terça-feira, 22 de maio de 2018

Guiné-Bissau: É Imperativo a realização das eleições legislativas de 18 de Novembro do ano em curso

Não ao adiamento das eleições legislativas de 18 de Novembro; Não às manobras dilatórias;

 Por, Jornalista Umaro Djau

Foram as autoridades nacionais que sugeriram essa data ao CEDEAO e à comunidade internacional. O Presidente da Republica, José Mário Vaz até disse que o país ia financiar as suas próprias eleições.

Têm 184 dias, Sr. Primeiro Ministro, Aristides Gomes. A missão deste governo liderado por si, como aliás já reconheceu publicamente, é APENAS organizar as eleições e não a "reestruturação de empresas estatais".

A Guiné-Bissau não pode continuar a prolongar o seu sofrimento à luz da má gestão governativa e uma liderança insatisfatória.

Amílcar Cabral e os seus "cinco" companheiros ousaram lançar um Movimento de Libertação

Mesmo sabendo que tinham grandes desafios e entraves, Amílcar Cabral e os seus "cinco" companheiros ousaram lançar um Movimento de Libertação.

Rapidamente apostaram na formação política, técnica e militar dos seus companheiros de luta. E triunfaram de uma forma heróica, cumprindo aquilo que apelidaram do "Programa Menor", ou seja, a independência da Guiné-Bissau.

A geração presente, hoje com mais gente preparada e formada, não pode abdicar-se da sua responsabilidade para com o "Programa Maior", no pensamento de Cabral.

Chegou a hora de constituirmos movimentos de democratização e de desenvolvimento do país, não só para honrar os que alguma vez acreditaram nas gerações vindouras, mas também para dignificar e edificar a Nossa Guiné-Bissau.

Faça a sua parte, porque o país precisa!

Nota: Os artigos assinados por amigos, colaboradores ou outros não vinculam a IBD, necessariamente, às opiniões neles expressas.

domingo, 20 de maio de 2018

O “poder Redentor do amor” marcou o casamento dos duques despenteados

“O Dr. King tinha razão; temos de descobrir o amor, o poder Redentor do amor. Quando o fizermos, faremos deste velho mundo um mundo novo ".

Homilia de bispo americano e demonstrações públicas de carinho dos noivos foram centrais no casamento real do ano.

Na minha aldeia há muito poucos casamentos, mas cada vez que se casa uma “filha da terra” é normal as vizinhas irem para o adro da igreja ver a noiva chegar. E até entrar e assistir a toda a cerimónia. E, depois de os noivos saírem e partirem para a boda, ficam a comentar o vestido da noiva, dos convidados, a homilia do sr. Prior, as flores da igreja, as tropelias dos meninos das alianças.

Na aldeia global em que vivemos, foi o que muitos milhões fizemos neste sábado em que teve lugar o casamento de Harry Windsor e Meghan Markle, tornados duques de Sussex pela Rainha de Inglaterra.

Vimos os convidados chegar. As estrelas da televisão e os mais ou menos conhecidos convidados reais. Admirámos o vestido amarelo-canário de Amal Cloney e o fato cinza de George, com a gravata amarela a condizer; o vestido azul meia-noite de Vitoria Beckam e os seus sapatos vermelhos e a boa forma de David; os vestidos florais da cantora Joss Stone, de Lady Kitty Spencer (prima do noivo) e de Sofia Wellesley (mulher do cantor James Blunt e descendente do duque de Wellington); comentamos os óculos cor-de-rosa de Elton John, os folhos de Oprah Winfrey, o tocado da tenista Serena Williams … escrutinamos os sorrisos das antigas namoradas do noivo e dos antigos colegas de cena da noiva.

Imperaram os rosas e azuis pastel, com uns toques mais coloridos. E, aí, não há como a Rainha para dar um festival de cor. Isabel II juntou verde-lima e roxo como só ela pode. Já a mãe da noiva, Doris Ragland, foi um exemplo de emoção contida e sobriedade, em verde claro, com as suas tranças rasta domadas debaixo de um pequeno chapéu. Claro que havia curiosidade em ver como apareceria a duquesa de Cambridge, menos de um mês depois de ser mãe, mas Kate optou por um vestido muito parecido com o que usou no baptizado da filha Charlotte e o chapéu parecia o mesmo que usou no casamento de Zara Phillips.

Mas, óbvio, a maior curiosidade era sobre o vestido da noiva. E Meghan deslumbrou com a simplicidade do seu vestido de decote à barco, ligeiramente rebaixado, desenhado por Clare Waight Keller, a primeira mulher a liderar a casa Givenchy. Tão diferente das rendas de princesa do vestido de noiva de Kate quanto este casamento quase familiar foi diferente da cerimónia de Estado dos duques de Cambridge.

Com a noiva a entrar na capela, foi a hora de nos desvanecermos com o riso desdentado do pagem que lhe segurava o véu, com a ansiedade de Harry e a serenidade de William, com o sorriso confiante de Meghan, que fez questão de manter o seu toque despenteado mesmo no dia do casamento, num penteado coroado com uma tiara feita para a rainha Mary (avó de Isabel II). Tal como Harry manteve a barba.

“Estás deslumbrante”, percebeu-se nos lábios do noivo, depois de receber a noiva entregue pelo seu próprio pai, já que o dela não foi a Windsor por mau comportamento ou questões de saúde. Os noivos deram as mãos e assim se mantiveram durante quase toda a cerimónia. As mãos entrelaçadas e os sorrisos amorosos marcaram as imagens do casamento, que teve na homilia do bispo Michael Curry as palavras marcantes.

Pegando no texto bíblico do Cântico dos Cânticos (também conhecido por Cântico de Salomão, como lhe preferiu chamar) lido momentos antes por uma das tias do noivo, Lady Jane Fellowes, irmã da princesa Diana, o bispo afro-americano da Igreja Episcopal dos EUA fez todo um sermão sobre o poder do amor.

No sermão, Curry inspirou-se na leitura de uma parte do capítulo 8 do Cântico dos Cânticos:
 Grava-me como selo em teu coração,
como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor,
implacável como o abismo é a paixão;
os seus ardores são chamas de fogo,
são labaredas divinas.
Nem as águas caudalosas conseguirão
apagar o fogo do amor,
nem as torrentes o podem submergir.

