domingo, 17 de junho de 2018

Sementes, Aves e Ninhos


«O Reino de Deus vai germinando em nós no silêncio do coração e no santuário da consciência sempre que estamos atentos ao que acontece, sabemos em quem confiamos e dormimos em paz, como o semeador»

Reflexão de Georgino Rocha

Jesus vive a preocupação de tornar acessível a mensagem que anuncia. Marcos, o evangelista narrador, referindo-se aos ouvintes, aduz o recurso a muitas parábolas “conforme eram capazes de entender”. E acrescenta que aos discípulos tudo era explicado, em particular. É neste contexto que surgem as sementes do campo, as aves e os ninhos em grandes ramos. Sementes que germinam, crescem e se convertem em arbustos de jardim e em árvores de bosques frondosos.

Jesus “utiliza uma linguagem narrativa decalcada do real. Jesus fala de Deus contando histórias de reis e de pescadores, de semeadores e camponeses. Uma linguagem profundamente humana, simples, compreensível, que efectua uma comunicação aberta, englobante e não excludente. Será assim que nós falamos das «coisas do Pai»?” (Manicardi, Comentário á Liturgia…, p. 109).

Que preocupação admirável e apelativa! Dir-se-ia que é melhor ficar calado e em silêncio do que falar abundantemente e ninguém compreender nada. É melhor colocar-se ao nível cultural de quem escuta do que exibir erudição doutrinal sonante. A solidariedade e a clareza prevalecem sobre qualquer outra atitude de comunicação. É a lei do Evangelho que brilha no comportamento de Jesus. É apelo que fica para sempre a todos os educadores e mestres, a todos nós.

As parábolas da semente e do grão de mostarda realçam a força dos contrastes: pequenez e grandeza, seio da terra e elevação ao céu, trabalho e descanso/ócio, in-utilidade de ganhos produtivos e benefícios de usufruição gratuita, silêncio e chilreio de aves nos seus ninhos, a simbolizar a alegria das criaturas e a harmonia do universo. Força que desvenda o sentido do que está a acontecer e para o qual Jesus chama com insistência a atenção. “A missão de Jesus, afirma a propósito o comentário da Bíblia Pastoral, é portadora do Reino de Deus e da transformação que provoca. Uma vez iniciada, a acção de Jesus cresce e produz fruto de maneira imprevisível e irresistível. Diante das estruturas e acções deste mundo, a actividade de Jesus e daqueles que O seguem parece impotente e mesmo ridícula. Mas ela cresce até atingir o mundo inteiro”.

O contraste faz brilhar de novo a força e o alcance de que é indiciador: Jesus e o seu modo manso e humilde de agir face ao ambiente dos fariseus, marcado pela exibição e arrogância, que o envolve e questiona; a simplicidade do Evangelho e a exuberância de oratórias e discursos de «encher o ouvido». Também religioso e teológico, em sermões e homilias, em catequeses e exortações doutrinais. O Papa Francisco dá o exemplo e deixa o apelo a que tenhamos em conta os pais que sabem conversar com os filhos. Quanto caminho andado na renovação da comunicação! E quanto não falta andar para que cada cristão

se sinta à-vontade na vida da fé e, confiante, possa testemunhar a esperança que o anima num mundo, tantas vezes, indiferente, agressivo e triste. Testemunhar e dar as razões fundantes.

O alcance das parábolas fica em aberto. Tanto a semente como o grão não param no processo de crescimento quando atingem a maturidade. Chega em breve a ceifa e a apanha, a trituração e o esmagamento, a transformação do trigo em pão saboroso que se faz alimento de humanidade, de Jesus eucaristia, e do grão em molho de mostarda que se converte em condimento de carnes diversas e de outras iguarias. A narração de Marcos fica pela simplicidade do que é observável, pela riqueza do símbolo, pelo alcance do ensinamento. É bom deter-nos aqui e descer à realidade de cada um, do nosso processo de crescimento, dos frutos da nossa vida e da beleza dos ninhos dos nossos sonhos.

O Reino de Deus vai germinando em nós no silêncio do coração e no santuário da consciência sempre que estamos atentos ao que acontece, sabemos em quem confiamos e dormimos em paz, como o semeador. De contrário, é o joio da indiferença e do prazer efémero que definem as regras de conduta. O Reino de Deus cresce em nós na relação com o ambiente e suas condições saudáveis ou doentias pela poluição e degradação, relação de interacção e de mútua transformação e melhoria.

