sexta-feira, 5 de julho de 2019

“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo” – Nelson Mandela

“A chave do sucesso é a educação.”- “Dar boa educação e serviço social não é caridade, é necessidade do desenvolvimento económico de um país. Quanto mais se investe em capital humano, mais as economias vão crescer”.

.. “Ninguém pode se sentir satisfeito enquanto ainda houver crianças, que não recebem uma educação que lhes ofereça dignidade e o direito de viver suas vidas completamente”.

“Uma boa mente e um bom coração são sempre uma combinação formidável. Mas quando você adiciona a isso um idioma bem falado ou uma caneta, então você tem uma coisa realmente especial”, pois, o mais valioso da educação é aprender a habilidade de analisar a realidade, mesmo quando isso é desconfortável e prova que aquilo que eu achava ser verdade está errado.”“[…] Os jovens devem tomar para si a responsabilidade de garantir que terão a melhor educação possível para poder nos representar bem no futuro, como futuros líderes.”

Símbolo da luta contra o Apartheid, regime de segregação racial que separava brancos e negros na África do Sul, Mandela foi sempre defensor de um sistema educacional mais equânime e digno. “Não está além do nosso poder a criação de um mundo no qual crianças tenham acesso a uma boa educação. Os que não acreditam nisso têm imaginação pequena”, repetiria ele ao longo da vida. Ainda em 1953, antes de passar 27 anos preso por lutar pela democracia, ele disse no Congresso Sul Africano: “Façam com que todas as casas e todos os barracos se tornem um centro de aprendizado para nossas crianças”.

Já como presidente, cargo que exerceu entre 1994 e 1999, Mandela lutou por prover uma educação mais equânime entre negros e brancos. “O presidente Mandela falou com paixão em todos os fóruns possíveis sobre seu compromisso de prover educação de qualidade para todas as crianças da África do Sul, assim como propiciar também uma vida melhor para todos. Ele estabeleceu parcerias valiosas com o setor privado, especialmente para a construção de escolas nas comunidades rurais de todo o país”, diz o Departamento de Educação Básica em seu site.

Mesmo depois de seu período na presidência e já octogenário, Mandela não deixou de lado sua ligação com educação. Em 2003, ele participou do lançamento da rede Mindset, uma organização sem fins lucrativos que provê material educativo e curricular para alunos e professores em vários temas, desde economia, matemática e física até tecnologia e orientação para a vida. Na ocasião, proferiu uma de suas aspas mais famosas e que resume parte de seus valores. “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”, disse ele. E avisou: “Vou usar o resto dos meus dias para ajudar a África do Sul a se tornar mais segura, saudável e educada”.

Sua militância na área continuou sendo frequente, mesmo depois de se retirar da vida pública em 2004. A instituição que leva seu nome e se responsabiliza por levar adiante seu legado ajudou a reformar escolas e a criar centros de excelência de estudos pela África do Sul. No exterior, suas palestras em universidades foram muitas – no site de sua fundação, a Nelson Mandela Foundation, é possível acessar a transcrição de seus discursos. “As instituições de educação superior têm a obrigação de escancarar suas portas. As que oferecem a educação mais rigorosa é que têm a maior obrigação. Vocês têm a qualidade, a habilidade, o apoio necessário para pressionar por isso”, disse Mandela em 2005 a universidade norte-americana de Amherst.

Ainda em 2005, ele criou outra fundação, a Mandela Rodhes Scholarship, destinada a financiar os estudos de jovens líderes africanos. Dois anos depois, ele criou um instituto voltado para promover a educação na área rural de seu país, o Nelson Mandela Institute for Rural Development and Education. “Ninguém pode se sentir satisfeito enquanto ainda houver crianças, milhões de crianças, que não recebem uma educação que lhes ofereça dignidade e o direito de viver suas vidas completamente”, disse ele por ocasião da fundação da organização.

Além de ele em si ter sido um advogado da educação, documentos relativos à sua vida e à sua contribuição para a história também estão disponíveis e organizados, num trabalho feito pela Nelson Mandela Foundation. Todo o material está disponível na plataforma e pode ajudar educadores de todo o mundo a recontar a importância do líder sul-africano para os séculos 20 e 21.

O legado de Mandela para a educação, portanto, passa pela defesa firme de uma educação de qualidade para todos, seja na cidade no campo, na escola ou na universidade. A educação, para ele, era uma forma de empoderar e libertar as pessoas, e a liberdade sempre foi sua maior bandeira. “Uma boa mente e um bom coração são sempre uma combinação formidável. Mas quando você adiciona a isso um idioma bem falado ou uma caneta, então você tem uma coisa realmente especial”, dizia ele.

“… os jovens devem tomar para si a responsabilidade de garantir que terão a melhor educação possível para poder nos representar bem no futuro, como futuros líderes.” Com a Patrícia Gomes

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Composição do novo Governo da Guiné-Bissau da X legislatura, liderado por Aristides Gomes


O novo elenco governamental da X legislatura liderado por Aristides Gomes tem sete novas entradas como novidade e conta com trinta e uma ( 31) pastas na sua estrutura orgânica, das quais oito (8) mulheres ocupam pastas ministeriais e três(3) secretarias de Estado. O novo executivo formado pela maioria parlamentar é composto de dezasseis (16) ministérios e quinze (15) secretarias de Estado.

