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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA: JESUS ADOLESCENTE SURPREENDE PELA POSITIVA

Jesus, após ter feito doze anos, vai com os país a Jerusalém tomar parte na celebração da festa da Páscoa. Vai e fica, sem dizer nada a ninguém. Apresenta-se na reunião dos doutores que debatem a interpretação das Escrituras. Ouve explicações e faz perguntas. Dá respostas que causam espanto aos reconhecidos letrados. Deixa-os surpreendidos pela inteligência revelada. Questiona a mãe que, angustiada, o procura com José. Ouve calmamente a sua queixa e acolhe o seu desabafo colocando-lhes uma questão: ”Porque me procuráveis?” Abre horizontes novos aos estreitos espaços familiares de sangue: “Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?”. E não acrescenta mais nada, apesar deles não haverem entendido o alcance do que lhes disse. Compreenderão mais tarde em Nazaré e na realização da missão itinerante por terras da Galileia e arredores.

Incorpora-se no grupo que o procurava. Vem com os Pais para a casa da família. Exercita-se na obediência filial. Vive as leis do tempo, crescendo fisicamente e em idade, em sabedoria e em graça. Aprende a trabalhar, a ir à sinagoga, a observar o que acontece. Cultiva o silêncio interior de comunhão com o Pai e o olhar atento de solidariedade com os vizinhos. Faz da rotina diária a escola de aprendizagem do que é ser realmente humano. Sonha com o dia de se apresentar, entre pecadores, a João no rio Jordão e ouvir a declaração solene: “Tu és o meu Filho muito amado: em Ti pus toda a minha complacência”.

E levanta-se o véu da sua nova família que o envia como missionário itinerante a anunciar que Deus é Pai comum e os humanos são todos irmãos. Injecta assim uma nova seiva nas veias cansadas da humanidade e reorienta o sentido dos bens colocando-os ao serviço de todos.

Jesus adolescente é surpreendente. Não por rebeldia, mas por obediência. Não por afirmação auto-suficiente, mas por relação dependente. Não por capricho momentâneo, mas por atitude constante: fazer a vontade d’Aquele que o enviou.

As surpresas que o seu comportamento manifesta ajudam-nos a penetrar na grandeza da simplicidade da família de Nazaré, na busca persistente da verdade que se revela de forma cada vez mais nítida, na escuta paciente do outro que sente o peso das limitações e o cansaço dos esforços feitos, no respeito pela liberdade atenta e disponível para a prática do bem e a contemplação da beleza, na carícia de quem sabe apreciar o amor de Deus e se deixa envolver por ele.

“Baixar, vir a Nazaré, estar sob autoridade, obedecer perfeitamente, aqui está toda a sabedoria” – afirma São Jerónimo. E continua o diligente estudioso da Bíblia sagrada: “Isto é ser sábio com sobriedade. A simplicidade pura é «como a água de Siloé que corre em silêncio (Is 8, 6). Há pessoas sábias nas ordens religiosas; mas é através de homens simples que Deus se dignou unir-se a nós. Deus escolheu os humildes do mundo, os desprezados para, através deles, se unir aos que eram sábios no humano, poderosos e aristocratas, «para que ninguém se possa gloriar na presença do Senhor (1ª Cor ), mas naquele que desceu, veio a Nazaré e estava sob a autoridade de outros”.


Em Nazaré, a família de Jesus, Maria e José vivia sob o olhar bondoso de Deus Pai. Fazer a Sua vontade é a mais perfeita obediência que nos eleva aos seus desígnios de realização plena, na verdade que liberta e no amor que humaniza.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Faça-se em mim segundo a tua palavra

A disponibilidade de Maria é total, e incondicional a sua entrega. Após uma saudação que a felicita pela graça alcançada e um diálogo que lhe desvenda a densidade do futuro próximo, o seu “sim” é pleno e definitivo, alegre e confiante. Deus quere-a senhora e ela, por amor, faz-se escrava. Lc 1, 26-38. Ele enche sempre as mãos vazias e acolhedoras dos que confiam na sua promessa.

 O episódio tem lugar em Nazaré, aldeia da Galileia com uns cem habitantes. O protagonista é o anjo do Senhor que vem a casa de Joaquim e de Ana. A mensagem expressa-se no convite para ser mãe de Jesus, o Filho do Altíssimo. O ambiente deixa “respirar” simplicidade e o silêncio faz pressentir a sublimidade do acontecimento. O interlocutor é uma jovem virgem em estado singular: já não “pertence” à família por estar “comprometida” com José, nem ao esposo e seus familiares por ainda não terem celebrado publicamente a boda ritual. Tudo ocorre no espaço onde Maria se encontra, na vida fecunda do lar onde se cultivam as mais nobres tradições e forjam os grandes ideais: o amor de doação, a mútua ajuda na relação, a integridade na educação, a memória agradecida do passado, a esperança confiante no futuro, a leveza no perdão e a elevação na oração. Deus inclina-se para ela e para todos os que encontra disponíveis.