O Reino de Deus manifesta-se em nós na fragilidade da natureza e na provoriedade do compromisso libertador, na sobriedade da vida e na simplicidade de maneiras, na ousadia prudente e na aceitação humilde de limites, no apreço pela memória e na valorização do futuro desejado com equilbrío e sem ansiedade. O Reino de Deus opera em nós, de modo especial, quando damos espaço a Jesus Cristo e ao Evangelho, aprofundamos a Sua palavra, celebramos a liturgia na assembleia dominical e nos deixamos fazer doação total, corpo entregue e sangue derramado por um mundo novo. E, animados pelo Espírito Santo, vivemos a alegria da missão em todas as circunstâncias.

As referências podem facilmente multiplicar-se. Estas pretendem apontar a direcção do mergulho interior que somos convidados a fazer. A partir do alcance dos ensinamentos de Jesus que, na liturgia de hoje, reveste o rosto da semente, das aves e dos ninhos.

“A linguagem simples das parábolas, afirma Manicardi, … requer uma inteligência humilde e não arrogante, uma sabedoria, uma capacidade de compreender em simultâneo a terra da qual se contam as parábolas e o céu a que elas aludem. A inteligência do mistério…situa-se no plano da sabedoria, abarca em si tanto o saber, como o sabor, tanto a mente como o palato, tanto o espírito como o corpo. Uma inteligência capaz de gratidão e aberta ao dom…”. Ousemos aprender esta bela lição colhida na parábola das sementes, das aves e dos ninhos.

sábado, 16 de junho de 2018

RGB - Resistência da Guiné-Bissau – “Movimento Bafatá” exige o pagamento de 126 milhões, por parte da Assembleia Nacional Popular

Quando a política multipartidária foi introduzida no início dos anos 1990, as eleições gerais de 1994 viram o RGB se tornar o maior partido de oposição ao PAIGC na Assembleia Popular Nacional, ganhando 19 dos 100 assentos. Fernandes terminou em terceiro nas eleições presidenciais com 17% dos votos. Nas eleições gerais de 1999, o RGB ganhou mais 10 cadeiras, tornando-se a oposição ao novo partido no poder, o Partido para a Renovação Social. Salvador Tchongó foi indicado como candidato do partido à presidência, mas terminou em nono no campo com apenas 2% dos votos.

O partido juntou-se a um governo de coalizão, mas retirou-se em janeiro de 2001 depois de afirmar que não foi consultado sobre uma reforma ministerial.

Os problemas internos vieram à tona quando Zinha Vaz deixou o RGB…O partido perdeu todos os seus lugares nas eleições parlamentares de 2004 e não disputou eleições em 2005, 2008, 2009 ou 2012

O partido retornou à política ativa quando disputou as eleições parlamentares de 2014, mas recebeu apenas 1,6% dos votos e não conseguiu ganhar um assento.

A Resistência da Guiné-Bissau – “Movimento Bafatá”, reclama o pagamento de cerca de cento e vinte seis milhões de francos Cfa, por parte da Assembleia Nacional Popular, referente aos subsídios de partidos políticos com assento parlamentar.

Um valor que remonta à legislatura de 1999 a 2003, quando o partido era segunda força politica mais votada, com 29 deputados.

 Esta quinta-feira, 14 de junho, em conferência de imprensa, o porta-voz da RGB/ Movimento “BAFATÁ”, Tomé Vaz, disse que ao Partido da Renovação Social (PRS), Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Partido da Convergência Democrática (PCD) e a União para Mudança (UM) foram pagos os seus respetivos subsídios referentes à legislatura de 1999 a 2003.

“Já nem a quantia de sessenta e oito milhões, quinhentos e sessenta e um mil apontada pelos sucessivos presidentes da Assembleia Nacional Popular (ANP), Jorge Malu (do PRS), Francisco Benante (do PAIGC), Raimundo Pereira (do PAIGC), e Cipriano Cassamá (do PAIGC), como o valor em dívida, estão dispostos a pagar, continuando com as mesmas desculpas de sempre. É o mesmo que dizer: aniquilemos a RGB/MB e fiquemos à vontade para dar alardes à exploração e à corrupção” acusou Tomé Vaz.

Por outro lado, Tomé Vaz exige o pagamento de indemnização de cerca de vinte e sete milhões, quinhentos e trinta mil francos Cfa, por parte do Estado guineense, pela demolição da sua sede nacional em 2008 para construir o palácio de governo.

“A RGB/MB é o único partido, na Guiné-Bissau, que, desde 1995, adquiriu e legalizou um terreno de 200m² e construiu a sua sede. Essas instalações foram demolidas em junho de 2008, na véspera das Eleições Legislativas, nas quais a RGB/MB não participou por decisão do Supremo Tribunal de Justiça. Ficamos sem espaço, sem terreno, sem sede” disse Tomé Vaz, e sublinha que “já lá vão 10 anos e a conclusão inevitável é de que tudo isto constituiu uma ardilosa perseguição que cedo e sempre foi e está sendo movida contra a RGB/MB pelo PAIGC”.

