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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Quem era a serpente do paraíso? (1)

Crónica de Anselmo Borges, no Diário de Notícias

1. É claro que a fé não deriva da razão, à maneira da matemática ou da ciência, não sendo, portanto, demonstrável cientificamente. Mas também se deve tornar claro que a fé não pode agredir a razão, com a qual tem de dialogar, dando razões de si mesma. Há que distinguir entre saber e crer. Como dizia o médico e filósofo Pedro Laín Entralgo, o penúltimo é da ordem do saber, mas o último é da ordem da crença. Por isso, o crente não pode dizer que sabe que Deus existe e que há vida depois da morte, como o ateu não pode dizer que sabe que Deus não existe e que com a morte a pessoa acaba: o crente e o não crente não sabem, crêem, com razões. Neste contexto, Kant é inultrapassável, também quando escreveu que, apesar da sua majestade, a religião não está imune à crítica. Aliás, o Evangelho segundo São João inaugura-se dizendo: "No princípio, era o Logos", portanto, o Verbo, a Palavra, a Razão. E "foi pelo Logos que tudo foi criado", provindo daí, como sublinharam vários cientistas, que a criação, a natureza, é investigável, pois é racional. Uma religião que tem medo da razão, da investigação crítica, do confronto e diálogo com as ciências, não é humana nem presta verdadeiro culto a Deus, correndo o risco de um dogmatismo estéril e, no limite, ridículo. Como o não crente também não pode ser dogmático nem fundamentalista.

2. Uma das aberturas do Concílio Vaticano II consistiu num diálogo aberto com as diferentes ciências, sem medo da investigação, e na salvaguarda dos direitos humanos, como o da liberdade de expressão. Depois, nos pontificados de João Paulo II e Bento XVI, foi reduzida a liberdade de investigação teológica, contando-se por centenas os teólogos condenados, admoestados, proibidos de escrever e ensinar. A Teologia tornou-se, assim, afónica, remetida para um silêncio forçado, ou tolhida dentro de uma linguagem escolástica e repetitiva, passando ao lado dos grandes problemas do mundo, de tal modo que o famoso bispo Pedro Casaldáliga pôde denunciar em 1995: "Com muita frequência nós, os bispos, julgamos que temos a razão, normalmente pensamos que a temos sempre. Ora, o que acontece é que nem sempre temos a verdade, sobretudo a verdade teológica, de modo que vos peço, a vós, teólogos, que não nos deixeis numa espécie de ignorância dogmática."

Uma das novidades fundamentais do pontificado de Francisco é que a liberdade dos teólogos regressou como algo natural, sem censuras nem condenações. Isabel Gómez Acebo chamou a atenção para o facto: "Uma das mudanças que o Papa Francisco introduziu, e sem que ninguém se tenha dado conta, é que a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé não publicou nenhum documento para toda a Igreja nestes últimos anos, quando em épocas anteriores o fazia entre duas e quatro vezes por ano" - com uma excepção, anoto eu: aquele sobre a cremação e o sepultamento dos mortos. E é um facto que, embora o tenha mantido no cargo, não tem utilizado os serviços do seu Prefeito, cardeal Gerhard L. Müller, concretamente não o chamou para apresentar documentos oficiais, nomeadamente "A Alegria do Amor", referente às questões da sexualidade, do amor e da família.

Mais: de modo indirecto, Francisco tem tentado a recuperação e a reconciliação com teólogos condenados. É assim que se poderia explicar, só para dar exemplos, a aproximação a Leonardo Boff, que ainda recentemente confessou publicamente que, em caso de necessidade de alguma comunidade, continua a presidir à Eucaristia, a Hans Küng, a quem já escreveu duas vezes, a José M. Castillo... Mais significativo é que levantou, numa carta pessoal autografada, a sanção que o Vaticano, por intermédio do cardeal T. Bertone, tinha imposto ao biblista argentino Ariel Álvarez Valdés, proibindo-o de "ensinar, escrever, publicar, dar aulas e cursos, e falar através da rádio e da televisão".

3. O biblista célebre acaba de publicar uma obra com o título em epígrafe: Quién era la serpiente del Paraíso... y otras 19 preguntas sobre la Biblia. Dada a sua importância, servir-me-á de inspirador para as duas próximas crónicas. Importância, porquê? Vivemos em tempos de urgência do diálogo inter-religioso. Ora, uma das sua condições essenciais é a leitura histórico-crítica dos textos sagrados: não uma leitura literal, mas uma leitura que conhece as regras exegéticas e hermenêuticas: atenção ao contexto histórico, à língua, ao género literário, aos destinatários, à sua intencionalidade última... E Ariel Álvarez é um bom exemplo para os fundamentalistas cristãos e, consequentemente, para seguidores de outras religiões, nomeadamente no mundo islâmico. Seja como for, apesar de tudo, dentro do cristianismo, deram-se passos de gigante neste domínio.

4. Afinal, "quem era a serpente do Paraíso?" Houve as interpretações mais díspares: que era uma víbora autêntica, mas possuída pelo Diabo; uma imagem, símbolo de Satanás; "um símbolo geral dos maus desejos e dos prazeres sensuais". De facto, nada disto está no texto, concretamente não há conotações sexuais no pecado de Adão e Eva. Como não há maçã nenhuma: a confusão veio do facto de em latim maçã se dizer malum e mau se dizer malus e malum.

A serpente é apenas o símbolo da religião cananeia, que via nela três qualidades: conceder a imortalidade, garantir a fecundidade, ser o protótipo da sabedoria. Um escritor anónimo escreveu, e isso aparece no livro do Génesis, sobre os perigos da religião cananeia: em vez do paraíso para todos, estava--se a viver no meio de injustiças, fome, dores, morte, e a causa da situação estava na religião cananeia, que levava o povo a refugiar-se numa religião de ritos exteriores e fetichistas, incluindo a prostituição sagrada, em vez de seguir a Lei do Deus vivo e "procurar a felicidade numa vida moral justa e honesta, ao serviço dos irmãos".

sábado, 17 de dezembro de 2016

A revolução de Francisco: "Sou amado, logo, existo"

Crónica de Anselmo Borges no Diário de Notícias

1. Na perspectiva grega, o decisivo é conhecer a essência, por exemplo, o que é Deus? Na perspectiva hebraica, no que a Deus se refere, a perspectiva é outra: o que é que acontece quando Deus está presente? Foi assim que João Baptista, na prisão, mandou discípulos perguntar a Jesus se era ele o Messias. Jesus não deu nenhuma resposta teórica. Deviam eles próprios descobrir a verdade a partir do que viam que estava a acontecer: "Ide contar a João o que estais a ver e a ouvir: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a boa notícia." O Messias verdadeiro é aquele que está presente em nome de Deus a aliviar os tremendos sofrimentos das pessoas, a abrir horizontes de esperança para todos, sobretudo para os pobres e abandonados. Jesus está aí, libertando da opressão e da indignidade, anunciando e realizando um mundo novo de alegria e dignidade para todos. Ele é o enviado pelo Deus compassivo, que sara e cura as feridas e liberta a vida: "Sede misericordiosos como o vosso Pai celeste é misericordioso." Mais do que dogmas e doutrina, o decisivo no cristianismo é a prática libertadora.

