Como á habitual dizer-se, a Família é o
núcleo central da sociedade humana.
A sua composição (e organização)
reveste-se, por isso, de grande importância, qualquer que seja a cultura
considerada, nos quatro cantos do Planeta.
A Família significa laços de sangue, o
sentimento de identificação, pela via de transmissão de imperceptíveis marcadores
genéticos, que permitem, com segurança, quase científica, o estabelecimento da
relação de paternidade ou maternidade de sucessivas gerações, determinadas
pelos laços sanguíneos.
Cada sociedade humana, tal como sucede
com as diversas espécies animais, tem as suas próprias formas de reconhecimento
da identidade e de pertença à uma determinada família, através dos laços
sanguíneos
Entre os Balantas (o Povo Braza),
também, existem formas de estabelecimento e reconhecimento da relação de
parentesco, tanto na linha recta, como na linha colateral.
OS Dois Grandes
Grupos:
Os Balantas de Kuntowe e de Nhacra (Buwungue)
O Povo Braza (vulgo Balanta) compõe-se
de dois grandes Grupos: Os Balantas de Kuntowe e os Balantas de Nhacra (ou
Balantas de Fora), também chamados Buwungué.
Por referência ao Rio Mansoa (que
percorre a Guiné-Bissau do Centro para Oeste), os Balantas de Kuntowe
localizam-se à margem direita do Rio (no sentido da Nascente para a Foz, ou
seja, do interior para o mar).
Os Balantas de Kuntowe subdividem-se em
duas Sub-Etnias: os Nagas (Balanta Nagá) e os Mansoncas.
Genericamente, os Balantas de Kuntowe
são mais sedentários (emigram menos, dentro do País).
À margem esquerdas do Rio Mansoa (no sentido
da nascente para a foz) localizam-se os Balantas de Nhagra (ou Nhacra). Também
se chamam Buwungué (significa Aves).
Os Balantas de Nhagra (Buwungué) são migratórios.
Talvez venha daí o nome pelo qual são designados na Língua e na Cultura
Balanta: Buwungué (Aves migratórias).
O seu destino migratório tanto é para o
Oeste como para o Norte e Sul do País.
Na direcção Oeste, deslocam-se para
regiões como Biombo e Quinhamel, onde formam as suas colónias em Território da
Etnia Papel (em Balanta, Bezá-ó, donde a origem da denominação da cidade
capital da Rep.Guiné-Bissau – BISSAU - que resulta do aportuguesamento da sua
denominação em língua Balanta).
Essas pequenas colónias designam-se por “Flack”
(retiro), tal como “Flack Ne Bupe”, na Região de Quinhamel, constituída por
emigrantes vindos da Povoação de Bupe (Região de Nhacra).
Assim, encontram-se Povoações Balantas,
desde Biombo até Bissau, passando por Quinhamel até Cumurá, nos arredores de
Bissau.
Outro destino da emigração Buwungué é,
tradicionalmente, para o Sul da Guiné, atravessando o Rio Geba, de canoa.
No novo local de fixação, a Família que
aí se constitui, mantém, obrigatoriamente, a designação da Família de origem,
isto é, da Povoação de que o imigrante é originário, como se fosse seu prolongamento,
embora localizada em Território diferente.
São o caso de colónias constituídas em
Território da Etnia Papel (Botche Ne Bezá-ó) ou, no Sul da Guiné-Bissau, no
Território dos Nalus (Botche Ne Bnalu).
Para onde quer que emigre, todo o Braza
é obrigado a cumprir as regras e tradições da Família de origem (geralmente, Buwungué,
da Região de Nhacra).
O destino preferencial da emigração
Balanta é para o Sul da Guiné-Bissau, em especial, para o Território dos Nalus,
mais rica e propícia para a prática da agricultura do arroz (principal
actividade económica do Povo Braza, a par da cultura do amendoim.
Os Balantas de Kuntowé também são
migrantes (embora menos que os Buwungué).
Geralmente, emigram para o Norte, na
direcção de Ingoré e Farim, onde se cruzam com as Populações de Etnia Mandinga,
chegando a converter-se à Religião Muçulmana, por influência das tradições
locais.
Também usam deslocar-se para Oeste, para
Territórios da Etnia Mancanha (Brame ne Bula) e Manjaca.
A Etnia Balanta é a que se mistura mais (através
do casamento) com os demais grupos étnicos do País, em especial, com os Papéis
(Bezá-ó) e Mandingas (Bemendé).
Bem vista, nessa perspectiva, a População
Estatística da Etnia, no contexto global do País, é bem maior do que a, habitualmente,
indicada pelas Estatísticas Oficiais do País (aliás, desactualizada, à razão de
duas décadas).
Porque, a tradição, comum aos restantes
Grupos Étnicos, é considerar que os filhos gerados com uma Mulher Balanta
pertence à Etnia do pai, seja ele Papel, Mancanha ou Mandinga, e não à Etnia
Balanta.
Este tipo de relações familiares tem
forte implicação no modo de composição e legitimação de um individuo como
membro de uma Família: saber se reúne os requisitos, estabelecidos pela
tradição, que deve ser preservada pelo Homem Grande, para ser reconhecido como
membro legítimo da Família.
A composição do
Nome
A identidade de um Balanta estabelece-se
pelo nome próprio (dado pelo Pai) e pela junção do nome da Grande Família
tradicional (que se mantém de geração em geração).