Segundo o porta-voz da RGB/ Movimento “BAFATÁ”, a expropriação da sede do partido foi feita pelo PAIGC, beneficiando do “conluio de alguns partidos” na altura em que o atual primeiro-ministro, Aristides Gomes, exercia as mesmas funções.

Neste sentido, a RGB/MB espera que o sentido de Estado que impeliu o então e o atual chefe de governo, Aristides Gomes, lhe inspire um sentido de justiça para “impor o resgate urgentíssimo dos recursos que o partido tem direito, livre de corrupção ou falcatruas”. Com e-global

Novos cardeais para um novo papa


«Impõe-se uma educação em todos os domínios para a autonomia e a responsabilidade, pois frequentemente o que se deu foi a infantilização das pessoas»


Reflexão do  Anselmo Borges no Diário de Notícias

Francisco sabe que não é eterno e precisa de preparar a sucessão de tal modo que não haja volta atrás nas reformas que iniciou, pelo contrário, que continuem e se aprofundem, para que o Evangelho seja o que é e deve ser, por palavras e obras: notícia boa e felicitante para todos.

Tudo indica que este é o intuito da criação de novos cardeais no próximo dia 29. Então, os cardeais eleitores passarão a ser 125, dos quais 59 criados por Francisco, 46 por Bento XVI e 18 por João Paulo II. Como observa Jesús Bastante, os cardeais "franciscanos" serão quase metade dos participantes num futuro conclave, mas, dentro de um ano, uma vez que mais dez deixarão de ser eleitores, por causa da idade, a maioria será absoluta. Por outro lado, o Colégio Cardinalício é cada vez mais universal.

Entre os novos cardeais, está o amigo e antigo colega de Universidade, António Marto, bispo de Leiria-Fátima, claramente "franciscano" e favorável à reforma da Igreja: "A reforma é necessária e é para levar para a frente", diz. Uma profunda e gigantesca reforma, digo eu. Em duas vertentes, que se interpenetram: a da conversão pessoal e a institucional.

Quanto à conversão e nas palavras do novo cardeal, A. Marto, que escolheu como lema para bispo "servidor da vossa alegria": "Porque para a maioria das pessoas, a fé parece um fardo a suportar e não a alegria de viver com uma presença querida de Deus--Amor." Este é o núcleo: a fé cristã não é uma obrigação, tem de ser uma exaltação, com todas as consequências. Cada um, cada uma tem de perguntar a si mesmo, a si mesma: o Evangelho é bom para mim? E só se a resposta for positiva é que se sente e vive que a sua mensagem deve ser entregue aos outros. Cá está: uma Igreja evangélica, simples, pobre, de todos, a começar pelos mais frágeis e abandonados, não autorreferencial, mas aberta, dialogante, não museu, independente do poder... Afinal, "o que o Papa propõe é uma Igreja mais evangélica. Não propõe nada de extraordinário". O que é verdadeiramente extraordinário é o Evangelho.

Daqui decorre tudo o resto. Para a pedofilia só pode haver tolerância zero, como Francisco tem feito, com todas as consequências. Por exemplo, depois de enganado, mandou investigar o que se passou no Chile, convocou os bispos, que acabaram por apresentar a demissão em bloco, pediu perdão e está a receber as vítimas. Quanto ao Banco do Vaticano, o procedimento tem de ser exactamente o mesmo.

Se a Igreja se auto-evangelizar, seguir-se-á daí a urgência de profundíssimas reformas institucionais. Logo de entrada, um exemplo: na criação dos cardeais, está presente, nas vestes, nas insígnias, uma ostentação que em nada condiz com a simplicidade do Evangelho. No conclave para a eleição do novo papa, assistiremos à entrada para a Capela Sistina só de cardeais, todos homens, de idade, sem família, que vão escolher um deles para presidir à Igreja universal. Ora, o maior número de membros da Igreja são mulheres. Onde estão elas representadas?

A Igreja somos todos, o Povo de Deus. Mas, de facto, o que há é uma divisão em duas classes: o clero e os leigos. Assim, face ao modelo actual de uma Igreja piramidal com um papa de poderes quase ilimitados, uma Igreja "gerontocrática, masculina, clerical", com mais de 1200 milhões de membros, mas onde o poder de decisão está, em última instância, nas mãos de poucos: o Papa, os bispos e a burocracia da Cúria, o sociólogo católico Javier Elzo propõe outro modelo para a Igreja do século XXI: "Uma Igreja em rede, à maneira de um gigantesco arquipélago que cubra a face da Terra, com diferentes nós em diferentes partes do mundo, cada nó com um relativo, mas real, nível de autonomia, nós inter-relacionados entre si e, todos eles, religados a um nó central, que não centralizador, que, na actualidade, está no Vaticano. No Vaticano (ou noutras partes do planeta), todos os anos se reuniria, em Sínodo, após uma selecção o mais democrática possível, uma representação universal de bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, leigos de ambos os sexos, membros da Cúria, todos sob a presidência do Papa, para debater sobre a situação da Igreja no mundo e adoptar, se for o caso, as decisões pertinentes. Decisões que, em determinadas circunstâncias, obrigariam o próprio Papa." Entre as questões a debater, estarão a inculturação do Evangelho, novos ministérios, o diálogo ecuménico, o diálogo inter-religioso, os seminários e a formação dos padres, problemas de bioética, da justiça, da paz mundial, das novas tecnologias...