O elenco governamental foi nomeado hoje, 03 de junho de 2019, por Presidente da República cessante, José Mário Vaz, através do decreto n° 09/2019.

Trata-se de Armando Mango, ministro da Presidência de Conselho de Ministros, Assuntos Parlamentares e Porta-voz do Governo; Juliano Augusto Fernandes, ministro do Interior; Luís Melo que deixa Câmara Municipal de Bissau para dirigir o ministério da Defesa e Combatentes da Liberdade da Pátria; Fatumata Djau Baldé, ministra da Administração Pública e Modernização do Estado; Nelvina Barreto, ministra da Agricultura e Florestas; Suzi Barbosa, ministra dos Negócios Estrangeiros e Comunidades e Rute Monteiro, ministra da Justiça e Direitos Humanos.

Dos 16 ministérios, oito vão ser liderados por mulheres.

Composição do novo Governo da Guiné-Bissau, liderado por Aristides Gomes:

Ministério da Presidência do Conselho de Ministros e Assuntos Parlamentares - Armando Mango

Ministério da Administração Territorial e Gestão Eleitoral - Odete Costa Semedo

Ministério das Pescas - Adiatu Djalo Nandigna

Ministério dos Negócios Estrangeiros e Comunidades - Suzi Barbosa

Ministério da Defesa e Combatentes da Liberdade da Patria - Luís Melo

Ministério do Interior - Juliano Augusto Fernandes

Ministério da Economia e Finanças - Geraldo João Martins

Ministério do Comércio e Indústria - Iaia Djaló

Ministério da Educação Nacional e Ensino Superior - Dautarin Monteiro da Costa

Ministério da Administração Pública e Modernização do Estado - Fatumata Djau Balde

Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos - Rute Monteiro

Ministério da Saúde Pública - Magda Nely Robalo Silva

Ministério da Mulher, Família e Proteção Social - Cadi Seidi

Ministério da Agricultura e Florestas - Nelvina Barreto

Ministério dos Recursos Naturais e Energia - Issufo Balde

Ministério das Infraestruturas, Habitação e Desenvolvimento Humano - Osvaldo Abreu

Secretárias de Estado:

Secretaria de Estado do Ambiente e Biodiversidade - Quite Djata

Secretaria de Estado dos Transportes e Comunicações - Samuel Dinis Manuel

Secretaria de Estado das Comunidades - Malam Bacai Júnior

Secretaria de Estado da Juventude e Desporto - Dionísio do Reino Pereira

Secretaria de Estado do Orçamento - José Djô

Secretaria de Estado do Tesouro - Suleimane Seidi

Secretaria de Estado da Gestão Hospitalar - Anaximandro Zylene Casimiro Menut

Secretaria de Estado do Ensino Superior e Investigação Científica - Garcia Bifa Bedeta

Secretaria de Estado do Turismo e Artesanato - Catarina Taborda

Secretaria de Estado da Gestão Eleitoral - Júlio César Nosolini

Secretaria de Estado da Segurança e Ordem Pública - Mário Saiegh

Secretaria de Estado do Plano e Integração Regional - Tomásia Manjuba

Secretaria de Estado da Cultura - António Quirino Bubacar Spencer Embaló

Secretaria de Estado da Comunicação Social - João Maria Baticã Ferreira

Secretaria de Estado dos Combatentes da Liberdade da Pátria - João Handem

JUIZ CONSELHEIRO LADISLAU EMBASSA NOMEADO PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA DA GUINÉ-BISSAU

O juiz desembargador do Supremo tribunal de Justiça foi nomeado hoje (03/07) pelo presidente cessante da Guiné-Bissau, José Mário Vaz, como novo procurador-geral de Republica sucedendo no cargo Bacari Biai, demitido na terça-feira (02/07) na sequência das decisões tomadas na cimeira dos chefes de estado e de governo da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) realizada em Abuja, Nigéria no dia 29/07.

Ladislau Embassa que até aqui desempenhava as funções do presidente do Conselho Nacional de comunicação Social foi nomeado pelo decreto presidencial nº8/2019 e irá manter-se no cargo até a tomada de posse do novo presidente da Republica eleito nas eleições presidenciais agendadas para 24 de Novembro 2019 ou em Janeiro de 2020, caso venha haver a segunda volta.

O cronograma apresentado pela Comissão Nacional de Eleições prevê a realização de uma segunda volta a 05 de janeiro de 2020.

A previsão de CNE aponta que os resultados eleitorais provisórios da primeira volta sejam divulgados em 28 de novembro e os definitivos em 03 dezembro.

Bacari Biai ex-procurador apresentou, nesta terça-feira, 2 de Julho, o seu pedido de demissão a José Mário Vaz, tendo na ocasião afirmado que “é uma decisão descabida e não tem fundamento. Mas, aceito como guineense”.