“Grava-me como um selo no teu coração, como um selo no teu braço porque o amor é mais forte do que a morte”, diz a amada ao seu amado no Cântico dos Cânticos. E Michael Curry partiu daí, citou Martin Luther King sobre o poder redentor do amor, e desafiou o mundo a recriar-se pelo poder do amor.

Um poder que não pode ser subestimado, mas que também não deve ser “sobre-sentimentalizado”, ou seja não deve ser considerado só nas suas “formas sentimentais” e deve ser tido em toda a sua largura e profundidade porque o amor, avisou, não é só nem sobretudo sobre um casal jovem que está a partilhar a sua felicidade.

“A força do amor é Deus, ele próprio, quando há verdadeiro amor Deus está aí (…) há poder para ajudar e curar, para nos mostrar como viver”, disse o bispo que acredita que “o amor tem poder para mudar o mundo” quando é “sacrificial e redentor” como o amor de Cristo na cruz. Por isso, desafiou todos os que o ouviam a imaginarem um mundo em que o amor é a regra. Nesse mundo, “a pobreza seria história e a Terra um santuário, com muito espaço para todos os filhos de Deus”.

À medida que Michael Curry se entusiasmava com as suas próprias palavras sobre o poder, a força e a energia do amor, Harry e Meghan iam trocando olhares amorosos e caricias nas mãos entrelaçadas, William ia sorrindo, mas em muitos rostos reais ingleses, como o do príncipe Carlos, ia-se manifestando aquele ar enjoado e snob de quem não tem nada a ver com aquilo. Com aquele entusiasmo, com aquele amor tão próximo, com aquelas manifestações de carinho público. E o ar manteve-se enquanto um coro gospel enchia a capela com a sua interpretação de “Stand by me”.

Mas são esses mesmos “royals” ingleses que têm sabido ter uma capacidade de adaptação ao mundo novo que tem sido o segredo da sua sobrevivência, que lhe permitiu mudar de nome de família para Windsor durante a I Grande Guerra, que os fez tão próximos de todos os ingleses durante a II Guerra, que os manteve imperiais enquanto iam perdendo o Império, que lhes permitiu manter a dignidade em anos horríveis, sobreviver à morte de Diana e ganhar nova força com esta geração que se mistura com jogadores de futebol e estrelas de televisão, que vai às compras ao supermercado, mas continua a fazer o povo sonhar e vibrar com casamentos de príncipes e princesas. Mesmo aos que achamos que as monarquias já não fazem sentido. Com a Radio Renascença

sábado, 19 de maio de 2018

Marx e Marx


“Sem Karl Marx, não haveria uma Doutrina Social da Igreja"

Crónica de Anselmo Borges, no  DN

No passado dia 5, celebrou-se o segundo centenário do nascimento de Karl Marx, o filósofo, sociólogo e economista cuja obra, para o bem e para o mal, contribuiu de modo decisivo para a mudança da história do mundo. O outro Marx é o cardeal Reinhard Marx, actual arcebispo de Munique e presidente da Conferência Episcopal Alemã, especialista na Doutrina Social da Igreja, um dos conselheiros do Papa Francisco, que foi bispo de Trier, onde Karl Marx nasceu, e que escreveu uma obra bestseller, muito notada também pelo título, o mesmo da do seu homónimo, Das Kapital (O Capital). Ele mesmo confessa que João Paulo II se lhe dirigia com graça como il nostro marxista (o nosso marxista).

Tanto no livro, publicado em 2008, como nas entrevistas concedidas ao Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung e ao Rheinische Post online, por ocasião dos 200 anos do nascimento do seu homónimo, o cardeal, que não é marxista, manifesta profundo interesse por Karl Marx e os seus escritos, que chega a considerar "fascinantes" e com uma "grande energia", neles "há uma inspiração, um ímpeto revolucionário". "Sem Karl Marx, não haveria uma Doutrina Social da Igreja".

Não deixa de impressionar. Quase metade da humanidade chegou a viver sob regimes políticos inspirados também em Karl Marx e, do ponto de vista ideológico, nunca uma filosofia influenciou tão rapidamente tantos. Por outro lado, o comunismo é, de facto, responsável por mais de 100 milhões de mortos. Marx não é o responsável directo por todos os crimes cometidos, tanto mais quanto, segundo a sua doutrina, a revolução não deveria dar-se nem na Rússia nem na China... Mas lá está esta palavra mortal nos famosos Manuscritos de 1844: "O comunismo é a solução do enigma da história e sabe que o é." Assim, Marx não é directamente culpado pelas terríveis tragédias cometidas por muitos dos seus sequazes, mas, como me disse o filósofo J.M. Domenach, "A peste estalinista está na lógica do marxismo a partir do momento em que uma filosofia que pretende ser uma explicação científica e completa da história toma o poder".

O que pensa o cardeal sobre as teorias de Marx e os crimes cometidos em seu nome? "Ele não pode ser absolvido pura e simplesmente em relação ao que se seguiu, mas também não tem de responder por tudo o que na sequência da sua teoria foi feito como marxismo, incluindo os Gulags de Estaline. Tendo terminado o socialismo real na Europa, talvez seja possível um olhar mais imparcial. Ele é um pensador que marcou a nossa época, também no negativo." É preciso notar que nos seus escritos pode ser encontrado aqui e ali algum "pensamento totalitário" e um colectivismo que não tem em conta o indivíduo: "Para Marx, trata-se apenas do género humano. Quase não toma em consideração o indivíduo. Para nós, cristãos, a pessoa é central. Não podemos propor-nos nenhum objectivo à custa do homem. O homem enquanto pessoa tem de estar sempre no centro, e precisamente cada pessoa individual e concreta." Aliás, o Papa Francisco, num prefácio escrito para o último livro de Bento XVI, que acaba de ser publicado, Liberar la Libertad. Fe y Política en el Tercer Milenio, denuncia a "pretensão totalitária" do Estado marxista e "a ideologia ateia em que se fundamenta".

Que contributos de Marx permanecem atuais?