A revolução de Francisco foi anunciada desde o início, ao proclamar que ninguém devia ter vergonha da ternura, sendo a missão da Igreja levar adiante o projecto de humanização que Jesus quer: "Vejo com clareza que do que a Igreja precisa é de capacidade para curar feridas. Devemos encarregar-nos das pessoas, acompanhando-as como o bom samaritano, que lava e limpa as feridas e consola", "caminhar com as pessoas na noite, saber dialogar e inclusive descer à sua noite e obscuridade sem nos perdermos".

Por isso, proclamou o Ano da Misericórdia. Mas esse ano não podia ser "um parêntesis de misericórdia na vida da Igreja, já que ela constitui a sua própria existência, que manifesta e torna tangível a verdade profunda do Evangelho. Tudo se revela na misericórdia; tudo se sintetiza e resolve no amor misericordioso do Pai". Assim, no termo do Ano Jubilar, assinou uma exortação apostólica - Misericordia et Misera - com um programa para o futuro, concretizando o amor e a caridade.

A quase totalidade dos jornalistas só viu que Francisco estendeu no tempo a faculdade de absolvição pelos padres, incluindo os sacerdotes da Fraternidade São Pio X, do pecado do aborto. "Quero enfatizar com todas as minhas forças que o aborto é um pecado grave, porque põe fim a uma vida humana inocente, mas com a mesma força posso e devo afirmar que não existe nenhum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir." O cristão sabe que mesmo nos casos mais complexos, "nos quais se sente a tentação de fazer prevalecer uma justiça que deriva só das normas, se deve crer na força que brota da graça divina".

A exortação sublinha que o amor de Deus e a sua misericórdia se exprimem também "na proximidade, no afecto e no apoio que muitos nos oferecem quando chegam os dias de tristeza e aflição". "Todos temos necessidade de consolo, porque ninguém é imune ao sofrimento, à dor e à incompreensão. Quanta dor pode causar uma palavra rancorosa, fruto da inveja, dos ciúmes e da raiva. Quanto sofrimento provoca a experiência da traição, da violência, do abandono; quanta amargura perante a morte dos entes queridos. No entanto, Deus nunca permanece distante quando se vive estes dramas. Uma palavra que dá ânimo, um abraço que te faz sentir compreendido, uma carícia que faz perceber o amor, uma oração que permite ser mais forte..., é tudo expressão da proximidade de Deus através da consolação oferecida pelos irmãos." E lembra os presos - é contra a prisão perpétua, e a cadeia deve preparar para a integração social -, os migrantes, os analfabetos, os doentes, os moribundos. Pensando nos que passam fome e sede, nos sem abrigo e sem trabalho, institui o Dia Mundial dos Pobres. E ergue-se, dizendo: quando um banco entra em bancarrota, há dinheiro para salvá-lo; morrem diariamente milhares de crianças com fome e não há dinheiro para salvá-las; isto é "a bancarrota de humanidade e da humanidade".

Em síntese: para lá do famoso cogito cartesiano - "penso, logo existo" -, é preciso construir o mundo, assentando num outro princípio: "Sou amado, logo existo", escreve Francisco.

2. Neste contexto, em entrevista dada à revista belga Tertio, defendeu, contra os cardeais que se lhe opõem frontalmente, a sua exortação A Alegria do Amor, na qual está presente, dentro do necessário discernimento, a possibilidade de acesso à comunhão por parte dos divorciados recasados: "Tudo o que está na Amoris Laetitia foi aprovado por mais de dois terços dos padres sinodais." "E todos estavam em atitude de escuta, sem condenar. Houve uma liberdade de expressão muito grande. E isso é lindo."
Na entrevista, é taxativo: "Não se pode fazer a guerra em nome de Deus ou em nome de uma posição religiosa." Insiste na sua visão de uma Igreja "sinodal", "não piramidal", que escuta e aprende. A religião não pode estar separada da vida pública, como pretende o laicismo; isso vem de considerar o facto religioso como uma subcultura, mas é "uma posição antiquada", que exige que se distinga laicidade e laicismo: este "fecha as portas à transcendência", mas "uma cultura ou um sistema que não respeita a abertura à transcendência da pessoa humana, poda, corta a pessoa humana". Reafirma que "estamos em guerra; o mundo está a fazer a terceira guerra mundial, aos pedaços: Ucrânia, Médio Oriente, África, Iémen... É muito sério. Hoje fazem falta líderes; a Europa precisa de líderes, líderes que avancem". Quais são os danos maiores dos meios de comunicação social? Dois: dizer uma parte da verdade e não a outra "é desinformar"; "a doença da coprofilia, que é buscar sempre o escândalo, comunicar as coisas feias". Dois conselhos aos jovens: "Buscar horizontes", "não te reformes aos 20 anos".

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

sábado, 26 de novembro de 2016

Últimas Conversas.Testamento de Bento XVI. 2

Crónica de Anselmo Borges, no Diário deNotícias

A convite de João Paulo II, o cardeal Joseph Ratzinger aceitou em 1981 ser Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, com uma condição: continuar a publicar livros. "Porque sentia a obrigação interior de poder dizer algo à humanidade". Gostaria de ter dedicado a vida à "teologia científica". "Todos os escândalos chegam à Congregação". "Que na Igreja há porcaria é conhecido, mas o que o Prefeito da Congregação tem de digerir vai muito para lá". Fez questão em não misturar a sua teologia com os documentos da Congregação: não foi ele, por exemplo, que redigiu a Dominus Jesus, sobre a unicidade da Igreja católica. Confessa que "está feliz com as reformas do Concílio, quando são acolhidas com honestidade, na sua substância." Mas "cada vez mais pessoas perguntavam: a Igreja ainda tem uma doutrina comum? Ora, tenho a convicção de que também hoje devemos estar à altura para dizer o que é que a Igreja crê e ensina".