É urgente resolver a situação das mulheres na Igreja. Afinal, onde está no Novo Testamento a impossibilidade de elas poderem presidir à celebração da Eucaristia?; com algum humor: se valesse o argumento de que na Última Ceia Jesus só ordenou homens, dever-se-ia ir às últimas consequências: a Igreja deveria ordenar apenas homens judeus. E há a questão dos jovens: mais de metade dos jovens europeus já não acreditam em Deus... Independentemente de se saber, segundo J. Elzo, que, correspondendo também à sociedade em que vivem, "há dados comprovados que dizem que 80% (se não mais) dos sacerdotes e bispos africanos têm uma vida como qualquer outro africano", é preciso pôr termo à lei do celibato obrigatório, pois a Igreja não pode impor como lei o que Jesus entregou à liberdade. Impõe-se uma educação em todos os domínios para a autonomia e a responsabilidade, pois frequentemente o que se deu foi a infantilização das pessoas. E que as liturgias sejam belas, meu Deus, e as homilias preparadas e inteligíveis. Ter coragem para rever e actualizar na doutrina: por exemplo, quanto ao pecado original, à virgindade de Maria, à interpretação sacrificial da Eucaristia, a expressões como "desceu aos infernos", "ressurreição da carne"...

Padre e professor de filosofia

terça-feira, 12 de junho de 2018

ONG Onda Solidária Internacional atribui Diploma de Mérito ao Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas Revolucionarias do Povo da Guiné-Bissau


É importante recordar que esta organização foi criada no Brasil pelo brasileiro Ricardo Calçado e hoje opera em muitos países, intervindo nas áreas da saúde, educação, meio ambiente e cidadania.

A ocasião serviu para o Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, agradecer o reconhecimento da população guineense e das organizações que operam no país das atuais ações das Forças Armadas guineenses. Segundo o General, não pode elogiar-se mas acredita que tem escolhido um caminho que pelas suas convicções, é o melhor para o povo da Guiné-Bissau e o último que as Forças Armadas podem escolher para garantir a paz e a estabilidade no país.

Ainda serviu do momento para mais uma vez garantir a sociedade guineense a continuidade da classe castrense em caminhar pelo mesmo caminho, da paz e da tranquilidade. Reiterou a sua constante declaração, de que “a paz chegou ao país e veio para ficar”. Deixou promessas de empenho, dedicação, encorajamentos para os novos militares e a disponibilidade total das FA em manter o clima social favorável já conquistado

Àrlia Soares, em representação do presidente da comissão organizadora (Quitos de Barbosa), disse que o ato serve para encorajar o General Biaguê Na N´tan a continuar com o mesmo espirito de liderança e da obediência. Aproveitou para explicar que o evento insere-se em encorajar todo o povo guineense no desempenho das mesmas funções e com objectivos centralizados no desenvolvimento da pátria.

Simultaneamente explicou que, esse acto, também serviu para motivar os cidadãos, quaisquer que sejam a empenharem-se nos mesmos objectivos o que logicamente possa no futuro merecer também a receção dum diploma de mérito similarmente.

Em representação do presidente da organização no país, Simão Carlos Con-Nô agradeceu o Chefe de Estado-Maior General, pela vontade, amor e dedicação a pátria e aproveitou para confirmar que a escolha da personalidade do General Biaguê Na N´tan para a atribuição do referido diploma tem a ver com o trabalho que tem feito pela união da classe castrense e na garantia da paz e tranquilidade no país.

Ainda agradecer todos inclusive a imprensa pela forma que tem apoiado as chefias militares na divulgação dos seus trabalhos.Com as FARP's

domingo, 10 de junho de 2018

A nova família de Jesus


"E vem a pergunta crucial: Para mim, quem conta realmente na vida? De quem me sinto mais próximo? Seria muito útil elaborar uma lista de nomes e, por cada um, louvar o Senhor que nos une e aproxima."