De referir que ainda hoje os membros do governo serão empossados como determina a CEDEAO.

sábado, 29 de junho de 2019

Livres para amar. Prontos para servir


Uma boa pessoa tira do seu bom tesouro coisas boas; mas a pessoa má, tira do seu tesouro mau, coisas más […] Assim, toda árvore boa produz bons frutos; porém a árvore má produz frutos maus. “A salvação, que Deus nos dá, é um convite para fazer parte duma história de amor, que está entrelaçada com as nossas histórias; que vive e quer nascer entre nós, para podermos dar fruto onde, como e com quem estivermos. Precisamente aí vem o Senhor plantar e plantar-Se a Si mesmo”.

Jesus toma a decisão de ir a Jerusalém, centro da vida religiosa e política dos Judeus, dando início a uma nova fase da sua vida. Aqui, quer anunciar a novidade de Deus que suscita uma convivência respeitadora da dignidade humana. Prepara a viagem e envia mensageiros à sua frente. Está determinado a correr todos os riscos. Manifesta o que lhe vai “na alma”, endurecendo os traços da sua fisionomia, sinal antecipado da dureza da sua paixão e da concentração das energias da sua vontade. Lc 9, 51-62.

No caminho, encontra pessoas com diversas pretensões: samaritanos que lhe recusam acolhimento, discípulos que querem vingar-se desta afronta, gente anónima que deseja segui-lo e outra que ele convida, apóstolos que o acompanham. Jesus, em respostas claras e desconcertantes, mostra a necessidade de estarem livres para o seguir e a urgência de fazer o anúncio da novidade de Deus.

Repreende Tiago e João, os mensageiros junto dos samaritanos, por aquele desejo de vingança, repreensão que deixa perceber o respeito pela liberdade de recusa, pela lisura do coração. Que contraste de atitudes: repreensão para os discípulos e silêncio compreensivo para os samaritanos!

Esclarece, com grande precisão, a quem pretende segui-lo, as novas condições de vida: opção firme, afeição incondicional, desapego dos bens, simplicidade de atitudes, acolhimento do futuro emergente, olhando-o com esperança esforçada. “O seguimento de Jesus, afirma Manicardi, exige também o esforço do quotidiano, do dia após dia: a resolução é necessária para não se deixar bloquear pela banalidade dos dias e dos hábitos, para sustentar a vida do discípulo que está sob o jugo da precariedade e para dar perseverança ao seguimento e não o reduzir à aventura de uma etapa”.

Jesus recorre a factos e situações conhecidas e interpelantes: Raposas e aves têm os seus refúgios, mas o Filho do Homem/Ele não possui nada, nem sequer um assento para um breve descanso; despedida da família e sepultura do pai, atitudes dignas e gestos rituais, face à urgência de anunciar o Reino de Deus e à correspondente disponibilidade total; disposição inicial/lançar mãos ao arado e ficar amarrado à nostalgia do passado perante a surpresa da novidade e o apreço pela opção tomada. Manicardi, o autor citado, continua o seu comentário dizendo: “Não pôr condições, não predeterminar as prestações, não se deixar guiar apenas pelo entusiasmo, não nutrir nostalgias que se revelariam paralisantes , são condições essenciais para um seguimento duradouro”.

Livres para servir, sem o peso da memória nem a angústia da profecia. Livres para seguir os passos do Mestre e pautar a vida pelos seus ensinamentos. Livres para amar Deus e o seu Reino, já presente nas situações humanas, mas em germinação constante até à maturação plena.

Jesus dá o exemplo. A sua entrega é total. A sua vida está centrada nos outros, a quem serve em nome de Deus. Para ele, o tempo urge uma opção pelo serviço generoso. Sem hesitações nem condições. Esgotam-se os dias. A sua paixão constante marca o ritmo do pulsar do coração dos discípulos/cristãos e dá sentido e vigor aos seus passos nos caminhos da história.

O Papa Francisco, no texto sinodal sobre os Jovens, apresenta em termos muito belos o seguimento como “a chamada à amizade com Ele”. E diz assim: “A vida que Jesus nos dá é uma história de amor, uma história de vida que quer misturar-se com a nossa e criar raízes na terra de cada um. Essa vida não é uma salvação suspensa “na nuvem” – no disco virtual – à espera de ser descarregada, nem uma nova “aplicação” para descobrir ou um exercício mental fruto de técnicas de crescimento pessoal. Nem a vida que Deus nos oferece é um “tutorial” com o qual apreender as últimas novidades. A salvação, que Deus nos dá, é um convite para fazer parte duma história de amor, que está entrelaçada com as nossas histórias; que vive e quer nascer entre nós, para podermos dar fruto onde, como e com quem estivermos. Precisamente aí vem o Senhor plantar e plantar-Se a Si mesmo”.

