sábado, 10 de fevereiro de 2018

JESUS COMPADECIDO CURA O LEPROSO. APRECIA


Um leproso vem ter com Jesus. Ousa transgredir regras muito rigorosas de higiene pública. Expõe-se e corre riscos de morte. O contágio era fácil e perigoso. A sociedade protegia-se. Além disso, a lepra como outras doenças, tinha conotação religiosa. Fazia a pessoa impura, com uma relação negativa com Deus, culpada por algo que tivesse feito, amaldiçoada. Devia ser evitada a todo o custo.

Que experiência dolorosa e humilhante! Apesar disso, expõe-se e transgride, avança no desejo de recuperar a dignidade perdida e a liberdade cerceada. Ousa o inacreditável e, cheio de coragem e confiança, aproxima-se, ajoelha e suplica: “Se quiseres, podes curar-me”. Que força interior move as suas energias e alenta a sua esperança. Que firmeza de convicções manifesta e transmite. Que expectativas alimenta nos passos que dá para realizar o seu sonho: ser alguém com nome próprio, ir ao culto religioso na sinagoga, ser membro da sociedade e poder andar em público sem restrições.

O leproso é também um símbolo de grandes maiorias humanas que se arrastam na vida por carências sem conta: desnutrição por fome, migrações forçadas por guerras impostas e alterações climáticas, falta de água e de outros bens indispensáveis à saúde, conflitos e violências, perseguições étnicas e religiosas. Ou ainda nas sociedades de “bem-estar” o isolamento e a solidão, as desigualdades irritantes, o individualismo egoísta, a exclusão e marginalização das minorias, a “ditadura” das ideologias e, por vezes, da opinião publicada. Tudo isto, e muito mais, apesar dos avanços admiráveis em tantas áreas da nossa humanidade.

Marcos, o autor do relato (Mc 1, 40-45), adopta um estilo diferente do habitual na narrativa. Deixa em aberto a identidade do leproso. Não se sabe quem é, nem donde vem, nem o local do encontro. Para ele, o importante é a atitude de Jesus, a força sanadora que possui, a compaixão que sente e o gesto que faz. Para ele, o importante é que os discípulos saibam que a lacuna não é esquecimento, mas oportunidade, para cada um fazer o encontro pessoal com Jesus, nas situações mais sofridas da vida, sem medo prudente a “sujar as mãos”, nem a perigos de contágio.

O Papa Francisco, ao falar à multidão no domingo passado, sublinha que, durante a maior parte da sua vida pública, Cristo está “no meio da multidão, no meio do povo”, pregando o Evangelho “no meio da gente”. “É uma humanidade marcada por sofrimentos, cansaços e pobrezas. A essa pobre humanidade é dirigida a ação poderosa, libertadora e renovadora de Jesus”. E adianta que o “anúncio do Reino de Deus, por parte de Jesus, encontra o seu lugar adequado na rua”. Ele “não veio trazer a salvação num laboratório”. E lembra que “a rua, como lugar do anúncio alegre do Evangelho, coloca a missão da Igreja sob o signo do andar, do movimento, nunca estática”. “A cura do corpo destina-se à cura do coração”.

A súplica do leproso encontra ressonância de compaixão em Jesus. Faz remexer as suas entranhas de misericórdia. Assume a situação problemática, sintoniza com o desejo expresso e reage com prontidão espontânea. Que segredo desvenda esta atitude. É uma constante no seu agir. Nada o detém: nem olhares de controlo farisaico ou receios do que possa acontecer. E Marcos na sua narração adianta: “Estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero, fica limpo»”. E a lepra deixou-o. Ele ficou limpo. Que brecha introduz no sistema social e religioso de exclusão e marginalização! Que que caminhos de liberdade abre a quem vier a ser discípulo missionário! Gesto belo, arriscado, escandaloso. Mas a pessoa está primeiro. Nada no mundo tem o seu valor.

Que vibrações interiores terá vivido o recém curado! De novo, com os seus. De novo, em liberdade. De novo, a dispor de si. De novo, a assumir atitudes responsáveis. Agora, parece ter uma única preocupação. Diz Marcos: “Logo que partiu, começou a apregoar e a divulgar o que acontecera”. Agora, predomina a força do testemunho da acção sanadora que o beneficiou e que não pode calar. Ainda que esquecendo a obrigação de se apresentar no Templo ao sacerdote e fazer a sua oferta para ter um certificado oficial de cura. Agora, a graça supera a lei e dá-lhe um novo sentido.

Hoje, celebra-se o Dia Mundial do Doente. Na sua mensagem, o Papa Francisco afirma que: “Jesus deixou, como dom à Igreja, o seu poder de curar… Ao dom de Jesus corresponde o dever da Igreja, bem ciente de que deve pousar, sobre os doentes, o mesmo olhar rico de ternura e compaixão do seu Senhor. A pastoral da saúde permanece e sempre permanecerá um dever necessário e essencial, que se há de viver com um ímpeto renovado começando pelas comunidades paroquiais até aos centros de tratamento de excelência. Não podemos esquecer aqui a ternura e a perseverança com que muitas famílias acompanham os seus filhos, pais e parentes, doentes crónicos ou gravemente incapacitados. Os cuidados prestados em família são um testemunho extraordinário de amor pela pessoa humana e devem ser apoiados com o reconhecimento devido e políticas adequadas. Portanto, médicos e enfermeiros, sacerdotes, consagrados e voluntários, familiares e todos aqueles que se empenham no cuidado dos doentes, participam nesta missão eclesial. É uma responsabilidade compartilhada, que enriquece o valor do serviço diário de cada um”. Também o teu. Aprecia e gera dinamismos de cura.

