Não há desenvolvimento
sustentável sem segurança, e tratando-se de um país a segurança implica, em
primeiro lugar, uma estruturação lógica e capacitação do Estado com força e
autoridade moral que o torne respeitável e respeitado pelos cidadãos. Neste
aspeto a organização das forças militares e paramilitares e sua submissão ao
poder político é de capital importância. Mas segurança para um país, em sentido
lato, não se limita apenas ao papel reservado às forças militares e
paramilitares, porque inclui também segurança alimentar, segurança sanitária e
segurança social, ou seja, segurança nas diferentes fases ou situações de vida
dos cidadãos
Carlos
Gomes *
É indiscutível o valor da escola
convencional por que todos temos que passar, aqueles que não tiveram o
infortúnio de serem abandonados na condição natural de ignorância, que nos é
comum a todos quando nascemos. A escola da vida porém, sendo uma dádiva
gratuita e universal, não deve ser desprezada, porque o seu valor também é
indiscutível, como contribuição para a nossa aprendizagem e formação integral.
Para qualquer um, o ideal é ter oportunidade e conseguir ser aluno atento em
ambas as escolas, o que é sempre melhor que ter oportunidade ou ser atento só
numa delas, ou pior, não sê-lo em nenhuma delas.
Para a
escola da vida não existem livros, nem alfabeto ou sistema de numeração e as
lições não precisam sempre de ser recapituladas; e nem sempre há um professor
disponível para ensinar ou para examinar o aprendido, porque nesta escola a
oportunidade ou experiência de vida, a atenção, a observação, a análise e a
conclusão do aluno, são fundamentais.
Parece ser
no entanto que as grandes lições da escola da vida se associam com mais
frequência às más experiências que às boas, embora de ambas se podem extrair
matéria de aprendizagem. Se me perguntassem porque é que isso acontece, sem
mesmo estar seguro da veracidade da minha resposta, diria: "devido a força
do mal", só porque o que é mau já vem dentro de nós, ou se aprende e se
consegue executar com maior facilidade.
O fazer mal,
tal como o fazer errado, o destruir ou fazer com imperfeição requer menos
esforço que os seus contrários que exigem muito. Para estar errada uma palavra
escrita por exemplo, basta-lhe uma letra, mas é preciso todas as letras
corretas para a palavra não estar errada. E se construir pode exigir
conhecimento ou arte e por vezes muitos anos de escola ou muito esforço,
destruir não necessita de tanto para se levar a cabo. Também é indiscutível que
é mais cómodo e dá menos trabalho a imperfeição do que a perfeição porque se a
primeira dá liberdade para um ou mais defeito, a segunda exige rigorosamente
zero defeito, o que implica muito mais esforço.
Recordo duma
lição da escola da vida relacionada com uma má experiência que tive há muitos
anos em Bissau, na altura em que ainda tinha 8 ou 9 anos de idade e estava no
período de férias escolares que na Guiné coincide sempre com a época das
chuvas, período em que é habitual muitos se aproveitarem para se dedicar a
agricultura, inclusivamente a de pequeno cultivo no quintal. Eu, então sem
pedir conselho a ninguém e acreditando ser capaz de fazê-lo com sucesso, decidi
ensaiar a cultivar o milho numa parte do quintal da nossa casa.
Muito
entusiasmado e sonhando com uma colheita de milhos bonitos, frutos do meu
trabalho, peguei por primeira vez na enxada com essa finalidade, preparei a
terra para semear, lancei a semente do milho que passados alguns dias
germinaram, e quando já davam pequenas folhas verdes fiquei ainda mais
entusiasmado. Qual foi a minha frustração alguns dias depois quando vi umas
galinhas que vieram e destruíram a minha lavoura. Toda a minha expectativa e o
meu trabalho em vão por causa dumas galinhas invejosas. Paciência! A culpa foi
minha porque não contava com isso devido a minha falta de experiência nesta
matéria.
Passou esse
ano e no seguinte não desisti do sonho de comer milho por mim cultivado e
estando nas mesmas circunstâncias do ano anterior, acreditando ter aprendido a
lição com a má experiência e ter solução para superá-la, enchi novamente o
peito de entusiasmo e desta vez, antes de lançar a semente do milho, arranjei
material e fiz uma vedação, de maneira que as galinhas não pudessem entrar na
minha horta e assim ia tudo nos conformes, as folhas do milho se despontaram e
se desenvolviam aos olhos distantes das galinhas até que apareceram destas vez
uns cabritos e carneiros ordinários e abusadores para deitarem abaixo a vedação
que tanto me tinha custado fazer e comerem tudo outra vez. Que remédio! Posso
culpar à quem, senão à mim mesmo mais uma vez?
Foi a minha
segunda e última frustração na tentativa de cultivar o milho, porque nos anos
que se seguiram não voltei a ter qualquer iniciativa do género. O esforço não
compensado tinha dado lugar a desmotivação. O que é que se pode concluir destes
acontecimentos? Foi tudo uma perda de tempo, ingenuidade, ignorância ou
imprudência? Foram experiências desagradáveis que podem ocorrer a qualquer
pessoa nas mesmas circunstâncias, mas que neste caso aconteceu à uma criança?