Intervenção do Presidente da Republica da Guiné-Bissau, José Mário Vaz, na 55° Cimeira Ordinário dos Chefes de Estado e de Governo da CEDEAO - Abuja - NIGERIA


"[…] Foram momentos difíceis e de luta constante com vista a criar esperança e melhores condições de vida para o Povo da Guiné-Bissau e a instauração de um Estado de Direito Democrático, aquele que inspirou os pais fundadores da nossa República, forjada na luta armada contra o colonialismo português. É com esse país livre e justo que eu sonho e me revejo e, por ele tudo farei para construir a felicidade e o bem-estar dos meus concidadãos e compatriotas", José Mário Vaz - Presidente da Republica da Guiné-Bissau

• Excelência Senhor Muhammadu BUHARI, Presidente da República Federal da Nigéria e Presidente em exercício da Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CEDEAO;
• Excelências Senhores Chefes de Estado e de Governo;
• Distintos Convidados;

• Minhas Senhoras e Meus Senhores;

Gostaria de começar a minha intervenção dirigindo uma saudação muito especial ao nosso irmão Presidente Muhammadu Buhari, e através da sua ilustre pessoa ao Povo da Nigéria, país amigo e irmão, que muito tem apoiado a Guiné-Bissau e que sempre nos acolheu com simpatia, amizade e generosidade.
(...)

• Senhores Chefes de Estado e de Governo,

No momento em que na Guiné-Bissau, com a Graça de Deus, estamos a chegar ao fim de um ciclo, permitam-me, mais uma vez, a oportunidade para partilhar convosco algumas informações sobre a atual situação política no meu país.

Como sabem as eleições legislativas realizadas a 10 de Março de 2019 representam um marco histórico na Guiné-Bissau, pois, pela primeira vez, após 25 anos de regime multipartidário, chegámos ao termo de uma legislatura sem interrupção do ciclo político e sem golpes de estado. O que ilustra alguns ganhos para a consolidação da democracia na Guiné-Bissau.

Os deputados que constituem a nova Assembleia Nacional Popular (ANP) tomaram posse no dia 18 de abril, porém, logo na primeira Sessão do órgão Legislativo, essencialmente destinada a eleger a sua Mesa, surgiram divergências na interpretação do Regimento da ANP e da própria Constituição da República, por parte dos Partidos representados, no que concerne a repartição por representação dos lugares a atribuir a cada partido.

Considerando que, segundo a Constituição ainda vigente no nosso país, o Governo é politicamente responsável perante o Parlamento e que a sua legitimação depende da aprovação do Programa e do Orçamento Geral de Estado pelo próprio Parlamento, esta situação condicionou a nomeação imediata do novo Primeiro-ministro e a formação do novo Governo.

Todavia, o novo Primeiro-Ministro, proposto pelo PAIGC, partido com maior número de Deputados na Assembleia Nacional Popular, isto é, com 47 no total de 102 deputados, foi nomeado e empossado pelo Presidente da República no dia 22 de Junho, estando em curso o processo conducente a formação do Governo.

• Excelências Chefes de Estados e de Governo

Pela primeira vez na história da Guiné-Bissau, após 45 anos enquanto País independente, um Presidente da República conseguiu concluir o seu mandato, sem interrupções, no passado dia 23 de Junho.

Assim, de acordo com a Lei Eleitoral, e as suas obrigações constitucionais, o Presidente da República marcou as eleições presidências, cuja data foi fixada para o dia 24 de Novembro de 2019.

Permitam-me informar Vossas Excelências que a Lei Eleitoral da Guiné-Bissau na alínea n.2 do seu artigo 3º estabelece claramente que “no caso das eleições legislativas e presidências não decorrerem da dissolução da Assembleia ou da vacatura do cargo do Presidente da República (por morte ou outro impedimento definitivo), as eleições realizam-se entre o dia 23 de Outubro e 25 de Novembro do ano correspondente ao termo da legislatura ou do mandato presidencial”.

Assim, apesar da Lei Eleitoral prever que “as eleições realizam-se entre o dia 23 de Outubro e 25 de Novembro do ano correspondente ao termo da legislatura ou do mandato presidencial”, tem havido interpretações obviamente erradas, sob pretexto de que o Presidente da República deverá ser forçosamente removido das suas Funções, por ter completado cinco anos de Mandato no dia 23 do mês de Junho. Esse pronunciamento tem sido secundado se não inspirado por entidades e países, fora da nossa Sub-Região que, sem o conhecimento da realidade e das leis da Guiné-Bissau, pretendem substituir à CEDEAO nos seus incansáveis esforços com vista à estabilização política do nosso país.

Sendo evidente que a não clarificação desta matéria poderá provocar o caos político no meu país, eu venho solicitar aos meus Pares um posicionamento claro e realista sobre esta matéria. Pois, a correta interpretação das leis da Guiné-Bissau, estabelece que o Presidente da República permanece em funções até ao empossamento do novo Presidente da República eleito, podendo entre outros empossar o novo governo, velando sempre pelos superiores interesses da Nação.

Entretanto, apesar dos esforços de convergência dos guineenses que vimos desenvolvendo, e na sequencia do incitamento público à revolta militar por um dos líderes partidários do nosso país, no passado dia 27 de Junho, um grupo de 54 deputados, decidiu votar uma Resolução através da qual pretensamente removeram o Presidente da República das suas funções, designando o Presidente da Assembleia Nacional para o substituir.

Este acto, de acordo com a nossa constituição deveria ter lugar se 2/3 ou seja ou seja no mínimo 68 deputados votassem e não uma maioria somente de 54 deputados.

