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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Semeadores de mudança: poetas sociais (1)

Crónica de Frei Bento Domingues, no PÚBLICO

1. Falar e escrever para calar os outros era uma tradição papal que João XXIII interrompeu. O exemplo não vingou, mas o Papa Francisco tem gosto em acolher, ouvir e partilhar a palavra seja com quem for, seja onde for. Não aceita que a Doutrina Social da Igreja continue a ser apenas a voz dos Papas.

No passado dia 5 de Novembro, Bergoglio acolheu, em Roma, o 3º Encontro dos Movimentos Populares. No anterior, realizado na Bolívia, ficou claro que sem transformar as estruturas não é possível vida digna para as populações. A luta continua e entusiasma o argentino: “Vós, movimentos populares, sois semeadores de mudança, promotores de um processo para o qual convergem milhões de pequenas e grandes acções interligadas, de modo criativo, como numa poesia. Foi por isso que vos quis chamar poetas sociais”.

O ritmo dessa poesia é marcado pelos passos da caminhada rumo a uma alternativa humana face à globalização da indiferença: 1. pôr a economia ao serviço dos povos; 2. construir a paz e a justiça; 3. defender a Mãe Terra.

O discurso do papa é longo e multifacetado [1]. É uma antologia da vida dos movimentos populares na resistência à tirania. Esta alimenta-se da exploração do medo e do terror. Os cidadãos que ainda conservam alguns direitos são tentados pela falsa segurança dos muros físicos ou sociais. Muros que prendem uns e exilam outros. De um lado, cidadãos murados, apavorados; do outro, os excluídos, exilados, ainda mais aterrorizados. Será esta a vida que Deus, nosso Pai, deseja para os seus filhos?

2. Além de ser um bom negócio para os comerciantes de armas e de morte, o medo destrói as nossas defesas psicológicas e espirituais, anestesia-nos diante do sofrimento do próximo e torna-nos cruéis.

Quando se festeja a morte de um jovem, que talvez tenha errado o caminho, quando se prefere a guerra à paz, quando se propaga a xenofobia, quando propostas intolerantes ganham terreno, sabemos que por detrás de tal crueldade sopra o frio vento do medo.

O Papa não esquece a capacidade mobilizadora da oração: peço-vos que rezeis por todos aqueles que têm medo. O próprio Jesus nos intima: Não tenhais medo [2]! Tende misericórdia. A misericórdia é muito melhor do que os remédios, antidepressivos e tranquilizantes. Mais eficaz do que muros, grades, alarmes e armas. E é grátis: uma dádiva de Deus.

Bergoglio acredita que todos os muros, mas todos, vão ruir. «Continuemos a trabalhar para construir pontes entre os povos, pontes que nos permitam derrubar os muros da exclusão e da exploração». Enfrentemos o terror com o amor!

3. O fosso entre os povos e as nossas actuais formas de democracia alarga-se cada vez mais, como consequência do enorme poder dos grupos económicos e mediáticos, que parecem dominá-las.

Sei, diz o Papa, que os movimentos populares não são partidos políticos. Em grande parte, é nisto que se encontra a vossa riqueza. Exprimis uma forma diferente, dinâmica e vital de participação social na vida pública. Mas não tenhais medo de entrar nos grandes debates, na Política com letra maiúscula, e cito Paulo VI: «A política é uma maneira exigente — não a única — de viver o compromisso cristão ao serviço do próximo». Ou então a frase que repito muitas vezes e já não sei se é de Paulo VI ou de Pio XII: «A política é uma das formas mais altas da caridade, do amor».

Frisa, então, dois riscos na relação entre movimentos populares e política: o de se deixarem encurralar e o de se deixarem corromper.

Não se deixar cercar, porque alguns dizem: a cooperativa, o refeitório, a horta agro-ecológica, as microempresas, o projecto dos planos assistenciais... até aqui tudo bem.

