sábado, 31 de agosto de 2019

Sê humilde, procura a verdade


“A humildade não se opõe apenas à ânsia de aparecer de quem gosta de dar nas vistas, de quem «gosta dos lugares de honra» nas festas, nos primeiros lugares na sinagoga, de quem usa as igrejas e o religioso para se exibir, «para se fazer notar», mas também à atitude de falsa modéstia de quem se coloca atrás, no último lugar, mas alimentanto no íntimo uma esperança de ser mandado para frente”.

Jesus encontra-se em casa de um fariseu ilustre para tomar uma refeição em dia de sábado. A circunstância proporciona-lhe uma das melhores oportunidades para observar o comportamento dos convivas presentes que “espiam” as suas atitudes. Em causa está a escala da ocupação dos primeiros lugares à mesa prevista no “ritual” de banquetes. E, consequentemente, o apreço social e religioso atribuído ao ocupante. E havia quem se aproveitava, o que obrigava a uma certa despromoção. E o invés também se dava, intervindo o organizador da festa e fazendo subir para lugar de maior consideração quem o merecia.

Jesus, na leitura de Lucas 14, 1. 7-14, hoje proclamada, faz o relato da situação dando-lhe o estilo de parábola. Eleva a cena a banquete nupcial e atribui o lugar devido a cada convidado. A ordem alterada é reposta, fazendo brilhar a atitude interior da pessoa e o seu apreço social. A verdade manifesta-se sem interferências e põe a claro a (in)coerência disfarçada de uns e a humildade autêntica de outros. A aparência e suas múltiplas manifestações ocorre por todo o lado, mas sobretudo nos espaços mediáticos, no campo desportivo, na “arena” política, nas festas religiosas.

“As leituras de hoje, afirma Manicardi, contêm uma mensagem sobre a humildade: humildade como atitude humana agradável a Deus e que torna amável aquele que a vive (1ª leitura); humildade como atitude que reproduz o modo de escolher e de viver que foi o de Cristo Jesus (Evangelho) ”. Do nascer ao morrer, da vida em Nazaré ao anúncio missionário em aldeias e famílias, da ida à sinagoga ou ao Templo, das festas e convívios, Jesus dá o exemplo da mensagem que anuncia e nos deixa como boa nova para todos os povos.

A humildade é como a raiz da árvore: extrai do húmus a seiva que a alimenta, dá-lhe segurança e vitalidade, influencia o ambiente e oferece os seus frutos… E tudo, permanecendo escondida, silenciosa, discreta. A árvore será a porta-voz do seu valor: as aves com os seus ninhos e chilreio, os lavradores com o cansaço do trabalho e a necessidade de descanso e alimento, os namorados e famílias com os seus convívios e histórias, os cristãos com os seus hinos de louvor ao Deus do universo e com os frutos que podem ser “dons de salvação”.

Celebra-se, hoje, o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. O Papa Francisco dirige uma mensagem à humanidade, sobretudo aos cristãos e pede uma maior responsabilidade na gestão da água e um maior compromisso no cuidado dos ecossistemas marinhos. Os acontecimentos trágicos, de que somos testemunhas, não podem deixar ninguém indiferente, especialmente os da Amazónia e os do início da II Grande Guerra que ocorrem hoje. “Rezemos todos, pede o Papa, pela paz para que não se repitam os trágicos acontecimentos provocados pelo ódio, que apenas geram destruição, sofrimento e morte”.

Jesus observava a atitude dos convivas na casa do fariseu. E fez do que viu uma veemente exortação à mudança de vida, exortação que se mantém cheia de actualidade face às tragédias no nosso tempo. Procuremos a verdade. Sejamos humildes.

Mas o que é a humildade? É tentar descobrir e ficar no lugar que o Senhor lhe atribuiu e ser fiel na tarefa que lhe confiou; é a sabedoria de quem tem uma justa avaliação de si próprio e de quem aceita a realidade. Diz São Paulo: “Não vos considereis mais do que é devido considerar-se, mas senti-vos de modo a ter de vós próprios uma justa avaliação, cada um segundo a medida da fé que Deus lhe deu” (Rm 12, 3).