Confessa as suas debilidades: em 1991, teve uma hemorragia cerebral, seguindo-se imensas dificuldades, acabando por ficar cego do olho esquerdo. Vale-lhe a música, mas precisa de silêncio e de 7-8 horas de sono. Não é um "grande conversador" e é débil de voz, com uma saúde frágil.

Quando pensava, após a morte de João Paulo, poder "finalmente escrever em paz os seus livros", foi eleito Papa. "A sensação foi simplesmente esta: uma guilhotina". "Procurou, antes de mais, ser um Pastor". "Havia sobretudo o que queria fazer: colocar no centro o tema de Deus e a fé. O importante é preservar a fé hoje. Considero ser esta a nossa tarefa". Fala com gosto com agnósticos, ateus e pessoas de esquerda, o que "num certo sentido é natural; se são honestos e reflectem". "Gostou de ser Papa?" Está grato pelas "muitas belas experiências, mas foi também sempre evidentemente um fardo". A viagem "mais delicada" foi talvez a da Turquia. Na Alemanha, apelou a que a Igreja fosse menos mundana. Queixa-se aliás da "propaganda a denegri-lo", concretamente na Alemanha, onde "há pessoas que querem destruir-me". Aqui, perguntou eu: e ele não destruiu muitos?!

Procurou também resolver questões administrativas, como reformar o Banco do Vaticano. "Trabalhei em silêncio, tanto sobre aspectos organizativos como legislativos". Removeu cerca de 400 padres culpados de abusos sobre menores. Dissolveu um lobby gay no Vaticano. Mas admite que é mais professor do que um gestor, o que constitui "uma certa fraqueza". Aliás, que poder tem o Papa? Responde a quem pensa que "um Papa tem plenos poderes e pode dizer a palavra definitiva": "Não é assim. Impossível".

Não se vê a si mesmo como "um falhado". Houve momentos difíceis, mas "no cômputo geral foi também um período no qual muitas pessoas encontraram um novo caminho para a fé e foi também um grande movimento positivo". Resignou, porque já não tinha forças - outro poderia fazer mais e melhor - e aquele era o momento adequado: "é claro que também o Papa não é um super-homem". Não foi uma fuga à Cruz nem houve pressões, nunca se arrependeu: "Ninguém tentou fazer chantagem. Aliás não o teria permitido. Se o tivessem tentado, não teria saído, porque não se deve abandonar quando se está sob pressão. E também não é verdade que estava desiludido ou coisa semelhante. Pelo contrário, graças a Deus, estava num estado de alma pacífico de quem ultrapassou as dificuldades. O estado de alma em que se pode passar tranquilamente o leme a quem vem depois". E prometeu obediência absoluta ao sucessor: "o Papa é o Papa, não importa quem seja". Quanto a Francisco: "Quando ouvi o nome, primeiro fiquei inseguro. Mas, quando vi como falava, por um lado, com Deus e, por outro, com os homens, fiquei verdadeiramente contente. E feliz". A eleição de um cardeal latino-americano "significa que a Igreja está em movimento, é dinâmica, aberta, tendo diante de si perspectivas de novos desenvolvimentos. É completamente claro que a Europa já não é o centro da Igreja mundial: a universalidade da Igreja é autêntica, os vários continentes têm nela peso igual". É evidente que "a Igreja está a abandonar cada vez mais as velhas estruturas tradicionais da vida europeia e, portanto, muda de aspecto e nela vivem novas formas. É claro sobretudo que a descristianização da Europa progride, que o elemento cristão desaparece cada vez mais do tecido da sociedade. Portanto, a Igreja deve encontrar uma nova forma de presença. Estão em curso reviravoltas epocais". A teologia precisa de renovar-se, abandonando, por exemplo, antigas concepções espaciais: "Deus não está "num lugar qualquer", mas é a realidade. A realidade-fundamento de toda a realidade." Não faz sentido a pergunta: "onde está Deus?". "Porque "onde" já é uma delimitação, já não é o infinito, o criador, que é o Todo (das All), que abrange todo o tempo e ele próprio não é tempo, cria-o e é sempre presente." Por isso, "é pessoa": também em nós, "a pessoa é o que transcende o puro espaço e me abre o infinito". Não se pode fazer representações de Deus, embora, para nós, esteja "presente num homem, Jesus Cristo".

Teme a morte? Quem não teme? E pensamos nos "erros cometidos?" Mas, "evidentemente, a confiança de base está sempre presente". Peter Seewald: "Quando comparecer perante o Todo-Poderoso, que vai dizer-lhe?" "Pedir-lhe-ei que seja indulgente com a minha miséria". Seewald: "O crente confia que a "vida eterna" é uma vida plena". Resposta: "Absolutamente. A confiança em que, então, está verdadeiramente em casa".

E que deve constar na lápide tumular? "Diria: Nada! Só o nome". Seewald: "O seu lema episcopal é: "Colaboradores da Verdade". Seria algo adaptado". Bento XVI: "Sim. Uma vez que é o meu lema, pode ser colocado também".


Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

sábado, 12 de novembro de 2016

Em Novembro, estórias de amor e morte

"O que queremos é a luta contra a desigualdade, este é o maior mal que existe no mundo”- Papa Francisco

 Nota: Pedia a quem conhece a estória do “ INDJIUA -N- CASNAHdizia que quando discutia com ele o tempo não chovia na sua bolanha…”, , que nos envie para este e-mail: tchogue2012@gmail.com

Por influência dos celtas e questões de calendário - é Outono a caminho do Inverno, que evoca a noite -, mesmo nas nossas sociedades modernas é no mês de Novembro que os mortos são mais lembrados. Sim. Mesmo nas nossas sociedades que fizeram da morte um tabu - disso não se fala, é de mau gosto e mau tom. Vive-se como se a morte não existisse. É melhor esquecê-la. Mas há este alçapão: ela não se esquecerá de nós. Por isso, em todas as culturas e sociedades, há estórias, mitos, que tentam explicar o inexplicável, esse mistério da morte, a coisa mais natural - como diz a nossa palavra nada, do latim, res nata: tudo o que nasce morre -, mas que não devia ser, a ponto de, segundo os antropólogos, sabermos que na longa história da evolução há seres humanos quando encontramos rituais funerários.

Aí estão algumas dessas belas estórias míticas.