AS MULHERES NA IGREJA E NA SOCIEDADE


Crónica de Anselmo Borges, no Diário deNotícias

1- Devemos a vida a uma mulher, à mãe. Claro que também ao pai, mas a nossa mãe poderia ter-nos rejeitado e não nasceríamos. Se alguém se sacrificou e nos amou e ama é a mãe. Dá, pois, que pensar o modo como as mulheres são tratadas ao longo da história e, nessa história, também as religiões são acusadas, pois, com excepção do taoísmo, tendem para a misoginia. Ficam aí alguns textos universais significativos. "A mulher deve adorar o homem como a um deus" (Zaratustra). Um texto antigo budista diz que "a filha deve obedecer ao pai; a esposa, ao marido; por morte deste, a mãe deve obedecer ao filho". "A natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é, portanto, um homem falhado" (Aristóteles). "Toda a malícia é leve, comparada com a malícia da mulher" (Bíblia, Ben Sira). "Dou-te graças, Senhor, por não ter nascido mulher" (oração dos judeus ortodoxos). "As mulheres estão essencialmente feitas para satisfazer a luxúria dos homens. Não permito à mulher ensinar nem ter autoridade frente ao homem, mas estar em silêncio" (São João Crisóstomo). "A ordem justa só se dá quando o homem manda e a mulher obedece" (Santo Agostinho). "Nada mais impuro do que uma mulher com a menstruação. Tudo o que toca fica impuro" (São Jerónimo). "No que se refere à natureza do indivíduo, a mulher é defeituosa e mal nascida, porque o poder activo da semente masculina tende a produzir um ser perfeito parecido, do sexo masculino, enquanto que a produção de uma mulher provém de uma falta do poder activo " (Santo Tomás de Aquino). "Os homens têm autoridade sobre as mulheres em virtude da preferência que Deus deu a uns sobre outros" (Alcorão, que permite desposar duas, três ou quatro mulheres e também bater nas que se rebelem).

2- Razões para esta situação? As primeiras figurações da divindade foram femininas, mas, depois, com a sedentarização, seguiu-se, também no domínio religioso, o modelo predominantemente patriarcal, com as mulheres no lar e sob a tutela dos homens. Haverá inconscientemente por parte dos homens inveja do prazer feminino, e da vida quem percebe são as mulheres. Embora elas sejam mais resistentes, os homens têm mais força física. As mulheres estavam sujeitas à impureza ritual e eram consideradas passivas também na geração, pois o óvulo feminino só foi descoberto em 1827; dada esta passividade, a mulher não poderia ser imagem de Deus e, embora Deus esteja para lá da determinação sexual, nunca se poderia recitar o Credo, dizendo: "Creio em Deus, Mãe todo-poderosa, criadora dos céus e da terra." Ela não poderia pregar. Foi um escândalo quando o Papa João Paulo I disse que Deus também é Mãe. Mas o Papa Francisco disse recentemente que "Deus é Pai e é Mãe". E há outra razão: quem escreveu os textos eram homens, a educação era para os rapazes...

3- E Jesus? Escandalosamente, tinha discípulos e discípulas. Segundo o Evangelho de São Lucas, "acompanhavam-no os Doze e algumas mulheres", ensinava tanto homens como mulheres, ficando em casa, por exemplo, de Marta e Maria. Deixou-se tocar e acarinhar publicamente por uma prostituta, louvando o seu gesto de o perfumar e perdoou-lhe os pecados. Seguiram-no até à morte, como se lê no Evangelho segundo São Mateus: "Junto à cruz havia muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, entre elas Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e José, e a mãe dos filhos de Zebedeu." Contra a Lei, defendeu a adúltera e curou a filha de uma estrangeira, a cananeia, bem como a mulher com um fluxo de sangue, que o tocou. Contra os preceitos da época, que impediam normalmente as mulheres de se dirigir aos homens em público, foi à samaritana - tinha tudo contra ela: outro povo, herética, ia no sexto marido... - que Jesus se revelou como o Messias. As primeiras testemunhas da ressurreição, da fé em que Jesus, na morte, não caiu no nada, mas está vivo em Deus para sempre, foram mulheres, a começar por Maria Madalena, chamada por Rábano Mauro e Tomás de Aquino a "Apóstola dos Apóstolos".

4- São Paulo era misógino? Há textos temíveis: "As mulheres estejam caladas nas assembleias, porque não lhes é permitido tomar a palavra e, como diz também a Lei, devem ser submissas" (Primeira Carta aos Coríntios). "A mulher receba a instrução em silêncio, com toda a submissão. Não permito à mulher que ensine, nem que exerça domínio sobre o homem, mas que se mantenha em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher que, deixando-se seduzir, incorreu na transgressão" (Primeira Carta a Timóteo). Hoje, os exegetas sabem que estes textos não pertencem a São Paulo, são posteriores e interpolações indevidas. Como poderiam ser de São Paulo, que está na base da tomada de consciência da igual dignidade de todos, ao proclamar, na Carta ao Gálatas: "Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus"? E não chamou "apóstola" a Júnia?

5- Teólogos eminentes, como Karl Rahner, Yves Congar, o cardeal Martini, o cardeal José Policarpo, o cardeal Karl Lehmann, mostraram que não há nenhuma razão teológica que se oponha à ordenação sacerdotal de mulheres. Para lá de tudo: Deus não se pode opor aos direitos humanos.

6- Entretanto, revolução maior na história a caminho - as francesas votaram pela primeira vez em 1945 e as suíças só em 1971 - é a emancipação feminina e o acesso das mulheres ao poder, com consequências à vista: transformação das relações sociais, na família, na educação, no domínio sexual, no trabalho... Elemento decisivo: a educação. Depois, como escreve J.-L. Servan--Schreiber, "o politicamente correcto tende a minimizar as diferenças entre os sexos; mas a biologia resiste." Portanto, igualdade na diferença. Mas igualdade, sem discriminação.

Guiné-Bissau: as Mulheres da Republica da Guiné-Bissau, não aceitam as sanções aplicadas pela CEDEAO, Por ser injusta e atentatório a paz

Não chores pelo que perdeste, luta pelo que tens. Não chores pelo que está morto, luta por aquilo que nasceu em ti. Não chores por quem te abandonou, luta por quem está contigo. Não chores por quem te odeia, luta por quem te quer. Não chores pelo teu passado, luta pelo teu presente. Não chores pelo teu sofrimento, luta pela tua felicidade. Com as coisas que vão nos acontecendo, vamos aprendendo que nada é impossível de solucionar, apenas siga adiante.- Papa Francisco

Cussas di Guiné i triste! O que se passa na Guiné é triste.

Nós, as mulheres do PRS estamos indignadas: não aceitamos as sanções aplicadas pela CEDEAO aos dirigentes do PRS e vimos por este meio manifestar a nossa solidariedade para com eles.

Esta crise política, que já dura há imenso tempo e ainda não tem fim à vista, teve início e mantém-se com um Presidente da República eleito pelo PAIGC; com um Presidente da Assembleia Nacional Popular eleito pelo PAIGC; com 7 Primeiros-Ministros, todos do PAIGC. Estamos a falar de órgãos de soberania. Falamos dos poderes presidencial, legislativo e administrativo, os quais são o pilar do Estado e cuja LIDERANÇA, de 2014 aos dias de hoje, sempre esteve com o PAIGC.

