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quinta-feira, 15 de maio de 2014

Um especialista em finais com um trauma do tamanho da Europa

Por: Nuno Sousa

no publico hoje

 


Déjà vu. O Benfica volta a ser o mais privilegiado dos espectadores para a festa alheia, pela oitava vez consecutiva numa final europeia. Em Turim, não conseguiu superar o Sevilha nos 90 minutos, depois arrastou-se pelo prolongamento e caiu de vez nas grandes penalidades (2-4), falhando novamente na recta da meta a corrida pela Liga Europa. O jejum está para durar.
Sevilha
Beto, Federico Fazio, Nicolás Pareja, Alberto Moreno, Coke, Vitolo (Diogo Figueiras, 110), Daniel Carriço, Stéphane Mbia, Reyes (Marko Marin, 78), Ivan Rakitic, Carlos Bacca
Benfica
Jan Oblak, Maxi Pereira, Guillherme Siqueira (Cardozo, 99), Ezequiel Garay, Luisão, André Gomes, Miralem Sulejmani (André Almeida, 25), Nicolas Gaitán (Ivan Cavaleiro, 119), Rubén Amorim, Lima, Rodrigo
Árbitro
Dr. Felix Brych
Antes do apito inicial, as câmaras estavam apontadas às bancadas, com os adeptos a puxarem dos galões: os do Benfica exibindo uma faixa com o troféu da Liga Europa, o Sevilha um motociclista com a mensagem: “Voltámos”. Mas nem os andaluzes entraram de mota, nem os “encarnados” evidenciaram a dimensão europeia de outras noites. Calculistas, as duas equipas provaram, durante quase toda a primeira parte, que tinham feito o trabalho de casa. Anular os pontos fortes do adversário. 20 valores para cada.

O Sevilha, de resto, deu a provar ao Benfica um pouco do seu veneno. Com uma defesa muito subida, devidamente auxiliada por Daniel Carriço e Mbia sempre que Coke se aventurava no corredor direito, tirou espaço de manobra ao meio-campo contrário. A desinspiração de Ruben Amorim e a discrição de André Gomes também não ajudavam e a equipa ficava dependente de um rasgo individual. Gaitán ia tentando na esquerda, Sulejmani na direita.

E até foi o sérvio a dar nas vistas. Ele, que saiu da “toca” graças aos castigos de Salvio e Markovic, foi dos poucos sem receio de assumir o jogo. E pagou um preço alto por isso. Aos 11’ foi rasteirado por Fazio, num lance que resultou no primeiro amarelo do jogo, um minuto depois sofreu uma entrada dura de Moreno, que não ficou atrás do companheiro de equipa no capítulo disciplinar. Sulejmani já tinha a noite estragada. Lesão no ombro, ainda alguns minutos em campo e a inevitável substituição aos 24’.

A sorte não estava do lado do Benfica. Caía por terra a terceira opção para a ala direita e Jorge Jesus não quis arriscar demasiado. Em vez de Ivan Cavaleiro, lançou André Almeida para o lado direito da defesa e colocou Maxi na posição na qual começou a carreira. Sem que tenha produzido nada de significativo até então, acabou mesmo por ser o uruguaio a dispor da melhor ocasião do primeiro tempo, já em cima dos 45’. Vólei de Ruben Amorim para a área, diagonal de Maxi e um frente-a-frente relâmpago com Beto: desvio subtil, defesa aparatosa.

Esses últimos cinco minutos, de resto, foram os melhores do Benfica no jogo. Rodrigo testou novamente os reflexos do guarda-redes português pouco depois e antes tinha sido uma boa triangulação Gaitán-Rodrigo-Maxi a colocar a defesa do Sevilha em sentido. Algo que os andaluzes só por uma vez conseguiram fazer do lado contrário do relvado e logo aos 6’, com um cruzamento da esquerda que só não encontrou os pés de Carlos Bacca porque a classe de Garay falou mais alto.

A segunda grande ocasião do Sevilha chegou com o início do segundo tempo, quando Rakitic, com o seu futebol cirúrgico, tirou partido da defesa em linha do Benfica com um passe no limite, deixando Reyes quase num mano a mano com Oblak. Valeu o carrinho de Luisão a perturbar o remate, que saiu ao lado.