Segundo Reinhard Marx, Karl Marx é "um analista agudo do capitalismo. Ele viu correctamente: quando os interesses da valorização global do capital se tornam o factor determinante do desenvolvimento, o capitalismo entra em aporias insolúveis. Por outras palavras: quando se combina o imperativo tecnológico - "o que é possível tecnicamente deve-se fazer" - com o imperativo económico -"o que gera lucros não deve ser impedido" - e se liga tudo com a moral do mal menor, isso leva ao abismo. Muitas coisas que ele apresentou só agora as podemos ver em toda a sua amplidão. Hoje começamos a ver os efeitos sociais, políticos e ecológicos que o capitalismo mundial, global e desenfreado tem. E a doutrina social católica nunca negou a análise marxista do capitalismo e das ameaças que dele decorrem. Karl Marx obrigou a pensar problemas que não estão resolvidos. Isto vale também para o carácter fetichista da mercadoria e a alienação."

Evidentemente, Karl Marx não é um "Padre da Igreja". Mas "a Doutrina Social da Igreja sempre o estudou intensamente e daí a afirmação do jesuíta O. von Nell-Breuning: "Estamos todos aos ombros de Karl Marx." A sua posição foi sempre um ponto de discussão para a doutrina social católica, a maior parte das vezes em rejeição crítica, mas também em interrogação: "O que é que ele quer exactamente, o que move este homem? A sua análise é correcta?"." Também se deve a Marx perceber que "o mercado não é tão inocente como se apresenta nos manuais dos economistas; por detrás há enormes interesses". Ele mostrou que "os direitos humanos, sem partilha material, permanecem incompletos", exigindo-se, portanto, "atender às relações reais concretas". Ao acentuar o empírico, "ele é um dos primeiros cientistas sociais que devem ser levados a sério".

"Um capitalismo sem humanitariedade, solidariedade e justiça, não tem moral nem futuro." Para o cardeal Marx, tornou-se claro que nos precipitamos para o abismo, quando "se excluem do mercado a moral e a ética e se pensa que se pode renunciar a uma ordem política do Estado que mantenha os movimentos do mercado dentro de regras ao serviço do bem comum". É necessária uma nova ordem política mundial, tendo-se imposto o conceito de Global Governance, para criar um novo sistema de instituições e regras no contexto dos desafios globais. Como aqui tenho sublinhado, desafio maior para o nosso tempo é superar a inadequação entre os mercados que são globais e a política que é nacional, quando muito, regional.

Padre e professor de filosofia

domingo, 13 de maio de 2018

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O LII DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

A verdade e as notícias falsas

A mensagem do Papa para o 52.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, que hoje se celebra, aborda duas questões atuais: “A verdade vos tornará livres” e “Fake news e jornalismo de paz”.

Diz o Papa Francisco que «a comunicação humana é uma modalidade essencial para viver a comunhão», sabendo-se que «o ser humano é capaz de expressar e compartilhar o verdadeiro, o bom e o belo», mas ainda é capaz «de narrar a sua própria experiência e o mundo, construindo assim a memória e a compreensão dos acontecimentos». Contudo, se orgulhosamente seguir o seu egoísmo, o homem pode usar de modo distorcido a própria faculdade de comunicar».

Debruçando-se sobre as notícias falsas, o Papa afirma que, no fundo, são desinformação, apoiadas em «informações infundadas, baseadas em dados inexistentes ou distorcidos, tendentes a enganar e até manipular o destinatário. A sua divulgação pode visar objetivos prefixados, influenciar opções políticas e favorecer lucros económicos».

O Santo Padre frisa que «O drama da desinformação é o descrédito do outro, a sua representação como inimigo, chegando-se a uma demonização que pode fomentar conflitos. Deste modo, as notícias falsas revelam a presença de atitudes simultaneamente intolerantes e hipersensíveis, cujo único resultado é o risco de se dilatar a arrogância e o ódio. É a isto que leva, em última análise, a falsidade.»

Alertando-nos para a necessidade de cada um de nós contrastar estas falsidades, que «não é tarefa fácil», defende que «são louváveis as iniciativas educativas que permitem apreender como ler e avaliar o contexto comunicativo, ensinando a não ser divulgadores inconscientes de desinformação, mas atores do seu desvendamento». E acrescenta: igualmente louváveis são as iniciativas institucionais e jurídicas empenhadas na definição de normativas que visam circunscrever o fenómeno, e ainda iniciativas, como as empreendidas pelas tech e media company, idóneas para definir novos critérios capazes de verificar as identidades pessoais que se escondem por detrás de milhões de perfis digitais.»

Citando Dostoevskij, frisa: «Quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras, chega a pontos de já não poder distinguir a verdade dentro de si mesmo nem ao seu redor, e assim começa a deixar de ter estima de si mesmo e dos outros. Depois, dado que já não tem estima de ninguém, cessa também de amar, e então na falta de amor, para se sentir ocupado e distrair, abandona-se às paixões e aos prazeres triviais e, por culpa dos seus vícios, torna-se como uma besta; e tudo isso deriva do mentir contínuo aos outros e a si mesmo.»

Reafirmando que a paz é a verdadeira notícia, o Papa Francisco garante que «O melhor antídoto contra as falsidades não são as estratégias, mas as pessoas: pessoas que, livres da ambição, estão prontas a ouvir e, através da fadiga dum diálogo sincero, deixam emergir a verdade; pessoas que, atraídas pelo bem, se mostram responsáveis».

O Papa Francisco também propõe «um jornalismo que não se limite a queimar notícias, mas se comprometa na busca das causas reais dos conflitos, para favorecer a sua compreensão das raízes e a sua superação através do aviamento de processos virtuosos; um jornalismo empenhado a indicar soluções alternativas às escalation do clamor e da violência verbal».

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O LII DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

Tema: «"A verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32). Fake news e jornalismo de paz» [13 de maio de 2018]

Queridos irmãos e irmãs!