A origem, o epicentro, o fogo que politicamente incendiou as instituições supremas do país nada têm a ver com uma Liderança do Estado pelo PRS, ou com qualquer intriga ou problema interno do nosso Partido, mas sim, única e exclusivamente, com problemas intestinos no seio do PAIGC. Com foco em 15 deputados do PAIGC e expulsos pelo PAIGC.

Ultimamente, para agudizar a crise, já vimos de tudo. Assistimos a tentativas de assaltos da sede, ameaças de perseguições, providências cautelares, decisões judiciais, fecho da sede, suspensão do Congresso, reabertura da sede, etc. Tudo resvalando para as intermináveis guerras políticas a que o protagonismo do PAIGC infelizmente já nos habituou, nas quais os fins parecem justificar os meios, para finalmente quererem revestir o papel de vítimas, como se não soubéssemos que são eles próprios os principais instigadores e actores dessas crises cíclicas, nas quais o PRS se tem limitado a fazer política, assumindo um papel secundário.

Nós, as mulheres do PRS, como cidadãs, não aceitaremos que seja a Liderança da Crise a beneficiar com ela, num cenário político carregado de muita malvadez e desinformação, no qual, após uma longa passividade, só face à iminência de eleições e identificados os alvos a abater, a CEDEAO se deixa manipular por alguns interesses políticos nacionais bem localizados e por inconfessos lóbis estrangeiros. Vindo agora, de forma completamente parcial e desequilibrada, sancionar dirigentes máximos do PRS que sempre agiram em nome colectivo e no quadro de decisões políticas emanadas dos órgãos competentes do Partido.

Qual a justificação invocada pela CEDEAO? O não cumprimento do Acordo de Conacri.

A CEDEAO condena e sanciona dirigentes do PRS por terem participado num processo que se pretendia consensual para nomeação de um Primeiro-Ministro, num encontro que teve 6 propostas de nomes (3 do PR, 1 do PANP, 1 do PAIGC, 1 da Sociedade civil), nenhuma das quais avançadas pelo PRS, tendo desse processo resultado a nomeação de um poPrimeiro-ministro da confiança do Presidente da República. Será que o PRS e os seus dirigentes não cumpriram com o ponto 1 do Acordo de Conacri?

A CEDEAO condena e sanciona dirigentes do PRS, por terem respondido à chamada e deliberado, superior e colectivamente, integrar o governo inclusivo emanado de Conacri, com base no princípio da proporcionalidade da respectiva representação parlamentar. Será justo criticar o PRS por ter tomado uma atitude construtiva, quando a alternativa era o vazio do Estado? Podem apontar-nos o dedo, por termos optado por preferir ser parte da solução a ser parte do problema? Será que o PRS e os seus dirigentes não cumpriram com o ponto 2 e 3 do Acordo de Conacri?

A CEDEAO condena e sanciona dirigentes do PRS, que não lideram o Governo, por não ter o PRS impulsionado um programa elaborado em MESA REDONDA DE DIÁLOGO NACIONAL, do qual resultasse a adopção de um PACTO DE ESTABILIDADE, e o arranque da implementação de um programa de desenvolvimento, com base na visão do “Terra Ranka”, não obstante essa não ser a visão de desenvolvimento do PRS. Como pode a CEDEAO condenar e sancionar dirigentes do PRS, se estes se limitaram ao respeito pelos princípios em vigor para a nomeação de altos funcionários da república? Ora tudo isso era obrigatoriamente da iniciativa da liderança do Governo, a qual não pertencia aos dirigentes do PRS; algo que previa a ‘inclusividade’, sistematicamente recusada pelos dirigentes do PAIGC. Então, será que o PRS e os seus dirigentes impediram ou não cumpriram com o ponto 4, 5 e com a alínea f do ponto 6 do Acordo de Conacri?

A CEDEAO condena e sanciona dirigentes do PRS, pela não implementação das reformas assinaladas, nomeadamente da Constituição da República, da lei eleitoral, da lei dos partidos políticos, e dos sectores da Defesa, Segurança e Justiça. Como assim? Quem teria que convocar os deputados da nação para a realização de sessões parlamentares, necessárias às reformas legais e institucionais definidas no Acordo de Conacri? Será que o PRS e os seus dirigentes impediram o cumprimento das alíneas b) a e) do ponto 6 do Acordo de Conacri?

A CEDEAO condena e sanciona dirigentes do PRS por o partido que dirigem ter mantido as portas sempre abertas para o diálogo com as principais forças políticas e sociais; por ter sempre pautado a sua actuação política com base na responsabilidade, na transparência e na tomada de decisões institucionais (ponto 6, alínea a); subscrevendo o Acordo de Conacri, contribuindo de boa-fé para a sua implementação bem-sucedida, assim como do roteiro da CEDEAO (último parágrafo do Acordo); ou talvez, também, por se mostrarem comprometidos com o Estado e com a população guineense?

O que desvirtuou o Acordo de Conacri, o seu espírito, as suas regras e os seus pontos, resultando no seu incumprimento, foram essencialmente três factos:

a violação do princípio de integração no governo inclusivo;

a violação do princípio de convocação da Assembleia Nacional Popular para deliberar e legislar sobre as urgentes e necessárias reformas legais e institucionais;

a violação do princípio de uma reintegração efectiva e incondicional dos 15 deputados dissidentes do PAIGC.

Ou seja, o Acordo de Conacri, resultado de uma mediação pouco competente, em vez de contribuir para a resolução do impasse político no país, como era sua intenção, teve resultados perniciosos e contraproducentes, e como consequência um agudizar da disputa interna pela liderança do país, hoje ainda e desde o inicio da crise, entregue ao PAIGC. Qual a sua justeza? Como é possível que os mediadores invoquem como objectivo das sanções favorecer um clima de diálogo, se penalizam apenas uma das partes, por sinal aquela que está isenta de qualquer culpa ou responsabilidade? É como castigar o cumpridor e poupar o prevaricador. Com que justiça?

A CEDEAO condena e sanciona dirigentes do PRS com os seguintes fundamentos jurídicos:

Com base nos artigos 11 e 12 do Protocolo relativo ao Mecanismo para a Prevenção de Conflitos, Gestão, Resolução, Manutenção da Paz e Segurança, que não enunciam quaisquer sanções, apenas se referem às reuniões dos seus órgãos.