Enquanto vos mantiverdes no âmbito das «políticas sociais», enquanto não puserdes em questão a política económica ou a Política com «P» maiúsculo, sois tolerados. A ideia das políticas sociais concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres e muito menos inserida num projecto que reúna os povos, às vezes parece-me um carro de carnaval a esconder o lixo do sistema.

Quando vós, da vossa afeição ao território, da vossa realidade diária, do bairro, do local, da organização do trabalho comunitário, das relações de pessoa a pessoa, ousais pôr em causa as macro relações, quando levantais a voz, quando gritais, quando pretendeis indicar ao poder uma organização mais integral, então deixais de ser tolerados. Estais a deslocar-vos para o terreno das grandes decisões que alguns pretendem monopolizar em pequenas castas. Assim a democracia atrofia-se, torna-se um nominalismo, uma formalidade, perde representatividade, vai-se desencantando porque deixa de fora o povo na sua luta diária pela dignidade, na construção do seu destino.

Não estará o Papa a meter-se em seara alheia? Sem qualquer monopólio da verdade, deve pronunciar-se e agir face a «situações nas quais se tocam as chagas e os sofrimentos dramáticos, e nas quais estão envolvidos os valores, a ética, as ciências sociais e a fé».

Continuaremos no próximo Domingo do Advento.

[1] O meu texto pretende chamar a atenção para o discurso do Papa. Não procura reproduzi-lo. Os recortes e as paráfrases são da minha responsabilidade.

[2] Mt 14, 2

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A Igreja e a Política: que Igreja e que política? (3)

Crónica de Frei Bento Domingues, no Público

Ninguém pode exigir que se relegue a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional

1. Insisto neste longo e interrogativo título. Tanto no passado como na actualidade, o uso destas palavras está carregado de sentidos contraditórios. Existem muitas Igrejas. Quando se fala da Igreja Católica, muitos teimam, esquecendo o Vaticano II, em referir-se, apenas, à hierarquia eclesiástica: Papa, Cúria Romana, Cardeais, Bispos e Padres, deixando de fora a quase totalidade da Igreja. Aconteceu, entretanto, algo de muito estranho: chegou um Papa a mostrar que isso está completamente errado.

Como a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, (A Alegria do Evangelho, 2013), do Papa Francisco, é muito incómoda, procura-se fazer de conta que é um desabafo irrelevante, sem consequências. Mas ele quis deixar escrito que se trata de um documento programático e de consequências importantes, dirigido a cada cristão.

Não se trata de uma vontade de poder, de auto-afirmação, de quem quer, pode e manda, apoiado na infalibilidade pontifícia. É precisamente essa mentalidade que ele procura desterrar. A Igreja é o NÓS de todos os cristãos e é precisamente isto que Bergoglio lembra, em todas as circunstâncias, a todas as pessoas e grupos, combatendo, sem tréguas, o clericalismo sempre renascente.

Sabe que é preciso um longo caminho para uma Igreja de saída dos seus hábitos inveterados. “Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a igreja aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja doente, fechada, comodamente agarrada às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada em ser o centro. Acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos.” [1]

Tem o cuidado de avisar que se alguém se sentir ofendido com as suas palavras “saiba que as exprimo com estima e com a melhor das intenções, longe de qualquer interesse pessoal ou ideologia política. A minha palavra não é a de um inimigo nem de um opositor. A mim interessa-me apenas procurar que quantos vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e egoísta possam libertar-se dessas cadeias indignas e alcancem um estilo de vida e pensamento mais humanos, mais nobres, mais fecundos, que dignifiquem a sua passagem por esta terra.” [2]

2. Ao partilhar as suas preocupações sobre a dimensão social do Evangelho, recorda que os ensinamentos da Igreja acerca de situações contingentes estão sujeitos a maiores ou novos desenvolvimentos e podem ser objecto de discussão.

Sem pretender entrar em pormenores, não pode evitar ser concreto e ficar, apenas, nos grandes princípios sociais, em meras generalidades que não interpelam ninguém. É preciso tirar consequências práticas, para que também possam incidir, com eficácia, nas complexas situações actuais.