1. A primeira foi o filósofo Manuel Fraijó que ma relembrou. Um antigo mito melanésio conta que no princípio os humanos não morriam. Quando chegavam a uma certa idade, mudavam a pele e ficavam outra vez jovens. Mas, um dia, aconteceu o inesperado: uma mulher aproximou-se de um rio para o rito da mudança de pele; atirou à água a pele velha e regressou rejuvenescida e contente; aconteceu, porém, que o filho a não reconheceu: aquela não era a sua mãe. Desejosa de recuperar o amor do filho, voltou ao rio e voltou a pôr a pele velha, que tinha ficado enredada num arbusto. Desde então, os humanos já não mudam a pele, e morrem. Um belo mito que relaciona a origem da morte com a única força superior a ela: o amor, o amor de mãe.

2. Em África, encontramos o mito do "mensageiro fracassado". Deus mandou um camaleão a anunciar que os humanos seriam imortais e também enviou um lagarto com a notícia de que morreriam. Aconteceu que o camaleão fez o caminho lentamente e o lagarto chegou antes, e a morte deu entrada no mundo. A culpa não é de Deus, que, segundo outra estória, deu ao primeiro homem a possibilidade de escolher entre dois pacotes - um continha a vida, no outro estava a morte. O homem enganou-se e escolheu a morte, que ficou no mundo para sempre.

3. Quem nunca ouviu falar de Orfeu e Euridice? Quando Orfeu tocava a sua lira, até os pássaros ficavam tomados de encanto e deixavam de voar para escutar e as árvores curvavam-se. Apaixonado pela bela Euridice, casou-se com ela. Mas ela foi mordida por uma serpente e morreu. Orfeu caiu numa tristeza mortal. Mas, pegando na sua lira, convenceu o barqueiro Caronte e foi ao outro mundo, conseguindo, depois de adormecer Cérbero ao som da lira, chegar até à sombra da sua amada. Hades acabou por atender o pedido de Orfeu. Euridice podia voltar, com uma condição: não podia olhar para ela enquanto não chegasse à luz do Sol. Mas, claro, Orfeu olhou para trás, para ver se ela o acompanhava (quem não olharia?), e perdeu-a para sempre. A morte e o Sol não podem ser encarados de frente.

4. A mais velha epopeia da humanidade tem cinco ou seis mil anos ou mesmo mais. Chama-se a Epopeia de Gilgamesh, na antiga Suméria, actual Iraque. Gilgamesh era o rei de Uruk, um belo rei, mas que os seus súbitos temiam por causa da sua crueldade. A deusa Aruru ouviu as suas súplicas e formou um guerreiro brutal a quem foi dado o nome de Enkidu. Ele deveria enfrentar o jovem rei Gilgamesh. Depois de seis dias e sete noites de amor com uma prostituta, Enkidu desafiou Gilgamesh, e os dois lutaram numa longa e terrífica peleja. Por fim, como que por encanto, foram tomados pela amizade, abraçando-se como irmãos, e houve festas na cidade. Mas a deusa Ishtar quis Gilgamesh para amante. Tendo recusado, os deuses vingaram-se com a morte de Enkidu. E Gilgamesh chora inconsolável, deixa Uruk e empreende a longa e penosa viagem até ao outro mundo, entre perigos sem conta, na busca do amigo e da imortalidade. Seguindo o conselho do único sobrevivente do dilúvio, Utnapishtim, traz com ele a erva da imortalidade. Mas, esgotado como estava, parou no caminho para beber água e banhar-se. Aí, uma serpente roubou-lhe a planta sagrada da eterna juventude e Gilgamesh soube então que não há remédio para morte. E chorou a sorte do amigo e a de todos, num lamento sem fim em frente dos muros da sua gloriosa cidade de Uruk.

5. Para a eternidade vamos: a eternidade do nada ou a eternidade da vida plena em Deus. Uma das raízes essenciais das religiões tem que ver precisamente com o seu afã de salvação contra a morte, e concretamente o cristianismo foi e é, como diz Fraijó, o mais denodado combate contra "o nada como origem e como meta final da existência". Lá estão os grandes teólogos, também contemporâneos. Uma das irmãs perguntou a Hans Küng: "Acreditas verdadeiramente na vida depois da morte?" E a resposta continua a ser um "sim" espontâneo e sem hesitações. Depois da morte, confessa, "não me aguardará o nada". O grande Karl Rahner, que tenho a honra de ter tido como professor, também passou a vida a fundamentar o seu "não" ao nada.

Para lá ciência, da teologia e da filosofia, ficam aí estes versos do poeta indiano R. Tagore: "A morte é doce, a morte é uma criança que está a mamar o leite da sua mãe e de repente põe-se a chorar porque o leite acabou naquele peito. A mãe dá-se conta e suavemente passa-a para o outro peito para que continue a mamar. A morte é um choramingar entre dois peitos." 

General Batista Tagme Na Waie

Batista Tagme Na Waie (1949 – 1 de Março de 2009) foi um major-general do exército da Guiné-Bissau, até ao seu assassínio em 2009.

Na Waie nasceu em Catió. Participante na junta que derrubou João Bernardo Vieira nos anos 90 e um veterano da guerra pela independência da Guiné-Bissau, Na Waie era membro do grupo étnico balanta. Foi designado major general do exército como resultado do assassinato em Outubro de 2004 do seu antecessor, Veríssimo Correia Seabra; a IRIN descreveu-o como "uma figura de consenso colocada pelo poder militar que o governo se viu obrigado a aceitar".

Um "rival amargo" de Vieira, tanto antes da junta (tendo sobrevivido às purgas de Vieira no exército guineense nos anos 80) como após o regresso de Vieira ao poder, Na Waie sobreviveu a uma tentativa de assassinato em Janeiro de 2009, quando uma milícia ligada ao palácio presidencial abriu fogo contra a sua viatura oficial; a milícia negou que se tenha tratado de uma tentativa de assassinato.

No primeiro dia de Março de 2009, Na Waie foi morto numa explosão no quartel-geral do exército guineense. Enquanto testemunhas afirmaram ter visto uma granada ser lançada, assistentes de Na Waie afirmaram que uma bomba foi detonada debaixo de uma escadaria no gabinete de Na Waie.

Nas primeiras horas do dia seguinte, Vieira foi morto, aparentemente por tropas leais a Na Waie. Representantes militares negaram a ideia de que a morte de Vieira se tenha tratado de uma retaliação. O porta-voz do exército Zamora Induta afirmou, contudo, que Vieira tinha estado envolvido no assassinato de Na Waie. Um oficial do exército disse a 5 de Março que Na Waie tinha encontrado um pacote de cocaína pesando 200 quilos num hangar do exército uma semana antes de ser assassinado. O seu funeral decorreu no Clube Militar de Bissau a 8 do mesmo mês. A 26 de Março, foi noticiado que três importantes oficiais — os coronéis Arsene Balde e Abdoulaye Ba e o brigadeiro general Melcias Fernandes — tinham sido presos nos dias anteriores, facto relacionado com o seu envolvimento na morte de Na Waie. Wikipedia 

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O vinho na Bíblia

Crónica de Anselmo Borges, no Diário deNotícias

Em tempo de vindimas e vinho novo, fica aí uma alusão ao vinho na Bíblia.

