quinta-feira, 23 de abril de 2015

Guiné-Bissau, a voz do silêncio é a voz de combatente

Por, Braima Fal Kamara

É a voz daqueles (as) que lutaram pelos dois povos;
É a voz do arrependimento no silêncio irrecuperável, perante uma vida perdida;É a voz de revolta sem músculos, sem folego para erguer o sofrimento;É a voz daqueles (as) que vivem dia a dia nos hospitais entre a vida e a morte;É a voz daqueles (as) que ficaram nas matas de Gadamael, Ganturé,Gandjambarri, Guiledji, Kafin, Komo, Kopá, Kubusseck , Madina Boé, Sanconha,Tite, Tchurbrick, e únal…. etc
É voz da recordação de camaradas que ficaram pelo caminho;É a voz daqueles (as) inocentes mortos pelas balas perdidas;

Do combate ao desespero, do reconhecimento ao desperdício de uma luta sem tréguas com nome daqueles que deram a vida e juventude pela causa da independência, que hoje é o motivo de reconhecimento politico ou como motivo de elevação para certos fins (conquistas politicas versus promoção na careira)

O reconhecimento, fictício que põe em causa a licitude de quem é verdadeiro combatente e, de quem é filho de combatente que teve oportunidade de estar nas matas (barracas), porque os seus pais combatiam ao lado de movimento libertador. É a altura de dissipar todas as dúvidas. Finalmente quem é combatente?

1º É aquele que teve oportunidade de lidar com a guerrilha, pelo facto dos seus pais estarem a combater a favor da independência, mas com a idade que não permite a sua participação em quaisquer tipos de apoio na luta.
2º É aquele que estava na escola criada pelo partido libertador, que nunca apoiou em quaisquer acto de luta, que teve como objectivo estudar, ou que se encontrava na escola em Konacri.
3º É aquele que ingressou nas fileiras do braço armado do PAIGC no fim da luta ou;
4º São todos aqueles que se encontravam nas zonas ocupadas pelo PAIGC.

Numa logica de ver as coisas, o verdadeiro combatente, depois de quarenta e um anos (41) de independência, com a luta armada que durou onze anos (11) e de uma forma mais ou menos aproximada, para participar de forma activa leva a pensar a idade mínima de 14 anos para uma contribuição eficaz e útil. Nesta logica, nesta altura, todos os combatentes devem ter idade da reforma.

Falta de organização do próprio movimento de libertação leva os combatentes a uma situação lastimável. Não há registo de números de efectivos que estavam a lutar ao lado do PAIGC, isso provoca situações que fazem com que até hoje os verdadeiros combatentes não possam ser reconhecidos. O método utilizado para reconhecimento dos combatentes não é dos melhores (testemunha), isso significa que, se todos aqueles que fizeram parte da sua zona de combate faleceram, pode tornar difícil o seu reconhecido como combatente. Numa situação de quase impossível reconhecimento dos combatentes sobrevivos, que no meu entendimento podia ser mais simples se existisse registos dos combatentes de acordo com a sua entrada na fileira e frente de combate.

É de salientar que na impossibilidade de identificar quem participou de forma activa na luta, no nosso entendimento devem ser considerados combatentes todos aqueles que se encontravam na zona ocupada pelo PAIGC e que contribuíram de forma directa ou indirecta para causa da independência e sem esquecer que temos uma outra formação política que combatia para mesma causa (FLING) e que também os seus militantes merecem reconhecimento. Também aqueles que sem serem militantes dos dois partidos mas contestaram a presença dos colonialistas.

Passados 41 anos, não é possível saber por parte de movimento da libertação e de governo da G-Bissau e C-Verde quantas pessoas perderam a vida na frente de combate e nem aqueles que por motivos de um familiar seu pertencer o movimento foi levado e nunca mas voltou. Acho que é hora de fazer balanço de quanto custou a nossa luta pela independência da G-Bissau e C-Verde.

A Melhor maneira de reconhecer combatente é criar memória daqueles que ficaram pelo caminho e que não é lembrado e a publicação da lista de quantos ficaram pelo caminho que não tiveram oportunidade de presenciar o tão almejado sonho da Independência e, a partilha da responsabilidade por ambos os Estados (G-Bissau e C-Verde). Nesta altura, onde constatamos alta discrepância na responsabilidade dos Estados para com aqueles que combateram num país para libertação de dois Estados.

A unidade tem de prevalecer e, o sentido de responsabilidade e da boa-fé tem de continuar patente em ambos os Estados, é com base na unidade e luta que a G-Bissau e C-Verde fizeram luta conjunta, no nosso entendimento ainda é oportuno recuperar o mesmo slogan no sentido de partilha da responsabilidade entre G-Bissau e cabo-Verde, o governo de C-Verde deve pensar a forma de constar no seu orçamento geral de Estado (OGE) a fatia daqueles que contribuíram para a libertação daquela Nação. Hoje a maior parte deles se encontra numa situação muito lamentável. É a obrigação de ambos os Estados reconhecer aqueles que combateram e que neste momento se encontram na terceira idade, para que a última fase das suas vidas seja de orgulho e não de arrependimento.

A luta levada a cabo pelo PAIGC em nome da liberdade é o símbolo do mais puro pan- Africanismo, por isso, Cabo Verde tem de tomar em consideração esta situação e pensar qual a maneira de ser mais grato com os combatentes.

E o Estado deve ter o papel activo no reconhecimento daqueles que por questões de democracia e liberdade de escolha optaram por combater ao lado da antiga potência colonial, que nesta altura encontra as suas sortes nas terras da G-Bissau. A mais ínfima responsabilidade que um Estado poderá ter para com o seu povo que trabalhou no Estado terceiro é, exigir o reconhecimento através do pagamento das reformas.


Nota: Os artigos assinados por amigos, colaboradores ou outros não vinculam a IBD, necessariamente, às opiniões neles expressas.

Sem comentários :

Enviar um comentário


COMENTÁRIOS
Atenção: este é um espaço público e moderado. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.