Ninguém pode exigir que se relegue a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, despreocupada com a saúde das instituições da sociedade civil e sem se pronunciar sobre os acontecimentos que interessam os cidadãos. No entanto, Francisco sublinha que nem o Papa nem a Igreja possuem o monopólio da interpretação da realidade social ou da apresentação de soluções para os problemas contemporâneos [3].

3. Convém não se esquecer que a referida Exortação Apostólica se dirige aos membros da Igreja. Nesta, ninguém se pode manter longe dos pobres, em nome de outras incumbências, mas é a desculpa mais frequente nos meios académicos, empresariais e, até, eclesiais.

O capítulo dedicado à dimensão social da evangelização, não pode ser aqui resumido, mas o Papa quis ser muito concreto: não se pode continuar a confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado. O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha. Requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição dos rendimentos, criando novas oportunidades de trabalho, que superem o mero assistencialismo.

Adverte que não propõe um populismo irresponsável, mas a economia não pode recorrer a remédios que sejam um novo veneno, como quando pretende aumentar a rentabilidade, reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos [4].

A proposta de Francisco é directamente política: peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise, efectivamente, sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo.

A política, tão denegrida, é uma sublime vocação. É uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem-comum. Neste ponto, o Papa citava um documento dos Bispos franceses sobre a reabilitação da política (1999). Entretanto, muita coisa mudou em França e no mundo o que provocou outro documento sobre a urgência em reencontrar o próprio sentido da política. A laicidade francesa também está em evolução. O Conselho de Estado recomenda a autorização de Presépios nas Câmaras Municipais, não como culto, mas como cultura.

Poderá a reforma que Francisco propõe para a Igreja deixar a política indiferente?

[1] Cf. EG nº 49
[2] Cf.EG nº 208
[3] Cf. EG nºs 182 - 184
[4] Cf. EG nº 204

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A Igreja e a Política: que Igreja e que política? (2)

Crónica de Frei Bento Domingues, no PÚBLICO

Depois de, na Europa, se terem mandado as religiões para a sacristia, para não perturbar a política e a política não perturbar as religiões, estas apresentam-se inopinadamente na praça pública em trajes e armas pouco convencionais.

1. Continuando, como prometemos, na temática do Domingo passado, lembro o que escreveu José M. Mardones[1]: depois das revoluções norte-americanas e francesa, do século XVIII, marcos da modernidade, a religião abandonou o campo da política. Tinha deixado de ser necessária para legitimar o que podia ser perfeitamente legitimado pela razão humana. Ergueu-se, então, um muro entre Igreja e Estado, muito fino na América e uma separação abrupta e violenta na Europa. A partir daí, os crentes sentiram muitas vezes a tentação, não de trabalhar no âmbito da política, mas de politizar a religião e de religiosizar a política.

Emilio Garcia Estébanez estudou, de forma crítica, o percurso ocidental, desde Platão até aos nossos dias - passando por Aristóteles, os Estoicos, Sto. Agostinho, S. Tomás e Maquiavel, etc. - das relações entre ética e política[2]. Procurou esclarecer a ambiguidade da noção de bem-comum, muito celebrada na Igreja Católica.

Para este filósofo e teólogo, o pensamento ético-político dos estoicos constituiu um dos mais completos da antiguidade, ainda que o seu forte tenha sido a ética. A respeito desta, do ponto de vista histórico, pode-se dizer que eles alcançaram o mais alto nível prático e teórico a que chegou a filosofia moral pagã. Isto pode afirmar-se não apenas em termos relativos, mas também em termos absolutos: a escola estoica, real e objectivamente, construiu um sistema quase perfeito de moral natural, quanto aos seus elementos essenciais.

Em política, a sua concepção sobre a igualdade de todos os seres humanos e o seu universalismo social constituiu, unida às elaborações do mesmo género dos seus antecessores, um corpo completo de doutrinarismo político. Os elementos da doutrina política de Platão e de Aristóteles, enquadrados pela doutrina estoica, teriam criado o panorama político ideal, pouco menos que perfeito. Parece, a esse autor, que o conjunto que poderia ser formado por aqueles sistemas, devidamente articulados, ainda não foi superado por nenhum outro sistema. Além disso, os Estoicos puseram como fundamento de todo o seu filosofar um princípio realmente exacto e frutífero: viver em sintonia com a natureza. Num mundo sem revelação sobrenatural como garantia, o caminho para chegar à verdade consiste em interrogar, com honestidade e sem preconceitos, a natureza.