Com base no artigo 45.º do Protocolo sobre a Democracia e Boa Governança, que não direcciona as sanções a indivíduos, mas a Estados Membros, no caso de quebra da democracia e em caso de violação maciça dos direitos humanos.

Com base no Acto Suplementar de 17 de Fevereiro de 2012, sobre o regime de sanções aplicável aos Estados Membros que não honrem as suas obrigações vis-à-vis da CEDEAO. O qual dispõe sobre Actos obrigatórios (imperativos) a serem observados e executados pelos Estados-Membros; de obrigações dos Estados-Membros; das sanções, quer judiciais quer políticas, aplicáveis aos Estados-Membros. Neste diploma, visa-se a LIDERANÇA, os Líderes (dirigentes) dos Estados Membros, os da cúpula e do topo da hierarquia do Estado, os quais são passíveis dessas sanções, se atentarem contra a governação democrática, o Estado de Direito, ou constituírem uma ameaça séria: à segurança regional, de violação flagrante e grave dos direitos humanos, ou de desencadear uma catástrofe humanitária.

Em Direito, a sanção é uma medida imposta com o objectivo de garantir o cumprimento de uma norma. Perante a inexistência de norma aplicável aos indivíduos, não pode haver violação, nem pode haver sanção. Perante esta impossibilidade de direito, só é possível concluir que as sanções aplicadas estão fora da competência da CEDEAO. Logo, devem ser consideradas nulas, senão mesmo inexistentes.

A inclusão de um indivíduo nessas listas não pressupõe a sua condenação em foro criminal ou qualquer processo judicial. Não assumindo a forma de efeito criminal, a respectiva listagem não se submete aos princípios e garantias que proporcionam os procedimentos judiciais. Na prática, todavia, os efeitos são, a nível individual, semelhantes aos dessa condenação. No entanto, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, no seu artigo X institui o direito da pessoa à audição pública por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir sobre seus direitos e deveres, e no artigo XI, ponto 1, os princípios da presunção da inocência e capacidade de defesa.

Para além disso, esta listagem também não se baseia numa demonstração inequívoca da associação do visado com a respectiva conduta. Não foi produzida qualquer prova ou justificação, nem sequer sumária, para os motivos da inclusão de cada um dos indivíduos listados, nem fundamentada a sua responsabilidade relativamente à LIDERANÇA DO ESTADO.

Qual dos dirigentes do PRS, condenados e sancionados pela CEDEAO, liderou o Estado, podendo-se-lhe imputar esses crimes? Entre os sancionados, encontram-se apenas políticos? Como é possível um Organismo Sub-Regional condenar e sancionar politicamente dois magistrados da Nação? Não será uma interferência no poder judicial soberano, cuja disciplina está a cargo do Conselho Superior de Magistratura? Onde está a argumentação, a fundamentação e a prova mínima?

Acrescendo que: os condenados a sanções sem prazo, são previamente informados em canais não oficiais, como se de fuga de informação se tratasse, de dentro de uma Organização sub-Regional; não se lhes fornece qualquer possibilidade de recurso ou de impugnação da sua inclusão na lista; sendo sancionados junto com a família, sem se saber até que grau de parentesco; num quadro de aplicação desadequado e improcedente, atendendo à escassez dos elementos de identificação, face à multiplicidade de homónimos existentes; mas também desproporcional, pois estas sanções políticas fizeram-se para violações bem mais graves, de direitos humanos ou ameaças sérias de catástrofes humanitárias e não para sancionar desentendimentos entre políticos, cuja responsabilidade não pode ser individualmente assacada.

Nós, as mulheres do PRS, posicionamo-nos contra as consequências imediatas das sanções da CEDEAO, que se traduzem na tentativa de desvirtuar a democracia guineense, de silenciar a participação política, de decapitar a 2.ª maior força política nacional, através de um obscuro mas bem identificado conluio, que envolve claramente a mediação com uma das partes, ou seja, em que o árbitro também joga a favor de uma equipa. Tudo em sacrifício persistente da soberania nacional, em prejuízo do Estado de Direito, em prol de interesses pessoais e de hegemonia partidária.

Por tudo isto, nós, as mulheres do PRS:

Apelamos ao bom senso, ao equilíbrio, ao diálogo e ao entendimento interno.

Apelamos a todas as mulheres guineenses para avaliarem a situação com justiça e para se juntarem contra a decisão da CEDEAO. Onde está a verdade? Onde está a alternativa? Mulheres, sejamos uma única VOZ!

Apelamos aos intelectuais guineenses para, sem preconceitos, analisarem as nossas razões e aquilo que nos vai na alma.

Apelamos à Conferência dos Chefes de Estado da CEDEAO para que deliberem o levantamento imediato e incondicional das sanções. Porque são inválidas, nulas e improcedentes. Por respeito ao Estado de Direito, para criar uma atmosfera favorável ao diálogo entre os actores políticos bissau-guineenses, para a realização de eleições livres, idóneas e transparentes, para o retorno à legalidade constitucional e para a restauração da governação democrática

Apelamos à exclusão definitiva do mediador da crise guineense, Alpha Condé. Porque, até hoje, não apresentou prova idónea ou qualquer registo, de que tivesse sido escolhido em Conacri o nome de Primeiro-Ministro que indica, a não ser a sua palavra, contra a de vários outros intervenientes. Porque impendem sobre si suspeições de falta de transparência e de falta de imparcialidade, na condução da mediação. Porque, de uma mediação bem-sucedida, não resultam sanções e um desfecho que visa aniquilar a 2.ª maior força política, amputando a democracia na Guiné-Bissau.

Apelamos à ONU, à UA, à UE, e à CPLP para apoiar o levantamento imediato e incondicional das sanções, interpelando a CEDEAO nesse sentido.

Pela soberania nacional;

Pelo Estado de Direito;

Pela consolidação da Democracia na Guiné-Bissau;

Pelo direito à dignidade humana;

Pelo direito de cidadania;

Pelo direito de participação política;

Pelo direito ao desenvolvimento;

Pelo direito à renovação social;

Por nós, mulheres, que somos a arma secreta da Nação Guineense, e pelos nossos filhos e netos.