1. O vinho é tão importante, com funções tão significativas no convívio social e na vida toda, que os antigos até pensavam que ele era uma criação dos deuses. Dioniso - Baco para os romanos - era o deus do vinho, que ensinou aos homens a arte do cultivo da videira e da preparação do vinho. Ele é de tal modo exaltante que, na leitura dos clássicos, da grande literatura, como belos poemas, grandes tragédias, romances geniais, dizemos que ficamos "inebriados". Diante do esplendor da beleza - o maior exemplo, para mim, é sempre a música, a grande música -, há quem exclame: "Uma bebedeira de beleza!" Num dos mais extraordinários diálogos filosóficos de sempre sobre o amor - o Banquete (Simpósio), de Platão -, lá está o vinho. Na Bíblia, as referências ao vinho são muitas. Tanto no Antigo como no Novo Testamento.

2. No Antigo Testamento, encontramos, logo no primeiro livro, o Génesis, dois textos. O primeiro, com Noé cultivando uma vinha, "a mais preciosa e nobre de todas as plantas da Bíblia" (Ariel Álvarez). Noé adormeceu com uma bebedeira e o filho Cam entrou na sua tenda e viu a sua nudez e foi amaldiçoado. E há outro pai, Lot, que as filhas embebedaram para poderem ter relações com ele e descendência. (Note-se que se trata tão-só de narrações com finalidade política: diminuir os cananeus, os moabitas, os amonitas, com os quais Israel tinha relações tensas. Para rebaixá-los, estas narrativas põem estes povos a descender de relações incestuosas, e não se esqueça que o incesto é, para a Bíblia, um dos pecados mais aberrantes.)

Veja-se este texto de exaltação do vinho, no livro de Ben Sira: "O vinho é como a vida para os homens, se o beberes moderadamente. Que vida é a do homem a quem falta o vinho? Ele foi criado para alegria dos homens [aqui, digo eu: e das mulheres]. Alegria do coração e júbilo da alma, é o vinho, bebido a seu tempo e moderadamente."

3. O vinho está bem presente no Novo Testamento. Assim, a Primeira Carta a Timóteo, é recomendado ao discípulo de São Paulo que beba vinho: "Doravante não bebas só água, mas toma um pouco de vinho."

No Evangelho, acusam Jesus de "comilão e beberrão". Escandalizavam-se, mas Jesus não exclui ninguém, o Reino de Deus e a sua alegria são também para os pecadores. Essa foi a sua mensagem por palavras e obras. Participou em banquetes com publicanos e outros, que eram ricos, mas não levavam uma vida justa. Alguns seguiram-no, como Mateus, e Zaqueu converteu-se, deixando de explorar o povo.

Lê-se no Evangelho segundo São João, que logo no início da sua vida pública Jesus transformou a água em vinho. Ele encontrava-se com os discípulos numas bodas de casamento, em Caná da Galileia. Faltando o vinho, Maria, sua mãe, deu-lhe a triste notícia. E o que é facto é que o vinho apareceu. E em abundância: 600 litros. E vinho esplêndido, a ponto de o chefe de mesa chamar o noivo para lhe dizer: "Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, quando tiverem bebido bem, serve então o inferior. Tu, porém, guardaste o vinho bom até agora!" Assim, diz o evangelista, inaugurou Jesus os seus sinais. Que sinais? É isso: o Reino de Deus é para todos e é o Reino da humanidade boa, justa e feliz. Como podia faltar a alegria do vinho numa festa de casamento, símbolo do encontro de Deus com a humanidade? É o vinho novo e, por isso, diz Jesus: "Ninguém deita vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho romperá os odres e perde-se o vinho e os odres. Deita-se vinho novo em odres novos."

Outro passo, inesquecível, é o da Última Ceia. Sim, o Reino de Deus é para todos, mas nem todos estão interessados em que seja para todos. Por isso, Jesus pôs o dedo na ferida, escalpelizou a indiferença e a opressão, nomeadamente por parte de quem explorava em nome da religião oficial, e, assim, foi condenado à morte pelos sacerdotes e mandado executar pelo representante do Império, Pôncio Pilatos. Nas vésperas da sua entrega, ofereceu uma ceia, a Última Ceia. Nela, tomou o pão: "Tomai e comei todos. Isto é a minha vida entregue por vós." Também o cálice com vinho: "Este é o sangue da Nova Aliança." "Fazei isto em memória de mim." Desde então, os discípulos, que acreditaram que Jesus está vivo em Deus, pois não morreu para o nada, mas para a plenitude da vida de Deus, que é Amor, reuniram-se em banquetes festivos e fraternos. E fizeram memória de Jesus. E o pão é o pão da vida, que dá força para os caminhos da existência com Deus e em solidariedade activa com a humanidade. E o vinho é o vinho da alegria partilhada com todos.

Jesus disse que não voltaria a beber do fruto da videira, "até àquele dia em que o hei-de beber de novo convosco no Reino de Meu Pai". E é esta esperança, a esperança do vinho novo na plenitude da festa e da alegria do Reino de Deus que, de uma maneira ou outra, anima a todos. Infelizmente, embora isso talvez fosse uma inevitabilidade, as Eucaristias de hoje estão muito longe, no modo como são celebradas, de ser antecipações vivas dessa alegria festiva na sua plenitude. No princípio, era diferente.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O pesadelo do teólogo

Crónica de Anselmo Borges no Diário de Notícias

Existimos porquê e para quê?

1. Bertrand Russell, para lá de ser um dos grandes matemáticos do século XX e filósofo, foi um escritor brilhante e irónico, Prémio Nobel da Literatura. No seu livro de Contos, há um, célebre, com "o pesadelo do teólogo". Vou resumir.

"O teólogo eminente Dr. Thaddeus sonhou que tinha morrido e seguido rumo ao Céu. Os estudos haviam-no preparado e não teve dificuldade em encontrar o caminho. Bateu à porta do Céu e foi recebido com um escrutínio maior do que esperava. Disse: - Peço admissão porque fui um homem bom e dediquei a vida à glória de Deus. - Homem? - exclamou o porteiro. - O que é isso? E como podia uma tão estranha criatura como o senhor fazer alguma coisa para promover a glória de Deus?