“A humildade não se opõe apenas à ânsia de aparecer de quem gosta de dar nas vistas, de quem «gosta dos lugares de honra» nas festas, nos primeiros lugares na sinagoga, de quem usa as igrejas e o religioso para se exibir, «para se fazer notar», mas também à atitude de falsa modéstia de quem se coloca atrás, no último lugar, mas alimentanto no íntimo uma esperança de ser mandado para frente”.

Jesus consegue falar na parábola do agir surpreendente de Deus: no banquete do Reino são os pobres que ficam com os lugares privilegiados, são os últimos que são os primeiros. “Para nós, homens, o que há de mais sensato e habitual do que convidar para nossa casa as pessoas amigas, aquelas a quem estamos ligados por laços de amizade e de amor, aquelas que já nos convidaram e voltaram a convidar-nos? Mas Jesus está a obedecer à lógica «estranha», «louca», «rara», de Deus e do Reino”.

Na comunidade de Jesus, as atitudes devem ser diferentes, convergindo, todas, na humildade e na verdade, na gratuidade e no amor desinteressado, na atenção preferencial e delicada ao esquecido e abandonado. Assim se manifesta a situação nova, em emergência, o reino de Deus. Assim se abrem as janelas do futuro definitivo de toda a humanidade.

domingo, 25 de agosto de 2019

Entrar pela porta estreita da salvação

A coerência entre o que se ouve e diz e o que se faz; entre o que se convive em festas alegres e amigas e a distância de sentimentos e critérios de vida; entre a presença vistosa, provocadora e hipócrita, em praças públicas e as atitudes honestas, fruto da verdade e do bem; entre os comportamentos sociais, fingidos e corruptos, e o testemunho honrado e corajoso, ainda que incompreendido e desvirtuado; entre as situações discriminatórias e humilhantes e os laços fraternos das pessoas entre si e as relações filiais com o Deus de todos. Esta coerência vivida é expressão do reino anunciado por Jesus e tão belamente visualizado na porta estreita da salvação, na novidade do Evangelho.
O Reino é para todos, mas não há entrada garantida, nem bilhetes reservados. As medidas da porta de acesso estão traçadas. Só entra quem “se libertar de todas as gorduras” e viver a sobriedade evangélica. Por isso, Jesus exorta, com insistência, a entrar pela “porta estreita” a fim de poder sentar-se à mesa da felicidade onde todos são comensais e saboreiam os “manjares” do seu Senhor.

 “Senhor, são poucos os que se salvam?” - pergunta alguém a Jesus que, a caminho de Jerusalém, anunciava a todos a largueza do reino de Deus em aldeias e cidades. Pergunta que brota do mais íntimo do coração humano e que sempre, de forma velada ou clara, vem à consciência e se faz ouvir em público. Pergunta que antecipa o futuro dando um novo sentido ao presente. Pergunta que parece ficar sem resposta, mas não.

Jesus, em vez do número que a pergunta pede, prefere indicar o caminho para alcançar a salvação. “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita”, diz como ressonância, segundo a versão de Lucas 13, 22-30. E lembra que muitos tentaram entrar e não o conseguiram. (trata-se de um banquete, símbolo da salvação, que se celebra numa casa de família). O fracasso da tentativa é devido à porta estar fechada por decisão do dono.

“Se é certo que a porta da salvação requer um esforço, ela carece também de algo mais. De facto, tem um senhorio que a pode abrir e fechar. Para entrar, é preciso conhecer o senhorio, ter intimidade com ele, uma boa relação com ele. A salvação é uma questão de relação. Relação que começa, aqui e agora, com o Senhor Jesus e que espera tornar-se comunhão com Ele para sempre. O esforço pedido ao crente também é, então, a salutar inquietação de quem não toma a salvação por garantida pela presença eclesial ou pela assiduidade aos sacramentos (comer e beber na presença do Senhor pode também aludir à eucaristia”),  Manicardi.

Quem está dentro? Uma multidão incontável vinda de todos os povos. E fora? Um grupo que conhece o Senhor e pretende entrar de qualquer maneira, e expor as suas razões que são de proximidade e familiaridade com Ele, como a convivência no comer e no beber, na escuta dos discursos na praça pública. “Repito que não sei donde sois”. Que resposta desoladora! Que advertência tremenda! Que aviso solene deixado a todos os que põem a sua garantia em “dar nas vistas” e se esquecem do resto, da relação com o Senhor, da oração e de tantos outros meios da vida interior, que tem muitas outras facetas. Sirva de referência o que se segue.