2. Sto. Agostinho negou que os pagãos pudessem ser virtuosos. Se fosse possível, sem a fé, alcançar a justiça, Cristo teria morrido em vão. Não agiam pelo verdadeiro fim, isto é, para agradar a Deus, pois o único Deus é o dos cristãos. Não basta actuar com energia, constância, afrontando com valentia penas e perigos. É preciso fazer tudo isso pelo Deus verdadeiro. Acusaram Sto Agostinho de dizer que as virtudes dos pagãos eram, apenas, esplêndidos vícios. Nunca o disse expressamente, mas, segundo Estébanez, quem tirou essa conclusão estava na linha das suas invectivas contra os pagãos. Sto Agostinho recusou a existência de uma ética natural.

A doutrina política deste grande génio era uma consequência lógica das suas concepções morais. A finalidade do Estado consiste em promover, sobretudo, o culto divino, cuidar dos bons costumes e práticas dos seus membros, de modo que em nenhum momento se ofenda o Deus verdadeiro. Juntamente com esta, enumera outras finalidades, tais como, manter a paz interior e exterior, promulgar leis que tenham em conta uma justa partilhar dos direitos e deveres, velar pela guarda das leis mediante a aplicação de castigos.

A ideia agostiniana do Estado estava marcada pela convicção de que este deve ser antes de tudo cristão, nos seus membros, na sua actividade e nos seus interesses. Sem esta orientação, degenera num bando de ladrões. A ideia de que o Estado deve, inclusive, aplicar os seus meios específicos, a força, para promover o bem espiritual está a um passo. Sto Agostinho deu esse passo.

Acerca da doutrina política desse grande Doutor da Igreja, S. Tomás de Aquino teve a habilidade de o interpretar num sentido diametralmente inverso. Adopta, sem mais explicações, a definição que Cícero deu do Estado e que Agostinho tinha rejeitado categoricamente.

3. Desde a antiguidade pagã, desde o regime de cristandade, desde as revoluções da Modernidade muita coisa mudou. A melhor de todas foi a Declaração dos Direitos e Deveres Humanos. A globalização, ao não ser a mundialização da solidariedade, nem sempre os respeita e promove. Em 2014 os refugiados já eram 19,5 milhões e 38,2 milhões de deslocados.

A guerra fria regressou mesmo no combate ao DAESH. O panorama político tanto nos EUA como na Rússia, a situação anémica da UE e as ambições da China levantam a pergunta: estaremos a construir um mundo onde haja lugar para todos, em diálogo e cooperação?

Depois de, na Europa, se terem mandado as religiões para a sacristia, para não perturbar a política e a política não perturbar as religiões, estas apresentam-se inopinadamente na praça pública em trajes e armas pouco convencionais.

É preciso repensar tudo, de fio a pavio, e ensaiar outros caminhos. Será isso que pretendem os Bispos franceses? Veremos.

[1] Fe y Política, Sal Terrae, 1993, Bilbao


[2] El bien común y la moral política, Herder, Barcelona, 1970

terça-feira, 8 de julho de 2014

Que trouxe de novo o Papa Francisco (2)



Crónica de Frei Bento Domingues

Este Papa resolveu descongelar a liberdade e o pluralismo na interpretação da Palavra revelada.

1. A sacralização da dimensão humana da Igreja e das respectivas estruturas acaba por impedir a sua reforma permanente e encobrir situações recentes de triste memória.

A Alegria do Evangelho [1] mostra que o Papa Francisco não tem acções nas indústrias de conserva: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual do que à auto-preservação”.