No projeto de Deus, a comunicação humana é uma modalidade essencial para viver a comunhão. Imagem e semelhança do Criador, o ser humano é capaz de expressar e compartilhar o verdadeiro, o bom e o belo. É capaz de narrar a sua própria experiência e o mundo, construindo assim a memória e a compreensão dos acontecimentos. Mas, se orgulhosamente seguir o seu egoísmo, o homem pode usar de modo distorcido a própria faculdade de comunicar, como o atestam, já nos primórdios, os episódios bíblicos dos irmãos Caim e Abel e da Torre de Babel (cf. Gn 4, 1-16; 11, 1-9). Sintoma típico de tal distorção é a alteração da verdade, tanto no plano individual como no coletivo. Se, pelo contrário, se mantiver fiel ao projeto de Deus, a comunicação torna-se lugar para exprimir a própria responsabilidade na busca da verdade e na construção do bem. Hoje, no contexto duma comunicação cada vez mais rápida e dentro dum sistema digital, assistimos ao fenómeno das «notícias falsas», as chamadas fake news: isto convida-nos a refletir, sugerindo-me dedicar esta Mensagem ao tema da verdade, como aliás já mais vezes o fizeram os meus predecessores a começar por Paulo VI (cf. Mensagem de 1972: «Os instrumentos de comunicação social ao serviço da Verdade»). Gostaria, assim, de contribuir para o esforço comum de prevenir a difusão das notícias falsas e para redescobrir o valor da profissão jornalística e a responsabilidade pessoal de cada um na comunicação da verdade.

1. Que há de falso nas «notícias falsas»?

A expressão fake news é objeto de discussão e debate. Geralmente diz respeito à desinformação transmitida on-line ou nos mass-media tradicionais. Assim, a referida expressão alude a informações infundadas, baseadas em dados inexistentes ou distorcidos, tendentes a enganar e até manipular o destinatário. A sua divulgação pode visar objetivos prefixados, influenciar opções políticas e favorecer lucros económicos.

A eficácia das fake news fica-se a dever, em primeiro lugar, à sua natureza mimética, ou seja, à capacidade de se apresentar como plausíveis. Falsas mas verosímeis, tais notícias são capciosas, no sentido que se mostram hábeis a capturar a atenção dos destinatários, apoiando-se sobre estereótipos e preconceitos generalizados no seio dum certo tecido social, explorando emoções imediatas e fáceis de suscitar como a ansiedade, o desprezo, a ira e a frustração. A sua difusão pode contar com um uso manipulador das redes sociais e das lógicas que subjazem ao seu funcionamento: assim os conteúdos, embora desprovidos de fundamento, ganham tal visibilidade que os próprios desmentidos categorizados dificilmente conseguem circunscrever os seus danos.

A dificuldade em desvendar e erradicar as fake news é devida também ao facto de as pessoas interagirem muitas vezes dentro de ambientes digitais homogéneos e impermeáveis a perspetivas e opiniões divergentes. Esta lógica da desinformação tem êxito, porque, em vez de haver um confronto sadio com outras fontes de informação (que poderia colocar positivamente em discussão os preconceitos e abrir para um diálogo construtivo), corre-se o risco de se tornar atores involuntários na difusão de opiniões tendenciosas e infundadas. O drama da desinformação é o descrédito do outro, a sua representação como inimigo, chegando-se a uma demonização que pode fomentar conflitos. Deste modo, as notícias falsas revelam a presença de atitudes simultaneamente intolerantes e hipersensíveis, cujo único resultado é o risco de se dilatar a arrogância e o ódio. É a isto que leva, em última análise, a falsidade.

2. Como podemos reconhecê-las?

Nenhum de nós se pode eximir da responsabilidade de contrastar estas falsidades. Não é tarefa fácil, porque a desinformação se baseia muitas vezes sobre discursos variegados, deliberadamente evasivos e subtilmente enganadores, valendo-se por vezes de mecanismos refinados. Por isso, são louváveis as iniciativas educativas que permitem apreender como ler e avaliar o contexto comunicativo, ensinando a não ser divulgadores inconscientes de desinformação, mas atores do seu desvendamento. Igualmente louváveis são as iniciativas institucionais e jurídicas empenhadas na definição de normativas que visam circunscrever o fenómeno, e ainda iniciativas, como as empreendidas pelas tech e media company, idóneas para definir novos critérios capazes de verificar as identidades pessoais que se escondem por detrás de milhões de perfis digitais.

Mas a prevenção e identificação dos mecanismos da desinformação requerem também um discernimento profundo e cuidadoso. Com efeito, é preciso desmascarar uma lógica, que se poderia definir como a «lógica da serpente», capaz de se camuflar e morder em qualquer lugar. Trata-se da estratégia utilizada pela serpente – «o mais astuto de todos os animais», como diz o livro do Génesis (cf. 3, 1-15) – a qual se tornou, nos primórdios da humanidade, artífice da primeira fake news, que levou às trágicas consequências do pecado, concretizadas depois no primeiro fratricídio (cf. Gn 4) e em inúmeras outras formas de mal contra Deus, o próximo, a sociedade e a criação. A estratégia deste habilidoso «pai da mentira» (Jo 8, 44) é precisamente a mimese, uma rastejante e perigosa sedução que abre caminho no coração do homem com argumentações falsas e aliciantes. De facto, na narração do pecado original, o tentador aproxima-se da mulher, fingindo ser seu amigo e interessar-se pelo seu bem. Começa o diálogo com uma afirmação verdadeira, mas só em parte: «É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?» (Gn 3, 1). Na realidade, o que Deus dissera a Adão não foi que não comesse de nenhuma árvore, mas apenas de uma árvore: «Não comas o [fruto] da árvore do conhecimento do bem e do mal» (Gn 2, 17). Retorquindo, a mulher explica isso mesmo à serpente, mas deixa-se atrair pela sua provocação: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: “Nunca o deveis comer nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis”» (Gn 3, 2-3). Esta resposta tem sabor a legalismo e pessimismo: dando crédito ao falsário e deixando-se atrair pela sua apresentação dos factos, a mulher extravia-se. Em primeiro lugar, dá ouvidos à sua réplica tranquilizadora: «Não, não morrereis» (3, 4). Depois a argumentação do tentador assume uma aparência credível: «Deus sabe que, no dia em que comerdes [desse fruto], abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal» (3, 5). Enfim, ela chega a desconfiar da recomendação paterna de Deus, que tinha em vista o seu bem, para seguir o aliciamento sedutor do inimigo: «Vendo a mulher que o fruto devia ser bom para comer, pois era de atraente aspeto (…) agarrou do fruto, comeu»(3, 6). Este episódio bíblico revela assim um facto essencial para o nosso tema: nenhuma desinformação é inofensiva; antes pelo contrário, fiar-se daquilo que é falso produz consequências nefastas. Mesmo uma distorção da verdade aparentemente leve pode ter efeitos perigosos.