A coerência entre o que se ouve e diz e o que se faz; entre o que se convive em festas alegres e amigas e a distância de sentimentos e critérios de vida; entre a presença vistosa, provocadora e hipócrita, em praças públicas e as atitudes honestas, fruto da verdade e do bem; entre os comportamentos sociais, fingidos e corruptos, e o testemunho honrado e corajoso, ainda que incompreendido e desvirtuado; entre as situações discriminatórias e humilhantes e os laços fraternos das pessoas entre si e as relações filiais com o Deus de todos. Esta coerência vivida é expressão do reino anunciado por Jesus e tão belamente visualizado na porta estreita da salvação, na novidade do Evangelho.

O Reino é para todos, mas não há entrada garantida, nem bilhetes reservados. As medidas da porta de acesso estão traçadas. Só entra quem “se libertar de todas as gorduras” e viver a sobriedade evangélica. Por isso, Jesus exorta, com insistência, a entrar pela “porta estreita” a fim de poder sentar-se à mesa da felicidade onde todos são comensais e saboreiam os “manjares” do seu Senhor.

sábado, 10 de agosto de 2019

A alegria de vigiar para servir


Jesus está preocupado em preparar os discípulos para o desempenho da missão que lhes quer confiar: acolher e servir o Reino que Deus lhes entrega, estar vigilantes e ser responsáveis. E conclui este ensinamento afirmando pela “boca” de Lucas: “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido”. Lc 12, 32-48.

Ilustra e embeleza o seu ensinamento com a narração de uma parábola – a dos empregados que esperam o seu senhor ao voltar da festa de casamento. Pedro sente-se questionado e pergunta: “A parábola é só para nós ou para todos?” A resposta de Jesus surge noutra parábola – a do administrador fiel e prudente que sabe gerir o pessoal da sua casa.

A atitude dos empregados e do administrador exemplifica bem o comportamento que Jesus define para os seus discípulos de todos os tempos: acolher, com satisfação, o dom que nos é oferecido, viver em confiança filial, cultivar o espírito de vigilância, ser responsável. A iniciativa da oferta pertence a Deus e proporciona-Lhe o prazer de desvendar o Seu projecto de fazer connosco uma nova família, a Sua alegria em credenciar Jesus, Seu filho, que anuncia e realiza esta feliz notícia, o Seu propósito de nos envolver plenamente, fazendo, com a humanidade, uma “parceria” de serviço, uma aliança de amor.

O Papa Francisco, no dia 4 de Agosto 2019, dia do santo Cura de Ars, pároco francês, da diocese de Lyon, escreveu uma carta pessoal aos padres, sobretudo párocos, mostrando a sua proximidade e gratidão no meio de tantas tribulações, louvando o zelo missionário e lembrando a necessidade da comunhão entre todos para a Igreja avançar na missão. E diz: “Como irmão mais velho e pai, também eu quero estar perto, em primeiro lugar para vos agradecer em nome do santo Povo fiel de Deus tudo o que ele recebe de vós e, por minha vez, encorajar-vos a relembrar as palavras que o Senhor pronunciou com tanta ternura no dia da nossa Ordenação e que constituem a fonte da nossa alegria: «Já não vos chamo servos, (...) a vós chamei-vos amigos» (Jo 15, 15).[3]

… Deixemos que seja a gratidão a suscitar o louvor e nos encoraje mais uma vez na missão de ungir os nossos irmãos na esperança; nos encoraje a ser homens que testemunhem com a sua vida a compaixão e misericórdia que só Jesus nos pode dar”.
A doação de Deus, continua a nossa reflexão, preenche totalmente o coração humano e proporciona-lhe critérios de relação consigo mesmo, com as pessoas e com os bens. Liberta-o de todos os medos, apesar da sua fragilidade e inconstância, cimenta a confiança na promessa feita, abre-o a um estilo de vida sóbrio e disponível, habilita-o para saber apreciar os bens: ter para partilhar; desfazer-se deles para não se deixar apanhar e prender pelas garras da ganância egoísta; considerá-los, sempre, como valores que apontam para o Bem supremo.