Um indivíduo, que se chamasse, por
exemplo, “Glomur Na Montche” tem o seu
nome próprio (“Glomur”) e um sobrenome (“Montche”), que o associa à Grande Família
a que pertence.
Glomur Na Montche significaria: Glomur (nome
próprio), Filho de Montche, que indica que o indivíduo assim chamado pertence à
Grande Família dos Montche (coisa distinta da pequena família ou família
singular, constituída por um casal e seus filhos.
A palavra “Na” ou Ne” é um elemento
gramatical (preposição) que faz a ligação entre o nome próprio (no exemplo –“Glomur”) e o da Grande Família (no
exemplo - “Montche”).
“Na” ou “Ne” significam, “de” ou “da”. É
o equivalente da palavra Alemã “Von” (que se lê “Fon” e significa “de” ou “da”),
que entra na composição de vários nomes de Família Alemãs, como, por exemplo,
do nome “WERNER VON BRAUN” (Verner da Família Braun ou simplesmente Verner
Braun).
Werner Von Braun é o nome do grande
Engenheiro Alemão, ao serviço de Hitler, criador dos famosos V2 e inventor dos
modernos Mísseis, que, no fim da II Guerra Mundial, se rendeu aos Norte-Americanos
e dirigiu o Programa Espacial da NASA, cujo sucesso maior foi a colocação do 1º
Homem na Lua, permitindo, desse modo, a vitória dos Estados Unidos sobre a
União Soviética, na Corrida ao Espaço.
É sabido que existe muita semelhança
entre vocábulos da Língua Balanta e das Línguas Germânicas e Anglo-Saxónicas.
Mesmo quando não conste do nome oficial
(dado pelos Portugueses, na época colonial, ou pela República da Guiné-Bissau),
faz parte da Cultura Balanta saber de que Tabanca se é originário, devido aos muitos
laços familiares que daí derivam, sem que se saiba que tal pessoa é membro da
Família, porventura um pouco afastado.
A Tabanca
Há que
distinguir duas realidades: a Tabanca e a Morança (recorrendo à designação em
Crioulo).
Uma
Tabanca é o conjunto de Moranças de diferentes Grandes Famílias, instaladas
numa determinada Povoação, que tem, sempre, um nome próprio. Por exemplo:
Tchugue (uma Povoação ou Tabanca localizada na Região de Mansoa).
Uma
Tabanca Balanta é constituída por um conjunto de várias famílias singulares,
cujo elo de ligação consiste em terem uma ascendência comum.
Morança
Uma Morança é um conjunto de Casas da
mesma Família Grande, que têm em comum o único Avô Paterno, donde a importância
deste tipo de organização social.
Duas ou mais Moranças podem agrupar-se
num subgrupo familiar, em função das afinidades, que possam existir, em relação
a certas práticas sociais (por exemplo, Fanado, cerimónia de circuncisão).
Chama-se a isso KUFADE.
No meio do Pátio comum, localiza-se um
Templo sagrado (“FRAM”). Trata-se de uma construção de pequena dimensão, de
forma circular, que simboliza a Morada de Deus, no seio da Família Grande, que
se invoca para a obtenção de determinadas benesses, como a boa colheita
agrícola, a cura de um familiar doente ou regresso com saúde de familiar
ausente.
Em contrapartida, presta-se o culto
sagrado, através de oferendas do melhor que a Família tem: pode ser uma
galinha, morta com esse fim, cujo sangue é espargido, no templo, abrindo-se uma
pequena porta, tal como se oferece comida, à base de arroz, e bebida (aguardente
de cana).
Composição da
Família
Numa Morança (por exemplo, da Família “Fantchamna”):
Os FILHOS (Masculinos) têm o direito de
ficar na Morança e nela realizar o seu casamento.
Os seus Filhos (Masculinos), também
ficam na Família, e podem assumir o Apelido “NA FANTCHAMNA”.
Ao contrário, as FILHAS, em função do
casamento (BDÉ), não permanecem na Morança ou seja na casa paterna (a Grande
Família, de que falámos anteriormente).
Por sua vez, os Filhos delas não têm o
direito a usar o Apelido da Família (por exemplo, Na Fantchamna).
Os FILHOS delas são considerados apenas SOBRINHOS
da Família Grande (por exemplo, da Família Fantchamna), mas não podem ter, na
composição dos seus nomes, o título (ou apelido) “Na Fantchamna”.
Numa Morança (a Grande Família), os
Filhos (masculinos) constroem as suas casas à volta da casa do Pai, deixando no
meio um largo (um espaço) Sagrado chamado FIARÉ.
Esse largo é o lugar de todo o tipo de
culto sagrado, onde existe o IRAN GARANDI (Ser Espiritual, Medianeiro entre a
Família e Deus).
Normalmente, é representado por uma
planta (Pulga, em língua Crioula e mkub na língua Balanta).
Cada Filho (Masculino) tomará o Apelido
“Na Fantchamna” (por exemplo), assim como os seus Descendentes masculinos.
As FILHAS (BDÉ) – PADIDA – casam fora da
Grande Família de que são originárias.
Os Filhos e as Filhas, gerados fora da
Família Grande, em razão do casamento, são considerados SOBRINHOS da Grande
Família (por ex: Na Fantchamna) e são os mais acarinhados de toda a Família.
Chegam a ter mais importância do que os
Filhos masculinos que sempre viveram na Morança.
…….
Estas são algumas particularidades da
Cultura Braza, no que respeita à composição da Família, que aqui deixamos, sem
pretender esgotar a matéria, que é bastante complexa.
(até próxima edição)
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