Foram lições de vida ou lições para a vida? Concordo com tudo isso!
Mas se de
todo o esforço do trabalho da lavoura não pude beneficiar nem de uma espiga de
milho por causa daqueles "malditos animais" já não digo o mesmo da
experiência e do que aprendi com a interpretação dos resultados e isso graças
àqueles "benditos animais" que afinal não tinham nada contra mim,
estavam apenas a satisfazer as suas necessidades de sobrevivência ao mesmo
tempo que me estavam a dar uma oportunidade de assistir à uma lição de vida,
cujo significado só mais tarde poderia compreender melhor.
Como as
experiências más marcam muito e são fáceis de recordar, tendo a oportunidade de
refletir sobre elas, numa fase de vida mais distante e com mais maturidade,
pude compreender melhor que para o desenvolvimento de um trabalho e do seu
fruto não basta o entusiasmo e a atividade, antes de mais, o conhecimento ou
saber é fundamental e a segurança é determinante em todo o processo.
No caso da
agricultura, se para além das atividades de semear, da rega e fertilização ou
nutrição do cultivo, importa ter conhecimentos sobre a qualidade da semente, as
condições físicas e químicas do solo e as condições climáticas em que ela é
praticada, não é menos importante a proteção contra as ameaças e destruições
por animais, quando não por parasitas, pragas ou doenças e, no fim do processo,
quando já os frutos estão à vista, torna-se também imperativo precaver-se de
outros parasitas racionais ou irracionais, que não aparecem nunca no momento de
cultivar, mas são os primeiros a aparecer quando o momento é de colheita e benefícios.
Pude
concluir ainda com esta lição de vida que a ameaça pode não ser sempre a mesma,
como me tinha acontecido; uma vez foram as galinha invejosas e defendendo-se
delas, vieram os cabritos e carneiros ordinários e abusadores. As ameaças
podem mudar de natureza ou de forma pelo que devemos ter isso em
consideração para nos prepararmos melhor.
O
desenvolvimento de um país tal como o desenvolvimento de uma planta necessita
de conjugação ou melhor de união e harmonia destes três ingredientes: "saber,
trabalho e segurança" que aqui simbolicamente traduzimos por "canetas,
enxadas e armas" e que necessariamente têm que marchar juntas, de mãos
dadas e passos acertados, em direção ao mesmo objetivo e guiados pelos mesmos
princípios morais e éticos, em busca do desenvolvimento pretendido.
Porque é que
os países desenvolvidos ou com sérios propósitos de desenvolvimento investem
muito e se empenham afincadamente na defesa, segurança e estabilidade interna?
Qual é o país com este perfil que não confere alta prioridade à informação,
educação e investigação científica e tecnológica como instrumentos de
conhecimento e saber? Porque é que nestes países o investimento no trabalho, na
sua organização, segurança e qualidade, são prioridades, independentemente do
produto final ser para consumo interno ou para exportação? E é possível o
desenvolvimento sem trabalho? A resposta a esta última pergunta é obviamente
não, porque mesmo tendo todos os recursos naturais possíveis, há que dar-se
pelo menos ao trabalho de explorá-los e controlá-los, para se poder tirar
benefícios deles.
Não há
desenvolvimento sustentável sem segurança, e tratando-se de um país a segurança
implica, em primeiro lugar, uma estruturação lógica e capacitação do Estado com
força e autoridade moral que o torne respeitável e respeitado pelos cidadãos.
Neste aspeto a organização das forças militares e paramilitares e sua submissão
ao poder político é de capital importância. Mas segurança para um país, em
sentido lato, não se limita apenas ao papel reservado às forças militares e
paramilitares, porque inclui também segurança alimentar, segurança sanitária e
segurança social, ou seja, segurança nas diferentes fases ou situações de vida
dos cidadãos.
A segurança
vista portanto nesta perspetiva abrangente deixa claro que depende também da
organização do Estado, do trabalho de toda a sociedade e dos recursos de
informação, conhecimentos e saberes disponíveis. A necessidade da segurança tem
de ser reclamada, a seu tempo e em todas as suas vertentes.
Não pode
haver desenvolvimento onde não há segurança e reina a insegurança ou
instabilidade ou seja onde aqueles que trabalham não estão protegidos ou ainda
onde o trabalho não culmina com a produção em quantidade e qualidade desejadas
mas com a frustração.
Não pode
haver desenvolvimento onde a educação, a informação, os conhecimentos e saberes
não estão na primeira linha da segurança ou da defesa do território e dos
cidadãos contra ameaças interna e externa que podem por em causa a estabilidade
e o progresso da comunidade, tornando-a vulnerável à muitos males ou ameaças
que, como já vimos, podem mudar de natureza e de forma.
Não pode
haver desenvolvimento sustentável e seguro onde não é de todos a obrigação de
participar na defesa e segurança do território ou onde o direito de
participação na produção de bens e na distribuição da riqueza nacional não é
extensivo à todos os sectores ou estratificações da sociedade.