Pela Secretária Nacional da Organização das Mulheres – Carmelita Pires

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A CEDEAO adota sanções individuais pelo incumprimento do acordo de Conakry na Guiné Bissau


Os Chefes de Estado e de Governo da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) aplicaram sanções pessoais contra os indivíduos ou organizações que impedem o processo de saída da crise na Guiné-Bissau.

Por ocasião da sua Sessão Extraordinária de 27 de janeiro de 2018, os Chefes de Estado haviam convidado as partes Bissau Guineenses a implementar o Acordo de Conakry, sob pena de sanções coletivas e individuais serem aplicadas a partir de 1 de fevereiro de 2018, contra essas pessoas ou organizações.

Pela Decisão A/DEC.2.01 / 2018 assinado pelo Presidente em exercício da CEDEAO, Sua Excia Faure Essozimna Gnassingbe, Presidente da República Togolesa, e ansiosos para promover a restauração da governação democrática e do respeito pelo Estado de direito na Guiné Bissau, os líderes da África Ocidental impuseram sanções contra diversos Bissau Guineenses.

As pessoas sancionadas são: Braima Camara, Rui Dia de Sousa, Soares Sambu, Abel da Silva Gomes, Manuel Nascimento Lopes, Eduardo Mamadu Balde, Maria Aurora Abissa Sano, Florentino Mendes Pereira, Orlando Mendes Viegas, Certorio Biote, Domingos Quade, Carlitos Barai, Domingos Malu, Antonio Sedja Man, Bacari Biai, Botche Cande, Herson Gougjabi Vaz, Victor Madinga, Fernando Vaz.

Ao Comité de Seguimento da Aplicação das Sanções, composto pelo Togo, República da Guiné e Comissão da CEDEAO, reserva-se o direito de rever a lista das pessoas sancionadas de acordo com a evolução da situação.

As sanções impostas a essas pessoas referem-se à suspensão da sua participação nas atividades da Comunidade, a interdição de viajar e a negação de vistos a elas e aos membros das suas famílias, e o congelamento dos seus ativos financeiros e dos de suas famílias onde quer que estejam.

Estas várias sanções constam do Ato Adicional A / SA.13 / 02/12, de 17 de fevereiro de 2012, sobre os regimes de sanções contra os Estados Membros que não honram suas obrigações em relação à CEDEAO, e pelo Artigo 45º do Protocolo sobre a Democracia e a Boa Governação.

Nos termos desta decisão, a Comissão bem como o Conselho para a Paz e Segurança da União Africana, a Organização Internacional da Francofonia, a CPLP, a União Europeia e a Organização das Nações Unidas são chamados a dar o seu apoio à CEDEAO na aplicação dessas sanções. Ler mais aqui»

Abuja, 5 de fevereiro de 2018

CEDEAO : Comunicado de Imprensa – Guiné Bissau


À pedido do Presidente em exercício da Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CEDEAO, Sua Excelência Senhor Faure Essozimna Gnassingbe, Presidente da República Togolesa, uma delegação de alto nível, liderada pelo Presidente do Conselho de Ministros da CEDEAO, S.Excia. Prof. Robert Dussey, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Integração Africana da República Togolesa, efetuou uma missão a Bissau, a 31 de janeiro e 1 de fevereiro de 2018.

Fizeram também parte da delegação de alto nível S.Excia Sr. Naby Youssouf Kiridi Bangoura, Ministro de Estado, Secretário-geral da Presidência da República da Guiné, representando o Mediador da CEDEAO para a Guiné-Bissau e S. Excia Sr. Marcel de Souza, Presidente da Comissão da CEDEAO.

O principal objetivo desta missão foi avaliar a implementação dos Acordos de Conakry e Bissau, conforme as decisões da sessão extraordinária da Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CEDEAO, realizada em Addis Abeba, Etiópia, em 27 de janeiro de 2018, à margem da 30ª Sessão Ordinária da Assembleia dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana.

Recorde-se que a Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CEDEAO, na sua Sessão extraordinária de 27 de janeiro de 2018, convidou as partes Bissau Guineenses a cumprir o Acordo de Conakry, caso contrário as sanções coletivas e individuais serão aplicadas a partir de 1 de fevereiro de 2018, contra todas as pessoas ou organizações que entravam o processo de saída da crise na Guiné-Bissau. A Conferência também mandatou o Presidente da Comissão para implementar as sanções e criou um Comité de seguimento das sanções composto pelo Togo, Guiné e a Comissão da CEDEAO.

No final das reuniões e intercâmbios que teve com as diversas partes interessadas da crise, em 31 de janeiro e 1 de fevereiro de 2018:

A Missão constata que a nomeação do Primeiro-Ministro do consenso, conforme preconizado pelo Acordo de Conakry, não foi respeitada. Como resultado, a Comissão da CEDEAO anuncia a aplicação das sanções coletivas e individuais, a partir de 1 de fevereiro de 2018, contra todas as pessoas ou organizações que entravam o processo de saída da crise na Guiné-Bissau, como decidido pela Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CEDEAO, em Adis Abeba, a 27 de janeiro de 2018.

A Missão continua convencida de que, sem a plena implementação do Acordo de Conakry, incluindo a nomeação de um Primeiro-ministro de consenso e a formação de um governo inclusivo, as condições políticas adequadas não estão reunidas para a organização de eleições credíveis, inclusivas e pacíficas.

A Missão lamenta profundamente o não respeito da liberdade de reunião, tal como reconhecido pela Constituição da Guiné-Bissau, bem como pelos instrumentos jurídicos da CEDEAO, da União Africana e das Nações Unidas sobre a matéria. A este respeito, a Missão exorta todas as autoridades da Guiné Bissau a garantir o respeito rigoroso do Estado de direito, dos direitos humanos, incluindo a liberdade de reunião.

A Missão insta as forças de defesa e segurança da Guiné-Bissau a manterem uma posição republicana e a permanecerem neutras em relação aos atores políticos;

A Missão observa com satisfação o nível e a qualidade da colaboração da nossa organização regional com os seus parceiros e lança um forte apelo à União Africana, à CPLP, à União Europeia e às Nações Unidas para apoiar a CEDEAO na aplicação efetiva das suas sanções. Ler mais aqui»

Feito em Bissau a 1 de fevereiro de 2018

domingo, 4 de fevereiro de 2018

IX Congresso do PAIGC: O partido não pode pactuar com a lógica da divisão e da conspiração, diz o líder cessante do partido, Domingos Simões Pereira

«Quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras, chega a pontos de já não poder distinguir a verdade dentro de si mesmo nem ao seu redor, e assim começa a deixar de ter estima de si mesmo e dos outros. Depois, dado que já não tem estima de ninguém, cessa também de amar, e então na falta de amor, para se sentir ocupado e distrair, abandona-se às paixões e aos prazeres triviais e, por culpa dos seus vícios, torna-se como uma besta; e tudo isso deriva do mentir contínuo aos outros e a si mesmo» Dostoevskij,Os irmãos Karamazov, II, 2. 