Este acto irresponsável, que esse grupo pretende ver validado pelo Supremo Tribunal de Justiça, apesar de ser nulo, viola grosseiramente a Constituição da República, que prevê no artigo 71º, nº 1 que “ em caso de ausência para o estrangeiro ou impedimento temporário o Presidente da República será substituído interinamente pelo Presidente da Assembleia Nacional Popular”.

E o nº 2 do mesmo artigo estabelece que “em caso de morte ou impedimento definitivo do Presidente da República, assumirá funções o Presidente da Assembleia Nacional Popular”. Nem na Constituição da República nem em nenhuma outra lei da Guiné-Bissau existe qualquer outro dispositivo legal que permite a substituição do Presidente da República fora dos casos que eu citei. O Acto dos 54 deputados constitui, pois, uma tentativa de subversão da ordem constitucional, através de um golpe de estado camuflado na veste de Resolução do Parlamento.
(...)

•Excelências Chefes de Estados e de Governo e caros irmãos;

Apesar da persistência de uma franja da nossa classe política em seguir os caminhos do mal, nós conseguimos afastar a violência, a intolerância e impedir a rutura da ordem constitucional do debate político no nosso país.

Conseguimos fazer com que as armas ficassem acantonadas nos quarteis e retirassem definitivamente do debate político e as nossas Forças Armadas pudessem continuar a cumprir o seu papel Republicano, submetendo-se às instituições políticas democraticamente eleitas. Essa é a grande conquista do meu mandato como Presidente da República. É sem dúvida um grande avanço em benefício do povo Guineense e na promoção de uma cultura de paz e de respeito pelos princípios democráticos.

Acredito que, com a realização das eleições presidências em Novembro do ano em curso, os guineenses poderão encerrar um ciclo de convulsões e da instabilidade.
(...)
Tal como eu tive oportunidade de vos referir anteriormente, as eleições legislativas e presidências sem as reformas indispensáveis não representarão a solução mágica para os problemas políticos do meu país e não poderão retirar a Guiné-Bissau do ciclo vicioso da instabilidade. O problema da Guiné-Bissau não é um problema de pessoas, mas sim de instituições, e de sistema de governação.

• Após as eleições legislativas e antes da eleição do novo presidente da República, impõe-se uma nova agenda nacional, consensual, que permita a materialização dos compromissos de reformas, consagrados no Acordo de Conacri.
• Antes da eleição do novo presidente da República, é fundamental a realização da reforma constitucional que permita a redefinição e indispensável clarificação do sistema de governação e sobretudo dos poderes e competências do Presidente da República e, consequentemente a eliminação de focos de instabilidade recorrente.
• A forma mais expedita de concretizar a reforma constitucional será através de um referendo prévio, que defina o sistema de governo que deverá ser rapidamente adoptado pelo Parlamento antes da apresentação oficial das candidaturas para as eleições presidências, que terão lugar no dia 24 de Novembro.

• Impõe-se com igual urgência a reforma das forças de defesa e segurança, reforma da Administração Pública e reforma na justiça.
(...)
•Excelências Chefes de Estados e de Governo e caros irmãos;

Aproveito a ocasião para, uma vez mais, agradecer a todos os Estados-Irmãos da CEDEAO que, de forma incansável e contínua, não têm poupado esforços no seu insubstituível apoio e solidariedade para com o meu país neste difícil processo que, estou em crer, está a chegar ao seu termo.

Agradeço também a todos os demais parceiros internacionais que, com muito esforço têm apoiado e acompanhado a Guiné-Bissau e têm contribuído para o sucesso da realização de eleições e da consolidação da democracia no nosso país.

Senhores Chefes de Estado e de Governo, Caros Irmãos,

Eu falo-vos hoje com os olhos virados para uma nova perspetiva para o meu país.

Ao longo dos últimos cinco anos, não tenho poupado esforços para que a Guiné-Bissau seja dirigida com patriotismo e espirito de responsabilidade, de forma a assegurar que jamais haja sangue derramado por razões de disputas políticas pelo poder.

Foram momentos difíceis e de luta constante com vista a criar esperança e melhores condições de vida para o Povo da Guiné-Bissau e a instauração de um Estado de Direito Democrático, aquele que inspirou os pais fundadores da nossa República, forjada na luta armada contra o colonialismo. É com esse país livre e justo que eu sonho e me revejo e, por ele tudo farei para construir a felicidade e o bem-estar dos meus concidadãos e compatriotas.

Senhores Chefes de Estado e de Governo,
Caro Irmãos,

Gostaria de concluir, reafirmando com solenidade a nossa confiança inabalável na nossa Comunidade Regional, a CEDEAO, e o compromisso do meu país, a Guiné-Bissau, de tudo fazer para seguir o caminho da paz, do progresso, da estabilidade e da democracia, inspirando-nos sempre nos novos princípios e objetivos da nossa Comunidade.

Que Deus abençoe os nossos povos e a nossa Organização, a CEDEAO e seus dirigentes!

Muito obrigado!