A vigilância evangélica – de que trata a parábola – merece uma atenção especial. O imprevisto espera uma oportunidade e pode apanhar os discípulos desprevenidos e sonolentos. A lucidez e a responsabilidade constituem as atitudes típicas de quem está “em serviço” e quer ser fiel. Não desperdiçará nada de bom nem deixará passar qualquer ocasião propícia ou saberá mesmo provocá-la. E, então, surgirá o reconhecimento de quem lhes confiou a responsabilidade – como tão bem narra a referida parábola. Bela lição e óptimo ensinamento!

A autenticidade do discípulo fiel está em saber conformar-se com Jesus Cristo, com o seu Evangelho e seus valores, o seu estilo de vida e escala de prioridades. Em conformar-se e adquirir a forma das pessoas de bem, apreciadoras dos sonhos e cultoras da fantasia em que se desenha um futuro feliz para todos/as. Em conformar-se consigo mesmo e abrir horizontes de esperança à sua vida, com esforço abnegado e confiança em Deus. Que felicidade ser cristão autêntico e fiel! Experimenta mais uma vez.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Jesus ensina-nos a rezar


A resposta de Jesus abre novas dimensões ao pedido que o seu discípulo lhe faz para ensinar o grupo a rezar. São dimensões familiares que manifestam o ser de Deus, na sua relação connosco, que o fazem presente nas entranhas filiais de cada humano, que o definem e tornam reconhecido como a fonte de vida comum que gera “um nós” inconfundível e original. Constituem, por isso, a verdade que nos identifica e consolida na existência e a realidade performativa que nos impele a viver, cada vez mais, de acordo com a matriz do nosso ser humano.

O pedido do discípulo surge após a oração de Jesus. Lc 11, 1-13. Que haveria de especial, neste gesto de Jesus, para ele se sentir tão desejoso e impressionado? É certo que os mestres ensinavam os discípulos a rezar, transmitindo-lhes o resumo da mensagem que pretendiam difundir. Jesus praticava a oração, com normalidade, no decorrer do dia e das festas, sozinho e em família, com o grupo de acompanhantes, em lugares silenciosos, nos espaços públicos, na sinagoga, no templo. O grupo sabia-o e podia testemunhá-lo.

A novidade está, sem dúvida, na relação filial que manifesta ao dirigir-se a Deus como Abba, Papá querido, e consequentemente em “reconfigurar” o rosto de Deus no coração humano, em condensar o seu projecto de salvação em preces e atitudes vividas por ele e transmitidas aos discípulos, seus fiéis seguidores.

O desejo expresso pelo discípulo desvenda o melhor do ser humano: ser chamado a conhecer as suas capacidades e limitações, a ultrapassar-se a si mesmo – a sua vocação é Deus, a plenitude que Jesus nos revela -, a crescer na relação solidária, fruto da irmandade comum, a cuidar e apreciar tudo o que é humano como dom recebido a transmitir.

Que contraste tão interpelante com o rosto social do homem de hoje, a cultura da satisfação, a sociedade cansada e fechada sobre si mesma, com as confissões religiosas “descafeinadas”, adormecidas, a Igreja inibida no seu conjunto perante minorias aguerridas que dizimam as referências fundamentais da comum humanidade!

“Paizinho querido” mostra o teu rosto claro na consciência de cada pessoa e enriquece-a, com os dons do teu Espírito, para agir rectamente; faz brilhar, na relação humana, a ternura da tua atenção a todos, de modo que surja a civilização do amor, a cultura da vida; dá a conhecer, cada vez mais, o teu Nome, o projecto de felicidade, sem distinção de raças nem de cores; manifesta o teu Reino em realização crescente, o triunfo do amor e da paz, da justiça e da verdade em todo o mundo; dá-nos “o pão nosso”, fruto do trabalho digno para todos e símbolo privilegiado de teu Filho Jesus, o pão que desce do Céu para a vida do mundo; perdoa a desfiguração que fazemos de Ti, a distância e a indiferença que perdura em nós em relação à proximidade filial que nos ofereces e à fraternidade que somos chamados a construir; não nos deixes ceder à tentação do consumismo e do espezinhamento dos direitos humanos que negam a tua proposta sonhada de igual dignidade de todos; livra-nos da tentação do comodismo egoísta, da injusta repartição dos bens, da comercialização da vida humana, do desequilíbrio crescente no planeta que cuidamos em vosso nome e gerimos em nome das gerações vindouras.