De facto, está em jogo a nossa avidez. As fake news tornam-se frequentemente virais, ou seja, propagam-se com grande rapidez e de forma dificilmente controlável, não tanto pela lógica de partilha que carateriza os meios de comunicação social como sobretudo pelo fascínio que detêm sobre a avidez insaciável que facilmente se acende no ser humano. As próprias motivações económicas e oportunistas da desinformação têm a sua raiz na sede de poder, ter e gozar, que, em última instância, nos torna vítimas de um embuste muito mais trágico do que cada uma das suas manifestações: o embuste do mal, que se move de falsidade em falsidade para nos roubar a liberdade do coração. Por isso mesmo, educar para a verdade significa ensinar a discernir, a avaliar e ponderar os desejos e as inclinações que se movem dentro de nós, para não nos encontrarmos despojados do bem «mordendo a isca» em cada tentação.

3. «A verdade vos tornará livres» (Jo 8, 32)

De facto, a contaminação contínua por uma linguagem enganadora acaba por ofuscar o íntimo da pessoa. Dostoevskij deixou escrito algo de notável neste sentido: «Quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras, chega a pontos de já não poder distinguir a verdade dentro de si mesmo nem ao seu redor, e assim começa a deixar de ter estima de si mesmo e dos outros. Depois, dado que já não tem estima de ninguém, cessa também de amar, e então na falta de amor, para se sentir ocupado e distrair, abandona-se às paixões e aos prazeres triviais e, por culpa dos seus vícios, torna-se como uma besta; e tudo isso deriva do mentir contínuo aos outros e a si mesmo» (Os irmãos Karamazov, II, 2).

E então como defender-nos? O antídoto mais radical ao vírus da falsidade é deixar-se purificar pela verdade. Na visão cristã, a verdade não é uma realidade apenas conceptual, que diz respeito ao juízo sobre as coisas, definindo-as verdadeiras ou falsas. A verdade não é apenas trazer à luz coisas obscuras, «desvendar a realidade», como faz pensar o termo que a designa em grego: aletheia, de a-lethès, «não escondido». A verdade tem a ver com a vida inteira. Na Bíblia, reúne os significados de apoio, solidez, confiança, como sugere a raiz ‘aman (daqui provém o próprio Amen litúrgico). A verdade é aquilo sobre o qual nos podemos apoiar para não cair. Neste sentido relacional, o único verdadeiramente fiável e digno de confiança sobre o qual se pode contar, ou seja, o único «verdadeiro» é o Deus vivo. Eis a afirmação de Jesus: «Eu sou a verdade» (Jo 14, 6). Sendo assim, o homem descobre sempre mais a verdade, quando a experimenta em si mesmo como fidelidade e fiabilidade de quem o ama. Só isto liberta o homem: «A verdade vos tornará livres» (Jo 8, 32).

Libertação da falsidade e busca do relacionamento: eis aqui os dois ingredientes que não podem faltar, para que as nossas palavras e os nossos gestos sejam verdadeiros, autênticos e fiáveis. Para discernir a verdade, é preciso examinar aquilo que favorece a comunhão e promove o bem e aquilo que, ao invés, tende a isolar, dividir e contrapor. Por isso, a verdade não se alcança autenticamente quando é imposta como algo de extrínseco e impessoal; mas brota de relações livres entre as pessoas, na escuta recíproca. Além disso, não se acaba jamais de procurar a verdade, porque algo de falso sempre se pode insinuar, mesmo ao dizer coisas verdadeiras. De facto, uma argumentação impecável pode basear-se em factos inegáveis, mas, se for usada para ferir o outro e desacreditá-lo à vista alheia, por mais justa que apareça, não é habitada pela verdade. A partir dos frutos, podemos distinguir a verdade dos vários enunciados: se suscitam polémica, fomentam divisões, infundem resignação ou se, em vez disso, levam a uma reflexão consciente e madura, ao diálogo construtivo, a uma profícua atividade.

4. A paz é a verdadeira notícia

O melhor antídoto contra as falsidades não são as estratégias, mas as pessoas: pessoas que, livres da ambição, estão prontas a ouvir e, através da fadiga dum diálogo sincero, deixam emergir a verdade; pessoas que, atraídas pelo bem, se mostram responsáveis no uso da linguagem. Se a via de saída da difusão da desinformação é a responsabilidade, particularmente envolvido está quem, por profissão, é obrigado a ser responsável ao informar, ou seja, o jornalista, guardião das notícias. No mundo atual, ele não desempenha apenas uma profissão, mas uma verdadeira e própria missão. No meio do frenesim das notícias e na voragem dos scoop, tem o dever de lembrar que, no centro da notícia, não estão a velocidade em comunicá-la nem o impacto sobre a audience, mas as pessoas. Informar é formar, é lidar com a vida das pessoas. Por isso, a precisão das fontes e a custódia da comunicação são verdadeiros e próprios processos de desenvolvimento do bem, que geram confiança e abrem vias de comunhão e de paz.

Por isso desejo convidar a que se promova um jornalismo de paz, sem entender, com esta expressão, um jornalismo «bonzinho», que negue a existência de problemas graves e assuma tons melífluos. Pelo contrário, penso num jornalismo sem fingimentos, hostil às falsidades, a slogans sensacionais e a declarações bombásticas; um jornalismo feito por pessoas para as pessoas e considerado como serviço a todas as pessoas, especialmente àquelas – e no mundo, são a maioria – que não têm voz; um jornalismo que não se limite a queimar notícias, mas se comprometa na busca das causas reais dos conflitos, para favorecer a sua compreensão das raízes e a sua superação através do aviamento de processos virtuosos; um jornalismo empenhado a indicar soluções alternativas às escalation do clamor e da violência verbal.