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Nós e os outros. A urgência e a dificuldade do diálogo


A identidade não é estática, fixa, determinada de uma vez para sempre ..Sendo sempre o resultado de uma herança genética e de uma cultura, a cultura define-nos, faz parte da nossa identidade e, por isso, como se constata pela história, mesmo recente, não falta quem esteja disposto a bater-se, até pelas armas, pela sua cultura, que faz parte constituinte da sua identidade.

Reflexão do Padre e professor de Filosofia, Anselmo Borges no Diario de Noticas

Estamos a viver uma transformação prodigiosa do mundo. Há hoje várias revoluções em marcha. Uma revolução económica, com a globalização, que significa a concretização da ideia de McLuhan de que formamos uma "pequena aldeia" e a chegada ao palco da história de grandes países emergentes, como a China, a Índia... Outra é a revolução cibernética, que, como disse Jean-Claude Guillebaud, faz nascer um quase-planeta, um "sexto continente". Nunca como hoje houve tanta informação e com a rapidez com que circula pelo mundo. Esta é a era da informática. A internet, o correio electrónico, os telemóveis, as televisões, põem-nos em contacto constante e imediato com tudo o que acontece no mundo. Depois, com a facilidade dos transportes e no quadro das novas condições económicas, há a circulação permanente das pessoas de uns países para outros e também entre continentes. As NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, big data, ciências cognitivas, neurociências...), em interconexão, transformam a nossa relação com a vida e a procriação e podem fazer bifurcar a humanidade: a actual continuaria ao lado de outra a criar; por isso se fala em transumanismo e pós-humanismo. Também está aí a urgência da revolução ecológica, que, se a humanidade quiser ter futuro, obriga a uma nova relação com a natureza. Como se não pode esquecer de modo nenhum o perigo do terrorismo global e de uma guerra atómica. Está aí, omnipresente, de múltiplos modos, o terror da violência...

Perante todas estas revoluções e face aos problemas que agora são globais, como a droga ou o trabalho, os mercados, impõe-se, em primeiro lugar, pensar numa governança mundial. Depois, não se sabe de que modo o futuro será, como diz J.-Cl. Guillebaud, uma "modernidade mestiça", mas, para evitar o "choque das civilizações", impõe-se o diálogo intercultural e inter-religioso. De facto, como escreveu o teólogo José María Castillo, com todos estes factos produziu-se "um fenómeno inteiramente novo na história da humanidade: a mistura, a fusão ou o choque, a inevitável convivência de culturas, tradições, costumes, formas de pensar e de viver, de pessoas que vão de uns países para outros, de um extremo ao outro do mundo. E vão, não para fazer turismo, mas para tratar da vida, fugir das guerras, da fome e da morte. Mas, como é lógico, este rebuliço de pessoas, de notícias, de ideias, de formas de viver, fez que - sem nos darmos conta muitas vezes do que realmente se passa - bastantes critérios, convicções, costumes e tradições que até há poucos anos tínhamos como seguros e intocáveis hoje estejam abalados, tenham perdido segurança, se tenham esfumado, modificado ou, em todo o caso, perdido a firmeza e a estabilidade que antes tinham para nós".

De qualquer modo, para o diálogo, impõe-se uma reflexão de base sobre as suas condições de possibilidade e as suas dificuldades. De facto, o diálogo é feito de encontros e desencontros. O encontro é fascinante, mas, veja-se, logo de entrada, como a própria palavra chama a atenção para a sua dificuldade: encontro mostra, nas várias línguas, um confronto, uma oposição. Assim: en-contro (lá está o contra, como em en-cuentro ou em rin-contro..., mesmo no alemão, Begegnung, está presente o contra, que se diz gegen).

A neotenia constata, no essencial, que o ser humano é um prematuro - para fazer o que faz, precisaria de permanecer no ventre materno mais um ano, mas isso não é possível; assim, nasce no termo de nove meses, em vez de passados 20 -, tendo, portanto, de receber por cultura aquilo que a natureza lhe não deu. Frágil segundo a natureza e sem especialização, tem de criar uma espécie de segunda natureza ou habitat, precisamente a cultura. Como escreve o filósofo Robert Legros, "é na cultura ou no que a fenomenologia chama um mundo que a humanidade de Homo encontra a sua origem, e não na natureza. Quanto à origem da cultura, ela está por princípio votada a permanecer uma questão sem resposta". Enquanto os outros animais nascem feitos, o homem, nascendo por fazer, em aberto, tem de fazer-se a si mesmo e caracteriza-se por essa tarefa de fazer-se com outros numa história aberta, em processo. Constata-se deste modo que nos fazemos uns aos outros genética e culturalmente. O ser humano é, pois, sempre o resultado de uma herança genética e de uma cultura em história. Assim, no processo de nos fazermos, o outro aparece inevitavelmente. O outro não é adjacente, mas constitutivo. Só sou eu, porque há tu, em reciprocidade. O outro pertence-me, pois é pela sua mediação que venho a mim e me identifico: a minha identidade passa pelo outro, num encontro mutuamente constituinte. A identidade não é estática, fixa, determinada de uma vez para sempre. E, em cada um de nós, há múltiplas possibilidades de ser: se eu tivesse tido outros encontros, se tivesse frequentado outras escolas... certamente seria eu, mas de outro maneira, idem sed aliter. A nossa identidade é aberta, somos nós e somos muitos; se assim não fosse, como poderíamos entender os outros, compreender um romance, colocando-nos na pele de tantas personagens diferentes?...