O Presidente cessante do Partido da Independência da Guiné e Cabo-Verde (PAIGC), afirmou sexta-feira (02.02), que um partido com responsabilidades nacionais como o PAIGC não pode pactuar com a lógica da divisão e da conspiração, numa alusão ao comportamento dos militantes expulsos do partido.

“Um partido com responsabilidades como o PAIGC não pode pactuar com a lógica da divisão e da conspiração. Por isso mesmo, o partido defendeu-se accionando os mecanismos sancionatórios previstos nos seus estatutos. Os militantes faltosos foram sancionados, na sequência de processos transparentes conduzidos pelo conselho nacional de jurisdição do partido”, afirmou Domingos Simões Pereira.

Segundo Simões Pereira, o mau comportamento de um grupo de militantes do PAIGC, associado a esta prática que levou o partido ser arredado do poder pelo Presidente da República, sendo assim o partido simplesmente decidiu accionar os mecanismos sancionatórios previstos nos seus estatutos.

O líder cessante do partido fundado por “Amílcar Cabral”, disse que depois do congresso de Cacheu, cidade situada no norte da Guiné-Bissau, a direção eleita tudo fez para unir o partido e criar as melhores condições políticas para cimentar a sua coesão. Neste sentido, e no imediato, foram tomadas medidas importantes, com o propósito de criar espaços de diálogo para convencer as vozes dissonantes a seguirem a orientação do PAIGC, ou utilizarem os meios democráticos internos a sua disposição para reivindicarem as suas posições.

Para Pereira, apesar do esforço da direção superior do PAIGC, as sementes da desordem, da indisciplina e de uma rebelião começaram a ganhar proporções alarmantes que culminou com expulsão de quinze deputados do partido e demais dirigentes do PAIGC.

“Infelizmente isso nem sempre aconteceu, saímos de Cacheu com a esperança de que o léxico politica tinha mudado, de que a palavra crise desapareceria gradualmente do nosso vocábulo para dar lugar a expressões como unidade, coesão, solidariedade e desenvolvimento, mas na verdade estávamos enganados”, argumentou Domingos Simões Pereira.

Dirigindo-se aos militantes e delegados ao IX congresso ordinário do partido, defendeu que é fundamental que as vozes dissonantes reconheçam que em todas as democracias do mundo é politicamente sensato que se respeite a legitimidade de uma direcção escolhida democraticamente.

“Podemos facilmente imaginar que o processo de consolidação da unidade interna não tenha sido perfeito e que muitos camaradas se sentiram frustrados por não terem obtido do partido as posições que almejavam, mas também há que reconhecer que em todas as democracias do mundo é politicamente sensato que se respeite a legitimidade de uma direção eleita democraticamente, e que se lhe dê tempo para de forma dinâmica liderar um diálogo construtivo com todas as partes para o bem do partido” declarou Simões Pereira, num discurso durante o congresso do PAIGC na presença de vários convidados internacionais, organismos internacionais e o colectivo dos partidos democráticos.

Olhando para o processo socio-político da Guiné-Bissau, numa altura em que faltam três meses para o fim desta legislatura, o líder cessante do PAIGC, reconhece que foi uma legislatura marcada por uma longa crise política, que acentuou ainda a fragilidade das instituições políticas e econômicas e minou os esforços para a estabilização do país.

”Em condições o país estaria a preparar-se para a realização de eleições legislativas em Abril ou Maio deste ano, mas aqueles que usurparam o poder não só insistem em não cumprir o Acordo de Conacri e em não respeitar a Constituição da República, como estão com o receio de devolver a palavra ao povo, invocando todo tipo de argumentos para tentar adiar as eleições”, referiu Simões Pereira.

Visivelmente desapontado com a actual situação da Guiné-Bissau, Pereira considera que foram quatro anos de uma vil desonesta campanha contra o PAIGC, afastamento da governação, perseguições políticas e judicias aos dirigentes, ataques aos símbolos, assaltos as sedes, proibições de manifestações e tentativas desesperadas de impedir a realização do IX Congresso do PAIGC.

Para Domingos Simões Pereira, os promotores desta campanha tinham um único objectivo fazer vergar o PAIGC para poderem materializar os seus propósitos de instaurar um regime autoritário, contra a vontade popular. Contudo falharam redondamente.

“Essas pessoas não contavam com a capacidade de resiliência dos militantes do partido. Não perceberam a verdadeira dimensão do PAIGC porque não conhecem a história deste partido nem a da Guiné-Bissau. Desafiaram-nos, afrontaram-nos de todas as formas, apoquentaram a nossa tranquilidade, tiraram a cada um de nós várias horas de sossego, mas não conseguiram. E não conseguirão porque este partido é o PAIGC”, afirmou o líder cessante do maior partido do país.

Relativamente ao IX congresso, Simões Pereira, relembrou que o lema do congresso, “PAIGC Unido na Disciplina e Pelos Ideias de Amílcar Cabral, ao serviço da paz, estabilidade e desenvolvimento da Guiné-Bissau”, é um forte apelo a unidade interna e ao reforço da coesão, baseada no respeito e observância da disciplina e, ao assumir da responsabilidade de herdar ideologicamente Amílcar Cabral.

“Deste congresso vão, pois, sair os futuros dirigentes do partido, mulheres e homens que terão a responsabilidades de dirigir o PAIGC nos próximos quatros anos, assumindo os desafios de curto e médio prazo, mas também preparando o partido para os desafios de longo prazo. Sonhamos com um PAIGC forte e voltado para o futuro. Um partido aberto, com processos modernos e transparentes. Um partido onde haja mais lugares para os jovens e onde mais mulheres possam ter posições de destaques, por isso mesmo a nossa responsabilidade é enorme”, rematou o Presidente do partido.

De recordar que o IX congresso do PAIGC, ficou marcada com ausência de um grupo de militantes do partido que foi expulso do PAIGC devido a posição que assumiram nesta crise política que já dura a mais de dois anos.

