Jesus recorre ao contraste para realçar
a novidade de vida dos discípulos. Lembra sentenças da Lei e dos Profetas muito
apreciadas pelos judeus fiéis e faz-lhes uma interpretação radical em que
desvenda o seu alcance genuíno e sentido integral. Justifica a sua atitude
dizendo: “Não vim anular, mas dar plenitude”. E enumera os preceitos referentes
ao homicídio, ao adultério, ao divórcio, ao juramento, à não-violência e ao
amor aos inimigos. Visualiza assim o novo rosto de quem é luz do mundo e sal da
terra, irradiando felicidade. (Mt 5, 17-37).
A lei é precisa para congregar vontades
e definir regras de convivência; mas, sem amor de doação, a vida desumaniza-se
e a sociedade perde vitalidade. As normas são indispensáveis para gerar a
harmonia na família e noutras formas gregárias, mas sem misericórdia compassiva
e tolerante, a relação humana degrada-se e o egoísmo impõe-se. Os códigos têm
valor enquanto regulam interesses e articulam funções nas organizações, mas sem
atenção respeitosa à pessoa e ao bem comum, o conjunto desfigura-se e perde o
sentido de serviço público. De facto, as Escrituras registam mandamentos e
sentenças que definem o comportamento fiel do povo eleito para viver segundo a
vontade de Deus. A situação actual reforça a importância desta urgente
conjugação que dá rosto humano à realidade e segurança à liberdade.
Jesus menciona situações muito
apreciadas pelos escribas e fariseus e desvenda-lhes a novidade radical que
propõe e recomenda. Está mandado não matar. É muito positivo, mas é preciso ir
mais longe no respeito pela vida humana: ser fraterno, evitar contendas e
insultos, violências e torturas, perseguições e guerras. Todo o ser humano
humano está chamado à plenitude da vida.
Está mandado ser fiel no casamento, não
cometer adultério. É bom e construtivo, mas Jesus quer conservar a liberdade do
coração face a possíveis ameaças: olhares de sedução, desejos de posse,
pensamentos de satisfação erótica. Todo o ser humano tem direito a preservar a
sua intimidade, a defender a sua castidade integral, a evitar a sua devassidão.
Está mandado não jurar em falso,
invocando o nome de Deus. É muito bom não envolver Deus nas contendas armadas
por pessoas desavindas. É também muito bom não pôr a sua vida em risco ou
outras realidades sagradas. Basta a palavra honrada, a força da coerência
honesta, o selo eficaz do “sim, sim; do não, não”.
A realidade, porém, está longe deste
ideal de vida saudável. Há palavras injustas que semeiam suspeitas e fazem
condenações, que envenenam a convivência e avolumam a irritação e a mesquinhez.
Também entre os cristãos chamados a viverem como discípulos missionários. O
Papa Francisco comprova este facto e confessa com grande simplicidade: “Doí-me
comprovar como em algumas comunidades cristãs, e mesmo entre pessoas consagradas,
consentimos diversas formas de ódios, calunias, difamações, vinganças, ciúmes,
desejos de impor as próprias ideias à custa de qualquer coisa, e até de
perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas. A quem vamos
evangelizar com estes comportamentos?”. E reafirma o seu propósito de trabalhar
por uma Igreja em que “todos podem admirar como vos cuidais uns aos outros,
como vos dais alento mutuamente e como vos acompanhais”.
Os discípulos são convidados a
prosseguir a plenitude de vida, a não ficar a meio do percurso, acomodando-se
no bem alcançado ou no sonho satisfeito ou ainda no não fazer o mal a ninguém,
seja de que espécie for. Jesus dá o exemplo. Ensina e aconselha o que faz.
“Vistes o que vos fiz? ... Fazei-o vós também”. Por isso deixa claro o ideal
mobilizador das energias humanas: Sede perfeitos e misericordiosos como o Pai
do Céu. E garante a força animadora do Espírito Santo.
Ben-Sirá, o autor do Eclesiástico,
afirma na leitura de hoje: “Se quiseres, guardarás os mandamentos: ser fiel
depende da tua vontade”. E faz um rasgado elogio à liberdade de escolha que é
reflexo da sabedoria de Deus. Saber escolher para viver em plenitude, eis o
desafio constante do discípulo fiel que escuta o coração e se vê envolvido no
emaranhado de tantas solicitações aliciantes de acomodação fácil.
A liberdade está nas mãos de cada um/a.
Não para nos deixarmos escravizar pelos impulsos da natureza ou pela
banalização dos valores éticos. Nem para termos medo de tomar decisões
responsáveis. Mas para a apreciarmos como a maravilha que nos faz crescer para
a verdade e para a sabedoria, para a plenitude de vida a que estamos chamados
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