sábado, 25 de fevereiro de 2017

Jardim “nossa senhora de Fátima” e “escola satélite” são vencedores do carnaval infantil 2017, na Guiné-Bissau

O Jardim “Nossa Senhora de Fátima” e a “Escola Satélite” foram grandes vencedores do desfile do Carnaval Infantil realizado hoje, 24 de fevereiro 2017, sob o lema, “As Crianças na cultura como Fator de Inserção Social e Económica”. Jardim ‘Nossa Senhora de Fátima’, conseguiu 21, 5 pontos e ocupou o primeiro lugar na categoria de Jardins, enquanto a ‘Escola Satélite’ obteve 20,5 pontos, que o permite ganhar o desfile na categoria das escolas.

O concurso do Carnaval Infantil foi realizado na Av. Domingos Ramos ao lado da Câmara Municipal de Bissau, sob a organização da Associação para Solidariedade e Ação (ASA) e contou com a participação de nove (09) Jardins e dez (10) Escolas, ambos do setor autónomo de Bissau.

O desfile das crianças de diferentes Jardins e Escolas de Bissau foi coroado com danças tradicionais de diferentes grupos étnicos que compõem o museu etnográfico da Guiné-Bissau e de récitas de poesias, onde as crianças pediram o entendimento no seio das autoridades nacionais e em particular da classe política, em alusão à atual situação do país.

O prémio será entregue no próximo dia 04 de Março a todos os Jardins e escolas que participaram do desfile do Carnaval Infantil 2017, no valor estimado em 80 mil Francos CFA por cada jardim/escola.

Após o desfile, a Madrinha do Evento, Primeira Dama, Maria Rosa Vaz sublinha, na sua intervenção, que o Carnaval é a maior manifestação da diversidade cultural guineense, onde são demostrados os valores culturais do país.

Neste sentido, deixa acreditar que só através da valorização da diversidade cultural que os guineenses podem conseguir uma verdadeira mudança de atitude e comportamentos. Contudo, sublinhou que é urgente promover a harmonia e a reconciliação nacional entre os cidadãos da Guiné-Bissau.

“Esta manifestação cultural tem sido acompanhada de alguns aspectos negativos que violam principalmente a proteção dos direitos das crianças nomeadamente, consumo de álcool e drogas. As crianças, em certas ocasiões, são violadas involuntariamente. Quero pedir aos pais e encarregados de educação para darem mais atenção às crianças. É imperativo que as nossas crianças não permaneçam nas barracas e nos lugares de diversão sem serem acompanhadas pelos pais ou encarregados de educação, assim evitaremos o desaparecimento de muitas crianças e diminuiremos os abusos e exploração sexual das mesmas”, aconselhou.

O Presidente da Comissão Organizadora do Carnaval Infantil, Danilson Vaz, agradeceu os apoios que permitiram realizar o evento e considera de positivo o balanço do desfile infantil. Com Odemocrata

Governo angolano “tem de perceber” que Justiça não depende da política – PM Português

Primeiro-ministro já reagiu ao incómodo do Governo de Angola com a acusação do Ministério Público português ao vice-presidente do país. Costa diz que "importa não prejudicar boas relações" bilaterais.

O primeiro-ministro veio esta tarde separar as águas entre a política e a justiça, depois de o Governo angolano ter vindo afirmar que a acusação do Ministério Público a Manuel Vicente ameaça as relações entre os dois países. António Costa diz que tal como Portugal não mistura os planos, “Angola também tem de perceber que não depende nem do Presidente da República, nem da Assembleia da República, nem do Governo as decisões que, com total independência, o poder judicial toma”.

Para Angola, o processo foi criado para lesar os “verdadeiros interesses dos dois países, atingindo a soberania de Angola ou altas entidades do país por calúnia ou difamação”, levado a cabo por “forças interessadas em perturbar ou mesmo destruir as relações amistosas existentes” entre Portugal e Angola.

Costa garante que o que “importa não prejudicar” é a “boa relação que Portugal e Angola têm de ter sempre, qualquer que seja o Governo e qualquer que sejam as circunstâncias”. Em declarações aos jornalistas, à margem de um evento em que o primeiro-ministro participa no Porto, o chefe do Governo foi confrontado com a nota divulgada esta sexta-feira pelo Governo de Angola que dá conta do incómodo com a acusação ao vice-presidente do país, Manuel Vicente, pelo Ministério Público Português. Angola diz que este caso ameaça as relações bilaterais, mas António Costa respondeu dizendo que “se cada um cumprir as suas funções, desempenha bem o papel que cada um deve desempenhar sem prejudicar aquilo que importa não prejudicar”: as relações entre os dois países.

"Eu não comento a organização constitucional do Estado angolano e o Estado angolano tem de perceber que em Portugal vigora um princípio de separação de poderes", sublinhou Costa, recordando que "o primeiro-ministro não tem que intervir, nem de condicionar, nem de comentar sequer as atuações das autoridades judiciárias, que agem com total independência".


Esta semana, no dia antes de se deslocar a Angola para uma visita, a ministra da Justiça Francisca Van Dunem fez saber que o encontro tinha sido adiado a pedido das autoridades angolanas que invocaram apenas a necessidade de o reagendarem. A visita ainda não tem nova data e entretanto fica também por saber o que acontecerá à deslocação oficial ao país do primeiro-ministro, que estava prevista para esta primavera e que o ministro dos Negócios Estrangeiros já disse que continua a ser preparada, pelo menos do lado português. Nessa altura, Augusto Santos Silva já tinha respondido a polémica com a velha máxima”.

Ministro da Justiça de Angola diz que não havia condições para visita da homóloga portuguesa

O ministro da Justiça e Direitos Humanos de Angola disse hoje que a visita da sua homóloga portuguesa, Francisca Van Dunem, foi cancelada por não haver condições para a sua realização, mas espera que possa realizar-se noutra data.

Rui Mangueira falava aos jornalistas em Luanda à margem da aprovação, na generalidade, na Assembleia Nacional, da proposta de Lei do Código Penal angolano.

"Não há questões a avançar, foi feito um convite à senhora ministra da Justiça de Portugal para visitar Angola, no âmbito das relações de cooperação bilateral e específicas, no caso da justiça, e uma vez que não existem condições para a realização dessa visita, transferimos para uma outra altura e esperemos que essa visita se venha a realizar em breve", referiu.

Embora questionado pelos jornalistas, o governante angolano escusou-se a acrescentar qualquer outra informação sobre o assunto.

A visita da ministra da Justiça portuguesa, Francisca Van Dunem, a Angola, que deveria começar nesta quarta-feira, foi adiada sine die, anunciou em comunicado o Ministério da Justiça portuguesa.

