sábado, 14 de março de 2015

Dois anos com Francisco Papa

Crónica de Anselmo Borges
 no DN

Fez ontem dois anos que, ao anoitecer, perante uma multidão expectante na Praça de São Pedro, em Roma, compareceu, humilde e simples, sem a pompa da indumentária papal, com uns sapatos negros já gastos e uma cruz peitoral barata, Jorge Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, que os cardeais tinham escolhido como novo Papa. "Buona sera!" (boa noite), foi a saudação de um homem normal. Que o tinham ido buscar ao fim do mundo para bispo de Roma. E, antes de dar a bênção, ele próprio pediu a bênção ao povo e que rezassem por ele. Agora, chamava-se Francisco. Ainda quiseram começar a tratá-lo por Francisco I, à maneira das dinastias, mas ele que não, era simplesmente Francisco. Lembrando Francisco de Assis, a caminho de uma Igreja pobre e para os pobres, como Jesus queria e fez. Logo no dia seguinte, foi normalmente pagar o seu alojamento daqueles dias em Roma, e acabaram as limusines, e foram de autocarro, ele e os cardeais. E que não queria viver no Palácio Apostólico, precisava de conviver, ficou a habitar na Casa de Santa Marta.

E toda a gente percebeu que uma realidade nova na Igreja estava em marcha. E não enganou. Está aí como um cristão na sua pureza e exemplo vivo. Beija, abraça, está junto de quem mais precisa, gosta das pessoas e manifesta-lhes afeto e elas sentem isso como autêntico e gostam dele também, ri, chora, não tem vergonha da ternura, fala em termos acessíveis do essencial da vida para todos, telefona a este e àquela, a doentes e amigos, lava os pés a mulheres incluindo uma muçulmana, quer abrir a comunhão aos recasados, batiza filhos de mães solteiras e de uniões de facto, quem é ele para julgar os homossexuais, recebe transexuais, apela à paternidade e maternidade responsáveis, confessa-se pecador, que não é infalível, que tem dúvidas, condena veementemente o capitalismo desenfreado e a finança especulativa que matam, vai a Lampedusa chorar a morte no Mediterrâneo, instala no Vaticano balneários para os sem-abrigo e arranja-lhes uma barbearia, viaja para o Rio, para a Jordânia, Israel, a Palestina, a Coreia do Sul, a Albânia, o Parlamento Europeu, a Turquia, o Sri Lanka, as Filipinas, e o que o move é o diálogo, a paz e uma humanidade feliz, pede a opinião dos católicos do mundo inteiro sobre a família e os seus problemas, porque o Sínodo tem de ser participado por todos, contra a globalização da indiferença, a sua verdadeira obsessão são os pobres e excluídos, a Igreja não é uma alfândega, mas um hospital de campanha, as palavras perdão e misericórdia são as mais repetidas.

Francisco é hoje talvez a figura mais popular do mundo e uma das mais influentes. No meio deste nosso mundo ameaçado, perigoso e incerto, Francisco surge como despertador de esperança e confiança. Como escreveu o eurodeputado Paulo Rangel, "tem sido a única voz carismática e a única referência ética a nível global". "Interpela-nos pelo exemplo; toca-nos pelo sentido profético".

E as pessoas souberam, depois de tantas condenações, que a única missão da Igreja é anunciar o Evangelho, notícia boa e felicitante para todos. A única mensagem: Deus é amor, não condena, salva. Assim, a tarefa primeira de Francisco é tentar converter os católicos, começando pelos cardeais, bispos e padres, a esta "alegria do Evangelho". E facilitar a compreensão da fé, no diálogo com a razão. Graças ao novo espírito, a teologia tem respirado liberdade.

Mas, se isto é o núcleo essencial, a sua missão não se esgota aqui. Porque se impõem outras tarefas, que começou a implementar.

Ninguém duvida da situação desgraçada, intolerável, a que a Igreja tinha chegado. E impõe-se a tolerância zero para a pedofilia entre o clero. E impõe-se a transparência dos dinheiros no Vaticano, sem que possa haver sequer a suspeita de lavagem de capitais e evasão fiscal. E impõe-se uma reforma radical, consistente e duradoura, constitucional, da Cúria Romana, Governo central da Igreja. E Francisco tem sido claro por palavras e atos nestes domínios.

Por outro lado, quer se queira quer não, o papado é uma instituição de relevância mundial e Francisco tem sido modelar enquanto voz político-moral global. Aí está a denúncia do sistema económico iníquo imperante, que exclui. Aí estão os exemplos de mediação entre Israel e a Palestina, os Estados Unidos e Cuba, no conflito da Ucrânia. Há vias de abertura da e para a China. São aguardados com expectativa a encíclica sobre a ecologia e o discurso nas Nações Unidas e a reunião dos líderes das religiões mundiais, a favor da compreensão e da paz.

Essencial é a desclericalização, a democratização na Igreja, voltando à Igreja-Povo de Deus, e a presença das mulheres em igualdade de direitos com os homens.


Mas a questão decisiva mesmo é o próprio papado como instituição. De facto, como está, há sempre o perigo, escreve o teólogo José Arregi, de "tudo ficar à mercê do próximo Papa".

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