Este sonho deve concretizar-se em processos de mudança nas paróquias, nos movimentos e nas dioceses. O Bispo deve estimular organismos de diálogo e participação nos quais todos sejam ouvidos e não apenas àqueles que estão sempre prontos a lisonjeá-lo.

Jorge Bergoglio comprometeu-se a praticar aquilo que pede aos outros, isto é, a trabalhar na conversão do Papado e das estruturas centrais da Igreja universal. Importa dar conteúdo à colegialidade e tornar as Conferências Episcopais sujeitos de atribuições concretas, mesmo doutrinais. A centralização excessiva não responde às necessidades actuais da evangelização a partir de situações sociais e culturais tão diversificadas.

Este argentino recusa a consagrada receita da rotina: fez-se sempre assim! É preciso ser ousados e criativos na tarefa de repensar objectivos, estruturas, estilos e métodos evangelizadores das respectivas comunidades. Sem identificação comunitária dos fins e dos meios, o sonho não passa de uma fantasia (nº 27-33).

2. Donde poderá vir a energia para tanta desenvoltura reformadora? Do encontro com o núcleo essencial do Evangelho. É este que dá sentido, beleza e fascínio ao novo estilo missionário, que faz a triagem entre o principal e o secundário e vence essa obsessão de amontoar doutrinas desconexas impostas à força de insistir no ridículo. 

Bergoglio retoma, do Concílio Vaticano II, uma perspectiva entretanto esquecida: “existe uma ordem ou hierarquia das verdades da doutrina católica, pois o nexo delas com o fundamento da fé cristã é diferente”.

Uma das tarefas teológicas mais urgentes consiste em passar, a pente fino, certas posições do magistério eclesiástico declaradas irreformáveis, certamente para evitar questões incómodas. Quem poderá fechar o futuro ao Espírito de Deus?

O Papa retoma o ensino de S. Tomás de Aquino para destacar que também na mensagem moral da Igreja existe hierarquia de virtudes e acções que delas decorrem. ”O elemento principal da Nova Lei é a graça do Espírito Santo, manifestada através da fé que opera pelo amor”. Relativamente ao agir exterior, a misericórdia é a maior de todas as virtudes, pois compete-lhe debruçar-se sobre os outros e – o que mais conta na realidade - remediar as misérias alheias. Tudo o resto só existe para secundar e exprimir o Evangelho da graça, do amor e da liberdade que exige e supera a justiça (S. Th. I-II, 66; 106-108).

Bergoglio conhece bem as consequências nefastas nas orientações pastorais, quando esta hierarquia não é respeitada e as virtudes que deveriam ser as mais presentes na pregação e na catequese – a caridade e a justiça - são as mais ausentes! Acontece a mesma coisa quando se fala mais da lei do que da graça, mais da Igreja do que de Jesus Cristo, mais do Papa do que da palavra de Deus (nº 36-38).

A moral cristã não é uma ética estoica, uma ascese, uma mera filosofia prática nem um catálogo de pecados e erros. É a resposta de amor ao amor que nos amou primeiro.

3. Este Papa resolveu descongelar a liberdade e o pluralismo na interpretação da Palavra revelada, honrando o trabalho dos exegetas e dos teólogos, assim como o pensamento filosófico e as ciências humanas. Serve-se de Tomás de Aquino para rejeitar o sonho de uma doutrina monolítica defendida por todos. O Evangelho é multiforme.

O empenhamento dessacralizador do novo hóspede da Casa de Santa Marta põe em causa costumes, alguns muito radicados no decurso da história da Igreja, mas que não têm ligação directa ao núcleo de Evangelho. Diz a mesma coisa de normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não são canais de vida. Não tenhamos medo de os rever!

Recorre a Tomás de Aquino para sublinhar que os preceitos dados por Cristo e pelos Apóstolos ao povo de Deus “são pouquíssimos”. A Igreja não deve transformar a nossa religião numa escravatura, quando a misericórdia de Deus quis que ela fosse livre e libertadora. A Igreja de portas abertas e enlameada pelos caminhos de todas as periferias o mundo, encontra os passos de Cristo (n.º 37-49).