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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Quem era a serpente do Paraíso? (2)

Crónica de Anselmo Borges, no Diário de Notícias

Na continuação do livro de Ariel Álvarez, com a pergunta acima e mais 19 sobre a Bíblia

1. "Porque é que Noé amaldiçoou o filho que o viu nu?" Uma cena estranha: Noé, que aparece na Bíblia a cultivar a vinha, "a mais preciosa e nobre de todas as plantas da Bíblia", adormeceu por causa de uma bebedeira e acaba por amaldiçoar o filho Cam, que entrou na tenda e o viu nu. O que se passou realmente? Neste caso, não se trata de homossexualidade.
Este relato tem sobretudo uma finalidade política, passando-se o mesmo com a narrativa das duas filhas de Lot, que, para não ficarem sem filhos, embebedaram o pai para terem relações com ele. Cam é o pai de Canaã e Noé não amaldiçoa Cam, mas o seu neto Canaã, porque será um filho gerado num incesto: o texto diz que Cam viu a nudez do pai, o que significa que dormiu com a esposa do pai, ou seja, com a sua própria mãe. Quem é maldito é Canaã. O texto amaldiçoa os cananeus escravizados e quer explicar as relações tensas entre Israel e os moabitas e os amonitas, também filhos de um incesto.
Havia três irmãos: Sem, Cam e Jafet. Um terminou escravo e os outros dois, livres. E "é a primeira vez que a Bíblia fala de escravidão, a instituição mais horrenda que o ser humano inventou, na qual alguém é um morto em vida, não pode decidir por si mesmo, nem fazer aquilo de que gosta, nem ir aonde quer, nem ter amigos nem ser feliz". A Bíblia falará muitas vezes do tornar-se escravo pelo pecado.

2. "Porque é que Deus ordenou a Abraão matar o seu filho Isaac?" Um dos relatos mais brutais e terríficos de toda a Bíblia e mesmo de toda a literatura mundial. Uma tradição judaica conta que Sara, esposa de Abraão, ao saber do facto, deu sete gritos e morreu. Mas, afinal, o que está no texto é uma mensagem revolucionária: Deus não tolera sacrifícios humanos. Por isso, apareceu um carneiro, para substituir Isaac.

3. "Como pôde Moisés contar a sua própria morte?" Os rios de tinta que este passo fez correr! No entanto, é simples: o Pentateuco (os primeiros cinco livros da Bíblia) não foi escrito por Moisés, mas por várias gerações de teólogos, historiadores, juristas, sacerdotes, liturgistas.

4. "Como foi a conquista da Terra Prometida?" Isso é narrado, em epopeia gloriosa, concretamente no livro de Josué, em que aparece a famosa paragem do Sol. Ora, embora nem tudo seja simples criação literária, as lembranças longínquas de alguns confrontos bélicos "estão articulados numa trama artificial e idealizada, como propaganda política".

5. "Deus castigou Salomão por causa das suas mulheres?" Diz a Bíblia que o rei Salomão amou muitas mulheres, o que não seria raro. O que impressiona é o número: chegou a ter 700 esposas e 300 concubinas, portanto, mil mulheres.
Mas não foi essa a razão do castigo de Deus. O que se passou é que a ostentação em obras majestosas, também de tipo religioso, como o Templo, o equipamento militar e marítimo e o luxo da corte levaram a tal dívida externa e, consequentemente, a tal exploração e opressão que as tribos do Norte lançaram um grito de rebelião, como se lê no Primeiro Livro dos Reis: "Que temos nós que ver com o Sul? Voltemos para as nossas casas. Eles que paguem as suas próprias dívidas." E a divisão do reino de Salomão consumou-se.

