nos falta. E, quando chegardes aonde nós ainda não chegámos, tende paciência para esperar por nós.”