Ámen, Papá bom! Ajuda-nos a entrar e a viver nesta relação de amor que Jesus cultivou e deixou como distintivo dos seus discípulos. E o mundo será outro e a Igreja mais fiel na missão; e a relação entre os seres humanos, Teus Filhos, mais honestas e caridosas; e a natureza e tudo o que encerra, mais conformes ao Teu projecto em desenvolvimento para a plenitude. “Sim Pai porque foi do Teu agrado”.

sábado, 20 de julho de 2019

Receber Jesus em sua casa


A fé ensina-nos a ver que, em cada homem, há uma bênção para mim, que a luz do rosto de Deus me ilumina através do rosto do irmão.
 Saber acolher como Abraão que interrompe o seu descanso e se põe ao serviço de desconhecidos, prestando-lhes generosamente os cuidados usuais. Como Marta, a incansável dona de casa, que se esmera na prática das regras da boa hospitalidade. Como Maria, a ouvinte dócil e atenta, que se senta aos pés de Jesus, qual discípula fiel. O acolhimento é fonte de enriquecimento mútuo.
 Jesus continua a sua caminhada para Jerusalém e aproveita para fazer os seus ensinamentos, ora por gestos e palavras, ora por atitudes e parábolas. Acompanha-o o grupo dos discípulos. Avança por cidades e aldeias. Escolhe o ritmo da viagem. Atende a quem o procura e lhe manifesta um desejo. Toma, também, a iniciativa de ir ao encontro de quem quer. Para visitar amigos e fazer confidências. Para descansar e revigorar forças. Seja qual for a razão, Jesus faz, de cada passo, uma ocasião para dar a conhecer algum detalhe da sua mensagem.

Lucas – o evangelista médico que narra a visita de Jesus a Marta e a Maria – coloca este episódio após a parábola do bom samaritano e antes da oração do “Pai Nosso”. Lc 10, 38-42. Parece atribuir-lhe uma força emblemática: a situação marginalizada da mulher entre os judeus e a igualdade radical de todos os humanos, a urgência de caminhar para uma sociedade inclusiva que seja espelho do “nosso Pai”, da comum humanidade de todos. E define a correspondente regra de ouro: abrir a porta e saber acolher; escutar e entrar em sintonia, facilitar. Esta regra mantém um valor acrescido na cultura hegemónica de exclusão e abandono, de preconceitos e muros erguidos, que nos envolve. O Papa Francisco, por gestos e palavras não cessa de chamar a atenção para este drama da humanidade, que tem o rosto dos refugiados abandonados, dos migrantes rejeitados, de multidões esfomeadas, de cadáveres a boiar com o ritmo das onda, enquanto não são recolhidos por algum “salva-vidas” de solidariedade.

“Acolher o estrangeiro significa abrir-se à revelação de que ele é portador, afirma Manicardi. Hospedar é criar um espaço para o outro e dar do seu tempo ao outro. É compartilhar a sua casa e o seu alimento. Em mais profundidade hospedar significa fazer de si um espaço para o outro através da escuta. Maria, que escuta a palavra de Jesus, é imagem de uma hospitalidade que não se limita a acolher sob o teto da casa, mas faz da própria pessoa uma morada para o outro”.

Abrir a porta da casa, construção material e lar familiar, espaço da consciência pessoal e da dignidade comum, âmbito do diálogo na verdade que liberta e faz crescer. A abertura desta porta pode estar condicionada por factores externos, mas é feita, sempre, a partir de dentro. A chave, por excelência, é a fé de adesão cordial e inteligente a Jesus Cristo, fruto da Palavra de Deus. Diz o Senhor: “Já estou à porta e bato. Quem ouvir a minha voz e abrir a porta, entro em sua casa e janto com ele e ele comigo” (Ap 3, 20). Não força. Aguarda uma decisão livre.