O Dr. Thaddeus ficou espantado. - O senhor decerto que não ignora o homem. Deve saber que o homem é a obra suprema do Criador. - Quanto a isso - tornou o porteiro - lamento magoá-lo, mas o que está a dizer é novo para mim. Duvido que alguém cá em cima já tivesse ouvido falar dessa coisa chamada "homem". No entanto, uma vez que parece tão desapontado, pode consultar o nosso bibliotecário.

O bibliotecário, um ser esférico com mil olhos e uma boca, pousou alguns dos seus olhos sobre o Dr. Thaddeus. - O que é isto? - perguntou ao porteiro. - Isto diz que é um exemplar de uma espécie chamada "homem" que vive num lugar chamado "Terra". Julga que o Criador tem um interesse especial por esse lugar e por essa espécie. Pensei que talvez pudesse esclarecer".

Depois de o teólogo ter explicado que a Terra é parte do Sistema Solar, que por sua vez é parte da Via Láctea, uma galáxia entre milhares de milhões, foi mandado chamar um dos sub-bibliotecários, especializado em galáxias e que tinha a forma de um dodecaedro. Assim, umas três semanas depois, com o trabalho exaustivo de cinco mil empregados, "o sub-bibliotecário voltou e explicou que o ficheiro extraordinariamente eficiente da secção galáctica da biblioteca lhe havia permitido localizar a galáxia como número XQ 321,762". O Dr. Thaddeus explicou então ao empregado especialmente interessado na galáxia em questão, um octaedro com um olho em cada face e uma boca numa delas, que o que ele desejava saber se referia ao Sistema Solar, uma colecção de corpos celestes que gira à volta de uma das estrelas da galáxia, chamando-se essa estrela "Sol".

"- Safa!" - disse o bibliotecário da Via Láctea. - "É difícil descobrir a galáxia, mas descobrir a estrela dentro da galáxia é ainda muito mais difícil. Sei que há cerca de trezentos mil milhões de estrelas na galáxia, mas não sei distingui-las umas das outras. Creio, todavia, que, uma vez, foi pedida pela Administração uma lista de todos os trezentos mil milhões e isso deve estar ainda guardado na cave. Se achar que vale a pena, arranjarei pessoal especial do Outro Lugar para procurar essa estrela."

Alguns anos mais tarde, foi um tetraedro arrasado de cansaço que compareceu diante do sub-bibliotecário galáctico, dizendo: "Descobri, finalmente, essa estrela especial sobre a qual foram feitas investigações, mas estou absolutamente desorientado quanto ao interesse que ela levantou. Faz lembrar muitas outras estrelas da mesma galáxia. É de tamanho médio, de temperatura média, e está cercada por corpos muito pequenos chamados "planetas". Após minuciosa investigação, descobri que alguns desses planetas, pelo menos, têm parasitas, e creio que essa coisa que tem estado a fazer perguntas deve ser um desses parasitas."

Nessa altura, "o Dr. Thaddeus desatou num indignado e apaixonado lamento: - Porque é que o Criador escondeu de nós, pobres habitantes da Terra, que não fomos nós que o levámos a criar os céus? Servi-O toda a minha vida, servi-O diligentemente, acreditando que Ele havia de reparar no meu serviço e recompensar-me com a Felicidade Eterna. E agora até parece que nem sequer sabe da minha existência. O senhor diz-me que sou um animálculo infinitesimal num minúsculo corpo que gira em volta de um insignificante membro de uma colecção de trezentos mil milhões de estrelas, colecção esta que é apenas uma entre muitos milhares de milhões. Não posso aguentar isto. Não posso mais adorar o meu Criador. - Muito bem - retorquiu o porteiro. Então pode ir para o Outro Lugar.

Aqui, o teólogo acordou. E murmurou: - O poder de Satanás sobre a nossa imaginação adormecida é terrível".


2. Afinal, ocupamos um lugar periférico no Universo. Pascal perguntava: "O que é um homem no infinito? Apavora-me o silêncio dos espaços infinitos." Mas, por outro lado, é no homem que este processo gigantesco toma consciência de si. Somos reflexivos e temos autoconsciência: desdobramo-nos e reconhecemo-nos. Sabemos do bem e do mal. E levamos connosco a pergunta inevitável e triturante do sentido, do sentido último: qual o sentido de tudo?, porque há algo e não nada?, o que vale a minha vida?, existimos porquê e para quê? Transportamos connosco a questão da morte e de Deus, a dupla face do Absoluto.

domingo, 29 de novembro de 2015

Terceira Guerra Mundial?

Crónica de Anselmo Borges 

"Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões"- Hans Küng

1- Coloquei no título uma interrogação. Mas poderia lá não estar. De facto, há muito que o Papa Francisco vem dizendo que a Terceira Guerra Mundial está em curso, mas "aos bocados", "às fatias". Veio relembrá-lo na condenação veemente da tragédia de Paris. E não está sozinho.

O que se teme, quando se olha para a complexidade do nosso mundo, tremendamente perigoso e ameaçador, é que, de repente, se dê uma explosão. Todos se lembram de como para o início da Primeira Guerra Mundial bastou o que pareceria um pormenor: o assassínio do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo, em 1914. Agora, Robert Farley, da Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos, acaba de apresentar alguns rastilhos que poderiam desencadear um conflito à escala global: em primeiro lugar, a guerra na Síria, mas também a ameaça do mau relacionamento entre a Índia e o Paquistão ou entre a China e o Japão, a crise na Ucrânia e um confronto entre a NATO e a Rússia...

2- Presentemente, o perigo maior está no ISIS, o autoproclamado "Estado Islâmico", e no terrorismo global. Como se chegou até aqui?

Claro que são mais as perguntas do que as respostas. Aliás, um dos problemas maiores no actual momento é a confusão devida à complexidade da situação, aos interesses contraditórios e cínicos dos diferentes actores, políticos, económicos, militares, geoestratégicos, ideológicos. Falei na Primeira Guerra Mundial e, então, é preciso dizer que ainda estamos a sofrer as suas consequências, sobretudo por causa do Médio Oriente. E talvez não tenha ainda acabado o ressentimento que deriva do facto de a quase totalidade dos países de maioria islâmica ter sido colónia europeia. E houve a insensatez da invasão do Iraque e, depois, da Líbia. Diz-se que Saddam Hussein, diante da forca, terá profetizado: "Deixo-vos o inferno." Após o vazio criado, surgiu o diabólico "Estado Islâmico", que é preciso destruir, mas como, com quem?

