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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O que pensa Francisco: 1. sobre Deus

«Assim, Deus encontra-se numa experiência de caminho: "Na experiência pessoal de Deus, não posso prescindir do caminho." Trata-se de uma experiência dinâmica, de procura por diversos caminhos: "o da dor, o da alegria, o da luz, o da escuridão." O homem actual tem dificuldade em encontrá-lO, porque anda disperso. Diria, portanto, ao homem de hoje que "faça a experiência de entrar na sua intimidade para conhecer o rosto de Deus. O Deus vivo é o que ele vai ver com os seus olhos, dentro do seu coração".»

 Anselmo Borges

Depois de gravíssimos e sucessivos escândalos, quando a Igreja ia perdendo a credibilidade, chegou o Papa Francisco e os seus gestos e palavras anunciam um pontificado de mudança, que move consciências e desperta horizontes novos de esperança, de e para a humanidade.
Líder planetário, de influência global, importa conhecer o seu pensamento. O que pensa realmente Francisco, em temas fundamentais? Tentarei, ao longo dos próximos sábados, apoiando-me sobretudo na obra Sobre o Céu e a Terra, na qual dialoga com o rabino A. Skorka, publicada pela Clube do Autor, responder a esta pergunta essencial.

O cardeal Bergoglio, actual Papa Francisco, segue mais uma teologia narrativa do que uma teologia dogmática. Esta situa-se numa linha mais grega e responde com dogmas enquanto aquela se situa num horizonte mais vivencial e responde sobretudo com categorias históricas: o que é que acontece, quando Deus está presente? Lembre-se o passo do Evangelho, quando os discípulos de João Baptista vão perguntar a Jesus se ele é o Messias e Jesus responde: Ide dizer a João o que ouvis e vedes: os coxos andam, os cegos vêem, o Reino de Deus está a concretizar-se.

Assim, Deus encontra-se numa experiência de caminho: "Na experiência pessoal de Deus, não posso prescindir do caminho." Trata-se de uma experiência dinâmica, de procura por diversos caminhos: "o da dor, o da alegria, o da luz, o da escuridão." O homem actual tem dificuldade em encontrá-lO, porque anda disperso. Diria, portanto, ao homem de hoje que "faça a experiência de entrar na sua intimidade para conhecer o rosto de Deus. O Deus vivo é o que ele vai ver com os seus olhos, dentro do seu coração".

Há uma experiência originária: a da dádiva. A criação é-nos dada e nós somos dados a nós mesmos. Temos uma tarefa: dominar a Terra. "Mas há um momento em que o homem se excede nessa tarefa, entusiasma-se em excesso e perde o respeito pela natureza", surgindo então os problemas ecológicos, que "são as novas formas de incultura". É preciso superar o síndroma de Babel, quando se verifica o exagero da tarefa, ignorando a dádiva. O construtivismo puro anda unido à confusão das línguas, isto é, à falta de diálogo, ao esquecimento do outro, à crispação, à desinformação, à agressão.

Percebe-se então que a oração não é a tentativa de "controlar Deus": "tratar-se-ia de um desvio, de um ritualismo excessivo ou de muitas atitudes de controlo." "Quando os actos litúrgicos se transformam em eventos sociais, perdem força": pense-se em certos casamentos e "no vestido - ou no despido". São pessoas que "não praticam qualquer acto religioso; vão apenas exibir-se". "Eu acredito que o mundano é narcisista, é consumista, é hedonista. O espírito da celebração litúrgica tem de assumir outro tom, ligado ao encontro com Deus". Na oração autêntica, há momentos de profundo silêncio reverente, a par do falar e do ouvir humilde.

A oração está unida à prática da justiça: "o acto que se concretiza com a ajuda ao próximo é oração. Caso contrário, cai no pecado da hipocrisia, que é como uma esquizofrenia da alma. Pode-se sofrer destes traços disfuncionais, se não tiver em conta que o Senhor existe no meu irmão, e que o meu irmão está a passar fome. Se uma pessoa não cuidar do seu irmão, não pode falar com o Pai do seu irmão, com Deus."

Não podemos definir Deus: podemos dizer o que Deus não é, podemos falar dos seus atributos, mas "não podemos dizer o que é". Sentimos que está presente, mas "não conseguimos controlá-lo". A fé não desfaz todas as trevas e dúvidas.

Com pessoas ateias, "partilho as questões humanas, mas não lhes apresento imediatamente o problema de Deus, excepto no caso de mo colocarem". "Não olho a relação com o ateu para fazer proselitismo, respeito-o e mostro-me como sou. Desde que haja conhecimento, surgem o apreço, o afecto e amizade. Não tenho qualquer tipo de reticências, não lhe digo que a sua vida está condenada, porque estou convencido de que não tenho o direito de fazer um juízo de valor sobre a honestidade dessa pessoa."