Saber acolher como Abraão que interrompe o seu descanso e se põe ao serviço de desconhecidos, prestando-lhes generosamente os cuidados usuais. Como Marta, a incansável dona de casa, que se esmera na prática das regras da boa hospitalidade. Como Maria, a ouvinte dócil e atenta, que se senta aos pés de Jesus, qual discípula fiel. O acolhimento é fonte de enriquecimento mútuo. Como recorda o Papa Francisco na encíclica: “A fé ensina-nos a ver que, em cada homem, há uma bênção para mim, que a luz do rosto de Deus me ilumina através do rosto do irmão (LF 42).

Escutar e entrar em sintonia constitui a terceira fase daquela regra de ouro. Assim o mostram os modelos referidos. Escutar e decifrar as mensagens que são transmitidas por palavras e silêncios, por gestos e atitudes. E descobrir neles a pessoa e seu estado anímico e espiritual, o seu drama, a sua aspiração silenciada, o seu sonho adormecido. Entrar em sintonia para reagir positivamente e dar o passo possível. Caminhando juntos, nascemos para novas realidades, abrimo-nos ao horizonte de Deus. “A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida” (LF 4).

Marta acolhe e serve. Afadiga-se com os afazeres necessários para o Amigo que as visita. Talvez a hora da refeição esteja a chegar. E a irmã não reagia; continua a ouvi-Lo atentamente; faz-Lhe companhia; sintonia afectivamente, admira, contempla. O que Marta faz pela acção, faz Maria pela contemplação. Estão ambas ao serviço do mesmo Amigo e Mestre. Como veio a fixar a regra de São Bento: “Ora e trabalha”, regra que veio a influenciar e a humanizar a Europa.

Marta e Maria, duas faces do mesmo rosto. Ambas indispensáveis. Em todos os âmbitos: no casal humano que dialoga, na família que partilha, na comunidade cristã que reparte dons e serviços, na sociedade que edifica o bem comum, na Igreja que vive da riqueza dos dos do Espírito e os expressa em gestos de missão.

Jesus é recebido numa aldeia por Marta e Maria, símbolos da nossa humanidade. Durante a conversa e refeição, a atitude interior muda. É Ele que acolhe as duas irmãs na sua singularidade, sinal antecipado da realidade futura de todos os convidados para a ceia do Senhor.

Construir solidamente a vida, eis a mensagem que nos é proposta ao recebermos Jesus na nossa própria casa, de portas abertas para acolher quem chega e para sair à procura dos náufragos de todas as esperanças.

sábado, 13 de julho de 2019

Vai e faz o mesmo

[…] sente-te em viagem, portador de outros sonhos e peregrino de outras “terras”, observa a realidade por onde passas, adverte nas rotinas da vida e nas surpresas das ocorrências, aproxima-te, sem medo nem inibição, do estranho inesperado, identifica-o não como uma coisa, mas como um ser humano desfeito pelos golpes dos assaltantes, presta-lhe os primeiros socorros até mesmo com aquilo que te pode fazer falta, não gastes tempo em lamentações estéreis e inoportunas.
 Cabe-te fazeres-te próximo de quem está em necessidade”. Que as perguntas do espírito humano encontrem respostas capazes, assertivas, cheias de sentido integral e coerente.

Jesus vai a caminho de Jerusalém e faz do percurso uma escola itinerante que Lucas, o médico narrador, apresenta em episódios sucessivos, cheios de realismo e vida. A leitura de hoje faz-nos ver os figurantes da parábola do samaritano. O assunto é muito sério e existencial: “Mestre que devo fazer para receber a vida eterna?”, pergunta um especialista em leis religiosas. Pergunta que habita sempre o espírito humano e o impele a andar inquieto, a buscar, a querer saber.

Jesus responde com outra pergunta acessível ao interlocutor, mestre em leis. E o amor a Deus e ao próximo surge como o núcleo fundamental do dever humano. É preciso amar concretamente. Não basta um saber intelectual, escrito ou apregoado. É preciso fazer-se próximo do outro em necessidade. Sem mais. Como realça a parábola do samaritano Lc 10, 25-37.