6. "Porque é que Deus atormentou Job com doenças?" "Em longos e irados discursos, Job arremete inclusivamente contra Deus. Nunca ninguém se tinha atrevido a insultar tanto a Deus." Mas não foi Deus que enviou as desgraças. Foi e é a vida, livre, finita e mortal. Frente à angústia e ao escândalo do sofrimento do inocente, o crente apenas espera resposta na ressurreição de Jesus. Há uma pergunta asfixiante que atravessa a fé do crente - aliás, a pergunta que dá nome ao último filme de Martin Scorsese Silêncio: Porque é que Deus se cala perante o horror do sofrimento? O crente, abalado no abismo desse silêncio, acredita que a última palavra sobre a história ainda não foi dita e pertence a Deus, o Deus da Vida e do Amor. A história lê-se do fim para o princípio e o fim ainda não chegou. O processo do mundo ainda não transitou em julgado. O crente crê confiadamente que a última palavra será dita por Deus, uma palavra de misericórdia e salvação. Então, já não haverá mais dor nem sofrimento, porque é a vida eterna, como diz esperançosamente o Apocalipse.

7. "O que diz a Bíblia sobre os extraterrestres?" Nada. Mas isso não significa que não possa haver outros seres inteligentes noutras paragens do universo.

8. "Jesus nasceu num 25 de Dezembro?" Trata-se apenas de uma data simbólica: substituiu a festividade pagã do nascimento do Sol Invicto, que o imperador Aureliano no dia 25 de Dezembro de 274 proclamou patrono principal do Império.

9. "Com que idade morreu Jesus?" Como muito provavelmente nasceu no ano 6 ou 7 antes da era cristã, quando foi crucificado, teria à volta de 37 anos.

10. "Jesus Cristo morreu no desespero?"Após várias horas de agonia, lançou um grito: "Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?" Sentiu, portanto, que tinha fracassado na sua missão? De facto, aquela pergunta é o início do salmo 22, que continua: "Apesar das minhas súplicas, a minha oração não chega até Ti. Meu Deus, grito de dia e não respondes. De noite, e não fazes caso." Esta oração de Jesus, num inapagável grito em pergunta, atravessa os séculos. Deus ficou em silêncio. Depois, os cristãos acreditaram que lhe deu razão, ressuscitando-o: não morreu para o nada, mas para a plenitude da vida de Deus, que é Amor. Sem esta fé não haveria cristianismo. E quem, primeiro, teve essa experiência de fé, avassaladora, que devia transmitir aos apóstolos e outros discípulos foi uma mulher: Maria Madalena.


Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

sábado, 19 de novembro de 2016

Últimas Conversas. Testamento de Bento XVI. 1

Crónica de Anselmo Borges, no Diário deNotícias

Falei com ele uma vez, era ainda o cardeal Josef Ratzinger. A impressão que me ficou foi a de alguém muito afável, tímido e com um objectivo fundamental: conciliar a fé e a razão. Ao ler agora Letzte Gespräche (Últimas Conversas), e são mesmo as últimas, pois não pensa publicar mais nada e quer destruir notas dispersas, confirmei essa primeira impressão. Estas conversas do Papa emérito com Peter Seewald constituem uma espécie de balanço de uma vida e de um pontificado, sendo esta a primeira vez que um papa o faz. Impressiona a sua dignidade na humildade, reconhecendo os seus limites e fragilidades, procurando ser fiel à verdade, inevitavelmente na perspectiva dele, e sabendo que a última palavra pertence a Deus, de quem espera um juízo misericordioso e para o qual se prepara com serena confiança. Diz: "Crer não é senão, na noite do mundo, tocar a mão de Deus e assim - no silêncio - ouvir a Palavra, ver o Amor." Qual é "o verdadeiro problema deste nosso momento da história? Deus desaparece do horizonte dos homens e, com a extinção da luz que vem de Deus", a humanidade é apanhada pela falta de orientação, "cujos efeitos se manifestam cada vez mais".