O Benfica, porém, também já tinha feito das suas, num arranque que foi quase tão produtivo a nível ofensivo como todo o primeiro tempo. Maxi ganhou um lance na direita, levantou a cabeça, viu Lima desmarcar-se no flanco contrário, ofereceu-lhe o golo de bandeja, mas o brasileiro dominou mal e rematou já em esforço.

Lembram-se do registo pausado e monótono dos primeiros 45’? Da exclusiva preocupação de nenhuma das muralhas se desorganizar? Parecia já uma memória distante. Duas equipas exímias no contra-ataque passavam a ter o palco de que precisavam para fazer a festa. Aos 59’, uma perda de bola infantil de Ruben Amorim deixou o Sevilha num dois-para-um com meio campo para galgar. Maxi estorvou e Amorim, que foi lá atrás emendar a mão, impediu um passe de morte para Bacca.

O Sevilha percebia que também conseguia fazer estragos numa defesa que costuma ser de betão e pôs Oblak à prova em duas ocasiões, obrigando os “encarnados” a refrearem os ânimos e a pensarem duas vezes antes de quererem sair precipitadamente em ataque organizado. O Benfica, já o tinha provado uma vez, precisava de variar com precisão o flanco de jogo para apanhar o adversário em contrapé e foi assim que, aos 71’, Maxi ofereceu novamente o golo a Lima. Na finalização, mais do mesmo. Com a diferença de desta vez nem ter acertado na bola.

Tudo na mesma no marcador, tudo diferente na intensidade colocada em campo. Unai Emery decide então mexer nas alas, ao trocar Reyes por Marin (que ainda seria substituído por Kevin Gameiro). O alemão viu então Lima voltar a estar perto do golo, com uma bomba de fora da área que Beto anulou com uma defesa tão vistosa quanto eficaz. Depois foi a vez de Garay, de cabeça, atirar por cima da trave quando o guarda-redes já estava fora da jogada. Faltavam cinco minutos para os 90'. Garay rematou por cima aos 91’. Prolongamento, que uma final sem contornos dramáticos não é final que se preze.

Reinício morno, com as pernas já a pesarem. Sai Siqueira aos 9’ do tempo suplementar, entra Cardozo. André Almeida passa para o lado esquerdo da defesa, Maxi regressa à base. Tudo recomposto e ocasião de golo para o Sevilha, justamente nas costas de Almeida: Bacca corre, corre como Forrest Gump e remata ao lado. Até ao apito final, nem um lance parecido. Os motores tinham parado.

Grandes penalidades, o habitat de Beto. Envergonhou Cardozo, travou Rodrigo. O resto é história, especialmente para o Sevilha que mantém um registo 100% vitorioso em finais europeias e se transforma na quarta equipa a conquistar a competição por três vezes. O Benfica, como tem sido tradição há 52 anos, vai ter de voltar a tentar.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Um jejum de meio século e um adversário com sete vidas



Por Nuno Sousa

O Benfica não joga apenas contra o Sevilha esta noite, na final da Liga Europa. Joga contra a história e contra a teimosia do destino. À oitava será de vez?

É apenas um indicador e, por isso mesmo, o valor é relativo. A má notícia para o Benfica é que o Sevilha ganhou todas as finais europeias em que participou até agora. A boa é que só lá chegou em duas ocasiões, concretamente em 2006 e 2007. Ao longo da história, a equipa andaluza tem tido dificuldade em atingir o último degrau da escada europeia, mas tem-se mostrado tremendamente eficaz quando a oportunidade espreita. Nesta quarta-feira, enfrentará um “especialista” em alcançar finais da UEFA, empenhado em puxar o tapete a um jejum de 52 anos.

Unai Emery, treinador de um Sevilha que nesta época tem feito muito com relativamente pouco, usou e abusou ontem da palavra “objectivo”, durante a conferência de imprensa da equipa espanhola. O Benfica está desfalcado? “É preciso ser-se objectivo”. Quem é favorito? “É preciso ser-se objectivo”. Objectivamente, os dois finalistas da Liga Europa 2013-14 têm o mesmo número de troféus continentais (duas Taças dos Campeões Europeus para um, duas Taças UEFA para outro). Objectivamente, têm as mesmas possibilidades quando Felix Brych apitar para o início do segundo jogo europeu consecutivo dos “encarnados” no Juventus Stadium.