O Papa celebrou o sexto aniversário da visita a Lampedusa, em Roma, e afirma na homilia: “penso nos «últimos» que diariamente clamam ao Senhor, pedindo para ser libertados dos males que os afligem. São os últimos enganados e abandonados a morrer no deserto; são os últimos torturados, abusados e violentados nos campos de detenção; são os últimos que desafiam as ondas dum mar impiedoso; são os últimos deixados em acampamentos de acolhimento (demasiado longo, para ser chamado de temporário). Estes são apenas alguns dos últimos que Jesus nos pede para amar e levantar ... São pessoas; não se trata apenas de questões sociais ou migratórias! «Não se trata apenas de migrantes!», no duplo sentido de que os migrantes são, antes de mais nada, pessoas humanas e que, hoje, são o símbolo de todos os descartados da sociedade globalizada”.

O diálogo entre Jesus e o escriba termina com um resposta acertada, memorável, que fica como senha do agir dos discípulos missionários de Jesus: “Vai e faz a mesma coisa”. Senha que, embora partilhada por tantas pessoas honestas e bondosas, brilha com intensidade maior em quem segue o exemplo de Jesus Senhor. Vamos deter-nos neste ponto.

Vai e faz o mesmo porque o amor de Deus envolve, necessariamente, aqueles que Deus ama, sem distinção de género ou de raça; percorre os seus caminhos de aproximação e serviço; reveste os seus sentimentos de ternura e misericórdia; faz-te voluntário e envolve-te em todas as causas dignas da condição humana; doa-te, por inteiro, com os teus bens, o teu tempo, as tuas capacidades de relação e influência.

Vai e faz o mesmo, sente-te em viagem, portador de outros sonhos e peregrino de outras “terras”, observa a realidade por onde passas, adverte nas rotinas da vida e nas surpresas das ocorrências, aproxima-te, sem medo nem inibição, do estranho inesperado, identifica-o não como uma coisa, mas como um ser humano desfeito pelos golpes dos assaltantes, presta-lhe os primeiros socorros até mesmo com aquilo que te pode fazer falta, não gastes tempo em lamentações estéreis e inoportunas.

Vai e faz o mesmo, levanta-o no corpo e no espírito, tem em conta o seu ritmo e doseia o teu passo, acompanha-o e faz-te seu fiador junto de quem vai continuar o tratamento e ajudar a fazer a recuperação. Não permaneças junto dele mais tempo do que o necessário, mas dá-lhe espaços de liberdade. Garante-lhe presença amiga e protectora enquanto precisar. Depois, é indispensável que volte a ganhar confiança em si mesmo, a estabelecer relações humanas solidárias, a situar-se na vida de forma responsável, a ajudar a remover as causas que provocam situações semelhantes à que o ia vitimando.

Jesus, ao narrar a parábola do samaritano, está a fazer, de algum modo, o seu auto-retrato. Ele é o amor de Deus pela humanidade e do homem para com o seu próximo. Ele percorre os caminhos da vida, expressos, de modo eloquente, na subida a Jerusalém. Ele é assaltado e trucidado pelos seus algozes. Ele morre e é ressuscitado, expressando a vida nova, eterna e feliz, que o mestre de leis procura e que já se vai saboreando em sentimentos e gestos como os do bom samaritano.

Vai e faz o mesmo. Santo Agostinho sintetiza a atitude cristã, dizendo: “Não perguntes: quem é o meu próximo? Cabe-te fazeres-te próximo de quem está em necessidade”. Que as perguntas do espírito humano encontrem respostas capazes, assertivas, cheias de sentido integral e coerente.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo” – Nelson Mandela

“A chave do sucesso é a educação.”- “Dar boa educação e serviço social não é caridade, é necessidade do desenvolvimento económico de um país. Quanto mais se investe em capital humano, mais as economias vão crescer”.

.. “Ninguém pode se sentir satisfeito enquanto ainda houver crianças, que não recebem uma educação que lhes ofereça dignidade e o direito de viver suas vidas completamente”.