Não pode
haver desenvolvimento onde o trabalho não é organizado, desenvolvido e
dinamizado a partir e na base dos progressos da informação e dos conhecimentos
e saberes adquiridos, porque sempre que o conhecimento e o saber não for
valorizado e não tiver reflexo prático no trabalho, vai com certeza haver pouca
produtividade, mesmo que haja muita atividade.
Como o
desenvolvimento é um processo na qual interagem diversos sectores, torna-se
importante a compreensão da forma como o desempenho de um sector pode
influenciar o desempenho de outros sectores. Assim, um mau desempenho do
sistema político pode condicionar instabilidade política e militar,
desorganizar diversos sectores, travar os investimentos, deprimir a produção e
fazer atrasar ou regredir a economia. Contrariamente, melhor organização e
desempenho do sistema político e administrativo terá reflexos positivos no
desempenho e equilíbrio de todos os demais sectores da sociedade e favorece a
produção e a economia, além de ter uma contribuição positiva para a justiça,
confiança e paz social. Melhor educação é contribuição fundamental para melhor
saúde e melhor produção, maior consciência social e melhor intervenção política
e social da população. Melhor saúde confere à população maior capacidade
produtiva e melhor qualidade de vida. Melhor produção e melhor distribuição da
riqueza nacional é garantia de melhores possibilidades para a educação, para a
saúde e para a segurança social. Melhor organização e desempenho do sistema
judiciário é imperativo para a preservação da ordem social, para o reforço da
autoridade do estado, para a promoção da estabilidade social e de tudo o que
dele depende.
Pode haver
desenvolvimento se o sistema político e administrativo tiver estruturação e
funcionamento racionais, se for capaz de reunir consciência e mais-valias
nacionais e se poder beneficiar de conhecimentos e saberes necessários para
proporcionar à sociedade condições de paz, estabilidade, organização e justiça
para que todos os demais sectores da sociedade possam cumprir o seu papel.
Pode haver
desenvolvimento se a educação, a informação e a comunicação forem priorizadas,
se tiverem qualidade e se o acesso a elas for garantido à toda a sociedade no
seu conjunto, sendo elas instrumentos de aquisição, preservação e transmissão
de conhecimentos e saberes, além de constituírem meios de formação da
consciência nacional e motivação social.
Pode haver
desenvolvimento se os sectores de saúde, da justiça e da defesa e segurança
forem priorizados à altura das suas responsabilidades como sectores que estão
na primeira linha da proteção da sociedade contra doenças, desordem social,
violência, desestabilização e outras ameaças internas ou externas à integridade
da nação.
Pode haver
desenvolvimento se o sistema produtivo e os restantes sectores da economia
poderem beneficiar de organização, recursos e gestão adequados, se tiverem
acesso à conhecimentos, saberes e informação avançados, se incluírem o máximo
possível da população ativa e se lograrem produção e distribuição de
rendimentos, de forma a assegurar pelo menos as necessidades da população em
relação à alimentação, alojamento, saúde e segurança social.
Cabe ao
sistema político e administrativo a responsabilidade de liderar ou orientar a
sociedade na direção certa do desenvolvimento, tarefa pela qual lhe é exigido
qualidade e capacidade de contribuir de forma decisiva ao restabelecimento da
confiança e motivação social, por via do exercício de identificação, análise e
resolução de conflitos sociais e de outros fatores de bloqueio, de estagnação e
de retrocesso do desenvolvimento.
Esta
confiança e a motivação social que são indispensáveis para um desenvolvimento
saudável, equilibrado e sustentável, exigem vigilância, prevenção e combate sem
tréguas às pragas que podem minar o progresso de qualquer sociedade, tais como:
impunidade e cultura de violência, tribalismo, sectarismo, nepotismo,
amiguismo, clientelismo, corrupção, peculato, promiscuidade de negócios
privados com negócios estatais, tráficos ilícitos, intriga política, fraude
eleitoral, compra de consciência, desrespeito ou perseguição de adversários
políticos, abuso de poder ou de autoridade, desobediência militar,
desvalorização de competências, não reconhecimento do mérito, promoção do medo
e da ignorância, fuga de capital, fuga ou emigração de cérebros, de quadros e
de outros trabalhadores qualificados, etc.
Na
perspetiva destas linhas de pensamento, pode-se concluir que todos os cidadãos,
filhos e amigos do nosso país são precisos e devem poder participar no seu
desenvolvimento, pelo que é fundamental que seja alcançada uma condição prévia
- reconciliação e reformas genuínas - que permita apaziguar e
revitalizar a sociedade e possibilitar a conjugação, harmonização e coordenação
destes três ramos do grande exército social para o desenvolvimento: "canetas,
enxadas e armas".
Convido a
todos a refletirmos em conjunto e a fazermos propostas construtivas em prol do
nosso futuro e da nossa casa comum, porque as más experiências são também
lições de vida e para a vida.
Carlos A.
Gomes
* Médico
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