Reflexão de Georgino Rocha, 

Jesus está em Cafarnaúm. Vem da sua terra natal, percorre a Galileia e faz-se hóspede em casa de Simão. Entretanto, chama discípulos, cura doentes, entusiasma tantas pessoas que deixam tudo, o acompanham e acorrem a Ele. Está a ponto de nem sequer poder comer. (Mc 3, 20-35). É impressionante este início da missão em público. A novidade surpreendente mobiliza e interpela. A Nazaré, chegam ecos desta actividade e os familiares põem-se a caminho para O deter, “pois diziam: está fora de Si”. Mais tarde, Jesus volta à sua terra natal e nela é recebido de forma tão hostil que querem lançá-lo por um precipício. Estranha reacção esta, a de O considerarem sem juízo, em vez de se abrirem à novidade, à interrogação, à busca de sentido oculto nas aparências. E eu como me sinto? Qual a minha reacção face à novidade de Jesus? Não podemos nós correr um risco semelhante? Convém estar atentos, lúcidos e abertos.

“A hostilidade e o duro juízo dos familiares de Jesus, anota Manicardi, p. 107, iluminam um dos aspectos das suas escolhas: a sua vida itinerante e celibatária com uma pequena comunidade de discípulos, prejudica economicamente a família, que se vê privada não só de um dos seus membros, mas também das vantagens económicas e do prestígio social que a aliança com outro grupo familiar, garantida por um casamento, teria trazido”

As notícias a respeito de Jesus espalham-se, atingem Jerusalém, e os escribas decidem enviar uma embaixada fiscalizadora. Já trazem o parecer formado, acusando-O de possesso que age às ordens do grande chefe: Belzebú. Apesar disso, Jesus acolhe-os amigavelmente, chama-os para junto de si, e começa a falar-lhes em parábolas. Que atitude contrastante e intenção reveladora! Que pedagogia de Mestre que assume o nível dos seus interlocutores para iniciar a possível caminhada para a verdade. E que verdade!

Jesus faz descer a acusação doutrinal para a vida prática. Recorre a dois exemplos correntes: O reino e a casa. Ambos são objecto de tentação: o reino, de divisão; a casa, de assalto. No entanto, não correm perigo maior enquanto o defensor estiver vigilante e tiver forças para resistir. Jesus fazia alusão clara às forças do mal de que era acusado de estar possesso. Mas se vem alguém mais forte e amarra com segurança quem tem o dever de guardar, então a situação altera-se profundamente. É o que está a acontecer. As forças diabólicas estão vencidas e controladas. Marcos, o narrador da parábola, não regista qualquer contestação dos escribas. Por agora, calam-se, mas ficam a remoer a novidade.

Os discípulos acompanham a cena, vêem as atitudes, ouvem os diálogos e, possivelmmente, guardam na memória o que lhes pode servir de referência exemplar na vida futura. E não lhes faltarão acusações difamatórias e de condenação. A história regista um esclarecedor repertório.

Jesus tem um proceder que parece estranho para com os parentes, sobretudo a Mãe. E não é. Este momento constitui a grande revelação da Sua nova família. Avisado de que haviam chegado e vinham à sua procura, faz um gesto singular: “Olhando para aqueles que estavam à sua volta, disse: «Eis a minha Mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe» ”.

Este é o maior elogio a Maria de Nazaré, a afadigada mãe que, sabendo que o filho corria perigo, se põe a caminho para o proteger como dom que Deus lhe confiara e nela gerara. Este é o maior reconhecimento da dignidade de todos os que, à imagem de Maria, aceitam pela fé o convite para serem fecundos no apostolado. Este é o maior desafio que fica posto aos discípulos fiéis: situar sempre o valor da vida numa perspectiva de doação incondicional, ainda que seja preciso chegar ao martírio. Este é a maior provocação à Igreja cristã que, no proceder de Jesus, lança as raízes estáveis para os vendavais da história. Esta é a sabedoria que irradia: fazer das adversidades oportunidades de novas mensagens.

A passagem do Evangelho da liturgia de hoje faz-nos mergulhar na revolução que Jesus aporta para todo o mundo, pode ler-se no comentário de “Vers le Dimanche”, nº 498, 10 de Junho de 2018, Revolução que, para os sábios da sua época, é semelhante à que a teoria de Copérnico desencadeou. O Espírito age no mundo e vai ganhar ao chefe dos demónios. Revolução que, para a família de Jesus e dos que o seguiam com prazer, reveste a fisionomia de uma revolução familiar: os elos de sangue são suplantados pelos laços do coração e da fé, que o Espírito tece no seio da grande família humana que vem reconciliar. Revolução que nos quer atingir pessoalmente e nos faz olhar e reconhecer as pessoas da rua ou dos fiéis da missa como uma mãe, um irmão ou uma irmã potencial de Jesus. Como ´cada um de nós. E vem a pergunta crucial: Para mim, quem conta realmente na vida? De quem me sinto mais próximo? Seria muito útil elaborar uma lista de nomes e, por cada um, louvar o Senhor que nos une e aproxima.