“Uma boa mente e um bom coração são sempre uma combinação formidável. Mas quando você adiciona a isso um idioma bem falado ou uma caneta, então você tem uma coisa realmente especial”, pois, o mais valioso da educação é aprender a habilidade de analisar a realidade, mesmo quando isso é desconfortável e prova que aquilo que eu achava ser verdade está errado.”“[…] Os jovens devem tomar para si a responsabilidade de garantir que terão a melhor educação possível para poder nos representar bem no futuro, como futuros líderes.”

Símbolo da luta contra o Apartheid, regime de segregação racial que separava brancos e negros na África do Sul, Mandela foi sempre defensor de um sistema educacional mais equânime e digno. “Não está além do nosso poder a criação de um mundo no qual crianças tenham acesso a uma boa educação. Os que não acreditam nisso têm imaginação pequena”, repetiria ele ao longo da vida. Ainda em 1953, antes de passar 27 anos preso por lutar pela democracia, ele disse no Congresso Sul Africano: “Façam com que todas as casas e todos os barracos se tornem um centro de aprendizado para nossas crianças”.

Já como presidente, cargo que exerceu entre 1994 e 1999, Mandela lutou por prover uma educação mais equânime entre negros e brancos. “O presidente Mandela falou com paixão em todos os fóruns possíveis sobre seu compromisso de prover educação de qualidade para todas as crianças da África do Sul, assim como propiciar também uma vida melhor para todos. Ele estabeleceu parcerias valiosas com o setor privado, especialmente para a construção de escolas nas comunidades rurais de todo o país”, diz o Departamento de Educação Básica em seu site.

Mesmo depois de seu período na presidência e já octogenário, Mandela não deixou de lado sua ligação com educação. Em 2003, ele participou do lançamento da rede Mindset, uma organização sem fins lucrativos que provê material educativo e curricular para alunos e professores em vários temas, desde economia, matemática e física até tecnologia e orientação para a vida. Na ocasião, proferiu uma de suas aspas mais famosas e que resume parte de seus valores. “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”, disse ele. E avisou: “Vou usar o resto dos meus dias para ajudar a África do Sul a se tornar mais segura, saudável e educada”.

Sua militância na área continuou sendo frequente, mesmo depois de se retirar da vida pública em 2004. A instituição que leva seu nome e se responsabiliza por levar adiante seu legado ajudou a reformar escolas e a criar centros de excelência de estudos pela África do Sul. No exterior, suas palestras em universidades foram muitas – no site de sua fundação, a Nelson Mandela Foundation, é possível acessar a transcrição de seus discursos. “As instituições de educação superior têm a obrigação de escancarar suas portas. As que oferecem a educação mais rigorosa é que têm a maior obrigação. Vocês têm a qualidade, a habilidade, o apoio necessário para pressionar por isso”, disse Mandela em 2005 a universidade norte-americana de Amherst.

Ainda em 2005, ele criou outra fundação, a Mandela Rodhes Scholarship, destinada a financiar os estudos de jovens líderes africanos. Dois anos depois, ele criou um instituto voltado para promover a educação na área rural de seu país, o Nelson Mandela Institute for Rural Development and Education. “Ninguém pode se sentir satisfeito enquanto ainda houver crianças, milhões de crianças, que não recebem uma educação que lhes ofereça dignidade e o direito de viver suas vidas completamente”, disse ele por ocasião da fundação da organização.

Além de ele em si ter sido um advogado da educação, documentos relativos à sua vida e à sua contribuição para a história também estão disponíveis e organizados, num trabalho feito pela Nelson Mandela Foundation. Todo o material está disponível na plataforma e pode ajudar educadores de todo o mundo a recontar a importância do líder sul-africano para os séculos 20 e 21.

O legado de Mandela para a educação, portanto, passa pela defesa firme de uma educação de qualidade para todos, seja na cidade no campo, na escola ou na universidade. A educação, para ele, era uma forma de empoderar e libertar as pessoas, e a liberdade sempre foi sua maior bandeira. “Uma boa mente e um bom coração são sempre uma combinação formidável. Mas quando você adiciona a isso um idioma bem falado ou uma caneta, então você tem uma coisa realmente especial”, dizia ele.

“… os jovens devem tomar para si a responsabilidade de garantir que terão a melhor educação possível para poder nos representar bem no futuro, como futuros líderes.” Com a Patrícia Gomes