Apesar dos esforços internos e internacionais, o grupo acabou por ficar de fora, apesar de um dos elementos voltar a reintegrar o partido.

Segundo a informação disponível, Domingos Simões Pereira é único candidato a liderança do partido, uma situação fortemente contestada pelos militantes expulsos do PAIGC.

O IX congresso do partido termina hoje (dia 04 de fevereiro 2018), segundo a indicação do presidente da comissão organizadora. Radio Jovens

sábado, 3 de fevereiro de 2018

EM NOME DA PÁTRIA, DA DIGNIDADE E DA SAGRADA ESPERANÇA

... quando o servilismo  for destronado pela competência na guerra de acesso a cargos públicos, quando os novos portadores de esperança se impuserem, quando deixarmos de nos matar uns aos outros só porque não somos capazes de nos entendermos, poderemos, em nome da sagrada esperança, exigir que, definitivamente, “cantem o mar e a terra que a nossa luta fecundou”.

“E enquanto não podemos nos entender
porque só um lado de nós cresceu,
temos de nos matar uns aos outros.”
– Luandino Vieira,
in “Nós, os do Makulusu”


Não há nenhum povo que tenha feito mais sacrifícios para recuperar a sua soberania e dignidade do que o povo guineense. Não conheço nenhum povo que tenha abraçado de uma forma tão decidida e espontânea os ideais de liberdade e independência como o povo guineense. Não consigo imaginar nenhum povo que esteja hoje tão constrangido na expressão da sua dignidade e com a esperança num futuro melhor tão debilitada como o povo guineense.
Abdulai Silá (var. Silla, Sila), (Catió, 1 de Abril de 1958), é um engenheiro, economista, investigador social e escritor guineense.

Filho de Aissatu Baldé e Aliu Silá, Silá nasceu e cresceu em Catió, uma pequena cidade no sul da Guiné-Bissau, onde frequentou a escola primária. Em 1970 mudou-se para Bissau a fim de freqüentar o Liceu Honório Barreto. De 1979 a 85, frequentou a Universidade Técnica de Dresden (Alemanha), onde graduou-se em Engenharia Electrotécnica. De 1986 até à data, participou com sucesso em vários cursos de formação nos EUA e em outros lugares sobre redes de computadores e gestão de LAN, rede de Cisco, segurança na Internet, entre outros. Além da paixão e compromisso para com o desenvolvimento do TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação), acumulou, desde sempre, o interesse pela literatura e escrita.

Abdulai Silá é Co-Fundador e CEO da Eguitel Comunicações. É também co-gestor de Sitec (Silá Technologies), uma empresa de informática que criou em 1987 e gerida em conjunto com o seu irmão. Sob a liderança de Silá, Eguitel e Sitec têm vindo a desempenhar um papel pioneiro no desenvolvimento e difusão das Tecnologias da Informação e Comunicação na Guiné-Bissau, comprometendo várias iniciativas para tornar estas tecnologias acessíveis e de baixo custo em todo o país

A nossa Guiné transformou-se num djongagu com o qual nenhum dos seus filhos parece saber/poder lidar. Mergulhada numa crise cada dia mais profunda – e sem fim imediato à vista – o país tem o presente envenenado, o futuro hipotecado e corre um risco sério de ver o passado contrafeito. De desilusão em desilusão fomos ficando cada dia mais longe daquilo que foi o sonho de emancipação que tanto marcou e empolgou a minha geração.

Como foi isso possível? Como é que conseguimos chegar tão depressa a esse nível de frustração colectiva tão generalizada sem que houvesse alguém ou algo que nos interpelasse, que sacudisse a nossa “consciência patriótica”, que nos levasse a erradicar de uma vez por todas esse macbethiano djunda-djunda pelo poder que a todos tanto entristece e empobrece? Com que magia fomos capazes de transformar, em menos de uma geração, o nobre espírito da luta na famigerada política de the winner takes all?
Será uma mera questão de amontondadi, como insinuam os revoltados cantores de rap? Será porque, profundamente compenetrados nas lutas intestinais pelo poder, nos rendemos à ideologia do tafal-tafal? Ou será que foi simplesmente porque só um lado de nós cresceu?

“Das ist zum kotzen”

Quando comecei a aprender a língua alemã, do zero absoluto, num outono rico de eventos, tinha uma certeza inquestionável: ia dominar aquela língua. Nem os sons de difícil pronúncia, nem a complexa estrutura gramatical, nem tão pouco as exageradamente longas palavras, iam impedir isso. De onde vinha tanta certeza?, pode-se perguntar hoje, mas não naquele tempo. Cinco anos depois da proclamação da independência, era o tempo em que vencer era a nossa sina. Era cidadão de uma orgulhosa ‘nação africana forjada na luta’, onde todo o cidadão voluntariamente se predispunha a dobrar o mundo ao meio, se assim o Partido ordenasse.

Era a oitava língua que estava aprendendo, quatro das quais sem nunca ter tido a oportunidade de recorrer a um dicionário, glossário, ou nada que se lhe parecesse, para descobrir o significado de uma palavra nova. Em quatro ocasiões anteriores tinha-me desenrascado sempre sozinho. Dei-me conta agora de que nunca dantes me tinha dado conta desse facto!

O uso da palavra era arte. E como toda a arte, ela tem uma finalidade: dar expressão aos nossos sentimentos. Visto nessa perspectiva, o significado de uma palavra desconhecida engendrava sempre uma componente de subjectivismo. Talvez por isso, o significado (ou significados) não se perguntava, descobria-se. Perguntar era uma declaração de infertilidade intelectual a que ninguém se atrevia a expor-se. O sentido da palavra desconhecida estava assim sempre ao alcance da nossa imaginação.

Foi com esse espírito de liberdade e criatividade no uso das palavras e expressões que encarei o aprendizado da língua germânica e que me permitiu mais tarde ‘descobrir’ um significado original de uma expressão que passou a ter um valor especial para mim: “das ist zum kotzen”.

Quando, depois de uma experiência laboratorial mal sucedida, ouvi a frase pela primeira vez, algo de extraordinário aconteceu comigo: senti-me reconfortado. Não sabia o que exactamente significava a expressão, mas tive a certeza absoluta que reflectia aquilo que ocorrera instantes antes e o sentimento de fracasso que em mim deixara. Lembro-me perfeitamente de ter repetido a frase, alto e bom som, bem como do efeito paliativo que isso causara em mim. Era a magia que vinha da arte de ‘koba mal’ na língua mandinga, conjugada com a vivacidade da língua balanta.