Nasceu de uma família modesta, profundamente enraizada na fé da Igreja Católica. O pai era polícia, mas crítico e capaz de pensar pela sua própria cabeça, a mãe era muito cordial. Teve uma infância feliz, com muito afecto. "Para nós era claro que uma pessoa religiosa devia ser antinazi." Foi um miúdo vivaço e algo irrequieto e até "rebelde". O nazismo e a guerra complicaram tudo. Com o tempo, tornou-se "mais reflexivo e menos alegre". Manifestou desde sempre interesse pelas questões religiosas.

Aos 17 anos foi chamado para o serviço militar do Reich. Foi desertor e prisioneiro dos americanos. Essa experiência tê-lo-á marcado definitivamente. De facto, quando já Papa, visitou Auschwitz e fez um discurso deveras dramático e emocionante. "Tomar a palavra neste lugar de horror, de crimes contra Deus e contra o ser humano sem precedentes na história, é quase impossível, e é particularmente difícil e deprimente para um cristão, para um Papa que procede da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras; no fundo, só há espaço para um atónito silêncio, um silêncio que é um grito interior para Deus: porque te calaste? Porque quiseste tolerar tudo isto? Onde estava Deus nesses dias? Porque é que se calou? Não podemos perscrutar o segredo e o mistério de Deus, só fragmentos, e enganamo-nos quando queremos converter-nos em juízes de Deus e da história. O nosso grito dirigido a Deus tem de ser ao mesmo tempo um grito que penetra no nosso próprio coração para que desperte em nós a presença oculta de Deus, para que o poder que depositou nos nossos corações não fique coberto ou sufocado em nós pelo egoísmo, pelo medo dos homens, pela indiferença e pelo oportunismo." É necessário elevar esse grito até Deus particularmente no momento actual, "no qual parecem surgir novamente nos corações dos homens todas as forças obscuras: por um lado, o abuso do nome de Deus para justificar uma violência cega contra pessoas inocentes e, por outro, o cinismo que não reconhece Deus e que ridiculariza a fé nele. Gritamos a Deus para que leve os homens a arrepender-se e a reconhecer que a violência não cria paz, mas suscita mais violência, um círculo de destruição no qual, no final de contas, todos perdem".

Foi sempre excelente nos estudos e fez uma carreira académica brilhante, sendo reconhecido como um dos mais lúcidos intelectuais contemporâneos. Agostiniano na sua orientação teológica - Deus é "o Deus da fé, que toca o coração do homem, que me conhece e me ama, mas, de algum modo, Deus deve ser também acessível à razão" -, conservador, também quis, concretamente a seguir à guerra, renovar a Igreja: "Éramos progressistas. Queríamos renovar a teologia e com ela a Igreja, tornando-a mais viva. Queríamos que a Igreja progredisse e estávamos convencidos de que deste modo seria rejuvenescida." Não ousaria alguma vez apresentar-se como "reverendo". Nós, sacerdotes, "não somos patrões, mas servos". Em 1958, era capelão, escreveu um texto intitulado: "Os novos pagãos e a Igreja", em relação ao qual se chegou a dizer que "continha afirmações heréticas". Ajudou financeiramente estudantes. Foi "fã" de João XXIII. "Tínhamos uma certa reserva interior face à teologia de Roma." Participou com entusiasmo na renovação da Igreja com o Concílio Vaticano II, assessorando concretamente o cardeal Josef Frings, de Colónia, e dando contributos decisivos para o documento sobre a Revelação. Partidário de mais "colegialidade" no governo da Igreja, assinou um texto de Karl Rahner - é certo que "mais por amizade" -, para debater e até abolir a lei do celibato. Pôs reservas à encíclica Humanae Vitae: "O que dizia era válido na substância", mas "eu procurava uma aproximação antropológica mais ampla".