Por isso, inspirando-nos numa conhecida oração franciscana, poderemos dirigir-nos, à Verdade em pessoa, nestes termos:

Senhor, fazei de nós instrumentos da vossa paz.
Fazei-nos reconhecer o mal que se insinua em uma comunicação que não
cria comunhão.
Tornai-nos capazes de tirar o veneno dos nossos juízos.
Ajudai-nos a falar dos outros como de irmãos e irmãs.
Vós sois fiel e digno de confiança;
fazei que as nossas palavras sejam sementes de bem para o mundo:
onde houver rumor, fazei que pratiquemos a escuta;
onde houver confusão, fazei que inspiremos harmonia;
onde houver ambiguidade, fazei que levemos clareza;
onde houver exclusão, fazei que levemos partilha;
onde houver sensacionalismo, fazei que usemos sobriedade;
onde houver superficialidade, fazei que ponhamos interrogativos
verdadeiros;
onde houver preconceitos, fazei que despertemos confiança;
onde houver agressividade, fazei que levemos respeito;
onde houver falsidade, fazei que levemos verdade. Com a vatican
Amen.

Franciscus

terça-feira, 8 de maio de 2018

Universidade Jean Piaget reconhece o Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas da Guiné-Bissau, General Biaguê Na N’Tan, como símbolo de garantia do clima de paz e estabilidade

Forças Armadas Revolucionarias do Povo guineenses, são as forças militares da Guiné-Bissau. As Forças Armadas têm como órgão superior, o Estado-Maior das Forças Armadas da Guiné-Bissau, e integram três ramos: Marinha, Exército, Força Aérea

A Guiné-Bissau tem uma forte tradição de controlo civil dos militares. O Presidente é o Comandante em Chefe das forças armadas, e ajuda a formular a política militar, mas o Ministério de Defesa dos Guiné-Bissau, é o principal órgão pelo qual a política militar é realizada. Todos os ramos trabalham juntos durante as operações e missões conjuntas

Desde a época de sua criação, os militares desempenharam um papel decisivo na história da Guiné-Bissau. Um sentimento de unidade nacional e identidade foi forjado na vitoriosa Guerra contra colonialistas Portugueses em 1973 

O Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas da Guiné-Bissau, General Biaguê Na N’Tan, garantiu hoje, 07 de Maio 2018, a continuidade de clima de paz e estabilidade no país, enquanto compromisso assumido desde que fora investido na liderança da classe castrense.

Na mesma declaração, Biaguê Na N’Tam lembra que se comprometera respeitar a Constituição da República e demais leis do país, para poder organizar, criar condições e dar formações aos militares a fim de garantir a reforma neste sector.

Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, falava durante a cerimónia da entrega de certificado do reconhecimento pelos serviços que prestou ao país em prol de paz, estabilidade e reconciliação entre os guineenses, pelos estudantes da faculdade de ciências políticas e relações internacionais da Universidade Jean Piaget.

A cerimónia decorreu nas instalações do Estado-Maior das Forças Armadas (Amura) e contou com a presença de algumas chefias militares e elementos da direção daquela universidade privada.

Biaguê Na N’Tam, parabenizou os militares por se distanciarem dos problemas políticos e dedicarem-se na política militar.

“Somos cidadãos e filhos desta terra, nascemos aqui e sabemos o que temos. Se duas pessoas estão a brigar a nossa obrigação é ajuda-las a ultrapassar as divergências, caso contrário devemos abdicar de entrar nas instabilidades criadas por outras pessoas, portanto os militares não são inimigos do povo”, concluiu Biaguê.

O líder militar da Guiné-Bissau revelou neste sentido que mais de 200 recrutas estão em Marrocos, no âmbito de uma bolsa de estudo, para receber treinamento militar e em Setembro, um grupo de mais de 100 recrutas deixará o país para Marrocos com o mesmo objetivo.

Segundo Biaguê, o Estado-Maior das Forças Armadas perspectiva realizar um estudo conjunto com as universidades do país, sobre as histórias dos heróis nacionais, dos militares, rios, lagoas, por forma a histórica do país e a história dos combatentes militares.

Para concretização desse plano ainda em perspetiva, Biaguê Na N’tam entende que será necessário contributo de todos cidadãos guineenses, por isso pediu o maior empenho dos reitores das universidades em continuar a trabalhar no domínio de formação.

Para o Reitor da universidade Jean Piaget, Aladje Baldé, as pessoas devem ser reconhecidas e homenageadas ainda vivas, dando-lhes mais ânimo no trabalho e que foi nesse quadro que a universidade, depois de visitar algumas instituições militares do país, decidiu atribuir o diploma de reconhecimento ao chefe dos militares guineenses, Biaguê Na N’tam, uma vez cumprido aquilo que a sociedade lhe confiou “que é a responsabilidade de garantir a paz e estabilidade e este diploma de honra é o sinal de reconhecimento profundo das duas faculdades”.

“As pessoas que estão nas universidades precisam de tranquilidade e da paz para melhor fazer seus estudos, neste sentido os estudantes das duas faculdades conferem o presente diploma de honra ao CEMFA pelos excelentes serviços prestados ao país em prol da paz, estabilidade e reconciliação entre os guineenses”, disse o reitor do Jean Piaget. Com Odemocrata

Novos horizontes de conhecimentos nas Forças Armadas Revolucionarias do Povo guineenses


O curso de três meses promovido pela Divisão de Educação Cívica, Assuntos Sociais e Relações Publicas de Estado-Maior General arrancou no dia 27 de Abril do ano em curso nas instalações do Estado-Maior de Exército e a cerimónia de abertura foi, em representação do Vice-Chefe de Estado-Maior General, presidida pelo Major General Ibraima Papa Camará, Chefe de Estado-Maior da Força Aérea.

Frisa-se que A abertura do curso de três meses destinado aos 48 oficiais que serão formados por 26 professores (instrutores) contou com a presença dos chefes de Estado-maior do Exercito, Major General Lassana Massaly, Brigadeiro-General, Albertinho António Cuma, Júlio Nhaté Sulté respectivamente chefe da Divisão de Educação Cívica, Assuntos Sociais e Relações Publicas, do Pessoal e Quadros, do Presidente de Tribunal Militar Regional, Tchipa Na Bidom e do Vice-Chefe de Estado de Exercito, Sumbonhe Na Tchongo.