Faço minhas algumas interrogações do filósofo José Arregi, na presença dos mortos de Paris e das lágrimas dos vivos. "Quem criou, financiou e treinou a Al-Qaeda para combater a Rússia? E quem concebeu e continua a sustentar na sombra o Estado Islâmico para desestabilizar todo o Médio Oriente e tirar maior proveito e lucro? Não se sentam no G20 dos grandes do mundo alguns governos amigos de países, com a Arábia Saudita à cabeça, nos quais encontram suporte ideológico e financeiro os jihadistas que nos combatem e que dizemos combater? Não são estranhamente coincidentes os interesses do "Estado Islâmico" e os do poder financeiro do mundo ocidental?" Mas há igualmente perguntas a fazer ao mundo islâmico. "E vós, dirigentes políticos dos países árabes, para onde conduzis os vossos povos, essa imensa maioria de gente pacífica, com as vossas lutas fratricidas sem fim, com o vosso confronto secular entre sunitas e xiitas, com os vossos impossíveis projectos teocráticos, com o vosso sonho de califado confessional, medieval, absurdo? E vós, os dirigentes religiosos da Umma ou comunidade muçulmana universal, para onde conduzis essa multidão de gente crente, cheia de bondade e de generosidade, empenhados como estais em mantê-la encerrada no passado?"

3- Como combater o terrorismo fora, se há terroristas cá dentro? Pergunta imensa: o que é que leva tantos jovens europeus, e não se trata apenas de gente pobre dos arrabaldes das grandes cidades, a alistar-se para combater no "Estado Islâmico"? Que ideias, que valores lhes entregamos? Segundo o politólogo Gilles Kepel, especialista do islão e do mundo árabe contemporâneo, não bastam as explicações sociológicas, escreve no último L"Obs. "Jovens sem referências, perdidos no meio das desordens do mundo que a torneira mediática espalha, podem ser tentados a ir procurar num passado mitificado, o do islão das origens revisitado e falsificado, uma ordem que vai dar-lhes normas, valores. Sonhar com a jihad é fantasiar a sua vida, é projectar-se numa existência épica, viril. E é inscrever-se num projecto colectivo, a construção do califado, apresentado como uma utopia terrestre, onde todos têm um trabalho, onde não há pobres; é viver um antegosto do mundo perfeito do além.

4- Há muito que o famoso teólogo Hans Küng tornou claro que "não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões". O Papa Francisco sabe disso. Por isso, denuncia toda a violência, que, se for em nome de Deus, é "uma contradição", "blasfémia". "Uma guerra pode justificar-se, entre aspas, com muitas razões. Mas quando o mundo todo, como hoje em dia, está em guerra?! Uma guerra mundial, aqui e ali, por todos os lados. Não existe nenhuma justificação. E Deus chora."

E, sem medo, apesar do alto risco, seguiu para África, visitando o Quénia, o Uganda e a República Centro-Africana, para anunciar a paz, a justiça social, a reconciliação, o diálogo entre cristãos e muçulmanos. Em nome de Deus.


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Voz político-moral global (2)

Crónica de Anselmo Borges

«Francisco acaba de designar o dia 1 de Setembro como Dia Mundial de  Oração pelo Cuidado da Criação»

O Papa Francisco tem consigo a missão decisiva de pôr ordem e renovar a Igreja. Mas sobre ele pesam igualmente responsabilidades históricas para com a humanidade toda, e também aqui o seu desempenho tem despertado, como disse Raúl Castro, "admiração mundial". Aliás, ele é um grande diplomata, afirmando o embaixador britânico junto da Santa Sé, Nagel Baker: "Nunca tivemos tanto trabalho. Todos os governos nos pedem continuamente in-formações sobre os movimentos do Papa Francisco."

Na continuação do texto de Sábado passado, apresento outros sinais da sua influência global.

3. Se um desejo maior de Francisco é visitar Moscovo, outro é ir a Pequim. O presidente Xi Jinping e Francisco trocaram mensagens de cortesia nas suas respectivas eleições em 2013 e a Igreja chinesa ordenou nos princípios deste mês o primeiro bispo fiel a Roma nos últimos três anos e ordenará em breve o segundo com a aprovação de Francisco. Sinais de abertura do governo chinês, que trabalha com o Vaticano para restabelecer relações diplomáticas. Hoje, com uns 12 milhões de católicos e mais de 70 milhões de cristãos, a China poderá ser em 2030 o país do mundo com maior número de cristãos, estando Francisco convencido de que o futuro do cristianismo se joga em grande parte na Ásia.

4. Na Europa, que países visitou Francisco? Significativamente três, de maioria muçulmana: Albânia, Bósnia e Turquia, com razoável convivência inter-religiosa. Francisco sabe que um problema maior no mundo e na Europa é e será a relação entre cristãos e muçulmanos. As duas religiões juntas são metade da humanidade, o que significa que a paz entre elas tem importância decisiva para o futuro.

Mas Francisco não se cansa de apelar à comunidade internacional para não abandonar as minorias cristãs e outras, perseguidas e esmagadas no Médio Oriente. O seu secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, lembrou mesmo, na ONU, que, para deter as agressões terroristas, "é lícito e urgente" o recurso "à acção multilateral e a um uso proporcionado da força".

Neste contexto, o vaticanista Sandro Magister sublinha a importância do acordo entre a Santa Sé e o Estado da Palestina, assinado em 26 de Junho no Vaticano. A novidade não estaria tanto na fórmula "Estado da Palestina", mas sobretudo no reconhecimento explícito da liberdade de religião e de consciência, bem como da liberdade da Igreja não só nos lugares de culto mas também nas actividades caritativas e sociais, no ensino, nos meios de comunicação social. "Trata-se de um reconhecimento sem precedentes por parte de um país muçulmano e poderia abrir o caminho para algo semelhante noutros países. Não é mero acaso o cardeal Parolin ter viajado recentemente até Abu Dhabi para inaugurar uma nova igreja com as mais altas autoridades dos Emiratos Árabes Unidos: uma mensagem eloquente para a vizinha Arábia Saudita, onde a simples posse de uma Bíblia continua a ser um delito gravíssimo" e a conversão a outra religião, sujeita à pena capital.

5. A encíclica Laudato si" ficará na história como a Magna Carta da ecologia integral, afirmando o teólogo X. Pikaza que "talvez não haja um documento da Igreja Católica que vá ter mais influência que esta encíclica".