Objectivamente, este Sevilha não se tem dado nada mal com adversários portugueses. Desde que a presente empreitada europeia começou para os andaluzes, na 3.ª pré-eliminatória, frente ao Mladost Podgorica, há nove meses, já abateram o Estoril (fase de grupos) e o FC Porto (quartos-de-final). Para além disso, são uma equipa que parece ter sete vidas, ou não tivesse assegurado o bilhete para a final já quatro minutos para além dos 90, em Valência, com um golo caído do céu de Mbia.

Um acaso do destino? Não necessariamente. É que os adeptos espanhóis já estão relativamente escaldados com surpresas destas. Em 2005-06, foi no tempo extra que Antonio Puerta (cuja morte o elevou à condição de ícone do clube) empatou o encontro da segunda mão das meias-finais da Taça UEFA, frente ao Schalke 04, que abriu as portas do triunfo final. Em 2006-07, foi a vez de Andrés Palop entrar na restrita galeria dos guarda-redes goleadores, ao carimbar a passagem aos quartos-de-final, com um cabeceamento providencial, aos 94’ de um jogo frente ao Shakhtar Donetsk.

Jorge Jesus estará seguramente avisado para um adversário que parece ter um coração do tamanho do mundo. Mas o treinador português também tem pergaminhos para mostrar. Vamos lá ser objectivos outra vez. O Benfica é a primeira equipa do historial da Liga Europa a chegar à final sem uma única derrota (seis vitórias e dois empates). Como se não bastasse, é o clube com mais golos na competição, mais precisamente 68 em 37 jogos, muitos deles da autoria de Óscar Cardozo. O paraguaio que nesta quarta-feira deverá voltar a ser votado à condição de suplente soma 33 em 75 jogos nas competições europeias, mais do que qualquer outro dos jogadores finalistas.

O Benfica, é inegável, tem retomado nos últimos anos parte do protagonismo europeu que tinha perdido e, com isso, tem reforçado o capital de experiência internacional do plantel. Luisão, por exemplo, leva já 107 jogos nas provas da UEFA, Salvio (embora castigado para o encontro de hoje) tem 40 partidas na competição e arrisca-se a conquistar o troféu pela terceira vez (venceu em 2010 e 2012 pelo Atlético de Madrid), um feito inédito.

Tudo isto conta, naturalmente, mas nenhum destes números terá um papel determinante no desfecho da 10.ª final europeia dos “encarnados”, que começaram o registo com duas conquistas (1961 e 1962) e acumulam sete desaires desde então. Já lá vão 52 anos desde o último triunfo e já lá vão 32 desde a última vitória sobre um adversário espanhol nas provas europeias. Aconteceu a 29 de Setembro de 1982 e a vítima foi, curiosamente, uma equipa de Sevilha, no caso o Betis.

Ainda assim, os dois títulos europeus que os “encarnados” ostentam foram obtidos à custa de formações espanholas, o Barcelona primeiro, o Real Madrid depois. Frente ao Sevilha propriamente dito, o historial é curto, mas não menos curioso por isso: o único embate entre os dois clubes significou a estreia europeia para ambos. Aconteceu em Setembro de 1957, na Taça dos Campeões Europeus, e os andaluzes levaram a melhor, com um triunfo por 3-1 em casa e um empate (0-0) na Luz.

Hoje, é dia de tira-teimas em campo neutro, ainda que o campeão português tenha mais rodagem quando se trata de competir em Turim. Para além do recente jogo da meia-final com a Juventus, o Benfica (que tem Markovic em dúvida, ainda pendente da confirmação do castigo pela UEFA) já disputou na cidade a meia-final da Taça dos Campeões, em 1968, e os quartos-de-final da Taça UEFA, em 1993. Para o Sevilha (cuja condição física de Vitolo ainda suscita reservas), será uma estreia. Mas sejamos objectivos: o passado não vai fazer um golo que seja esta noite.