O Major General Camará, apelou os formandos a encarar-se nos estudos e formações tendo em conta os desafios crescentes do mundo globalizado em que vivemos hoje pois, a formação constitui um mecanismo sólido para fazer face as exigências regionais, sub-regionais e do mundo em geral. Por isso, não deixou de enaltecer a importância do curso que, segundo a sua convicção ira permitir a visualização do novo horizonte de conhecimentos que tornarão as Forças Armadas (FA) mais capacitadas como eram outrora. Isto, é o objectivo maior das linhas mestres de Estado-Maior General das Forças Armadas.

Aproveitou o momento para lamentar a política dos sucessivos governos no que se refere a capacitação e formação do pessoal, a melhoria das condições de vida e a aquisição dos equipamentos indispensáveis para o serviço da classe castrense, enquanto o garante da defesa nacional.

Por seu turno, o Brigadeiro-General, Albertinho António Cuma, Chefe da Divisão de Educação Cívica, Assuntos Sociais e Relações Publicas, assegurou que a mais de 43 anos, isto é, desde a proclamação da Independência Nacional em 1973, nunca houve formações desta amplitude no país destinadas aos Comissários Políticos das FA.

Segundo o Brigadeiro-General esta formação é equivalente a qualquer outra de género recebida no estrangeiro, pois ira permitir ganhar, conhecimentos no domínio da Constituição da República, de cidadania e liderança e ética. Igualmente permitira conhecer os conteúdos dos quatro pacotes leis das forças armadas, táctica geral e processo da manutenção da paz, direitos das crianças antes, durante e pós conflitos armados entre outros. Também mostrou-se esperançado que os resultados do curso ira permitir ao pessoal da Educação Cívica, Assuntos Sociais, dar respostas imediatas as exigências do último milénio no que toca a sensibilização e educação da classe castrense.

O Chefe da Divisão do Pessoal e Quadros, Brigadeiro General Júlio Nhaté Sulté, disse, o que é que se confecciona hoje nas Forças Armadas, é o cumprimento das directrizes do Chefe de Estado-Maior General, Biaguê Na N´Tan no tange a formação e capacitação dos seus quadros militares que fixou como a meta principal para poder fazer face ao mundo da globalização e do alto desenvolvimento tecnológico. Nesta óptica encorajou a classe castrense no seu tudo a encarar-se nos estudos e na formação como via de superação da careira militar. Com as FARP’s

domingo, 6 de maio de 2018

GUINÉ-CONACRI ENTREGA A MUSEU MILITAR DAS FORÇAS ARMADAS REVOLUCIONARIAS DO POVO GUINEENSE OBJETOS QUE PERTENCERAM A AMÍLCAR CABRAL

Uma série de objetos que pertenceram a Amílcar Cabral foram entregues às Forças Armadas da Guiné-Bissau pelas autoridades da Guiné-Conacri e agora podem ser vistos no Museu Militar em Bissau, situado na fortaleza de Amura.

O conjunto de objetos entregues, a 13 de abril, incluiu a máquina de escrever de Amílcar Cabral, bem como armários, rádios, quatro cadeiras de madeira, uma mesa e até um antigo aparelho de ar condicionado.

"O nosso chefe do Estado-Maior das Forças Armadas já deu orientações para preparar vitrinas transparentes onde vão ser instaladas todas estas peças ao lado da rádio de libertação para permitir aos visitantes ver como é que era o gabinete do camarada Amílcar Cabral", afirmou o major Quintino Napoleão dos Reis, um antigo combatente da Guiné-Bissau, que acompanha as visitas ao Museu Militar.

As peças vão integrar o Museu Militar que já recebeu quase cinco mil visitantes desde a sua inauguração a 24 de setembro de 2017.

O museu retrata a história da luta pela independência da Guiné-Bissau em três fases e além dos objetos que pertenceram a Amílcar Cabral, que incluem o seu automóvel, os visitantes podem também ver armamento utilizado pelos antigos combatentes durante a guerra.

"Para visitar o Museu Militar na Fortaleza de Amura, onde funciona o Estado-Maior das Forças Armadas, não é preciso fazer muitas burocracias. Se for instituição ou organização, pode enviar uma notinha pedindo autorização e acesso para visita", individualmente as pessoas podem pedir autorização ou simplesmente dirigir-se à porta da Amura e pedir para visitar o museu, explicou o major Quintino Napoleão dos Reis.

Amílcar Lopes Cabral Bafatá, na Guiné-Bissau, 12 de setembro de 1924 — Conacri, 20 de janeiro de 1973) foi um político, agrônomo e teórico marxista da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.

BIOGRAFIA AMÍLCAR LOPES CABRAL

Filho de Juvenal Lopes Cabral (cabo-verdiano e de Iva Pinhel Évora (guineense de ascendência cabo-verdiana, aos oito anos de idade, sua família mudou-se para Cabo Verde, estabelecendo-se em Santa Catarina (ilha de Santiago), que passou a ser a cidade de sua infância, onde completou o ensino primário. De seguida mudou com a mãe os irmãos para Mindelo, São Vicente, onde veio a terminar o curso liceal em 1943, no Liceu Gil Eanes. Como apontado por Patrícia Villen, sua adolescência remete a um período de intensa seca e fome na ilha, nos ano 40, por exemplo, essa crise provocou a morte de 50 mil pessoas, além da imigração em massa de cabo-verdianos.

No ano seguinte, mudou-se para a cidade de Praia, na Ilha de Santiago, e começou a trabalhar na Imprensa Nacional, mas só por um ano pois, tendo conseguido uma bolsa de estudos, no ano de 1945 ingressou no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Único estudante negro de sua turma, Cabral logo se envolve em reuniões de grupos antifascistas e, ao lado de outros alunos vindos da África, tais como Mário de Andrade, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos "conhece vetores culturais da reafricanização dos espíritos do movimento da negritude dirigido por Léopold Sédar Senghor". Após graduar-se em 1950, trabalhou por dois anos na Estação Agronómica de Santarém.

Contratado pelo Ministério do Ultramar como adjunto dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné, regressou a Bissau em 1952. Iniciou seu trabalho na granja experimental de Pessube percorrendo grande parte do país, de porta em porta, durante o Recenseamento Agrícola de 1953 adquirindo um conhecimento profundo da realidade social vigente. Suas atividades políticas, como a criação da primeira a Associação Esportiva, Recreativa e Cultural da Guiné, aberta tanto aos "assimilados" quanto aos indígenas, reservam-lhe a antipatia do Governador da colônia, Melo e Alvim, que o obriga a emigrar para Angola. Nesse país, une-se ao MPLA.