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domingo, 4 de agosto de 2013

Papa Francisco: uma revolução tranquila

«Aos eclesiásticos: "Fazem falta bispos que amem a pobreza e não tenham psicologia de príncipes." "Devem ser pastores, próximos das pessoas, pais, irmãos, pacientes e misericordiosos." "Reina a cultura da exclusão e do descartável." Que tenham a coragem de ir contra dois dogmas da sociedade atual, "eficiência e pragmatismo", e "sair ao encontro das periferias, que têm sede de Deus e não têm quem lho anuncie". Devem ir à procura dos "afastados, que são os convidados vip".

Aos políticos: condenou a corrupção e pediu-lhes que sejam humanos, que tenham "sentido ético" e pratiquem o "diálogo, diálogo, diálogo". É preciso "reabilitar a política", que deve estar ao serviço do bem comum, que "evite o elitismo e erradique a pobreza".

Porque é que tantos têm abandonado a Igreja, incluindo "aqueles que parece viverem já sem Deus?" A Igreja "mostrou-se demasiado débil, demasiado afastada das necessidades deles, demasiado fria, demasiado auto-referencial, prisioneira da sua própria linguagem rígida". Talvez tenha tido "respostas para a infância do homem, mas não para a sua idade adulta".»

Anselmo Borges


Não me custa admitir que nas Jornadas Mundiais da Juventude possa haver muito de Woodstock católico, mas também é verdade que aqueles três milhões que estiveram presentes no Rio saíram de lá, na sua grande maioria, mais felizes e mais decididos ao combate pela paz, pela justiça e pela fraternidade. Embora a culpa não seja dele, será igualmente necessário estar atento para o perigo real de o encandeamento provocado pela figura de Francisco e até algum populismo e culto da personalidade apagarem a lúcida e necessária capacidade crítica.

De qualquer forma, em quatro meses, Francisco pôs em marcha uma revolução tranquila, mas real, na Igreja, e a sua figura e mensagem estão a abrir espaços de esperança num mundo globalizado, habitado por imensos perigos.

A viagem ao Brasil foi um êxito. A sua mensagem foi, em primeiro lugar, ele próprio, na simplicidade, na bondade, na imensa cordialidade, proximidade e empatia com as pessoas, que quer ver autenticamente felizes. Para isso, foi deixando recados e exigências para todos, à maneira de profeta livre e exigente, em voz encantatória.

O programa para a Igreja toda: "As Bem-aventuranças e o Evangelho de Mateus, no capítulo 25 (parábola dos talentos e o Juízo Final). Não precisam de ler mais nada." "A Igreja tem de reformar-se continuamente; se não, fica para trás. Há coisas que serviam no século passado ou noutras épocas e agora já não servem; então, é necessário reformá-las."

Aos jovens: "Tendes o futuro, sois o futuro, sede protagonistas da mudança." "Ide sem medo para servir", "destruir as barreiras do egoísmo, da intolerância e do ódio e edificar um mundo novo".

Contra a exclusão, proclamou a necessidade da luta pela dignidade de todos, concretamente, para "os dois pólos da vida: os jovens e os anciãos". Nesta civilização, é "tal o culto que se presta ao deus dinheiro que estamos na presença de uma filosofia e de uma praxis de exclusão". "Não se deixem excluir nem excluam."

Nas favelas: "Ninguém pode permanecer indiferente perante as desigualdades." "A medida da grandeza de uma sociedade é determinada pela forma como trata quem está mais necessitado, quem não tem senão a sua pobreza." "Porque somos irmãos, ninguém é descartável."

Aos desesperados da droga: "A lepra dos nossos dias chama-se droga", mas "não estais sós". "Não deixeis que vos roubem a esperança." "Tu és o protagonista da subida, ninguém pode subir por ti." E atacou os "negociantes de morte, que seguem a lógica do dinheiro e do poder a todo o custo".

Aos eclesiásticos: "Fazem falta bispos que amem a pobreza e não tenham psicologia de príncipes." "Devem ser pastores, próximos das pessoas, pais, irmãos, pacientes e misericordiosos." "Reina a cultura da exclusão e do descartável." Que tenham a coragem de ir contra dois dogmas da sociedade atual, "eficiência e pragmatismo", e "sair ao encontro das periferias, que têm sede de Deus e não têm quem lho anuncie". Devem ir à procura dos "afastados, que são os convidados vip".

Aos políticos: condenou a corrupção e pediu-lhes que sejam humanos, que tenham "sentido ético" e pratiquem o "diálogo, diálogo, diálogo". É preciso "reabilitar a política", que deve estar ao serviço do bem comum, que "evite o elitismo e erradique a pobreza".

Porque é que tantos têm abandonado a Igreja, incluindo "aqueles que parece viverem já sem Deus?" A Igreja "mostrou-se demasiado débil, demasiado afastada das necessidades deles, demasiado fria, demasiado auto-referencial, prisioneira da sua própria linguagem rígida". Talvez tenha tido "respostas para a infância do homem, mas não para a sua idade adulta".

"Com a Cruz, Jesus une-se ao silêncio das vítimas da violência, que já não podem gritar; com a Cruz, Jesus une-se a tantos jovens que perderam a confiança nas instituições políticas porque vêem egoísmo e corrupção, ou que perderam a fé na Igreja, e até em Deus, por causa da incoerência dos cristãos e dos ministros do Evangelho."

Anselmo Borges

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