Francisco acaba de designar o dia 1 de Setembro como Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. A encíclica foi louvada pelo secretário-geral da ONU, a FAO declarou que "nunca um papa falou tão directamente sobre o meio ambiente e com tanta credibilidade moral". Obama, que acaba de tomar medidas ecológicas históricas, citou o Papa, assegurando que a luta contra as mudanças climáticas "é uma obrigação moral". Neste contexto, a quatro meses da conferência sobre o clima que reunirá em Paris, em Dezembro, sob a égide da ONU, os seus 195 membros, na qual Francisco deposita grande esperança, François Hollande, num encontro em Paris de 40 personalidades políticas, religiosas e morais do mundo inteiro, declarou que é preciso chegar a acordo: "Não é uma questão de chefes de Estado ou de governo, mas de todos os habitantes do planeta." Prémios Nobel, reunidos em Constança, Alemanha, advertiram para as mudanças climáticas: se nada for feito, caminhamos para "uma ampla tragédia humana".


6. Por causa das suas posições a favor dos pobres e contra um sistema económico e financeiro que mata, conservadores americanos há que acusam Francisco de esquerdista, com concepções marxistas. O que ele não é. Neste contexto, The Washington Post, 1 de Agosto, escreveu que "não se pode entender o Papa sem Perón e Evita". Influenciado pelo peronismo na juventude, Francisco rejeita tanto o marxismo como o capitalismo selvagem, sem regras. O jornal cita o jesuíta Juan C. Scannone, seu antigo professor: é a favor de uma "teologia do povo", "não critica a economia de mercado, mas a fetichização do dinheiro e do livre mercado. Uma coisa é a economia de mercado e outra a hegemonia do capital sobre o povo".

quinta-feira, 18 de junho de 2015

A Igreja com que Francisco sonha

Crónica de Anselmo Borges
Como Francisco de Assis, o que o Papa Francisco encontrou foi uma Igreja em ruínas. Daí, o seu empenho, sem hesitações, na sua transformação e conversão.
O teólogo Agenor Brighenti acaba de apresentar preocupações e modelos fundamentais, em ordem a uma mudança radical, citando Francisco.

1. "De uma Igreja autorreferencial a uma Igreja nas periferias". É essencial pôr termo a uma Igreja autocentrada e, por isso, da exclusão, para passar a uma Igreja que acolhe os que se encontram marginalizados nas periferias: os considerados perdidos, os que pensam de outro modo, longe das certezas eclesiásticas, os das periferias da dor, das injustiças, da miséria, os pobres e analfabetos, os sem--abrigo, os presos, os drogados, os homossexuais, as famílias monoparentais, os recasados que não podem comungar, os padres casados, e tantos, tantos outros...

2. "De uma Igreja-alfândega a uma Igreja samaritana". Francisco insiste numa Igreja da "revolução da ternura". "Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É preciso curar as feridas; depois, falaremos do resto." Daí, a urgência de uma Igreja-mãe, samaritana, "capaz de redescobrir as entranhas maternas da misericórdia. Sem a misericórdia, pouco pode fazer para inserir-se num mundo de "feridos", que precisam de compreensão, perdão e amor".

3. "De uma Igreja de prestígio e poder a uma Igreja pobre e para os pobres". "Ah, como quereria uma Igreja pobre e para os pobres!", disse na inauguração do seu pontificado. E dá o exemplo. Numa entrevista: "Os chefes da Igreja, em geral, foram narcisistas, adulados e exaltados pelos seus cortesãos. A corte é a lepra do papado." Conhece bem a admoestação célebre de São Bernardo ao papa Eugénio III: "Não te esqueças de que és sucessor de um pescador e não do imperador Constantino." Por isso, repete constantemente que a Igreja "não pode afastar-se da simplicidade". "Nalguns há um cuidado ostensivo da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, sem se preocuparem com que o Evangelho tenha uma real inserção no povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história. Desse modo, a vida da Igreja converte-se numa peça de museu ou numa posse de poucos." Não ignorando a advertência do bispo Casaldáliga, "só há dois absolutos: Deus e a fome", a sua preocupação primeira não é a doutrina e a imagem pública da Igreja, mas o sofrimento e a causa dos pobres no mundo. Afinal, "a realidade entende-se melhor a partir da periferia do que a partir do centro", avisa.

4. "De uma Igreja milagreira e providencialista a uma Igreja profética". Denuncia "a cultura do descarte. Não se pode descartar ninguém" nem cair na "globalização da indiferença". Concretiza: "Hoje temos de dizer "não" a uma economia da exclusão e da iniquidade. Essa economia mata. É inaceitável que não seja notícia um ancião que morre de frio na rua, mas que o seja uma queda de dois pontos na Bolsa." "Enquanto os lucros de alguns crescem exponencialmente, os da maioria ficam cada vez mais longe do bem-estar dessa minoria feliz. Este desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Daí que neguem o direito de controlo dos Estados de velar pelo bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível." Assim, "o futuro exige hoje a tarefa de reabilitar a política, que é uma das formas mais altas da caridade".

5. "De uma Igreja encerrada na sacristia a uma Igreja acidentada por sair à rua". Claro que a uma Igreja que sai à rua pode acontecer o que acontece a qualquer um: um acidente. "Mas quero dizer francamente: prefiro mil vezes uma Igreja acidentada a uma Igreja doente. A doença maior da Igreja fechada é a doença autorreferencial: ver-se a si mesma, curvada sobre si própria." Daí, a tarefa constitutiva da "missionariedade", do ecumenismo e do diálogo inter-religioso.

6. "De uma Igreja centralista a uma Igreja de Igrejas locais". É necessário superar o modelo centralizado de Igreja, a começar pela Cúria, que urge reformar radicalmente, para ser organismo de ajuda e não de censura - "impressiona ver as denúncias de falta de ortodoxia que chegam a Roma", adverte.

7. "De uma Igreja clerical a uma Igreja toda ela ministerial". A descentralização deve estar presente em todas as instâncias da Igreja e opõe-se ao clericalismo: este "não tem nada a ver com o cristianismo. Quando tenho diante de mim um clerical, instintivamente transformo-me num anticlerical". Se a Igreja é o Povo de Deus, todos têm de participar. Que lugar para os leigos e para as mulheres?

8. "De uma Igreja governada por bispos-príncipes a uma Igreja de pastores", que caminham "com e no seu rebanho". Evitai, diz aos bispos, "o escândalo de ser bispos de aeroporto".

O que mais impressiona, digo eu, é que o que Francisco sonha, quer e faz seja considerado extraordinário, quando deveria ser pura e simplesmente o normal.