EM 1955 Cabral participa da Conferência de Bandung e toma conhecimento da questão afro-asiática. Em 1959 juntamente com Aristides Pereira, seu irmão Luís Cabral, Fernando Fortes, Júlio de Almeida e Elisée Turpin, funda o partido clandestino Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). Em 3 de agosto de 1959, o partido teve participação na greve de trabalhadores do porto de Pidjiguiti, fortemente reprimida pelo governo colonial, resultando na morte de 50 manifestantes e no ferimento de outras centenas. Quatro anos mais tarde, o PAIGC sai da clandestinidade ao estabelecer uma delegação na cidade de Conacri, capital da República de Guiné-Cronacri. Em 23 de janeiro de 1963 tem início a luta armada contra a metrópole colonialista, com o ataque ao quartel de Tite, no sul da Guiné-Bissau, a partir de bases na Guiné-Conacri.

Em 1970, Amílcar Cabral, fazendo-se acompanhar de Agostinho Neto e Marcelino dos Santos, é recebido pelo Papa Paulo VI em audiência privada. Em 21 de novembro do mesmo ano, o Governador português da Guiné-Bissau determina o início da Operação Mar Verde, com a finalidade de capturar ou mesmo eliminar os líderes do PAIGC, então aquartelados em Conacri. A operação não teve sucesso.

Em 20 de janeiro de 1973, Amílcar Cabral é assassinado em Conacri, por dois membros de seu próprio partido. Amílcar Cabral profetizara seu fim, ao afirmar: "Se alguém me há-de fazer mal, é quem está aqui entre nós. Ninguém mais pode estragar o PAIGC, só nós próprios." Aristides Pereira, substituiu-o na chefia do PAIGC. Após a morte de Cabral a luta armada se intensifica e a independência de Guiné-Bissau é proclamada unilateralmente em 24 de Setembro de 1973. Seu meio-irmão, Luís de Almeida Cabral, é nomeado o primeiro presidente do país.
"Perguntar-nos-ão se o colonialismo português não teve uma ação positiva na África. A justiça é sempre relativa. Para os africanos, que durante cinco séculos se opuseram à dominação colonial portuguesa, o colonialismo português é o inferno; e onde reina o mal, não há lugar para o bem". Amílcar Cabral. A arma da teoria.

"O nosso povo africano sabe muito bem que a serpente pode mudar de pele, mas é sempre uma serpente". Amílcar Cabral. Um povo que se liberta.

"Como sabe, nós temos uma longa caminhada juntamente com o povo português. Não foi decidido por nós, não foi decidido pelo povo português, foi decidido pelas circunstâncias históricas do tempo da Europa das Descobertas e pela classe de "antanho", como se diz em português antigo; mas é verdade, é isso! Há essa realidade concreta! Eu estou aqui falando português, como qualquer outro português, e infelizmente melhor do que centenas de milhares de portugueses que o Estado português tem deixado na ignorância e na miséria. Nós marchamos juntos e, além disso, no nosso povo, seja em Cabo Verde seja na Guiné, existe toda uma ligação de sangue, não só de história mas também de sangue, e fundamentalmente de cultura, como o povo de Portugal. [...] Essa nossa cultura também está influenciada pela cultura portuguesa e nós estamos prontos a aceitar todo o aspecto positivo da cultura dos outros."

"Nós, em princípio, o nosso problema não é o de nos desligarmos do povo português. Se porventura em Portugal houvesse um regime que estivesse disposto a construir não só o futuro e o bem-estar do povo de Portugal mas também o nosso, mas em pé de absoluta igualdade, quer dizer que o Presidente da República pudesse ser de Cabo Verde, da Guiné, como de Portugal, etc., que todas as funções estatais, administrativas, etc. fossem igualmente possíveis para toda a gente, nós não veríamos nenhuma necessidade de estar a fazer a luta pela independência, porque todos já seriam independentes, num quadro humano muito mais largo e talvez muito mais eficaz do ponto de vista da História. Mas infelizmente, como sabem, a coisa não é essa; o colonialismo português explorou o nosso povo da maneira mais bárbara e mais criminosa e quando reclamamos um direito de ser gente, nós mesmos, de sermos homens, parte da humanidade."

Mas nós nunca confundimos o "colonialismo português" com o "povo de Portugal", e temos feito tudo, na medida das nossas possibilidades, para preservar, apesar dos crimes cometidos pelos colonialistas portugueses, as possibilidades de uma cooperação eficaz com o povo de Portugal, numa base de independência, de igualdade de direitos e de reciprocidade de vantagens seja para o progresso da nossa terra, seja para o progresso do povo português. O povo português está submetido há cerca de meio século a um regime que, pelas suas características, não pode ser deixado de ser chamado fascista.] A nossa luta é contra o colonialismo português. Nós somos povos africanos, ou um povo africano, lutando contra o colonialismo português, contra a dominação colonial portuguesa, mas não deixamos de ver a ligação que existe ente a luta antifascista e a luta anticolonialista.

Nós estamos absolutamente convencidos de que, se em Portugal se instalasse amanhã um governo que não fosse fascista, mas fosse democrático, progressista, reconhecedor dos direitos dos povos à autodeterminação e à independência, a nossa luta não teria razão de ser. Aí está a ligação íntima que pode existir entre a nossa luta e a luta antifascista em Portugal; mas também, vice-versa, estamos absolutamente convencidos de que, na medida em que os povos das colónias portuguesas avancem com a sua luta e se libertem totalmente de dominação colonial portuguesa, estarão contribuindo de uma maneira muito eficaz para a liquidação do regime fascista em Portugal. [...] Nós queremos entretanto exprimir claramente o seguinte: nós não confundimos a nossa luta, na nossa terra, com a luta do povo português; estão ligadas, mas nós, no interesse do nosso povo, combatemos contra o colonialismo português. Liquidar o fascismo em Portugal, se ele não se liquidar pela liquidação do colonialismo, isso é função dos próprios portugueses patriotas, que cada dia estão mais conscientes da necessidade de desenvolver a sua luta e de servir o melhor possível o seu povo."