Os motivos do adiamento da visita não foram revelados, mas esta situação acontece dias depois de o vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, ter sido acusado de corrupção activa e de branqueamento de capitais pelo Ministério Público português no âmbito da Operação Fizz.

Meios diplomáticos contactados sublinham que, mais uma vez, na actuação das autoridades de Luanda, está presente a convicção de que o Governo português controla o Ministério Público, facto que sabem não ser possível.

“Há em Angola quem pretenda um mal-estar recorrente com as autoridades de Lisboa”, afirma um conhecedor das relações entre os dois países. “Há angolanos que não se reconciliam com a normalidade entre Angola e Portugal, e preferem, sempre, a tensão”, afirma.

Assim, a manutenção deste clima de mal-estar e de gestos ostensivos é alimentada com objectivos de política interna. Tem sido sempre assim, recorda o mesmo perito, e os que pensavam que a não candidatura de Manuel Vicente a sucessor do Presidente José Eduardo dos Santos iria “suavizar” a situação enganaram-se.

A confirmação da visita de Francisca van Dunem a Angola havia sido feita a 10 de Fevereiro, também em Luanda, pelo chefe da diplomacia portuguesa, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, tendo ficado agendadas reuniões com membros do Governo angolano e responsáveis do sistema judicial. Van Dunem, que nasceu em Luanda em 1955, devia também participar num fórum sobre os serviços de justiça na capital angolana.

Ontem, o chefe da diplomacia portuguesa, Augusto Santos Silva, garantiu que "não confunde" política externa com poder judicial. Isto pelo facto de o cancelamento da visita, a pedido de Luanda, ter acontecido poucos dias depois de o Ministério Público português ter processado o vice-presidente de Angola, Manuel Vicente.


Até ao momento, nenhum elemento da cúpula do Governo angolano em Luanda ou do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, no poder) comentou esta acusação. De Luanda surgiram apenas hoje estas declarações de Rui Mangueira, mas apenas a propósito da visita diplomática que não se realizou.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Dinheiro ao serviço de quem Deus ama

“Que o Senhor nos dê a graça da ‘santa vergonha’ diante da tentação da ambição que envolve todos, inclusive os bispos e as paróquias” - Papa Francisco
 Reflexão de Georgino Rocha

Jesus quer que os discípulos tenham critérios firmes no desempenho da missão que lhes vai confiar. E ao longo da sua vida pública pronuncia sentenças de sabedoria, faz ensinamentos de ética relacional, abre horizontes à novidade do Reino de Deus já presente nas realidades humanas, embora ainda não em plenitude. Dá-lhes indicações sobre o comportamento de uns com os outros, a vida no seio da comunidade e a presença activa na sociedade/mundo. E deixa-os sempre com a liberdade de escolha, advertindo para as consequências da sua opção.

Mateus, o evangelista do Sermão da Montanha, acentua a dimensão de serviço que é inerente a toda a pessoa e está presente nas decisões e no agir. Querendo visualizar a mensagem recorre à imagem de “dois senhores”, extraída da experiência humana e acessível aos ouvintes/leitores. Nela representa Deus e o dinheiro. E como ninguém consegue servir a ambos ao mesmo tempo e com a mesma dedicação, também quem quiser segui-lo tem de fazer escolhas, dar o valor adequado a cada um deles, ter prioridades, centrar o coração, ser coerente.

O dinheiro, bem precioso, sobretudo na sociedade actual, toma a forma de economia nos seus múltiplos “rostos” e constitui elemento propulsor para o desenvolvimento integral da humanidade. “Uma economia bem gerida é decisiva para o bem-estar e a felicidade das pessoas e da sociedade”. (J. M. Castillo). O contrário, também se verifica infelizmente, provocando a ruína e a morte de milhões e milhões de vítimas inocentes e poluindo a “mãe” natureza. Por isso, Jesus pronuncia-se tão claramente sobre o dinheiro e a sua função social, incluindo-os na sua mensagem como referente fundamental da ética do discípulo fiel.

A economia sem rectidão ética desumaniza-se e instrumentaliza todos os outros sectores da sociedade, colocando-os ao seu serviço. Converte-se em centro de valores, em pólo de sentido da vida, em ídolo de crenças e práticas. O culto ao deus dinheiro tende a eliminar tudo o que lhe ofereça resistência. E a pessoa, centro e fim de toda a actividade humana, vê negada a sua dignidade e reduzida a sua função. É-lhe imposta a marca de produzir e consumir.

Este modo de pensar e organizar a vida em sociedade contradiz radicalmente a novidade que Jesus vem pôr em marcha. Na sua escala de valores, Deus e o amor que, por igual, tem a todos estão primeiro. Os bens são meios indispensáveis ao serviço da dignidade humana, da vida e do alimento, da habitação condigna e saúde razoável, do trabalho honesto e do descanso revigorante, da contemplação da beleza e da adoração ao Deus bondoso, na sua infinita misericórdia.

O Papa Francisco na mensagem para a quaresma de 2017, em que vamos entrar na próxima quarta-feira, lembra que: “O apóstolo Paulo diz que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro» (1 Tm 6, 10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo tirânico (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar, a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz”.

E na homilia da missa matutina da terça-feira (21/02), na Casa Santa Marta, reza para “que o Senhor nos dê a graça da ‘santa vergonha’ diante da tentação da ambição que envolve todos, inclusive os bispos e as paróquias”.


Jesus conhece-nos bem e as nossas tendências naturais: a não correr riscos, a alimentar preocupações excessivas, a ceder a inquietações fáceis e duradoiras, a temer qualquer sobressalto sempre ameaçador. E, por meio de imagens belas com as aves do céu e os lírios do campo, aconselha um estilo de vida marcado pela confiança filial em Deus e pela justiça do seu reino, pela valorização de cada dia, sem saudades doentias de um passado que foi ou medo perturbador de um futuro que se aproxima. E o acréscimo que Jesus promete brilhara, por agora, no rosto feliz dos seus discípulos e na convivência solidária entre os cidadãos, na harmonia do universo e na beleza da criação cuidada por todos, sem distinção. Brilhara nas atitudes dos que sabem usar o dinheiro como bem precioso posto ao serviço de quem Deus ama.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Crise estrutural no PAIGC fustiga a Guiné-Bissau

Por, Jornalista António Nhaga no Odemocrata

O Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) foi, é e será para sempre um movimento de pessoas com interesses distintos, com ideias de negócios políticos independentes. No seio deste partido reinou, reina e reinará sempre contradições internas entre os dirigentes da sua superestrutura. Ninguém, na Guiné-Bissau, pode vaticinar o fim desta maldição da chegada de um novo líder sempre pela porta errada, que tem vindo afetar gerações e gerações na liderança do PAIGC, desde a Luta Armada da Libertação Nacional.

Se olharmos para os nossos “retrovisores”, a caminhada política do PAIGC, desde a Luta Armada da Libertação Nacional até hoje, não há dúvidas que ela está cheia de contradições insanáveis que em alguns casos desembocaram em desaparecimentos físicos de companheiros da caminhada sem justificação plausível. Poucos, para não dizer ninguém, sobretudo a nova geração, sabem explicar as contradições internas desse partido. A nova geração de cibercultura olha para o PAIGC com uma visão de optimismo vazio de um rei da Luta da Libertação Nacional que vai vazio na democratização do país, por ser um partido de permanentes contradições internas dos seus dirigentes. Estes espelham visões, interesses distintos e ideias de negócios políticos independentes da visão ideológica do seu fundador Amílcar Cabral.

É interessante procurarmos a verdade nessas contradições internas do PAIGC que têm fustigado o nosso país desde Luta Armada contra o jugo colonial. Ou melhor, os dirigentes do PAIGC devem explicar de forma transparente a este povo martirizado as causas das suas contradições internas. Durante a Luta Armada se dizia de boca cheia que o próprio Amílcar Cabral não comungava as mesmas ideias com o Comandante Domingos Ramos. Com o desaparecimento das duas figuras [Amílcar Cabral e Domingos Ramos], era Luís Cabral que não se revia muito bem nas ideias de Osvaldo Vieira.

De contradições em contradições internas chegou-se à independência. E como não há duas sem três, as contradições internas do movimento da libertação agudizaram-se e desembocaram no assassinato do então Primeiro-ministro Francisco Mendes (Chico Té) e de seguida foi o então Presidente da República e a segunda figura do PAIGC, Luís Cabral, depois de Aristides Pereira, que não dava ouvidos ao General [João Bernardo Vieira] Nino. Isso conduziu ao primeiro golpe de Estado, a 14 de Novembro de 1980, levando o General Nino Veira à liderança do PAIGC e da Presidência da República. Mas, como se não bastasse, rapidamente o General Nino Veira colidiu contra um grupo de oficiais balantas, militantes e simpatizantes do PAIGC que curiosamente o apoiara quando afastou Luís Cabral da presidência. E não só, também a nível do partido, o General Nino Veira colidiu contra as ideias do seu então Ministro dos Negócios Estrangeiros e uma das figuras destacáveis do PAIGC na altura, Victor Saúde Maria.

Enfim, quer no passado, quer no presente, cada líder que chegue ao PAIGC, entra sempre pela porta errada, porta de contradições internas. A sua comunicação política e estratégica nunca chega em boas condições aos militantes e simpatizantes do partido. Não há nenhuma garantia que no futuro, um líder chegue ao movimento libertador entrando pela porta certa. Na verdade, o que ratifica realmente a teoria da chegada pela porta errada e o optimismo vazio da ideologia de Amílcar Lopes Cabral foram as duas revoltas internas que se verificaram no seio do PAIGC. A primeira foi a revolta dos mais novos contra os mais velhos denominada “Grupo de 121 militantes”, que exigiam a abertura interna do partido à democracia. A segunda foi a revolta dos mais velhos contra os mais novos que estavam agrupados a volta do General Nino Veira, conhecido como o conflito de 7 de Junho de 1998. Em suma, estas duas revoltas testemunham a olhos de todos nós como o optimismo vazio fez o rei da Luta Armada da Libertação Nacional andar agora pelado pela cidade de Bissau e no país em geral.

A teoria da entrada pela Porta errada no PAIGC tem contribuído muito na fustigação do Estado da Guiné-Bissau, em qualquer comunicação estratégica das suas políticas públicas para poder assumir, perante os cidadãos, os seus fins como Estado. Assim, não há Segurança, não há Justiça distributiva nem promoção de bem-estar social. Por outras palavras, mergulhou o país numa crise sem precedentes cuja saída não se advinha ser fácil, enquanto reinar, no seio do movimento da libertação, um optimismo vazio ideológico de Amílcar Cabral. Actualmente, no partido de Cabral, não se fala da crítica e autocritica. Aliás, muitos dos princípios ideológicos de Amílcar Cabral morreram devido às contradições internas que surgiram a chegada pela porta errada dos seus novos líderes, com abertura política democrática.

Com a primeira vitória eleitoral, a teoria da entrada pela porta errada voltou a esticar as suas pernas e os seus braços no seio do PAIGC. Pois, o então Primeiro-ministro saído das eleições legislativas, o Comandante Manuel Saturnino da Costa e também o Presidente da primeira Assembleia Nacional Popular eleito, o politólogo Malam Bacai Sanhá, ambas figuras de proa no PAIGC, colidiram contra o General Nino Vieira por terem chegado às suas funções pela porta errada do PAIGC. Mas, as duas figuras se abstraíram e deixaram para o General Nino Vieira o caminho aberto para fazer o que ele bem entendesse com o Partido e o governo saído das primeiras eleições legislativas. Mas, como o General Vieira Presidente do PAIGC tinha chegado à presidência democrática pela porta errada e pelo optimismo vazio ideológica de Amílcar Cabral, colidiu contra um dos seus colegas de armas, o General Ansumane Mané. O que desencadeou a chamada revolta dos mais velhos contra os mais novos, aliados das teses de optimismo vazio do General Nino Vieira.

A revolução dos mais velhos afastou o General Nino Vieira do poder e remeteu-o ao exílio político em Portugal. Mas, como sempre, o General regressou ao poder, outra vez pela porta errada, com o apoio da maioria dos militantes e simpatizantes do PAIGC. Embora tenha sido expulso do PAIGC, depois de se instalar no poder, o General Nino Vieira alimentou outra vez as contradições internas no PAIGC, tendo colidido contra o então Chefe do governo e Presidente do PAIGC, Carlos Gomes Júnior, acabando por derrubar o governo do PAIGC que este chefiava. Por outro lado, com o desaparecimento físico do General Nino Vieira, a teoria da chegada pela porta errada e optimismo vazio ideológico não deixou de existir no movimento da libertação, porque quando o politólogo Malam Bacai Sanhá chegou à presidência, também pela porta errada do PAIGC, colidiu contra o seu Primeiro-ministro e Presidente do PAIGC Carlos Gomes Júnior.

A história da chegada pela porta errada sempre se repetiu no PAIGC. Também Domingos Simões Pereira chegou à liderança do PAIGC pela porta errada e hoje está a braços com José Mário Vaz, que também chegou à presidência pela porta errada do PAIGC, pois foi o candidato que o próprio Domingos Simões Pereira apoiou, quem sabe, usando toda a força do partido, a tal força que os seus militantes e simpatizantes dizem que se o partido apoiar, mesmo que seja um gato, este será eleito Presidente da República. O que os militantes e simpatizantes do PAIGC não tiveram antes em consideração são as contradições internas do seu partido que fazem um novo líder sempre entrar pela porta errada com um optimismo vazio da ideologia de Amílcar Cabral.

Na tentativa de acabar com os interesses distintos, as ideias de negócios políticos independentes e o optimismo vazio da ideologia de Amílcar Cabral, Carlos Gomes Júnior introduziu no optimismo vazio o timbre e marcas de dinheiro. Todavia, tal como o General Nino Vieira, Carlos Gomes Júnior acabou por se desviar, um pouco, do eixo de colisão interna que sustentava a teoria da chegada pela porta errada na liderança do PAIGC. Desviou-se para a sociedade castrense e como era de esperar, o resultado foi mais um golpe de Estado. Tudo porque Carlos Gomes Júnior também chegou à liderança do PAIGC pela porta errada de contradições internas.


Em suma, nenhum dos novos líderes que chegaram ao PAIGC escapou-se das contradições internas. Por exemplo, Domingos Simões Pereira chegou com toda a força de “Terra Ranka”, mas não fugiu à regra da chegada pela porta errada na liderança do PAIGC. Agora está a braços com as contradições internas insanáveis do optimismo vazio da ideologia de Amílcar Cabral.

As Forças Armadas Revolucionarias do Povo da Guiné-Bissau estão em prontidão combativa …

A prontidão combativa e a capacitação das tropas guineenses no domínio da arte e ciência militares continuam a fazer parte dos pontos prioritários na agenda de trabalho do Estado Maior General das Forças Armadas Revolucionarias do Povo (FARP).

Foi nesta senda que, a Divisão Central de Operação e Treino do Estado-maior General procedeu ontem, 22 de Fevereiro do corrente, a abertura de mais um curso de aulas metódicas 2017. A cerimónia foi presidida pelo Inspector-geral das Forças Armadas, Contra Almirante Estêvão Na Mena em representação do Chefe do Estado-maior General, Biaguê Na N´Tan ausente do país, decorreu nas instalações do Estado-maior do Exército.

Na ocasião, o Contra Almirante sublinhou a importância capital que a preparação combativa, a formação e a capacitação dos quadros têm para a classe castrense. Sendo assim, apelou a todos para apostarem-se na formação contínua, como forma de melhorar cada vez mais as condições de vida na defesa nacional da Guiné-Bissau.

A formação que decorre até 24 de Fevereiro envolvendo os três Ramos das FARP conta com a participação de cem oficiais superiores e subalternos.

Segundo o programa, serão abordados entre outros temas, a Prontidão Combativa e Apresentação dos documentos de preparação combativa, Sinais Convencionais tácticos, Estrutura orgânica, Armamento de Br.

O Contra Almirante Estevão Na Mena, Inspector-geral das Forças Armadas, em representação do Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas presidiu no dia 22 do corrente mês, nas instalações do Estado-maior do Exercito, a cerimónia de abertura do curso de aulas Metódicas destinadas aos comandantes de zonas, das unidades militares e do Sector Autónomo de Bissau.

O curso promovido pela Divisão Central de Operação e Treino do Estado-maior General terá uma duração de três dias e conta com a participação de cem oficiais.

Na ocasião, o Contra Almirante Estevão Na Mena manifestou a sua satisfação com a participação em massa dos comandantes nesta aula. Encorajou os mesmos que esforçassem ainda mais com vista a adquirir conhecimentos e aproveitar as matérias que vão receber durante estes dias.

Porque aquilo que será aproveitado aqui vai adicionar-se aos conhecimentos já obtidos no domínio de preparação combativa, sendo esta a maior tarefa contemporânea de qualquer militar.

Contra Almirante exortou a todos os camaradas a dar mais esforços na implementação dos projectos preconizados pelo Estado Maior General das Forças Armadas para melhor transmitir a doutrina militar as novas gerações que são os futuros herdeiros do projecto dos combatentes e do Amílcar Cabral.

Estevão Na Mena lamentou o facto de muitos cidadãos terem nas suas mentes, ideia de que os militares conhecem apenas as armas, enquanto na realidade não bem assim. Os militares pertencem a classe com maior número de técnicos e profissionais em todas as áreas sociais, se não, os primeiros quadros, factos materializados pelo Amílcar Cabral desde os primeiros tempos da Luta de Libertação Nacional. Por isso, lançou um desafio a todos os militares para que demostrassem na prática estes conhecimentos perante a classe civil.

Para o Tenente Coronel Dinis N´canha, Chefe da Direcção de Planificação da Divisão do Comando de Operação, um dos formadores, explicou que essas aulas metódicas são organizadas no inicio de cada ano para os oficiais, comandantes de zonas e seus adjuntos com o propósito de discutir sobre o documento mãe, que ira servir de orientação para tomadas das decisões no exercício das suas funções, baseadas em conhecimentos tácticos ou militares.

Dinis N´canha afirmou que este curso terá um impacto positivo, porque irá permitir os comandantes e os seus adjuntos tirar as relações dos melhores e maus acções no domínio da tactica militar, por um lado.

Por outro lado, recomendou a todos os participantes que estejam a altura de pôr em prática os conhecimentos adquiridos e dar as respostas positivas e eficazes das exigências tacticas em qualquer teatro de operação, em qualquer momento e em quaisquer vertentes. Com as FARP

domingo, 19 de fevereiro de 2017

“Amílcar Cabral não era sonhador, era um político”

Combatente da Liberdade, Manuel dos Santos, o Comandante Manecas, está nos dois momentos que ficam para a história da guerra colonial: o assalto ao quartel de Guiledje e a introdução dos mísseis Strella no cenário da luta pela independência. No pós independência, acaba por ficar na Guiné-Bissau, onde chegou a ser Ministro das Finanças e embaixador em Angola. De passagem por Cabo Verde, aceitou dar uma entrevista ao Expresso das Ilhas. E foi uma conversa sem tabus.

Expresso das Ilhas — Era estudante de engenharia em Lisboa quando resolve abandonar a universidade e entrar na luta pela libertação. Quais foram as suas motivações?

Manecas Santos — Uma era a situação colonial que se vivia em Cabo Verde, que era terrível. Aparentemente, aqui, já se começou a esquecer como era Cabo verde há sessenta ou setenta anos, quando se morria ainda de fome. Eu era miúdo, mas assisti à última fome que houve em Cabo Verde, vivia então em Santo Antão. E, de facto, há coisas que não se esquecem. Ver gente morta na estrada por não ter nada para comer. Por outro lado, o PAIGC logo depois da sua fundação enviou um dos militantes mais antigos, o Abílio Duarte, para agitar as águas do ponto de vista político em Cabo Verde e ele foi parar ao Liceu de São Vicente, onde eu estudava. É do Abílio que eu ouço, tinha 15 ou 16 anos, as primeiras coisas sobre nacionalismo, política, etc. Depois, fui para Lisboa estudar, o meu irmão também já lá estava e ele estava muito ligado aos meios estudantis de esquerda o que, obviamente, teve alguma influência sobre mim. Continuámos a encontrar-nos com outros jovens da mesma geração e fundámos em 62/63 o primeiro comité do PAIGC em Lisboa e tínhamos contacto com o secretariado-geral em Conakry através de uma pessoa que estudava em Paris na altura, o António St. Aubyn. Portanto, a motivação foi esta, não só a situação colonial que se vivia em Cabo Verde, mas também todo um trabalho político que terá começado com a ida do Abílio Duarte para Cabo Verde.

E não havia o sentimento de medo? Afinal, estava-se a arriscar a própria vida quando se embarcava numa aventura dessas.
Nós éramos jovens. Eu tinha 22 anos quando saí de Lisboa, nessa altura o medo não é muito (risos).

Na Guiné-Bissau tem um contacto próximo com Amílcar Cabral…
Não tão próximo. Eu era soldado, encontrei-me com ele várias vezes, obviamente. Agora, o que lhe posso dizer é que continuo a pensar que sou um discípulo de Amílcar.

Amílcar Cabral que é considerado um humanista, por certos historiadores, mas também capaz de ter posições duras, como no seguimento do congresso de Cassacá.
Não acho que haja contradições. O Amílcar não teve posições assim tão duras. Basta lembrar que o Congresso de Cassacá não condenou ninguém à morte.

Mas, posteriormente acabaram por ser mortos vários comandantes.
Nem posteriormente. O único indivíduo que foi morto era um dos comandantes de guerrilha balanta, porque resistiu à prisão. De resto, o congresso de Cassacá não condenou ninguém à morte e Cabral era formalmente e publicamente contra isso.

Há documentos que falam na morte de vários comandantes e não apenas de um.
É falso. Há muita gente interessada em fazer da história do PAIGC um mistério muito grande, com uns indivíduos maquiavélicos, é tudo mentira.

O sucesso do PAIGC na Guiné-Bissau pode ser explicado pelos vectores: Cabral, saúde e educação para a população, a ajuda militar cubana e soviética e o apoio logístico da Guiné-Conakry?
E a ajuda da Suécia, não te esqueças. Nos anos finais da guerra. Ajuda que não era em armamento, mas era uma ajuda humanitária extremamente importante.

Saúde e educação para a população foi uma estratégia para mostrar o que o PAIGC poderia dar?
Acho que não foi estratégia, era um imperativo. Em 1963 começaram a aparecer as primeiras áreas que já não eram administradas pelo poder colonial e essas áreas tinham de ser administradas e tinham necessidades. É claro que essas necessidades, principalmente de educação e saúde, foram, eu diria, sabiamente orientadas por Cabral no sentido de um desenvolvimento maior das pessoas. E não foi só a saúde e a educação, foi a justiça, foi a polícia, foram os tribunais populares, enfim, toda uma série de medidas que se tomaram e que eram importantes para administrar as áreas libertadas. E ainda dando atenção a uma matéria que está hoje na moda e que o PAIGC já falava há 60 anos que é o problema do género. As aldeias eram administradas por um comité eleito e nesse comité havia obrigatoriamente duas mulheres em cinco pessoas. Penso que actualmente a Guiné-Bissau tem a mulher mais livre desta costa de África, não é por acaso, vem daí.

Mesmo com todas estas confusões políticas?
Mesmo com estas confusões todas. A Guiné-Bissau não tem só coisas negativas, tem muitas positivas, algumas delas resultantes da luta e algum dia a Guiné-Bissau vai tirar proveito disso. Não estou pessimista. Vinte anos na história de um país, não é nada. Ultrapassa-se.

Voltando à Guiné no período da guerra. Quando Spínola chega e adopta a chamada ‘guerra psicológica’ principalmente batendo na tecla da divisão étnica entre cabo-verdianos e guineenses, essa tensão sentia-se de facto? Ele descobriu uma brecha ou esta foi criada artificialmente?
Acho que as duas coisas. Efectivamente o General Spínola quando chega à Guiné trata de fazer uma anti-guerrilha moderna, algo que não acontecia com os seus predecessores. Até diria que os predecessores dele foram quase nossos aliados, tantas asneiras fizeram. O Spínola faz uma anti-guerrilha moderna que obviamente inclui a acção social. Foi nessa altura que a população da Guiné-Bissau, aquela que estava junto das autoridades portuguesas, começou a auferir de melhores cuidados de saúde, melhores escolas, etc. Era evidente que isso servia para se opor aquilo que o PAIGC fazia. É dos livros. As coisas entre guineenses e cabo-verdianos devem ser relativizadas. Vou dar-lhe o meu exemplo, estive em muitas unidades onde eu era o único não guineense e não preto e nunca tive o mínimo problema. Os problemas existiam mais em Conakry onde as pessoas estavam confrontadas com condições não muito fáceis de vida e cada um a querer alguma coisa. Quando há competição essas coisas vêm sempre ao de cima, até agora. Mas, acho que não é de dar muito significado. As pessoas falam muito nas contradições entre cabo-verdianos e guineenses, que terão estado na origem do assassinato de Amílcar Cabral, é tudo conversa para boi dormir, como diz o brasileiro.

Acha que isso não teve qualquer reflexo na morte de Amílcar Cabral?
Nada. Que os tipos que estavam a fazer o complot contra Amílcar Cabral e que acabaram por matá-lo e que queriam dar cabo do partido utilizaram isso, sim utilizaram. Mas, não creio que tenham tido grande sucesso com isso. Aliás, depois do assassinato de Cabral vê-se qual foi o desenvolvimento da luta.

Vamos lá chegar, mas na altura chegaram a aparecer no Voz di Povo relatos de perseguições brutais aos cabo-verdianos, no período que se seguiu ao assassinato de Cabral.
Onde?

No Voz di Povo, aqui em Cabo Verde.
Pergunto, quem foi morto ou espancado?

Estou a basear-me nas fontes da época.
Por acaso, eu não estava lá, quando Cabral é assassinado eu estava na União Soviética. Mas, há aqui muita gente que estava lá.

Acha que também se usou isso para fazer propaganda cá?
Eventualmente. Mas, isso é algo que é mais histórias da carochinha que outra coisa.

Voltamos então ao cenário de guerra. É nos pós assassinato de Cabral que se dá o salto tecnológico na Guiné-Bissau…
O segundo salto. O primeiro foi a artilharia, depois foi as antiaéreas.

Com os mísseis Strella. É o momento de viragem?
Não diria viragem, diria progresso de uma mudança muito grande na nossa capacidade ofensiva e na negativa da capacidade ofensiva da tropa colonial.

O que representaram, no fundo, os Strella?
Representaram o acabar com os aviões e os helicópteros, essenciais na guerra de guerrilha.

Há analistas que defendem também que os Strella ajudaram a diminuir as tensões entre cabo-verdianos e guineenses porque para operar os mísseis era necessário pessoal mais bem formado e com conhecimentos, por exemplo, de matemática.
(risos) Havia um cabo-verdiano a operar em vinte e quatro, que era eu. Os outros eram todos guineenses.

Diz-se que foi Manuel dos Santos quem abateu o tenente-coronel Almeida Brito, a primeira vítima dos Strella.
Não fui eu. Quem o abateu chama-se Fodé Cassamá, guineense de Boé.

Cheguei a ler que se teria encontrado com a viúva do tenente-coronel Almeida Brito.
Não é verdade. Houve uma senhora, viúva de um oficial piloto que morreu na Guiné, que foi à Guiné porque pensou que o marido estivesse preso, mas ele tinha morrido e obviamente estive com ela e lamentei ter de lhe dizer que efectivamente o marido tinha morrido.

Em Lisboa, em 2010, durante o lançamento do livro A Última Missão [do coronel Moura Calheiros, que esteve na batalha de Guidaje] disse que era chegada a altura de falar desse período…
Sem problemas e sem complexos.

E acha que estamos a conseguir fazê-lo?
Não.

Porquê?
Há quem queira doirar as pílulas. Quando vejo aquele programa do Furtado na RTP [A Guerra, documentário sobre a guerra colonial da autoria e realização de Joaquim Furtado] às vezes riu-me. Até das contradições do próprio programa. O que se há-de fazer?

Mas há um doirar de pílula dos dois lados ou só de um?
Acho que é dos dois lados, porque falamos muito pouco disso. Para o programa do Furtado, por exemplo, fizeram-me uma entrevista de uma hora e depois passaram um minuto. Acho que estão a prestar um mau serviço, porque a guerra colonial faz parte da memória de todos nós e eu acho que os portugueses têm o direito de saber o que aquilo custou. E não custou pouco, sobretudo na Guiné.

Estamos a falar de todos os custos? Monetários e humanos?
Sim, sim. E ainda hoje há gente com o chamado stress pós-traumático, que não conseguiu a recuperação total. Portanto, acho que poderiam fazer melhor.

Do lado guineense e cabo-verdiano não falta também contar a história?
Falta, claro. Há muito pouca coisa escrita por guineenses e cabo-verdianos que participaram na luta na Guiné. Talvez seja por isso que se tente branquear tanta coisa.

E idolatrar outras?
Acho que do nosso lado nunca houve tanta tentativa de idolatrar gente. A não ser por algumas pessoas Amílcar Cabral. Mas, mesmo isso, se Amílcar Cabral estivesse vivo não ficaria contente.

Em 1973 fazia parte do Conselho Superior de Luta. Hoje não faz parte da lista dos comandantes aqui em Cabo Verde, que estavam quase todos no Conselho Superior de Luta. Acha que devia estar nessa lista?
Acho que sim. Mas, isso é uma decisão que cabe ao governo de Cabo Verde.

Porque acha que ficou de fora?
Porque não estava cá. Não creio que haja outras razões.

Aliás, em 73 é já conhecido na Guiné como comandante Manecas e está à frente do ataque ao quartel de Guileje. Foi o ‘momento Dien Bien Phu’ de Portugal [batalha travada entre o Việt Minh e o corpo expedicionário francês no Extremo Oriente, de 13 de Março a 7 de Maio de 1954, foi a última batalha da Guerra da Indochina]?
Não houve nada disso na Guiné. Houve uma acção extremamente importante [Guileje] contra o exército colonial, que já estava enfraquecido pela falta de aviões. Quando enfrentámos a tropa especial portuguesa estávamos em vantagem porque era o nosso território e eles não tinham a aviação a apoiar, não tinham hipótese. O Almeida Bruno [comandava as tropas portuguesas na altura] disse uma data de asneiras, só que um oficial dele, um comando africano…

O Marcelino da Mata?
Não, era outro. Escreveu um livro também onde contradiz tudo o que o Almeida Bruno contou.

Por falar em Marcelino da Mata. Ele era tão bom soldado como ele próprio diz?
O Marcelino da Mata é um bandido, um criminoso, mais nada do que isso. As orelhas que ele tinha não eram de militares, eram de civis que ele matava [há descrições de soldados portugueses que Marcelino da Mata usava orelhas cortadas como troféu. Outros dizem que isso é mentira].

Não deixa de ser o militar português mais condecorado de sempre.
Pelas más razões.

O Marcelino da Mata afirmou que o PAIGC tinha morto a mulher dele e que fazia tudo por vingança.
Tenho as minhas dúvidas. Não creio que o PAIGC tenha feito coisas dessas. Não fazia. Pode acontecer que num ataque morra gente, morram civis, isso existe em todas as guerras. Agora, ir deliberadamente matar a família do Marcelino da Mata que, por sinal, é primo do primeiro Primeiro-Ministro da Guiné, acho duvidoso. Ele lá sabe as razões que o levaram a fazer aquelas coisas. Mas, não deixo de dizer que o Marcelino da Mata é uma vergonha para o exército português. Há poucos dias estava a falar dessa questão das tropas africanas com o comandante Pedro Pires e ele tem uma opinião com a qual estou inteiramente de acordo: foi o exército colonial que causou o problema dos comandos e da tropa portuguesa e que está na base do que eles sofreram depois da independência.

Mas o PAIGC garantiu que eles não sofreriam nada.
O PAIGC não garantiu coisa nenhuma.

Há jornais da época que dizem o contrário.
Isso são os jornais. Documento não há nenhum.

Eles foram convencidos a entregar as armas.
Eles entregavam as armas a bem ou a mal. Eu lembro-me até que na zona onde estava houve uma espécie de rebelião das milícias com os comandos africanos e um dia chega lá o comandante português todo alterado porque os comandos tinham recusado entregar as armas eu disse-lhe: ‘tire os portugueses daí e a gente vai buscar as armas’ e entregaram-nas imediatamente. Sabiam o que a casa gastava. Não estou a contar vantagem, era mesmo assim.

O assassinato dos comandos africanos não podia ter sido evitado?
Podia. Já agora, vou-lhe contar uma história que me foi contada pelo Nino Vieira numa altura em que ele não tinha interesse algum em branquear Luís Cabral. Presumo que seja verdadeira. Como sabe, Luís Cabral tinha boas relações com o Ramalho Eanes [oficial e ex-Presidente da República português], numa das passagens de Luís Cabral por Lisboa, o general Eanes pede-lhe que liberte os oficiais de comandos que estavam em Bissau, que lhe desse documentos para viajarem para Portugal. Luís Cabral concordou. Quando chega a Bissau chama gente do exército para lhes dizer para fazerem isso e o chefe da segurança diz-lhe que eles já estavam todos mortos. (pausa) Mas, a primeira culpa é do exército português que os deixou lá. Eles eram militares portugueses. Porque evacuaram todos e eles não? Porque não eram brancos.

Alguns foram evacuados.
Só o Marcelino da Mata. Mais nenhum.

As fontes portuguesas contam outra versão.
Não foram evacuados. Fugiram. O único que foi evacuado foi o Marcelino da Mata e havia razões mais do que suficientes para o fazerem.

Do que eu li, houve comandos que recusaram ir porque tinham várias mulheres e só deixavam levar uma.
Isso é treta.

O 25 de Abril começa na Guiné. Sentiram que era o início do fim do regime colonial?
Acho que houve alguns oficiais portugueses na Guiné – o Otelo [Saraiva de Carvalho], o Salgueiro Maia e outros – os homens que fizeram o 25 de Abril, que entenderam que aquilo não tinha solução. Ou por outra, a solução tinha de ser uma coisa negociada. O Spínola foi ter com o Marcello Caetano [o último Presidente do Conselho do Estado Novo], porque era suficientemente inteligente para saber que aquilo não tinha solução, e o Marcello recusa-se a negociar seja o que for. Obviamente, não há nenhum exército que queira perder uma guerra. Não sei se viu os documentários feito pelo José Manuel Saraiva, um sobre Guileje e outro sobre Medina do Bué…

Nunca vi.
Ele põe o general Monge a falar e ele diz uma coisa engraçada é que nessa altura não eram as tropas do PAIGC que estavam a construir defesas anti-tanque, era a tropa portuguesa.

Ou seja, estavam a passar para uma guerra defensiva.
Como é óbvio. Sem aviões o que podiam fazer? Toda a filosofia das tropas especiais numa guerra anti-guerrilha é baseada na existência de uma aviação eficiente, o que não era o caso.

Mas continuava a haver uma discrepância grande de forças no terreno: o PAIGC com pouco mais de 7 mil homens e o exército português com cerca de 35 mil.
Pois é, mas dos quais 90 por cento estavam acantonados em quartéis e não tinham operacionalidade nenhuma, ao passo que os nossos soldados eram todos operacionais. E havia uma diferença qualitativa: a tropa portuguesa, do serviço militar obrigatório, chegavam à Guiné e dois anos depois iam embora. Quando eles começavam a estar minimamente preparados para combater iam-se embora, enquanto nós tínhamos soldados com 6, 7 e 8 anos de guerra às costas, gente com uma experiência enorme de combate. Eram duas realidades diferentes. E nós não tínhamos de ocupar terreno nenhum.

De qualquer forma, quando se dá o 25 de Abril e terminam as hostilidades, pode-se dizer que havia cansaço das duas partes?
Havia. Nós todos queríamos acabar com aquilo. Mas, não tenho dúvidas também que a tropa portuguesa, por razões óbvias, estava mais cansada.

Ainda em 74 os primeiros combatentes cabo-verdianos começam a chegar ao arquipélago. Em 75 dá-se a independência e a democracia chega 15 anos depois. A transição podia ter acontecido mais cedo?
Teríamos de definir uma série de coisas e uma delas é se a democracia que foi importada da Europa serve ou não. Aqui em Cabo Verde, muito provavelmente serve. Na Guiné, acho que tem muitos pontos escuros. Não podemos esquecer que a Guiné é uma sociedade onde o tribalismo ainda estava presente. Uma sociedade onde a informação é escassa. Onde o índice de analfabetismo é alto. As pessoas vão votar porquê e para quê?

Porquê e para quê?
Essa é a pergunta que eu ponho. O Kumba foi eleito [Kumba Yalá, presidente da Guiné-Bissau de 2000 a 2003, quando foi deposto por um golpe militar], as pessoas não se perguntam porquê? Como é que um tipo daqueles chega e é eleito Presidente da República? É uma das interrogações que as pessoas podem legitimamente pôr. E a verdade é que a introdução de um sistema multipartidário contribuiu para um recrudescimento do tribalismo na Guiné.

Porque os partidos foram procurar apoios junto das tribos?
Obviamente. Isso não é novidade. O próprio Cabral disse que indivíduos destribalizados quando procuram o poder lembram-se que são balantas, ou fulas, para irem buscar as solidariedades.

Já que cita Cabral, eu perguntei sobre a democracia cabo-verdiana porque foi o mesmo Cabral quem disse que o homem africano devia ser livre de decidir por si próprio.
Deixe-me dizer-lhe outra coisa. Um dos problemas disto tudo é que a Europa e a América pensam que o que é bom para eles é bom para toda a gente. Ora, Amílcar Cabral era um indivíduo que dava uma importância enorme à participação das pessoas e essa é uma das pedras de toque da democracia – directa ou indirecta. (pausa) Não penso que fizemos as melhores coisas depois da independência e penso que podíamos ter feito muito melhor, mas considerar que a democracia representativa é uma panaceia que vem resolver todos os problemas… Basta ver os resultados.

Cabral é que disse que devemos andar pelos próprios pés.
De acordo com as nossas próprias realidades.

No livro de Humberto Cardoso “O Partido Único em Cabo Verde: Um Assalto à Esperança” levanta-se a dúvida se Manuel dos Santos tinha sido persuadido a ficar na Guiné ou se tinha sido impedido de regressar a Cabo Verde. O que aconteceu?
Nem uma coisa nem outra. Era um partido com as características que todos conhecem e quando termina a luta armada, no quadro da unidade Guiné/Cabo Verde, o partido ordenou-me que ficasse na Guiné, nem me perguntou a minha opinião. E eu fiquei. Não fiquei zangado, devo dizer, mas era assim. Fui a Angola também.

Onde participou na guerra civil ao lado do MPLA.
Não fui obrigado também, mas fui. É preciso ajuizar o comportamento das pessoas pela época em que elas viveram e tiveram determinado comportamento. Devo dizer que me sinto bem na Guiné. Estou como peixe na água. Sou o último que tem o estatuto das duas nacionalidades originárias, na Guiné sou guineense, em Cabo Verde sou cabo-verdiano. Nasci em Cabo Verde, mas tenho direito à nacionalidade originária por ter sido combatente e entendo que não devo perder essa qualidade.

A 14 de Novembro de 1980 dá-se o Golpe de Estado de Nino Vieira. Na altura, os autores do golpe preferiram falar em Movimento de Reajustamento, exactamente o que tinha sido dito em Cassacá. Foi uma manobra inteligente?
Há tempos estava a falar com um italiano e ele disse-me que os militares mais inteligentes do mundo são os guineenses: dão golpes de estado mas nunca assumem o poder e nunca dizem que foi um golpe de estado, dizem que foi outra coisa qualquer (risos).

Mas, quando tentam encobrir o golpe sob a cortina do reajustamento isto foi para quem? Para a comunidade internacional ou para o próprio PAIGC?
Acho que foi para todos. O PAIGC esteve na corda bamba, nessa altura, na Guiné.

E houve trocas de cartas bastante violentas entre Aristides Pereira e Nino Vieira.
Pois, mas o problema não está aí, está no interior. Houve um hiato de uns meses em que o PAIGC esteve… Mas, com a realização do Congresso voltou à normalidade em termos partidários.

Há analistas políticos guineenses que dizem que essa data significou a segunda morte de Cabral.
Não tenho essa opinião. Amílcar Cabral já foi morto uma data de vezes.

Na altura tornou-se também pública a insatisfação que havia em relação a Cabo Verde e aos cabo-verdianos, tanto mais que alguns regressam ao arquipélago. Você nunca regressou. Acha que era mais respeitado porque tinha sido um comandante de terreno.
Não foi por causa disso.

Pergunto-lhe isso porque o Osvaldo Lopes da Silva falou nos ‘comandantes de retaguarda’.
Ele era um deles (risos). Uns dias depois do 14 de Novembro eu estava cá. Vim falar com Pedro Pires e com o Presidente Aristides Pereira. Aristides Pereira já morreu, mas Pedro Pires pode confirmar isso.

De qualquer forma, acaba por regressar à Guiné.
Continuei a fazer parte do governo, nunca saí. Ok, eu sou respeitado na Guiné. Acha isso uma coisa má?

Não estou a fazer juízos de valor, estava apenas a tentar saber porque é que alguns vieram embora e você ficou.
Vou-lhe dizer outra coisa, o Nino, o João Bernardo Vieira, continuou a ter boas relações com todos os combatentes que estavam aqui em Cabo Verde. E quando o PAICV perdeu o poder até ajudou alguns.

Quer explicar melhor isso?
Não, não quero. Mas é a verdade. Sabe que Guiné e Cabo Verde têm uma ligação histórica e étnica muito grande. Você era capaz de imaginar que o Nino Vieira era de ascendência cabo-verdiana? A mãe dele chamava-se Florença de Pina Araújo, descendente de gente da ilha do Fogo, e o pai dele era dos Vieiras daqui de São Domingos e agora? E há outros, muitos mais.

Da parte do PAICV não houve nenhuma pressão sobre si porque ficou na Guiné?
Podia ter havido. Penso que se o camarada Aristides tivesse ido à Guiné naquela altura seria capaz de modificar muitas coisas. Mas, não foi. Se fosse Cabral tinha ido. Na hora.

Bem, o Nino Vieira era ligeiramente ameaçador nas suas cartas, não dava grandes garantias.
(silêncio) Eu sei do que estou a falar. Nino Vieira e Aristides Pereira continuaram a ter relações estreitas, sou testemunha disso, até da ajuda que Nino Vieira deu a Aristides Pereira quando o PAICV perdeu as eleições.

Os jornais cabo-verdianos, jornais oficiais do partido, da altura mostram outra coisa.
Espero que você, enquanto jornalista, não acredite em tudo o que dizem os jornais (risos).

Sabe certamente que se chegou a escrever nos jornais cabo-verdianos que Manuel dos Santos era a flor na lapela de Nino Vieira.
(risos) O que é que eu hei-de fazer? Éramos amigos sim e fomos amigos até ele morrer. Isto pode escrever, que eu assino por baixo. Mas, não mais do que isso. Nunca estivemos juntos em negócios. Éramos amigos e somente isso.

Em 91 Cabo Verde abre-se para a democracia. Na Guiné-Bissau a realidade tem sido outra, golpes, contra golpes, os próprios Estados Unidos da América consideraram a Guiné um narco-estado. Para que serviu a guerra de libertação afinal?
Serviu para mudar uma série de coisas na Guiné. Como estava a dizer-lhe há bocado, a Guiné não tem só coisas negativas. Há mais para além dos títulos e há pessoas.

Há hoje uma nova fase na Guiné?
Estamos a assistir à tomada do poder pelo actual Primeiro-Ministro, que é um homem que não pode ser acusado de ter estado na luta de libertação nacional, porque era muito pequeno, mas que é um individuo que viu que há muitas coisas boas na história da Guiné e que é preciso tirar proveito delas.

Os militares não voltarão às ruas?
Creio que não. Eles também já descobriram que o crime não compensa. Este Primeiro-Ministro merece ser ajudado.

De qualquer maneira, o sonho de Amílcar Cabral – de uma Guiné independente, democrática e desenvolvida – ainda está por cumprir 40 anos depois.
Amílcar Cabral não era sonhador, era um político avisado. Queria que a Guiné-Bissau fosse diferente daquilo que é hoje, não tenho dúvidas nenhumas, e penso que um dia vai ser. Cabral e aquilo que ele disse ainda está bem vivo e pode ser utilizado. Cabral não era um profeta, seria o primeiro a dizer que não era isso, mas as suas análises políticas ainda são actuais em muitos domínios.

E seria o primeiro a dizer que falhou em algumas situações?
Não creio. Assim como não considero que eu falhei. Se a direcção central for a correcta, mesmo que haja desvios, um dia chega-se lá. E é isso que Cabral representa: um dia chega-se lá.

Qual é o legado de Cabral?
Não espera que lhe responda a isso em dois minutos pois não?

Acha que o cabralismo é hoje recordado somente em certas datas?
O cabralismo é uma treta! Não acredito nessas histórias de cabralismos e outros ismos.

Há muitos camaradas que considerariam isso uma heresia.

Esses são os primeiros a violar as regras (risos). Aqueles que batem no peito? São os primeiros a violar as regras. Acho que Cabral é um homem cujo pensamento merece ser estudado, merece ser tido em conta. As análises dele, eu penso, ainda não foram ultrapassadas, pelo menos em África, naquilo que diz respeito à vida política dos países africanos. Cabral teve uma frase em que ele diz que a grande fraqueza dos movimentos políticos africanos era a sua falta de ideologia, ou seja, a sua falta de objectivos claros e concretos que condicionassem a sua actuação. Resumindo, o que ele queria dizer é que eles falavam uma série de tretas e depois faziam o que lhes apetecia. Não estamos muito longe disso. Lí aqui»