Como se deu a viragem? Temeu a fragmentação da Igreja, pois havia interpretações indevidas do Concílio, a liturgia parecia à deriva, as pessoas já não tinham uma orientação clara para a fé, estava a impor-se "a ditadura do relativismo". O Concílio terminou em 1965 e já em 1967, numa aula em Tubinga, chamou a atenção para que a fé cristã estava agora, "como nunca antes na história", circundada "pela névoa da incerteza". Por isso, eu penso que a zona mais negra ou, pelo menos, mais problemática da sua vida, que foi a da condenação de tantos teólogos durante o tempo da sua presidência da Congregação para a Doutrina da Fé, tem neste temor a sua explicação: "Vi que a teologia já não era a interpretação da fé da Igreja Católica." Exemplo típico de desvio teológico, segundo Ratzinger: Hans Küng, de quem foi amigo e colega e com quem não é meigo na crítica, embora "nunca tenha aconselhado tomar medidas contra ele".


Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

sábado, 29 de outubro de 2016

As últimas palavras de gente ilustre

Crónica de Anselmo Borges, no Diário deNotícias

Tenho muitas vezes um sonho: que a todos, antes do instante supremo da morte, fosse dada a possibilidade de responderem a estas perguntas ou parecidas: "O que é que eu vi da vida? Que digo sobre o mistério de ser, de existir?" Isto resultaria na grande biblioteca da humanidade.

Philippe Nassif publicou Ultimes, resultado da sua investigação sobre as últimas palavras de gente ilustre, antes de morrer, que fez acompanhar de um comentário. O que aí fica, em vésperas do Dia dos Defuntos, é uma selecção.

1. Anton Tchékhov. "Há muito que não bebia champanhe." Médico e escritor russo, comprometido com o alívio do sofrimento e o amor do próximo. Tuberculoso, manda chamar um médico e pede-lhe... champanhe. "Ich sterbe" (estou a morrer). Vira-se para a mulher, pronuncia as suas últimas palavras e esvazia tranquilamente a taça.

2. Luís XIV. "Porque é que chorais? Pensáveis que eu era imortal?" Impressiona que, já no fim, o Rei Sol lembre a sua condição mortal.

3. Johann Sebastian Bach. "Vou finalmente ouvir a verdadeira música." A sua música não fora afinal senão aproximações das harmonias divinas. "O paraíso é música."

4. Marcel Proust. "Agora posso morrer." Reencontrou o Tempo. "Não o dos relógios, mas o tempo verdadeiro, no qual passado, presente, futuro fazem um só e assim nos libertam."

5. Sarah Bernhardt. "Ama." Talvez a maior actriz do seu tempo, antes de entrar em coma, coloca docemente a mão na cabeça de um jovem comediante, a quem deixa a suprema recomendação: "A vida não vale a pena ser vivida a não ser que se saiba desposar, amorosamente, tudo o que acontece."

6. François Rabelais. "Vou à procura do grande talvez." São comoventes e já modernas estas últimas palavras. O para lá da morte "é um ponto de interrogação, uma preocupação, uma abertura que, plantada no coração da existência, liberta uma infinidade de possíveis, de "talvez"".

7. Sócrates. "Críton, devemos um galo a Asclépio, não deixes de liquidar esta dívida." O galo, cujo canto anuncia a aurora, simbolizava para os gregos a salvação da alma. Com esta oferta ao deus da medicina, Sócrates agradecia a cura da libertação em relação ao corpo. Para ele, a filosofia também é terapêutica, um treino de morrer e estar morto para o mundo dos sentidos.

8. Jesus Cristo. "Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?" Um Deus submetido à morte mais miserável e humilhante! Segundo o autor, estas palavras impuseram-se como "das mais decisivas da história da humanidade", constituindo "uma ruptura irremediável no inconsciente psicopolítico do Ocidente". Hegel teorizou sobre a Sexta-Feira Santa especulativa e Nietzsche proclamou a morte de Deus, "uma constatação vertiginosa". Desde então, "a maior parte dos ocidentais vivem com esta questão cravada no mais íntimo; experienciam, e é inédito, uma existência privada de fundamento, garantia, apoio último." "Livre, abandonado", resumirá Beckett.