Maria, a agraciada do Senhor, em resposta ao convite-apelo dá uma orientação mais profunda à sua vida, ao seu estado de ânimo existencial. A feliz esperança do Messias vai realizar-se de modo admirável. Ela é a contemplada, a eleita entre todas as mulheres, para ser a mãe do Messias, tão ansiosamente aguardado. Ela vê confirmada, em si, a expectativa secular do povo judeu. O seu “seja como queres” abre caminho a uma nova e definitiva época da história da salvação. 

Maria, a virgem-mãe de Nazaré, é a mulher da palavra. Sabe acolher e escutar o mensageiro, dialogar com ele para aprofundar o conteúdo do “mistério”, interiorizar a feliz mensagem, disponibilizar-se para ser cooperante activa, nas mãos do Senhor. A fé confiante envolve toda a sua vida e capacidades. Nada fica de fora, nem o uso do tempo nem a reserva de energias. É fé em crescimento, acompanhando com a razão e guardando no coração as surpresas que, o desenrolar da missão de Jesus, lhe provocam.


A grandeza de Maria prolonga-se, agora, em cada um de nós que, no dia-a-dia, tem coragem de dizer sim, sendo fiel aos apelos do Senhor que provêm de tantas maneiras e encontram eco na nossa consciência: a voz dorida dos famintos de dignidade, o grito entristecido dos torturados e perseguidos pela fé religiosa, o silêncio provocante dos sobrantes descartados da sociedade do conforto, e tantos outros. Todos temos uma palavra a escutar e a dizer e que, no fundo, se vem a identificar com a atitude de Maria: dar vida a Jesus em nós e, por meio de nós, a outros que aguardam, confiantes, essa feliz oportunidade e indispensável ajuda.

domingo, 28 de setembro de 2014

Coerentes e responsáveis

As autoridades andam preocupadas e dão sinais visíveis de animosidade. E não era para menos. No templo, coração da religião e centro principal da economia, o Nazareno desafiava tudo e todos: expulsa os comerciantes, derruba as mesas dos cambistas e parte as cadeiras dos vendedores de pombas; acaba com o negócio explorador, denuncia a atitude dos que fazem do templo um covil de ladrões e realiza gestos de cura a cegos e a aleijados, gente marginalizada pela classe dirigente. Cita, em jeito de justificação, a Escritura: “A Minha casa será chamada casa de oração”.

Perante tal atitude, os responsáveis do templo aproximam-se de Jesus e pedem explicações, fazem-lhe a pergunta chave: Para procederes desse modo, que autoridade tens e donde te vem? A questão é séria. Está em causa a legitimidade, a honra e a honestidade, que são a base da sociedade de então. A autoridade consiste na capacidade de influir nos comportamentos dos outros e pode provir do nascimento e da posição social alcançada. O seu exercício era credível se o falar e o agir em público estivessem proporcionados ao estatuto social. Se não, era necessária outra forma de legitimação válida. De contrário, surgia a acusação de a pessoa estar inspirada pelo demónio.

Jesus de Nazaré tinha de se justificar. Recorre a um modo de proceder peculiar e sagaz. Responde com uma pergunta, lançando assim um desafio a quem o interrogava. O recurso à pergunta-desafio resulta plenamente. “O baptismo de João provém de Deus ou dos homens”? Depois de uma discussão clarificadora e calculista, respondem: “Não sabemos”. É que fosse qual fosse a resposta, o comportamento adoptado por estes não era coerente e responsável. De facto, se dissessem: “De Deus”, vinha a réplica: por que não o aceitastes? Ou “dos homens”, temiam a reacção do povo que reconhecia João como profeta. A pergunta hábil do Mestre surtira o efeito desejado. E para o ilustrar Jesus vai mais longe e conta a parábola do pai que diz aos dois filhos para irem trabalhar para a vinha familiar. E surge, de novo, em foco a questão de saber quem procede com coerência e responsabilidade. O Mestre Nazareno “força” a resposta, introduzindo a parábola com a interrogação:
“Que vos parece”? (Mt 31, 28-32). E acertaram em cheio no parecer dado.

De facto, está em maior sintonia com o Pai quem, apesar de dizer não inicialmente, muda de opinião e vai para a vinha; ao contrário, o outro que acaba por não ir, embora tendo-se mostrado a princípio disponível. A capacidade de mudança é uma das grandezas da liberdade humana. Em qualquer fase da vida pode surgir a oportunidade. É preciso estar atento, deixar-se interpelar e não perder o desafio.

Há sempre a possibilidade de um recomeço, de um reencontro, de uma viragem em busca da sintonia com o Pai, de um reafirmar o ser filho em comunhão, de um voltar a redescobrir o bem da família e a querer assumir oportunamente a sua responsabilidade.

Jesus, no desejo intenso de abrir os corações dos interlocutores, aduz o exemplo dos publicanos e das prostitutas. São como o 2º. filho da parábola: do “não” inicial passam ao “sim” generoso e entram no reino dos céus antes de quaisquer outros; os “herdeiros” por excelência deste reino assemelham-se ao 1º. filho e, por isso, são preteridos. Os chefes entenderam bem o ensinamento e, em vez de aceitarem a mensagem e se converterem, aumentaram a vontade de, logo que possível, eliminar Jesus.

Com qual dos filhos nos identificamos? Sinceramente, confesso que me esforço por me assemelhar mais ao terceiro, o narrador da parábola, a Jesus de Nazaré, apesar de tantas limitações. Ele é o Filho muito amado pelo Pai, o sim de Deus a cada um de nós e a todos. Ele é o sim da humanidade a Deus, dado de forma plena e definitiva, coerente e responsável.

sábado, 20 de setembro de 2014

Patrão bondoso, trabalhadores ciumentos



Reflexão semanal de Georgino Rocha


 «O proprietário vê em cada trabalhador uma pessoa com igual dignidade. Quer atender à sua necessidade e à da sua família (um denário equivale ao indispensável para a sobrevivência diária), quer mostrar que, satisfeita a justiça, há sempre espaço para a bondade e a gratuidade. Mas esta forma de proceder causa ciúmes e inveja a quem se julga com mais direitos. Daí, o diálogo amigável de esclarecimento.»

 Pedro continua com as suas dúvidas interiores. E quer dissipá-las. Tinha aderido ao grupo do Mestre sem condições. Havia assinado um contrato em branco. Depois de tudo o que viu e ouviu, acha que chegou a hora de o preencher: E desabafa: Deixámos tudo. Qual vai ser a nossa recompensa? Que nos espera no futuro? Com que podemos contar?
Jesus, que conhece bem os corações, dá-lhe uma resposta clarificadora. Aproveita a oportunidade do encontro com os discípulos e lança mão de um costume usual no campo que serve de base à sua parábola: a dos trabalhadores da vinha contratados pelo proprietário. (Mt 20, 1-16).

Este dono da vinha sai de madrugada, às nove da manhã, ao meio-dia, às três da tarde e, ainda, às cinco (uma hora antes de terminar a jornada laboral). Que o levaria a tantas saídas? Que segredo animaria a sua decisão? Que procurava com tanta urgência e preocupação?
De facto, uma grande paixão se esconde nesta azáfama. É o amor que tem à sua vinha, em tempo de colheita, é a consideração que lhe merecem os sem emprego e os tarefeiros, vindos para a praça com alguma expectativa, é a vontade clara de que haja trabalho para todos e a justa remuneração, é desvendar uma nova dimensão do ser humano na qual se espelha a bondade e gratuidade – reflexos qualificados do rosto de Deus.

E os trabalhadores partem, de imediato, para a vinha. Cumprem solicitamente o que lhe é pedido no tempo devido. Sem recriminações nem quezílias. Chegado o fim da jornada, vem o pagamento. E qual o critério usado pelo dono da vinha? Podia ter sido o de entregar a quem trabalhou o dia inteiro o denário combinado e ir reduzindo aos outros conforme as horas a menos que tinham andado no campo. Seria o justo acordado ou subentendido e estimado. E não havia problemas. Seria a aplicação do princípio em voga: a cada um conforme o seu trabalho, a sua produção, o seu mérito. Independentemente da pessoa, da sua necessidade e dignidade. Era o ensinamento dos rabinos, a prática normal entre os judeus e dos trabalhadores contratados. Seria o pensar de Pedro e, por isso, o não saber qual a recompensa a causa da sua aflição.

Mas a parábola apresenta uma outra atitude, um outro critério de actuação. O proprietário vê em cada trabalhador uma pessoa com igual dignidade. Quer atender à sua necessidade e à da sua família (um denário equivale ao indispensável para a sobrevivência diária), quer mostrar que, satisfeita a justiça, há sempre espaço para a bondade e a gratuidade. Mas esta forma de proceder causa ciúmes e inveja a quem se julga com mais direitos. Daí, o diálogo amigável de esclarecimento.

O Mestre de Nazaré condensa, nesta narração, o amor misericordioso de Deus para com todos, a sua benevolência para com os mais desafortunados, o convite a cada um a dedicar-se ao bem da “vinha” ao longo da vida, a aceitar a história como o arco de tempo em que se encontra e realiza a humanidade. Pedro tem aqui a resposta que procurava.

João Paulo II, na exortação apostólica “sobre os Fiéis Leigos”, publicada na sequência do Sínodo de 1987, faz uma interpretação maravilhosa desta parábola e lança um redobrado apelo a que ponhamos as nossas capacidades ao serviço da missão da Igreja nas suas comunidades e no mundo.