Mas tarde soube que não era exactamente aquilo que imaginara, que aquela frase significava somente ‘isto é enjoativo’, mas decidi ficar com o significado que inventara. Não encontrava em nenhuma das minhas línguas maternas nada que exprimisse de uma forma tão fiel a sensação de frustração, de revolta, de falhanço (tudo isso ao mesmo tempo), como esta pequena frase. Por isso, perante esse permanente flagelo nesta minha Pátria Amada, stressa-me tanto não ter que, também permanentemente, declarar: Das ist zum kotzen!

A vitória dos ideólogos do tafal-tafal

A situação que o país tem vivido tornou-se uma verdadeira afronta para a quase totalidade dos guineenses, exceptuando, obviamente, os novos guardiães da tabanca, que da anarquia têm feito o seu principal trunfo quer para seu enriquecimento ilícito, quer para a promoção da ideologia do tafal-tafal.

O país que nasceu com tudo para se afirmar como uma nação de “Paz e Progresso” (está registado no Hino Nacional!), transformou-se paulatinamente num extenso ‘kau di tchur’, onde o povo canta chorando e chora cantando. Quem da minha geração seria capaz de imaginar que depois da epopeia da libertação do colonialismo e quando tudo, finalmente, prometia passar a ser pacífico e harmonioso, teríamos que assistir, pequenos e impotentes, a tamanha catástrofe?

Excedendo as previsões mais ‘reaccionárias’ da época, e contrariando as aspirações mais elementares a uma vida digna e condigna, o nosso sol desapareceu cedo demais (1980?) para não mais voltar a arder…  E entre intentonas e inventonas  aos bocados fomos aprendendo a renunciar aos ideais. Ou a traí-los.

Perante a miséria generalizada que se instalou – e como estratégia para se fazer face ao dilema da sobrevivência – tentámos encontrar refúgio onde nunca nos imaginámos. Talvez por isso, a elite política guineense desenvolveu novas habilidades e capacidades. Sem pejo nem pudor, assumiu a mendiguice como um desígnio nacional, perdendo a noção do ridículo e, ainda pior, a consciência de que, ontem como hoje, “por mais quente que seja a água da fonte, ela não cozerá o teu arroz”.

Por isso assistimos ao florescer de artefactos que minam os alicerces da identidade nacional com a maior naturalidade. A fragmentação dos catalisadores da coesão social não nos aflige, nem tão-pouco nos incomodam os recorrentes escândalos no sector da justiça ou o iminente colapso do sistema educativo.Vergamo-nos. Sem honra nem glória…

Daí que quando os novos guardiães da tabanca surgem nas suas vestes de aprendiz de feiticeiro, exuberantes e fanfarrões, até fazem encolher o céu. E a terra, a nossa terra, humilhada e desonrada, manifesta-se ao mundo em toda a sua imensa pequenez. Das ist (wirklich) zum kotzen!

“Some people feel the rain; others just get wet.”

Mas e agora? O que fazer perante tamanho descalabro? Como (sobre) viver com/a tanto kasabi pessoal e colectivo sem enlouquecer ou ter que renunciar aos ideais da juventude? É alimentar a onda ou perseverar na busca dos fragmentos da paixão amputada?

Entre a resignação e o suicídio deve haver certamente uma alternativa mais compatível com os nossos sonhos, mais consentânea com o nosso sentido de dignidade.

Resignar-se é trair. É assumir-se como ‘lan di polon na bentu’, uma atitude que não se coaduna com o estatuto de lambé. Quem um dia teve o privilégio de sonhar com uma nação a ‘renascer das cinzas para se tornar no mais belo jardim do mundo’ não tem a opção de trair. Tem é a obrigação de resgatar a capacidade de sonhar, de fazer ressuscitar a crença na afirmação dos portadores de esperança, mesmo quando essa crença aparente às vezes situar-se para além da utopia.

Utopia? Não, é possível fazer o nosso sol arder de novo! Não, é possível recriar o país com que sonhámos! Não, é possível livrarmo-nos do ciclo de lebsimenti sem companheiro, que tem feito com que até politiqueiros falhados de outras paragens ambicionem aqui dar-nos lições de boa convivência como se bestas fôssemos.

Como? Em nome da Pátria Amada podemos voltar a ter o professor a estudar mais para ensinar melhor; podemos levar o juiz a despir as vestes de gigolô e adquirir sentido de justiça; podemos ambicionar ter uma classe intelectual ciente dos seus compromissos históricos e não tão prostituída; podemos exigir que aqueles que do alto das suas posses decidem sobre a política da energia sejam ao menos conhecedores da lei de Ohm; podemos até recuperar Karache e fazê-la povoar só pelos ideólogos do tafal-tafal e demais apóstolos da desgraça.

Em nome da dignidade, devemos, depois de mais de quarenta anos de pleno exercício do direito à autodeterminação, reclamar maturidade e deixar de ter imbecis a brincar de governantes; devemos, após vinte anos de multipartidarismo estéril, exigir que os votos sejam doados com base em programas de governação assumidos e não na sacrossanta solidariedade étnica.

E assim, quando o servilismo e a vassalagem forem destronados pela competência e mérito na guerra de acesso a cargos públicos, quando os novos portadores de esperança se impuserem e virmos erradicada a política de the winner takes all, quando crescermos – o suficiente e de ambos os lados – e deixarmos de nos matar uns aos outros só porque não somos capazes de nos entendermos, poderemos, em nome da sagrada esperança, exigir que, definitivamente, “cantem o mar e a terra que a nossa luta fecundou”.

Ecoando pelas lalas de Kubukaré e florestas de Kobiana até se confundir com as quedas de Kussilintra, é essa canção que redimirá toda a minha geração, libertando-me a mim desse trauma que suscita a sensação que dá pela expressão ‘das ist zum kotzen’.

Utopia? Mera utopia? Pouco me importo, pois na íntegra subscrevo a posição do escritor e matemático Georg Lichtenberg em como "Ich weiß nicht, ob es besser wird, wenn es anders wird. Aber es muß anders werden, wenn es besser werden soll"[1].

[1] Não sei se será melhor se for diferente. Mas terá que ser diferente para ser melhor.