9. Madame Roland. "Liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!" A caminho do cadafalso, é ao passar junto à Estátua da Liberdade que lança esta apóstrofe célebre a propósito dos "empreendimentos perversos que ameaçam sempre a ideia de liberdade".

10. Johann Wolfgang von Goethe. "Mais luz!" "O real e o ideal", a luz terrestre e a luz do espírito, juntas na mesma palavra.

11. Olympe de Gouges. "Fatal desejo de Fama, porque é que quis ser alguma coisa?" Replicou à misoginia da Assembleia Nacional com um feminismo pioneiro: "A mulher tem o direito de subir ao cadafalso; deve ter igualmente o de subir à Tribuna." O Terror ser-lhe-á fatal e, já no cadafalso, "deixa escapar uma diatribe contra a sua funesta aspiração à celebridade - e confessa-se, também aí, com avanço sobre o seu tempo".

12. Ludwig Wittgenstein. "Digam--lhes que tive uma vida maravilhosa." Um dos maiores filósofos do século XX viveu atravessado pela alegria do questionamento, da descoberta. "A algumas horas da morte, entrega a fórmula sóbria da grande ética."

13. Rainer Maria Rilke. "Quero morrer a minha morte, não a dos médicos." A sua obra foi uma meditação sobre a morte. Acolhê-la é avançar no "Aberto". Recusou, pois, o apoio do médico, que o privaria de uma relação directa com "a mais decisiva das experiências".

14. Leão Tolstoi. "A verdade... amo muito... a todos..." A expressão de um cristianismo sem dogmas, reduzido à única lei de Cristo: o amor.

15. Francisco de Assis. "Bem-vinda, minha irmã morte."

16. Clara de Assis. "Bendito sejas, Senhor, por me teres criado."

17. Fernando Pessoa. "Não sei o que o amanhã trará." Na véspera da morte, deu entrada no Hospital de São Luís dos Franceses, atingido por uma cirrose. Escreveu em inglês: "I know not what tomorrow will bring." Sim, ninguém sabe, até ao dia em que já não haverá amanhã neste mundo. Mas "A morte é a curva da estrada./ Morrer é só não ser visto./ Nunca ninguém se perdeu./ Tudo é verdade e caminho."

Caminho, digo eu, para a plenitude da vida em Deus.


Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Utopias, distopias, retrotopia

Crónica de Anselmo Borges, no Diário deNotícias

Coube-me a honra de um convite para participar no magno evento cultural Folio, na bela Óbidos, com uma fala sobre utopias e distopias, a que acrescentei retrotopia, pelas razões que direi.

1. Foi Thomas More que cunhou o termo utopia, com a publicação, há 500 anos, de A Utopia, cujo título em latim é mais longo: De Optimo Reipublicae Statu Deque Nova Insula Utopia (sobre o melhor estado de uma República e sobre a nova ilha da Utopia). Ele sabia do que falava, concretamente do poder, pois foi chanceler. A Igreja canonizou-o em 1935. A Utopia é uma ilha imaginada lá longe no oceano (utopia tem o seu étimo no grego: ou, que se lê u, que significa não) e tópos, com o significado de lugar. Portanto, Utopia é um não lugar; de qualquer forma, um ideal que indica o caminho.

A utopia supõe a distopia (também do grego: dys, que significa mau, duro: portanto, um mau lugar, o oposto a utopia). Assim, na primeira parte, More critica os males que atravessavam a sociedade inglesa, do despotismo e venalidade dos cargos públicos à sede de luxo por parte dos privilegiados e à injustiça e opressão que provocam. Na segunda parte, descreve uma sociedade ideal, que imaginariamente já se encontra realizada na ilha da Utopia. Neste sentido, embora haja vários tipos de utopias, a utopia nasce como eutopia (mais uma vez, do grego: eu- bom, feliz, e tópos, um lugar bom e felicitante, como na palavra Evangelho: eu+angelion, notícia boa, feliz, felicitante).