Fazer a vontade de Deus é o segredo da nova fraternidade. Sem limites de espaço, de tempo, de credo político, de culturas, de sistemas económicos, de religião. Quem é honesto com a sua consciência iluminada pela sabedoria dos povos, codificada em sentenças ou registada em obras memoráveis; quem articula o bem pessoal com o bem comum e trabalha pela felicidade de cada pessoa concreta e de todas em conjuntos humanos; quem pratica o voluntariado em qualquer das suas expressões por amor de doação; quem professa explicitamente a fé cristã e vive em Igreja, sendo coerente em todo o seu agir…, estes estão abrangidos pelo olhar benevolente de Jesus, o rosto misericordioso de Deus Pai, e sob a protecção maternal de Maria. Que olha cada um na sua situação concreta e, por isso, diversificada, dando origem a um arco-íris de representações religiosas. Objectivamente, nem todas explicitam com a mesma intensidade o rosto do nosso Deus. Mas a diferença, não anula a realidade; antes a enriquece.

A Igreja constitui, por excelência sacramental, a nova família de Jesus. Faz-nos bem reconhecê-lo no conjunto de tantas outras formas de presença. Faz-nos bem apreciar e viver, nas relações pessoais e institucionais, o correspondente espírito filial e fraterno. Somos a nova família de Jesus!

domingo, 3 de junho de 2018

Pessoas e animais

"Com base na neotenia, o homem tem como tarefa na vida fazer-se a si mesmo: fazendo o que faz, está a realizar-se a si próprio. Por isso, está sempre inconcluído, numa abertura ilimitada, produzindo o novo. O homem nunca está satisfeito (de satis-factus: suficientemente feito), acabado."

Reflexão do Pe. Anselmo Borges, no Diário de Notícias

Uma das ameaças para o humanismo é a tese animalista que pretende que entre o ser humano e os outros animais não há uma distinção qualitativa, mas apenas de grau. É claro que, no quadro da evolução e uma vez que aparecemos dentro dela, não admira que encontremos já nos chimpanzés, gorilas, bonobos e outros, antecedentes, indícios do que caracteriza os humanos. Pergunta-se: se, como eles, o ser humano também sente, recorda, procura, espera, joga, comunica, aprende e inventa, quais são as notas especificamente humanas que podemos observar no desempenho dessas actividades por parte do ser humano, mostrando que é qualitativa e essencialmente distinto dos outros? Aponto algumas dessas características observáveis.

Na história gigantesca da evolução - o big bang foi há uns 13 700 milhões de anos e muito recentemente foi-se dando o processo da hominização -, sabemos que há ser humano, quando encontramos rituais funerários, diferentes segundo as culturas, mas sempre presentes. Aí, temos o sinal indiscutível de que já estamos em presença de alguém. A consciência da mortalidade, gastar tempo com os mortos, a sepultura, são acções especificamente humanas, essencialmente distintas das do animal.

O homem é por natureza animal symbolicum, talvez melhor, animal symbolizans (simbólico, simbolizante). Capaz de simbolizar, é constitutivamente animal loquens (animal falante). Inserida no mundo simbólico e simbolizante, surge a linguagem humana, e o que a define enquanto o próprio do homem é a sua dupla articulação em unidades significativas (monemas) e unidades distintivas (fonemas). Pela linguagem, abrimo-nos ao mundo, ao ser, à história, ao que há e ao que não há, a possibilidades, à transcendência, estabelecemos comunidade. Aristóteles viu bem, ao definir o homem como animal que tem logos (razão e linguagem), e assim, animal político: "Só o homem, entre os animais, possui fala. A voz (o som) é uma indicação da dor e do prazer; por isso, têm-na também os outros animais. Pelo contrário, a palavra existe para manifestar o conveniente e o inconveniente bem como o justo e o injusto. E isto é o próprio dos humanos face aos outros animais: possuir, de modo exclusivo, o sentido do bem e do mal, do justo e do injusto e das demais apreciações. A participação comunitária nestas funda a casa familiar e a pólis."

O animal é conduzido pelo instinto. Por isso, esfomeado, não se conterá perante a comida apropriada que lhe apareça. Face à fêmea no período do cio, não resistirá. O homem, pelo contrário, por motivos de ascese ou religiosos ou até pura e simplesmente para mostrar a si próprio que se não deixa arrastar pelo impulso, é capaz de conter-se, resistir, dizer não. Foi neste sentido que Max Scheler escreveu que o homem é "o asceta da vida", o único capaz de dizer não aos impulsos instintivos: não se encontra na simples continuidade da vida no sentido biológico. Autopossui-se, é dono de si mesmo, senhor de si e das suas acções e, por isso, responsável: responde por si e pelas suas acções, é um animal livre e moral.

Com base na neotenia, o homem tem como tarefa na vida fazer-se a si mesmo: fazendo o que faz, está a realizar-se a si próprio. Por isso, está sempre inconcluído, numa abertura ilimitada, produzindo o novo. O homem nunca está satisfeito (de satis-factus: suficientemente feito), acabado. Esta inconclusão manifesta que a sua temporalidade e o seu ser têm uma estrutura essencialmente aberta, de tal modo que se deve dizer que o homem é o ser do transcendimento: como escreveu Pascal, o homem mora algures entre "le néant et l"infini" ( o nada e o infinito), aberto ao Infinito. Precisamente porque os outros animais se adaptam ao real, sem superação, não podemos falar em transcendência animal. Também se revela aqui a capacidade criadora, inovadora, do homem, de tal modo que a vida da humanidade é autenticamente histórica, na abertura à Transcendência. O homem é o ser da pergunta e, de pergunta em pergunta, chega a perguntar ao Infinito pelo Infinito, isto é, por Deus. Neste sentido, é constitutivamente metafísico e religioso. Os animais comunicam, mas nunca se conseguiu que mesmo um chimpanzé faça uma pergunta.

O homem também repousa. Mas podemos constatar que, por vezes, o aparente repouso é outra coisa, no que chamamos ensimesmamento, como se vê em O Pensador, de Rodin: entrada dentro de si próprio, descida à sua intimidade única, à subjectividade pessoal. O ser humano vem a si mesmo como único. Aí, tem a experiência de eu enquanto própria e exclusiva, face ao outro, que é outro eu, outro como eu, mas simultaneamente um eu que não sou eu: um eu outro, impenetrável. Disse Jacques Lacan: "Possuir o Eu na sua representação: este poder eleva o homem infinitamente acima de todos os outros seres vivos sobre a terra. Por isso, é uma pessoa". Sabe e sabe que sabe, é autoconsciente, consciente de ser consciente.

E muitas outras características e notas poderia acrescentar, como fez o médico e filósofo Pedro Laín Entralgo - alguém interessado poderá consultar o meu livro Corpo e Transcendência: a vida no real, o pensamento abstracto, o riso e o sorriso, a contemplação e a criação de beleza - sublinho nomeadamente a música, referida ao indizível -, o amor de autodoação, o suicídio, a capacidade para o ódio, a admiração, a inveja e a extravagância, o choro, a esperança... Erguer edifícios jurídicos, o estabelecimento da lei e da igualdade de todos perante a lei são realidades que dão que pensar, na comparação entre o animal humano, pessoa, e os outros animais.

Last but not least: quem debate a questão de saber se a distinção entre os humanos e os outros animais é meramente quantitativa, de grau, ou qualitativa, essencial, somos nós e não eles. É preciso combater a ameaça de animalização da sociedade

A celebração do domingo humaniza a sociedade


"A lei ao serviço da vida e de tudo o que a qualifica na sua dignidade inviolável. Sem referência à pessoa e ao seu bem maior (o bem comum), a lei corre o risco de ser desajustada e, por vezes, iníqua."

Reflexão de Georgino Rocha

Jesus enfrenta, desde o início da sua missão pública, a desconfiança fria e distante dos fariseus que o vigiam atentamente e fazem provocações acusatórias. Marcos escreve o seu texto após a perseguição de Nero que dizimou muitos cristãos e a comunidade precisava de alento e confiança. O que havia acontecido a Jesus constituía um apoio espiritual reconfortante.

O confronto apresentado na leitura de hoje, Mc 2, 23-28 e 3, 1-6, é o último de uma primeira série que havia ocorrido: ora com os escribas a respeito do perdão dos pecados ao paralítico, ora com os publicanos e pecadores por estar sentado com eles à mesa, ora com discípulos de João e os fariseus por questões ligadas à prática de jejum, ora com os espias a propósito da observância do Sábado. A partir deste último, os opositores de Jesus tomam a decisão de o matar e elaboram um plano com este objectivo.

O confronto com os fariseus-espias ocorre ao sábado e desenrola-se em dois episódios, sendo o primeiro o das espigas apanhadas na seara do campo e comidas pelos discípulos porque tinham fome; e o segundo, o da mão ressequida curada na sinagoga. E a novidade de Jesus afirma-se cada vez mais: O amor de Deus que não faz acepção de pessoas, prefere os esquecidos da sociedade e quer que tudo, sobretudo as instituições e as leis, esteja ao serviço da vida na sua integralidade. Que mensagem oportuna e interpelante! Que mensagem luminosa e encorajante para todos/as os/as que lutam por causas nobres e irrenunciáveis! Que mensagem centrada no essencial para não nos perdermos em pormenores que, sendo importantes como as folhas das árvores, comportam o risco de esconder o tronco e a seiva que lhes dão suporte e vida!

“O centro da obra de Deus é o homem, afirma o comentário da Bíblia Pastoral a este confronto sabático, e prestar culto a Deus é fazer o bem ao homem. Não se trata de estreitar ou alargar a lei do sábado, mas de dar um sentido totalmente novo a todas as estruturas e leis que regem as relações entre os homens. Porque só é bom, aquilo que faz o homem crescer e ter mais vida. Toda a lei que oprime o homem é lei contra a vontade de Deus, e deve ser abolida”. Belo e iluminador comentário em que se apoia a presente reflexão dominical.

A novidade de Jesus apresenta-se em tons de arco-íris: O valor da consciência informada; a lei ao serviço da vida; o imperativo de defender o humano de cada pessoa e de todas; a indignação como reacção à falsidade imposta e à sua indignidade; o saber gerir o tempo com os seus ritmos: reconhecer Jesus como Senhor. E o arco-íris brilha na harmonia do conjunto das suas cores. Tratamos destes pontos com um olhar cristão - outros se podem facilmente destacar. Ainda que brevemente, fazemos algumas considerações.

A consciência é o santuário de Deus em cada pessoa. A sua dignidade sai reforçada com esta presença amiga e benfazeja, iluminadora e conselheira. Esquecê-lo é sujeitar-se ao risco da sua dimensão subjectiva, facilmente influenciável pela disposição anímica ou gosto espiritual, de circunstância. Recordar esta verdade encorajante é memória saudável e certeza ética de fidelidade crescente.

A lei ao serviço da vida e de tudo o que a qualifica na sua dignidade inviolável. Sem referência à pessoa e ao seu bem maior (o bem comum), a lei corre o risco de ser desajustada e, por vezes, iníqua. Em qualquer das suas formulações, na área da educação e das comunicações sociais, no campo político e económico, na esfera religiosa. A sensibilidade pessoal e a opinião pública estão muito despertas para esta realidade. E ainda bem! Urge, por isso, a prática de uma atenção lúcida e crítica ao ambiente cultural e religioso que nos envolve e condiciona. Quem tem dúvidas sobre este assunto?! De contrário, o humano que há em nós pode ser desvitalizado, adulterado e “vendido” como a última novidade.

A indignação ética perante a falsidade é um dos maiores imperativos humanistas e cristãos. Sempre. Mas sobretudo nos nossos tempos. Jesus dá o exemplo ao sentir-se espiado pelo bem que faz, pela novidade de que é portador, pelo proceder contra-corrente. Na sinagoga e no templo. Perante a obstinação dos “iluminados” e duros de coração. Indignação a todos os níveis, sempre que a mentira se sobrepõe à verdade e adquire livre circulação. Indignação consequente que promova os valores que são resposta ao que se denuncia.

Saber gerir o tempo e seus ritmos diversificados é, sem dúvida, outro grande contributo humanizante. “O quotidiano é o que nos revela mais intimamente”, afirma Michel de Certeau no seu ensaio dedicado à antropologia do quotidiano e ao levantamento dos seus sinais (Tolentino de Mendonça, O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas, p. 31). E este padre poeta e teólogo aconselha-nos a estar sentados à soleira do instante onde Deus nos pode surpreender e encontrar e lembra que “Jesus reconfigura o tempo partindo de outro olhar. O tempo da gramática de Jesus é o momento como oportunidade, ocasião para ser no aqui e no agora, mas em diálogo inseparável com o tempo de Deus. O instante, este instante não é apenas uma porção de vida que passa. Temos, por isso, de plasmá-lo como lugar de encontro, encarando a plenitude não como uma utopia inalcançável, mas como um convite” pág 53.

O sonho de Deus reveste o dinamismo de um projecto em realização na história: tem o seu começo quando nos alvores da criação Deus vê que tudo era bom e belo, com particular relevo para o par humano, homem e mulher; e assim abre novos horizontes ao tempo: trabalho oneroso e ócio gratuito e contemplativo, cuidado da terra e dos seus frutos e alegria de ser dom oferecido à felicidade dos outros, amor de redenção de limites e falhas/pecados, como em Jesus de Nazaré, o Senhor do Sábado feito doação até ao fim; esperança de transformação radical que, pela ressurreição, abre os horizontes da plenitude, da consumação final.

A liturgia de hoje deixa-nos perante um grande desafio que é apelo: Valorizar e santificar o domingo como o dia do Senhor”na consciência de que o futuro da fé e da Igreja passa, de modo particular, pela capacidade dos cristãos viverem o domingo, de santificarem o tempo”. (Manicardi, p. 105) E, assim, de sermos agentes de humanização da sociedade e da família, do negócio honesto e útil e do lazer fruitivo, do belo e da bondade, do instante aberto e do tempo, solar da eternidade.