Claro que cada um, cada uma, é ele, ela, de modo único e intransferível - a experiência suma desse viver-se cada um como único e irrepetível dá-se frente à morte, na angústia do confronto com a possibilidade do nada e da aniquilação do eu: "Ai que me roubam o meu eu!", clamava M. Unamuno -, mas fazemo-nos uns aos outros, de tal modo que ser e ser em relação coincidem. Por isso, a identidade faz-se, desfaz-se, refaz-se e, em sociedades complexas e abertas, ela será cada vez mais compósita e planetária, com tudo o que isso significa de enriquecimento e ao mesmo tempo de complexidades e possíveis rupturas. O outro é vivido sempre como fascinante e ameaça. Porque o outro é outro como eu, outro eu, e, simultaneamente, um eu outro, outro que não eu. Daí, a ambiguidade do outro. O outro enquanto outro escapa-se-me, não é dominável.

Nunca saberei como é viver-se como outro. Quando olhamos para outra pessoa, perguntamos: como é que ela se vive a si mesma, por dentro?, como é que ela me vê?, como é o mundo a partir daquele foco pessoal? Porque é simultaneamente, tanto do ponto de vista pessoal como grupal e societal, um outro eu e um eu outro - outros como nós e outros que não nós -, o outro atrai, ao mesmo tempo que surge como perigo possível. Há, pois, uma visão dupla do outro, que tanto pode ser idealizado - no amor, é divinizado - como diabolizado. Atente-se na ligação entre hospitalidade e hostilidade, derivados do latim hospite e hoste, respectivamente. Cá está: o outro é hóspede, por exemplo, no hotel e no hospital. Mas, no hotel, pedem-nos a nossa identidade, porque podemos constituir uma ameaça, um perigo ou ir embora sem pagar. Aliás, agora, também há o hostel, onde a dimensão hostil é mais visível pela sua sonoridade, e, por isso, nos pedem, repito, para prevenir, a identificação. E a fronteira, porta de entrada e de saída, em ligação com fronte - a nossa fronte somos nós voltados para os outros e ao mesmo tempo ela é limite e demarcação de nós -, anuncia o outro - outro país - e é espaço de acolhimento e também da independência.

No quadro desta ambiguidade, entende-se como, por medo, ignorância, desígnios de domínio, se pode proceder à construção ideológica e representação social do outro essencialmente e, no limite, exclusivamente, como ameaça, bode expiatório, encarnação e inimigo a menosprezar, marginalizar, humilhar e, no limite, abater, eliminar. Num mundo global, cada vez mais multicultural e de pluralismo religioso, é urgência maior repensar a identidade e avançar no diálogo intercultural e inter-religioso, sempre no horizonte da unidade na diferença e da diferença na unidade.

As revoluções em curso, que obrigam a repensar o futuro da humanidade, são outras razões que aprofundam a necessidade e a urgência do encontro e do diálogo entre as culturas e as religiões. O que desde há anos Hans Küng vem sublinhando - a necessidade do diálogo inter-religioso para ser possível a paz no mundo - é cada vez mais urgente. Entende-se mais claramente do que nunca que a obra do célebre teólogo, autor principal da "Declaração de Uma Ética Mundial", aprovada pelo Parlamento Mundial das Religiões em Chicago, em 1993, se oriente pelo lema: "Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso globo sem um ethos global, um ethos mundial."

Falo nas religiões, mas o problema estende-se às várias dimensões do humanum, precisamente porque o ser humano é constitutivamente cultural, resultado de uma herança genética e de uma cultura em história, é bom repetir. Por isso, a integração noutra cultura é tudo menos fácil. Porquê? Quem não reflectiu suficientemente é por vezes levado a pensar que a cultura é como um vestido, algo exterior que a pessoa facilmente troca, mudando de cultura como muda de vestido. Não é assim, de modo nenhum. Porquê? Sendo sempre o resultado de uma herança genética e de uma cultura, a cultura define-nos, faz parte da nossa identidade e, por isso, como se constata pela história, mesmo recente, não falta quem esteja disposto a bater-se, até pelas armas, pela sua cultura, que faz parte constituinte da sua identidade.

Felizmente, a nossa identidade é aberta, em história, e, por isso, também podemos ver no diálogo intercultural e inter-religioso um factor determinante de enriquecimento mútuo.

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

domingo, 2 de junho de 2019

Festa da Ascensão do Senhor

Festa da Ascensão: O Senhor Jesus amplia os espaços de comunicação da sua presença de Ressuscitado no mundo. Festa da Ascensão: a Igreja recebe a missão, na forma de mandato, de ir por todo o mundo anunciar a alegre notícia do futuro que nos aguarda e o Espírito Santo vai construindo em nós e no mundo.

Ao longo do tempo pascal, a Igreja apresenta-nos o Ressuscitado em várias aparições que credibilizam o que aconteceu a Jesus crucificado e fazem memória dos seus ensinamentos. Mostra-nos também a reacção dos discípulos que vão refazendo as suas convicções e atitudes. Faz a ponte, como em Lucas, com a Igreja nascente, salientando a função singular do Espírito Santo.