2. Com Thomas More encontramo-nos no Renascimento e na dinâmica do Humanismo. A sua Utopia deriva também, de algum modo, da secularização do messianismo, do Reino de Deus e sobretudo da escatologia. Se, na perspectiva cristã, o Reino de Deus será consumado na meta-história, agora, com as utopias, pretende-se realizá-lo já neste mundo, na nossa história, na imanência terrena. Por outro lado, se, em certos casos, eventualmente, a ideia utópica nasceu do sonho de levar adiante o que aconteceria se não tivesse havido pecado original - neste quadro o Reino de Deus já estava no princípio e não no fim -, o que é facto é que as utopias começaram por ser espaciais (A Utopia de More é uma ilha), mas, sobretudo por causa dos desenvolvimentos da técnica e da nova consciência histórica, passaram a ter uma dinâmica mais temporal: a utopia não está ainda imaginariamente realizada num lugar, mas tem o seu tóposno "ainda não" do futuro.

As utopias têm duas funções fundamentais: por um lado, são crítica da situação presente e, por outro, impulso para transformá-lo, olhando para um futuro outro, numa sociedade livre e justa, de bem-estar para todos. Parte-se do princípio de que o ser humano é constitutivamente utópico, porque é um ser desejante e esperante, que aspira à felicidade. Por outro lado, se a utopia não há-de cair no mero escapismo, na ilusão ou nowishful thinking, é necessário estudar as possibilidades de transformação da realidade. A utopia é constituinte do ser humano, porque ele deseja mais e melhor, a perfeição, e, por outro, há condições objectivas na realidade para a concretização do desejo. É toda a dinâmica entre "o que é" de facto e o que "pode e deve ser".

Há perigos reais nas utopias. Eles têm que ver concretamente com a "geometrização" da sociedade utópica, de tal modo que se cai na distopia da ditadura, esquecendo o indivíduo e a pessoa. Quando, por exemplo, o socialismo de utópico passou a científico e se implantou como "socialismo real" foi a tragédia que se sabe. Agora, está aí a utopia, a caminho de realizar-se, do transhumanismo e mesmo do pós-humanismo, na busca de uma nova espécie e da imortalidade, a partir do cruzamento das NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, informática, inteligência artificial, ciências cognitivas). Projecto grandioso, mas é necessário ter consciência dos perigos e intervir política e eticamente. Que queremos verdadeiramente?

3. Significativamente, se esta utopia sobretudo técnica, que inclui a Uberlândia, goza de fascínio, no nível social e político reina mais o pessimismo e, assim, o sociólogo famoso Zygmunt Bauman perguntou recentemente ao jornalista da Der Spiegel (3-9-2016): "Já ouviu falar do conceito de retrotopia?" "Será o título do meu próximo livro." Hoje, é "a desilusão" face ao futuro: "Vivemos catástrofe após catástrofe: terrorismo, crise financeira, estagnação da economia, desemprego, precariedade..., desconfiança, cada um é para o outro um potencial opositor e concorrente", os perigos são omnipresentes. "Por isso, voltamo-nos para o passado e, no entanto, movemo-nos de modo cego para diante." "É notável que precisamente o Papa Francisco clame expressamente por uma cultura do diálogo. Só ela nos possibilitará perceber e respeitar o outro como parceiro legítimo."

4. Também participou no Folio Salman Rushdie, com quem dialoguei da primeira vez que veio a Portugal, em 2006, sobre "O Deus do Mediterrâneo". Ele veio relembrar como as religiões institucionais podem ser e são tantas vezes distópicas. Como eu o compreendo! Mas estou convicto de que Deus não desaparecerá da vida da humanidade. Ele continuará presente, em primeiro lugar, na pergunta por Ele. Porque o ser humano é constitutivamente utópico e esperante. E só Deus pode preencher e dar Sentido último, por graça, ao seu desejo e esperança infinitos.


Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico