Com apenas 6 anos, Obama se sentiu pela primeira vez
como um estranho no ninho, um sentimento que se tornaria recorrente durante sua
infância e adolescência. De acordo com a biografia do presidente, cujo primeiro
capítulo foi publicado no “Washington Post”, Barry, como era chamado, era o
único aluno da sala de uma escola em Jacarta que não sabia falar a língua local
e precisava se comunicar com as outras crianças por mímica. Usava meias e
sapatos, calças compridas, enquanto os colegas iam geralmente de shorts e
chinelos. Durante um ano, a professora foi a única compreendê-lo na classe.
Naquela época, sua cor de pele não chegou a ser um problema, já que a turma era
bastante heterogênea, mas ela intrigava a todos.
— Sua mãe se apresentou como uma estrangeira, chegada
do Havaí. Ela apontou para Barry e disse: “Este é meu filho” — contou a
professora Israela Pareira. — Nós, eu e os alunos que os víamos pela primeira
vez, ficamos nos perguntando: “Como a pele de sua mãe é clara enquanto a do
filho é mais escura?”
Filho de uma americana com um queniano, seu pai
naquela época já havia abandonado a família e voltado para o Quênia. Para os
colegas de turma, a mãe, Ann, era mais exótica do que Barry.
Em Los Angeles, negritude
de Obama é questionada pela 1ª vez
Após se formar no colégio no Havaí, Obama foi para Los
Angeles. Na Califórnia, pouco falava sobre sua ascendência africana. Foi uma
época de confusão para o jovem. Ressentido com a ausência do pai, o adolescente
nunca tinha visitado o Quênia e pouco sabia sobre seus parentes africanos. Os
próprios colegas negros na universidade viam Obama com desconfiança e chegaram
a apelidar o futuro presidente americano de Oreo, um biscoito de chocolate com
recheio de baunilha famoso nos EUA. Muito multicultural, o criticavam com
desdém.
— Barry Obama, que tipo de nome é esse para um irmão?
— perguntou certa vez o amigo Eric Moore, que já havia visitado o Quênia. — E
ele respondeu: “Bem, meu nome verdadeiro é Barack Obama.” E eu disse: “Bem, é
um nome forte: Rock, Buh-Rock.” E nós dois rimos. Ele continuou: “Eu uso Barry.
Assim não tenho que me explicar para o mundo. Você é meu bro, posso te
contar meu passado.”
Mas a questão racial ganhou mesmo força na vida de
Obama quando ele se mudou para Nova York e começou a estudar na Universidade de
Colúmbia. Na busca pessoal por sua identidade, o livro “O homem invisível”, de
Ralph Ellison, se tornou acessório inseparável do democrata.
Data desta época, as primeiras cartas de Obama para
uma namorada, lamentando sua falta de estrutura familiar e a ausência de uma
tradição na qual se apoiar ou, ao menos, se identificar. Filho de pais tão
diferentes e crescendo em várias cidades do mundo, ele questionava aos 20
poucos anos suas verdadeiras raízes.
Confuso, ele embarcou numa viagem de autoconhecimento
para Indonésia e Havaí, mas se viu ainda mais frustrado. Foi em um trabalho
como supervisor de um grupo de trabalhadores temporários em Nova York que Obama
experimentou o maior senso de pertencimento até então. “Sinto uma grande
afinidade com negros e latinos (que compreendiam três quartos da força de trabalho),
a maior em muito tempo”, confessou à namorada da época, Alex McNear.
Em Nova York, Obama deu o primeiro passo para assumir
sua identidade racial. Primeiro, o jovem deixou de lado a postura de
estrangeiro para assumir de vez seu lado americano. O segundo passo foi
natural: trazer à tona o lado racial. Pessoas próximos ao atual presidente
dizem na biografia que até então Obama não tinha muitos amigos negros e
costumava rejeitar essa identidade, assumindo sempre a postura de um outsider.
Se em Nova York Obama fez as pazes com seu lado
americano, foi em Chicago que sua percepção da identidade negra ganhou força.
Na nova cidade, o presidente começou a trabalhar em um projeto de
desenvolvimento de comunidades e passou a frequentar cada vez mais casas de outros
negros. No programa, Obama encontrou um ambiente barulhento e acolhedor no qual
nunca tinha vivido. Sua trajetória fora até então marcada pela solidão, e, em
alguns aspectos, o presidente ainda preserva um lado discreto e reservado.
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