S. Leão Magno, papa do século V, procura o sentido destas semanas e afirma: “Irmãos caríssimos, durante todo este tempo, decorrido entre a ressurreição do Senhor e a sua ascensão, a providência de Deus esforçou-se por ensinar e insinuar, não só nos olhos mas também nos corações dos seus, que a ressurreição do Senhor Jesus era tão real como o seu nascimento, paixão e morte”.

Lucas, o autor dos relatos lidos na liturgia de hoje, localiza a Ascensão em Betânia, nos arredores de Jerusalém, após a aparição aos discípulos e a sua identificação, mostrando os sinais da sua paixão e comendo um pedaço de peixe grelhado. (Lc 24, 46-53). Narra a pedagogia de Jesus que acompanha, recorda, caminha, dialoga, exorta, dá a bênção e faz a promessa de, juntamente com Deus Pai, enviar o Espírito Santo. “Vós sois testemunhas disso”, atesta com toda a clareza. A bênção constitui o legado de toda a sua vida; a promessa garante o Espírito Santo, o Mestre que, de agora em diante, recorda o que aconteceu e descobre o seu sentido profundo, ilumina os caminhos da missão, “unge” e robustece as forças organizativas da instituição eclesial.

“A promessa e a bênção da ascensão comprometem a Igreja na história a testemunhar a presença do Ressuscitado e a esperar a sua vinda gloriosa. Testemunho e espera são os reflexos eclesiais e espirituais do acontecimento da ascensão como promessa e bênção”. (Manicardi). O compromisso envolve todos os membros da Igreja e suas comunidades, que dão rosto humano a Jesus na fase nova da sua “vida oculta”: no pobre e excluído, na família e suas associações, nas assembleias dominicais e suas celebrações, sobretudo eucarísticas, nas fases da vida humana mais débeis e sofridas, nos feitos gloriosos da humanidade em festa, na hora da morte, enquanto “porta aberta” para o grande encontro, a dimensão nova em que Jesus se encontra.

A Festa da Ascensão convida-nos a cuidar do olhar para ler o “oculto” e dar-lhe nome, a escutar a voz secreta da consciência e decifrar as suas mensagens, a estar atento “conectado” ao que acontece e reagir positivamente, vencendo a acomodação do ambiente que nos envolve e adormece.

E Jesus condensa a sua mensagem: Sereis minhas testemunhas até aos confins da terra. Fazei discípulos de todos os povos. Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo. Servi-vos dos meios adequados à cultura dos povos. Percorrei os espaços da comunicação. Sede simples como pombas e prudentes como serpentes.

E, impelida pela força do Espírito Santo, começa a missão da Igreja; missão que tem revestido muitas formas de realização. No nosso tempo, as formas de relação e os meios de comunicação têm sido muito diversos. Hoje ocorre a celebração o Dia Mundial das Comunicações Sociais como fenómeno envolvente de toda a humanidade. O Papa Francisco e muitos bispos em sintonia com ele publicam mensagens que alertam para a necessidade de colocar as comunidades de redes sociais ao serviço da comunidade humana.

O último parágrafo intitula-se: «Do “like” ao “amen”. Ou seja do gosto à convicção, da atração à adesão livre e confiante. Pode ser um caminho de iniciação à fé cristã. Ficamos com algumas das suas afirmações que têm como referência a rede social e o corpo humano:

A imagem do corpo e dos membros recorda-nos que o uso das redes sociais é complementar do encontro em carne e osso, vivido através do corpo, do coração, dos olhos, da contemplação, da respiração do outro. Se a rede for usada como prolongamento ou expetativa de tal encontro, então não se atraiçoa a si mesma e permanece um recurso para a comunhão. Se uma família utiliza a rede para estar mais conectada, para depois se encontrar à mesa e olhar-se olhos nos olhos, então é um recurso. Se uma comunidade eclesial coordena a sua atividade através da rede, para depois celebrar juntos a Eucaristia, então é um recurso. Se a rede é uma oportunidade para me aproximar de casos e experiências de bondade ou de sofrimento distantes fisicamente de mim, para rezar juntos e, juntos, buscar o bem na descoberta daquilo que nos une, então é um recurso.

Assim, podemos passar do diagnóstico à terapia: abrir o caminho ao diálogo, ao encontro, ao sorriso, ao carinho… Esta é a rede que queremos: uma rede feita, não para capturar, mas para libertar, para preservar uma comunhão de pessoas livres. A própria Igreja é uma rede tecida pela Comunhão Eucarística, onde a união não se baseia nos gostos [«like»], mas na verdade, no «amen» com que cada um adere ao Corpo de Cristo, acolhendo os outros.

Festa da Ascensão: O Senhor Jesus amplia os espaços de comunicação da sua presença de Ressuscitado no mundo. Festa da Ascensão: a Igreja recebe a missão, na forma de mandato, de ir por todo o mundo anunciar a alegre notícia do futuro que nos aguarda e o Espírito Santo vai construindo em nós e no mundo.